Sob a chuva de veneno

por Insurrección

Sim à substituição, não à fumigação. Aos colombianos as desgraças não só chegam por terra como também pela chuva.

As fumigações aéreas com substâncias químicas — cuja verdadeira composição é conhecida só pela Embaixada dos Estados Unidos, pelo exército e pela cúpula do governo — não cessaram desde que há cinco anos se iniciou a execução do Plano Colômbia. E, no entanto, está comprovado que os cultivos de coca e papoula não diminuíram e, portanto, o mercado se mantem intacto e com enormes lucros.

Quer dizer, como muitos já assinalaram este modo de avançar a "guerra contra o narcotráfico" não só é um fracasso como levanta suspeitas sobre a existência de uma vontade real de acabar com este flagelo ou se simplesmente é mantida como pretexto para a intervenção com outros objetivos.

Os deslocamentos e doenças de camponeses, indígenas e afro-colombianos devido às aspersões com substâncias nocivas e misteriosas e a repressão que as acompanha só tem trazido resultados para os bandos da ultradireita e o enriquecimento ilimitado dos chefes narcomilitares à custa das terras abandonadas.

Além de servir para antecipar a dita contra-reforma agrária, não há dúvidas de que o pretexto de os cultivos se estenderem aos parques naturais, onde se encontra a grande reserva de biodiversidade de nosso país, também desperta suspeitas.

O certo é que a empresa Chemonics dos Estados Unidos, obviamente, e empresários colombianos propõem-se a alcançar a privatização desta reserva de biodiversidade.

A Chemonics já fez trabalhos em países como Equador, Chile e Bolívia e já deu alguns passos na Colômbia, pois administra o Projeto Colômbia Florestal e está a frente de um projeto para criar a Empresa Colombiana Promotora de Bosques (Procolbosques) que teria a direção da política florestal.

Naturalmente, para essa empresa "mista" seus interesses estão muito longe da conservação de nossos recursos. Eles estão, sim, voltados para a obtenção de lucros colossais com eles, sem que o ecossistema conte para nada nos seus planos comerciais.

O pretexto para fumigar os parques é o mesmo que o Conselho Nacional de Estupefacientes esgrimiu um ano atrás: que os cultivos nestas áreas protegidas têm aumentado.

As três reservas que se destacam são: a Sierra Nevada de Santa Maria, com 230 hectares de cultivos ilícitos, que representam 0,05% de sua extensão, o Parque Catatumbo-Barí com 107 hectares, ou seja, 0,06% de seu território e 2.630 hectares da Sierra de La Macarena, que corresponde a 0,4%.

Para cada hectare de coca que se fumiga, foi comprovado que se destroem três hectares de bosque e esta situação se agrava por mais duas razões: uma é que os cultivos já não se fazem em grandes extensões, e sim em terrenos pequenos e dispersos, e a segunda que implica o desflorestamento das fontes de água e sua contaminação. Evidentemente o desastre está à vista.

Tudo isso tem sem dúvida um forte cheiro a Tratado de Comércio Livre (TCL) amarrado, a invasão.

O governo dos Estados Unidos não ocultou seu grande interesse pela rica biodiversidade colombiana, recordemos que somos o segundo país do mundo com esse privilégio, e pressiona não só em reuniões senão também através de sua embaixada com conhecimento de que não é nestes parques onde se encontram a maioria dos cultivos de coca e papoula.

Como se observa os parques condenados estão localizados em lugares estratégicos do país, ao norte, oriente (fronteira com a Venezuela) e ao sul oriente e são, além disso, territórios com conhecidas riquezas florestais, animais e especialmente minerais.

Por outro lado, é bem significativo que se intensifiquem as fumigações nestes lugares onde há uma importante presença insurgente e os cultivos são uma mínima parcela dos existentes e, no entanto não se fale de fumigar zonas onde estão as grandes produções de coca, marijuana e papoula, como Urabá e outros territórios sob domínio paramilitar.

Tanto o Congresso Colombiano, como as entidades governamentais implicadas consultaram os empresários interessados nas riquezas dos parques naturais, mas não aos povos nativos nem aos camponeses que vivem ali e são os donos reais e protetores desses territórios.

Eles são acusados de semearem as plantas narcóticas e de serem colaboradores da insurgência, portanto são tachados de terroristas, são assassinados, perseguidos e encarcerados e tudo isto está contemplado dentro dos objetivos do Plano Colômbia.

São inúmeras as denúncias sobre conseqüências para a saúde e alimentação que trazem as aspersões, mas o governo continua sem empreender uma ação investigativa.

Nenhuma das propostas que tem surgido para erradicação manual da coca e da papoula, nem a promessa de ajuda mediante a criação e apoio das famílias guardas-florestais tem sido cumpridas.

É fácil deduzir então que há uma clara disposição de colaboração com o governo estadunidense e suas transnacionais, e que evidentemente as fumigações se utilizam como armas químicas na guerra contra o povo colombiano.

A segurança dos habitantes do território colombiano no sentido mais amplo e a de nossas reservas naturais figuram, na constituição como obrigações do Estado. Mas ao contrário, há um claro e determinado interesse por brindar facilidades às empresas estrangeiras de turismo, medicinais e biogenéticas.

O objetivo das fumigações não é acabar com o cultivo da coca e da papoula e tampouco com o narcotráfico. O verdadeiro propósito é manter uma aparência de luta contra esse flagelo e contra o "terrorismo", enquanto os chefes colombianos e os estadunidenses se beneficiam com os enormes lucros do narcotráfico. E, o mais importante, adiantam-se os megaprojetos econômicos e a geoestratégia do império.

A defesa dos nossos recursos, da nossa saúde, da nossa segurança alimentar está nas mãos do povo. Está claro que não se pode contar nem com a oligarquia, nem com o governo, submissos à vontade dos ianques.

A luta é desigual pelo grande poder militar e econômico do inimigo, mas a história tem demonstrado que a vitória é possível. Os colombianos, apesar dos enormes sofrimentos a que o governo de Uribe Vélez os vem submetendo, ainda que chova veneno, continuarão a buscar os caminhos para a soberania e a paz com justiça social.

O original encontra-se na revista Insurrección , Nº 40, 21/Julho/2005.
Tradução de Anthus da Geb.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
28/Jul/05