A mais mortífera campanha de bombardeamento da história

por Ted Nace [*]

Pyongyang em 1953. No momento em que o mundo observa com preocupação o crescimento de tensões e a retórica belicosa entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, um dos aspectos mais notáveis da situação é a ausência de qualquer reconhecimento público da razão subjacente para os temores norte-coreanos – ou, como foi chamado pela embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, o estado de paranóia" – nomeadamente a horrenda campanha de bombardeamento incendiário efectuada pela US Air Force durante a Guerra da Coreia e a mortandade sem precedentes que dela resultou.

Os factos totais nunca serão conhecido, mas a evidência disponível aponta para a conclusão de que o bombardeamento incendiário de cidades e aldeias da Coreia do Norte provocaram mais mortes civis do que qualquer outra campanha de bombardeamento da história.

Pyongyang em 2017. O historiador Bruce Cumings descreve a campanha de bombardeamento como "provavelmente um dos piores episódios de desenfreada violência americana contra outro povo, mas certamente poucos americanos sabem disso".

A campanha, executada de 1950 a 1953, matou dois milhões de norte-coreanos, segundo o general Curtis LeMay, o chefe do Strategic Air Command e o organizador do bombardeamento incendiário de Tóquio e de outras cidades japonesas. Em 1984, LeMay disse ao Gabinete de História da Força Aérea que o bombardeamento da Coreia do Norte "matou 20 por cento da população".

Outras fontes mencionam um número um pouco mais baixo. Segundo um conjunto de dados preparados por investigadores do Centre for the Study of Civil War (CSCW) e do International Peace Research Institute (PRIO), de Oslo, "a melhor estimativa" de mortes civis na Coreia do Norte é de 995 mil, com uma estimativa baixa de 645 mil e uma estimativa alta de 1,5 milhão.

Apesar de a estimativa de LeMay ser a metade da estimativa da CSCW/PRIO de 995 mil mortes ainda assim excede a mortandade de civis de qualquer outra campanha de bombardeamento, incluindo o bombardeamento incendiário dos Aliados de cidades alemãs na II Guerra Mundial, a qual foi estimada em 400 a 600 mil vidas. O bombardeamento incendiário e nuclear de cidades japonesas, provocou uma estimativa de 330 mil a 900 mil mortes; o bombardeamento da Indochina de 1964 a 1973, causou globalmente 121 a 361 mil mortes durante as operações Rolling Thunder , Linebacker e Linebacker II (Vietname); Menu e Operação Freedom Deal (Camboja) e Barroll Roll (Laos).

A fortíssima mortandade do bombardeamento da Coreia do Norte é especialmente notável considerando a população relativamente modesta do país: apenas 9,7 milhões de pessoas em 1950. Para comparação, havia 65 milhões de pessoas na Alemanha e 72 milhões no Japão no fim da II Guerra Mundial.

Os ataques da US Air Force contra a Coreia do Norte utilizaram tácticas de bombas incendiárias que foram desenvolvidas no bombardeamento da Europa e do Japão na II Guerra Mundial: explosivos para destruir edifícios, napalm e outros produtos incendiários para atear incêndios maciços e metralhamento para impedir que equipes de bombeiros extinguissem as chamas.

A utilização destas tácticas não era inevitável. De acordo as políticas dos Estados Unidos em vigor no início da Guerra da Coreia, o bombardeamento incendiário contra populações civis era proibido. Um ano antes, em 1949, uma série de almirantes da US Navy haviam condenado tais tácticas em depoimento antes de audiências no Congresso. Durante esta "Revolta dos almirantes", a Marinha opusera-se aos seus colegas da Força Aérea, sustentando que ataques executados contra populações civis eram contraproducentes e violavam normas morais globais.

Apresentados no momento em que os tribunais de Nuremberg haviam elevado a consciência pública acerca de crimes de guerra, as críticas dos almirantes da Navy encontram uma recepção simpática no tribunal da opinião pública. Consequentemente, atacar populações civis era algo proibido na política dos EUA no princípio da Guerra da Coreia. Quando o general da Força Aérea George E. Stratemeyer solicitou permissão para utilizar os mesmos métodos de bombardeamento incendiário sobre cinco cidades norte-coreanas que "puseram o Japão de joelhos", o general Dougla MacArthur recusou a permissão mencionando a "política geral".

Depois de cinco meses de guerra, com forças chinesas intervindo ao lado da Coreia do Norte e de forças da ONU em retirada, o general MacArthur mudou a sua posição, concordando com o pedido do general Stratemeyer em 3 de Novembro de 1950, de incendiar a cidade norte-coreana de Kanggye e várias outras cidades. "Incendeia se quiser. Não só aquela, Strat, mas incendeie-a de destrua-a como lição para qualquer outras destas cidades que considere de valor militar para o inimigo". Na mesma noite, o chefe do Estado-Maior de MacArthur disse a Stratemeyer que o bombardeamento incendiário de Sinuiju também fora aprovado. No seu diário, Stratemeyer resumiu as instruções como se segue: "Toda instalação e aldeia na Coreia do Norte agora torna-se um alvo militar e táctico". Stratemeyer enviou ordens ao Quinto Comando de Bombardeiros da Força Aérea para "destruir todos os meios de comunicações e toda instalação, fábrica, cidade e aldeia".

