Ensaio termonuclear da Coreia do Norte:
Desafio ao mundo ou auto-preservação?
por Alexander Vorontsov
O ano de 2016 começou com uma nota preocupante na península
coreana. Houve outro teste nuclear em Pyongyang, o qual desencadeará
consequências de longo prazo, engendrará outra
resolução condenatória do Conselho de Segurança com
um pacote expandido de sanções, e que também
induzirá o avanço de atividades militares na região pelos
EUA, Japão e Coreia do Sul. Isto inevitavelmente ensejará um novo
ciclo de tensão na península coreana e arredores.
Motivos de Pyongyang
Os líderes da Coreia do Norte não se intimidam com a
possibilidade de ações duras de retaliação
estão preparados para sofrer ainda mais que isto pelo direito de
fortalecer suas "forças nucleares dissuasivas". Uma
série de declarações oficiais de Pyongyang não
deixa dúvidas quanto a isso.
Explicando sua resolução, os líderes da Coreia do Norte
apontaram novamente para a prática ilegal de utilizar
intervenções militares para remover regimes indesejáveis
em Estados independentes.
Refutando previsões apavorantes de políticos do ocidente,
Pyongyang insiste: "Não vamos disseminar armas nucleares, nem
transferir os meios ou tecnologias relativas a armas nucleares. Continuaremos
nossos esforços para desnuclearizar o mundo. Ainda são
válidas todas as propostas de preservação da paz e de
estabilidade na península e no Nordeste Asiático, inclusive
aqueles para cessar nosso teste nuclear e a conclusão de um tratado de
paz em troca de uma cessação americana de exercícios
militares conjuntos".
E ainda assim as questões permanecem. Por que este teste foi realizado
agora? Foi totalmente inesperado? Em que trajetória e em que velocidade
o programa nuclear da Coreia do Norte é conduzido? Os países
vizinhos correm riscos maiores? Quais são as consequências
internacionais legais ou militares e políticas desta
detonação?
Vamos começar tentando descobrir que tipo de teste foi realizado no dia
6 de janeiro. Pyongyang declarou oficialmente que testou uma pequena bomba de
hidrogênio e que somente as limitações geográficas
da república impediram que os físicos nucleares da Coreia do
Norte testassem uma série de ogivas de hidrogênio de centenas de
quilotoneladas e megatoneladas.
Naturalmente, uma tal mensagem conquistou a atenção mundial. A
produção norte coreana de uma arma nova e mais poderosa do que
uma bomba nuclear comum provoca grandes preocupações. Entretanto,
ao investigarem os dados sísmicos desta explosão de 5-6
quilotoneladas, além de outros pormenores, a maior parte dos peritos
nucleares tende a acreditar que esta foi meramente a detonação de
uma bomba atômica simples, uma vez que um dispositivo termonuclear,
segundo alguns destes cientistas, teria um rendimento de pelo menos uma centena
de quilotoneladas. Contudo, muitos peritos advertem que, desta vez,
físicos nucleares da Coreia do Norte
utilizaram
um novo tipo de bomba híbrida de "supercarga"
("boosted"),
que permite uma reação nuclear mais cuidadosamente controlada e,
que o combustível nuclear seja utilizado de modo mais econômico e
eficiente embora a verdadeira questão seja que o cenário
ficou preparado para começar a criação de uma arma
termonuclear.
Pyongyang mostrou verdadeira contenção em 2014, bem como no
início de 2015, apresentando numerosas propostas de paz a quase todas as
partes envolvidas. Seus adversários etiquetaram estas propostas como
"propaganda" e elas foram recusadas. Pyongyang avançou em 8 de
janeiro de 2015 com uma proposta e que foi rejeitada sem exame a
qual sugeria o cancelamento das operações militares bilaterais
EUA-Coreia do Sul, em troca de uma paralisação dos testes
nucleares por Pyongyang. Numa
entrevista
transmitida no YouTube em 22/janeiro/2015, o presidente americano Barack Obama
admitiu com uma franqueza chocante que o seu objetivo de mudança de
regime em Pyongyang estava se tornando mais complexo: considerando as
impressionantes capacidades militares da Coreia do Norte, as quais incluem
armas e mísseis nucleares, não parece factível liquidar
aquele Estado por meios militares. Porém, Washington, calculando que a
Coreia do Sul será capaz de engolir rapidamente seu vizinho do norte,
espera que a Coreia do Norte entre em colapso a partir de forças
internas.
Com isto, Washington destruiu completamente qualquer base para possíveis
e significativos contatos bilaterais futuros com Pyongyang, enquanto confirma a
validade da opção dos líderes da república por uma
política centrada tanto na construção da sua economia como
da sua capacidade nuclear.
Ninguém deveria subestimar o capital político interno conquistado
ao conduzir um teste nuclear no preâmbulo do 7º
Congresso dos Trabalhadores do Partido da Coreia (WPK), que está
agendado para maio de 2016 (o primeiro em 36 anos). Naquele congresso, o jovem
líder da Coreia do Norte será agora capaz de anunciar com
confiança que a república entrou numa nova era termonuclear, o
"Kimjongunismo", e hoje está mais segura contra a
ameaça da agressão externa.
Para nós é como se a Coreia do Norte tivesse
agregado
o conceito de "paciência estratégica" ao seu arsenal
armas para defender-se dos EUA e está conseguindo que os EUA se habituem
a viver com uma Coreia do Norte nuclear.
O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte
apresentou uma mensagem clara sobre este tema nas declarações de
janeiro: "Considerando que atos hostis perpetrados pelos EUA se tornaram
um 'evento comum'... Os EUA devem habituar-se ao status nuclear da
República Popular Democrática da Coreia (DPRK), gostem ou
não".
