Um antídoto à propaganda ocidental sobre a Coreia
Patriots, Traitors and Empires: The Story of Korea's Struggle for
Freedom
A publicação do excelente novo livro de Stephen Gowan não
podia ser mais oportuna. Com a Península Coreana à beira de uma
grande mudança potencial, olhar para os media de referência
ocidental para uma análise fundamentada é tempo perdido. Gowans
presta um valioso serviço ao preencher essa lacuna situando a Coreia no
seu contexto histórico, sem fazer compromissos com ideias feitas ou
recorrer a formulações preguiçosas.
Uma chave para o entendimento da Coreia é a sua experiência sob a
dura dominação colonial do Império Japonês desde
1910 até o fim da Segunda Guerra Mundial. Tal como foi o caso em outros
lugares, alguns daqueles sob a opressão optaram por servir o poder e
outros resistiram. Enquanto o Japão Imperial despachava coreanos como
trabalhadores forçados para todo o seu império e lançava
mulheres na escravidão sexual, levantou-se um movimento determinado de
resistência, particularmente na Manchúria, onde o futuro
líder norte-coreano, Kim Il-sung, era um líder guerrilheiro
eminente. Muitos daqueles que posteriormente iriam preencher as fileiras do
governo sul-coreano optaram por um caminho diferente e colaboraram activamente
com os ocupantes japoneses.
Após o fim de Segunda Guerra Mundial, os EUA dividiram a
Península Coreana ao longo do Paralelo 38º, um acto que, destaca
Gowan, o povo coreana nunca desejou. A libertação do
domínio japonês, sentiam os coreanos, significava que o
país era seu outra vez. Comités populares surgiram
espontaneamente por toda a península, pois os coreanos recém
libertados queriam forjar o seu destino.
A presença soviética no norte era sobretudo não
intervencionista, permitindo que os acontecimentos se desdobrassem sem
obstáculos.
No sul a história foi diferente. O general dos EUA John R. Hodge, como
governador militar da Coreia do Sul, juntamente com os seus conselheiros
"redigiu um plano de quatro pontos para destruir o movimento pela
independência". O plano apelava à construção de
um exército e uma força policial a ser amplamente recrutada aos
mais altos níveis entre aqueles que haviam colaborado com o imperialismo
japonês. Gowans cita fontes militares dos EUA a descrever a força
policial coreana sob o domínio colonial japonês como
"japonizada a fundo e utilizada eficientemente como um instrumento de
tirania", o que fazia destes homens uma escolha natural para as
autoridades de ocupação dos EUA executarem o mesmo papel no
estabelecimento de uma polícia de estado anti-comunista. Comités
populares foram sistematicamente esmagados, dezenas de milhares de pessoas de
esquerda foram mortas ou caçadas e aprisionadas. Para os coreanos do
sul, um mestre colonial fora simplesmente trocado por outro, pois era os EUA
que davam as ordens. Traidores que haviam servido os japoneses agora recebiam
ordens dos americanos. "Em 1950", escreve Gowans, "entre 100 mil
e 200 mil patriotas coreanos foram mortos pelas forças de
ocupação dos EUA e seus subalternos coreanos".
A divisão da Península Coreana estava destinada a perdurar
não mais do que um período relativamente breve, mas
discussões entre os EUA e a União Soviética sobre o
estabelecimento de um governo provisório não deram em nada. Os
EUA abandonaram logo qualquer pretensão de respeito ao acordo sobre o
pós guerra coreano. "Uma presença permanente dos EUA na
Península Coreana", observa Gowan, "era demasiado atraente
para que Washington deixasse a Coreia aos coreanos". Os EUA prosseguiram a
fim de construir um governo separado através do lançamento de um
processo eleitoral na sua zona de ocupação que foi boicotado pela
maioria. No entanto, os EUA pressionaram em frente. "Os coreanos, afinal
de contas, não eram o objecto a considerar", informa Gowans.
"O edifício de um império global estado-unidense sim".
A votação no sul foi organizada por uma força policial que
era dominada pelos antigos colaboradores dos japoneses, juntamente com bandidos
de direita. Sob aquelas circunstâncias, o resultado estava predeterminado.
A União Soviética retirou suas forças da Coreia do Norte
de acordo com o programado, em 1948. Décadas depois, os militares dos
EUA permanecem firmemente arraigados na Coreia do Sul e não mostram
inclinação para deixá-la.
A divisão da Península Coreana, a qual a maior parte dos coreanos
se opõe e poucos com ela se identificam, preparou o terreno para a
Guerra da Coreia. Para os coreanos, a guerra foi um pesadelo brutal tornado
muito pior pelo programa estado-unidense de destruição total e de
aniquilação da Coreia do Norte, juntamente com uma percentagem
significativa da sua população.
A Coreia do Sul sofreu longas décadas sob uma ditadura de direita.
Gowans é eloquente ao descrever as duras realidades da vida sob
repressão e esta secção é uma das melhores do
livro. Através da luta contínua, o povo sul-coreano finalmente
conseguiu romper as cadeias da ditadura, mas sob muitos aspectos a
nação permanece subserviente aos EUA. Esta
libertação ainda tem ser conquistada.
Durante mais de um século a história da Coreia tem sido uma luta
entre as necessidades do povo e as exigências dos poderosos. Gowans
coloca a Coreia no contexto da luta global pela libertação da
dominação imperialista, uma perspectiva que muita luz sobre
desenvolvimentos em décadas recentes.
A estrutura analítica e a informação apresentada por
Gowans revela a base para a animosidade entre os EUA e os norte-coreanos e
descreve um quadro muito mais complexo das relações entre os EUA
e os sul-coreanos do que os que se encontram habitualmente. É
razoável dizer que se tudo o que alguém saber acerca da Coreia
antes de ler este livro é dos noticiários de referência,
então o leitor chegará a um entendimento e
apreciação muito mais profundos do combate da Coreia pela
independência e auto-determinação.
Stephen Gowans não é um escritor com papas na língua ou
submisso às distorções dos media de referência. Ele
não faz concessões à narrativa em causa própria que
é o padrão ocidental e esta é uma das razões porque
o seu trabalho é tão estimulante. Gowans também se destaca
pela sua investigação cuidadosa e pelo dom magistral para
posicionar informação em apoio à análise
lógica.
Patriots, Traitors and Empires
não é diferente a este respeito. O seu livro é um apelo
apaixonado pela justiça, impregnado por um profundo sentimento de
simpatia pelo povo coreano e a sua luta pela liberdade.
07/Maio/2018
Patriots, Traitors and Empires
pode ser encomendado à
Baraka Books
[*]
Director do Jasenovac Research Institute, associado ao Korea Policy Institute,
membro do Solidarity Committee for Democracy and Peace in Korea e da Task Force
to Stop THAAD in Korea and Militarism in Asia and the Pacific. Seu sítio
web é
https://gregoryelich.org
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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