Se bem que a Força Aérea fosse directa nas suas próprias comunicações internas acerca da natureza da campanha de bombardeamento – incluindo mapas que mostravam a percentagem exacta de cada cidade que havia sido incinerada – as comunicações para a imprensa descreviam a campanha de bombardeamento como dirigidas unicamente a "concentrações de tropas inimigas, depósitos de abastecimento, fábricas de guerra e linhas de comunicações".

As ordens dadas ao Quinto Comando da Força Aérea eram mais claras: "Aviões sob o controle do 5º Comando destruirão todos os outros alvos incluindo todos os edifícios capazes de dar abrigo".

Menos de três semanas após o assalto inicial a Kanggye, dez cidades haviam sido incineradas, incluindo Ch'osan (85%), Hoeryong (90%), Huich'on (75%), Kanggye (75%), Kointong (90%), Manp'ochin (95%), Namsi (90%), Sakchu (75%), Sinuichu (60%) e Uichu (20%).

Em 17 de Novembro de 1950, o general MacArthur disse ao Embaixador dos EUA na Coreia, John J. Muccio: "Infelizmente, esta área será deixada como um deserto". Por "esta área" MacArthur queria dizer toda a área entre "nossas posições actuais e a fronteira".

À medida que a Força Aérea continuava a incinerar cidades, ela mantinha um cuidadoso registo dos níveis de destruição resultantes :

Bombardeamento de Wonsan.

  • Anju – 15%
  • Chinnampo (Namp'o) – 80%
  • Chongju (Chongju) – 60%
  • Haeju – 75%
  • Hamhung (Hamhung) – 80%
  • Hungnam (Hungnam) – 85%
  • Hwangju (Hwangju County) – 97%
  • Kanggye – 60% (reduced from previous estimate of 75%)
  • Kunu-ri (Kunu-dong) – 100%
  • Kyomipo (Songnim) – 80%
  • Musan – 5%
  • Najin (Rashin) – 5%
  • Pyongyang – 75%
  • Sariwon (Sariwon) – 95%
  • Sinanju – 100%
  • Sinuiju – 50%
  • Songjin (Kimchaek) – 50%
  • Sunan (Sunan-guyok) – 90%
  • Unggi (Sonbong County) – 5%
  • Wonsan (Wonsan) – 80%

    Em Maio de 1951, uma equipe internacional para averiguação de factos declarou: "Os membros, em todo o decorrer da sua jornada, não viram uma cidade que não houvesse sido destruída e havia muito poucas aldeias não danificadas".

    Em 25 de Junho de 1951, o general O'Donnell, comandante do Far Eastern Air Force Bomber Command, testemunhou numa resposta a pergunta do senador Stennis ("...a Coreia do Norte foi virtualmente destruída, não foi?"):

    "Oh, sim; ... eu diria que toda, quase toda a Península Coreana está numa terrível confusão. Está tudo destruído. Não há nada valioso em pé para mencionar ... Pouco antes de os chineses entrarem estávamos enraizados. Não havia mais alvos na Coreia".

    Em Agosto de 1951 o correspondente de guerra Tibor Meray declarou que testemunhara "uma completa devastação entre o Rio Yalu e a capital". Ele disse que "não havia mais cidades na Coreia do Norte". E acrescentou: "Minha impressão era de que estava a viajar na lua porque havia apenas devastação... Toda cidade era uma colecção de chaminés".

    Vários factores combinaram-se para intensificar a mortalidade dos ataques com bombas incendiárias. Como fora ensinado pela II Guerra Mundial, ataques incendiários podiam devastar cidades com incrível rapidez: as bombas incendiárias da Royal Air Force no ataque a Würzburg , Alemanha, nos meses finais da II Guerra Mundial exigiram apenas 20 minutas para envolver a cidade numa tempestade de fogo com temperaturas estimadas de 1500-2000º C.

    Outro factor que contribuiu para a letalidade dos ataques foi a severidade do inverno norte-coreano. Em Pyongyang, a baixa temperatura média em Janeiro é de 8º Fahrenheit [-13º Celsius]. Como o bombardeamento mais severo teve lugar em Novembro de 1950, aqueles que escaparam à morte imediata pelo fogo foram relegados ao risco de morte pela exposição [ao tempo] nos dias e meses que se seguiram. Sobreviventes criaram abrigos improvisados em desfiladeiros, caves e adegas abandonadas. Em Maio de 1951 uma delegação da Federação Internacional de Mulheres Democráticas (WIDF) que visitou a cidade bombardeada de Sinuiju relatou :

    "A maioria esmagadora dos habitantes vivem em covas feitas de terra escoradas por madeira recuperada. Algumas destas covas têm tectos feitos de telha e madeira, recuperada de edifícios destruídos. Outros estão a viver em adegas que permaneceram após o bombardeamento e outros ainda em tendas cobertas de palha na estrutura de edifícios destruídos e em choças feitas de tijolo sem argamassa e de entulho".