Ao mesmo tempo, o estrondo da "trovoada nuclear" de 6/janeiro/2016
foi a resposta sóbria de Pyongyang à ideia muito
fantasiosa da inevitabilidade do colapso iminente da Coreia do Norte e
da sua tomada pela Coreia do Sul.
As consequências da "trovoada nuclear" para a Coreia do Norte,
para a península coreana e para todo o Nordeste Asiático
Por causa da violação de Pyongyang das resoluções
do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que
proíbem a Coreia do Norte de conduzir testes de mísseis
nucleares, parece inevitável que o Conselho de Segurança adote um
novo e mais duro documento. Ocorre uma negociação difícil
a portas fechadas lá, e como é sempre o caso os EUA
e a China são arquitetos primários por trás do projeto.
Podemos supor com segurança que agora mesmo estas potências
estão numa negociação árdua e que Washington
está forçando o cenário de sanções mais rude
possível, enquanto Pequim defende um documento mais equilibrado.
No Ocidente, as ações da Coreia do Norte foram
caracterizadas
como
"bullying
irresponsável do jovem Kim", como "uma grave ameaça
à paz mundial" e mais reivindicações foram feitas
pela "punição draconiana" daquele regime determinado. O
que se diz é que "as sanções não funcionam
porque não são suficientes". As recomendações
podem ser resumidas a um embargo total da Coreia do Norte, o que exigiria que o
país fosse reposto na lista dos EUA de Estados que patrocinam o
terrorismo, cometem crimes financeiros ou envolvem-se na lavagem de dinheiro.
Bruce Klingner, pesquisador sênior do Heritage Foundation, sugere que os
EUA deveriam ter o direito de impor sanções a países
terceiros, além de privar instituições financeiras
daqueles países de acesso ao sistema financeiro americano se mantiverem
algum contato com empresas nortecoreanas. Não seria difícil
adivinhar que a navalha desta política punitiva esteja direcionada
primariamente contra empresas e entidades econômicas e financeiras na
China e na Rússia.
Também foi recomendado na Câmara dos Deputados americana que os
aviões e navios norte-coreanos sejam investigados e detidos onde quer
que estejam uma tentativa de expandir a jurisdição
americana para abranger o mundo inteiro e um sinal de teimosa
determinação para impor o desejo e os ditames de Washington.
Neste contexto, a posição contida da Rússia parece
lúcida. Moscou insiste na opção de negociar para resolver
o problema coreano de forma geral, bem como de seu componente nuclear em
particular. O Ministério das Relações Exteriores russo
reconheceu
que o teste nuclear na Coreia do Norte representa "
o próximo
passo para o desenvolvimento de armas nucleares em Pyongyang, o que é
uma violação flagrante do direito internacional e das
resoluções do Conselho de Segurança das
Nações Unidas". Além disso, o documento enfatiza a
necessidade de uma via diplomática para sair desta
situação: "
apelamos a todas as partes envolvidas para
manterem contenção e evitarem ações que poderiam
criar tensões descontroladas no Nordeste Asiático. Reafirmamos
nosso apoio a um entendimento diplomático da situação na
península coreana no formato de negociações de seis
partes, bem como um diálogo direcionado para a criação de
um sistema confiável para a paz e segurança na região,
tão logo quanto possível".
Peritos sensatos nos EUA também
chegaram à conclusão
de que os 25 anos de tentativas de Washington para conter e reverter o
programa nuclear de Pyongyang por meio de sanções e
pressão foram um completo fracasso. Os únicos êxitos
que os americanos tiveram nestes anos foram os episódios associados a
tentativas americanas de um diálogo significativo com a Coreia do Norte:
a retirada unilateral das armas nucleares táticas americanas da Coreia
do Sul por George H. W. Bush (1991), a qual abriu o caminho em 1992 à
assinatura da Declaração Conjunta da Coreia do Sul e da Coreia do
Norte sobre a Desnuclearização da Península Coreana, bem
como a conclusão do Acordo-Quadro entre os EUA e a República
Popular Democrática da Coreia em 1994, o qual congelou o programa
nuclear de Pyongyang durante dez anos. Enquanto aquele acordo esteve em vigor
(1994-2002), a península coreana gozou do período mais
pacífico da sua história do pós-guerra.
Cientistas ponderados nos EUA, além de um grupo de diplomatas americanos
aposentados, estão encorajando seu governo a que reconheça a
necessidade de uma solução diplomática abrangente para o
problema coreano como a única maneira de resolver a questão
nuclear. Infelizmente, tais recomendações hoje não
estão sendo consideradas pela Casa Branca. Isto significa que a
ausência de um diálogo significativo entre os EUA e a Coreia do
Norte e, dada a confrontação em curso, Pyongyang mantém
incentivos e liberdade de ação para desenvolver seu programa
nacional de mísseis nucleares.
Uma avaliação realista sugere que, uma vez que a Coreia do Norte
conduziu quatro testes nucleares, a contenção é agora
necessária, enquanto se envidam esforços por uma
solução diplomática. E esta não é uma
política que apazigue um "criador de problemas" ou encoraje
"mau comportamento" por um violador de resoluções do
Conselho de Segurança das Nações Unidas. Este é um
entendimento racional do fato óbvio de que não podemos ignorar as
preocupações válidas de Pyongyang acerca da sua
segurança. A única saída para a situação
atual (que, de fato, apresenta-se como um beco sem saída) deve-se basear
no formato de negociações em seis partes, o qual demonstrou seu
valor de 2003 a 2009, e são um formato que se pode retomar. Tudo o que
é preciso é a boa vontade de todas as partes, sem
exceções.
31/Janeiro/2016
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
. Tradução de Sergio R. A. de Oliveira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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