    Em Pyongyang, a delegação descreveu uma família de cinco membros, incluindo uma criança de três anos e um bebé de oito meses, a viveram num espaço subterrâneo medindo dois metros quadrados em que só se podia entrar rastejando através de um túnel de três metros.

    Bomba de napalm. Um terceiro factor de mortalidade foi a utilização extensiva do napalm. Desenvolvido na Universidade de Harvard em 1942, a substância pegajosa e inflamável foi utilizada primeiro na II Guerra Mundial. Ela tornou-se uma arma chave durante a Guerra da Coreia, na qual 32.557 toneladas foram utilizadas, sob uma lógica que o historiador Bruce Cumings caracterizou assim: "Eles são selvagens, então isso nos dá o direito de despejar napalm sobre inocentes". Muito tempo após a guerra, Cumings descreveu um encontro com um sobrevivente idoso:

    "Numa esquina havia um homem (pensei que era um homem ou uma mulher com ombros largos) que tinha uma crosta púrpura peculiar sobre todas as partes visíveis da sua pelo – espessa nas suas mãos, fina nos seus braços, cobrindo totalmente toda a sua cabeça e face. Ele era careca, não tinha orelha ou lábios e os seus olhos, faltando pálpebras, eram um branco acinzentado, sem pupilas... Esta crosta púrpura resultou do encharcamento com napalm, após o qual corpo não tratado da vítima foi deixado para de algum modo curar-se a si próprio".

    Durante as conversações do armistício, na conclusão do combate, comandantes dos EUA haviam esgotado as cidades para alvejar. A fim de pressionar as negociações, agora viravam os bombardeiros rumo às grandes barragens da Coreia. Como informou o New York Times, a inundação provocada pela destruição de uma barragem "escavou totalmente" 27 milhas [43 km] do vale do rio e destruiu milhares de hectares de arroz recém plantado.

    Na sequência das campanhas de bombardeamento incendiário contra a Alemanha e o Japão durante a II Guerra Mundial, um grupo de investigação do Pentágono com mais de 1000 membros efectuou uma avaliação exaustiva conhecida como United States Strategic Bombing Survey. A USSBS publicou 208 volumes para a Europa e 108 volumes para o Japão e o Pacífico, incluindo contagens de baixas, entrevistas com sobreviventes e análises económicas. Estes relatórios indústria-por-indústria foram tão pormenorizados que a General Motors utilizou os resultados para processar com êxito o governo dos EUA por US$32 milhões de danos em fábricas alemãs [de sua propriedade].

    Após a Guerra da Coreia, nenhum exame (survey) do bombardeamento foi efectuado além dos próprios mapas internos da Força Aérea mostrando a destruição cidade-por-cidade. Estes mapas foram mantidos secretos nos vinte anos seguintes. No momento em que os mapas foram silenciosamente desclassificados , em 1973, o interesse da América na Guerra da Coreia há muito que se havia desvanecido. Só em anos recentes o quadro completo começou a emergir em estudos de historiadores como Taewoo Kim do Korea Institute for Defense Analyses, Conrad Crane da Academia Militar dos EUA, e Su-kyoung Hwangof da Universidade da Pennsylvania.

    Na Coreia do Norte, a memória está viva. De acordo com o historiador Bruce Cumings , "foi a primeira coisa que o meu guia chamou a minha atenção". Cumings escreve : "A maquinaria desimpedida de bombardeamento incendiário visitou o Norte durante três anos, produzindo uma terra devastada e um povo a sobreviver como toupeiras que haviam aprendido a amar o abrigo de caves, montanhas, túneis e fortificações, um mundo subterrâneo que se tornou a base da reconstrução de um país e um recordatório que produziu um ódio brutal em toda a população".

    Nos dias de hoje, o bombardeamento incendiário de cidades e aldeias da Coreia do Norte permanece virtualmente desconhecido do público geral e não reconhecido na discussões dos media sobre a crise, apesar da óbvia relevância para a busca de um dissuasor nuclear por parte da Coreia do Norte. Mas sem conhecer e confrontar estes factos, o público americano não podem começar a compreender o medo que já no cerne das atitudes e acções da Coreia do Norte.

    08/Dezembro/2017

    [*] Director do CoalSwarm . Fundador da Peachpit Press e autor de Gangs of America .

    O original encontra-se em www.counterpunch.org/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 12/Dez/17