América Latina: a ofensiva da direita
por Guillermo Almeyra
Como em toda grande crise, juntamente com a radicalização de
sectores dos explorados e oprimidos, produz-se o recrudescimento das alas
extremas da direita, que temem perder novas franjas de poder ou decidem passar
à ofensiva antes que seja demasiado tarde, contando com suas
forças económicas, sociais e políticas para ganhar
posições.
Essa direita não é abertamente golpista mas sim ocasionalmente,
porque a relação de forças real não lhe permite,
contudo é sim "destituidora", ou seja leva a
desestabilização dos seus respectivos governos e sociedades ao
limite do golpe de Estado. A sua arma principal são os meios de
informação, com os quais tenta reforçar a sua hegemonia
político-cultural. Por isso assistimos a um golpismo mediático
que se concretiza por meio da desinformação, da
tergiversação dos factos, da utilização de
qualificativos sem sustentação, da sátira mal
intencionada, da criação de medos à insegurança,
às pandemias, à crise económicas, as quais não
seriam o resultado era o que faltava! do sistema capitalista e
sim do "populismo" e da "ineficácia" e
"corrupção" dos governos que não são
simples peões do capital financeiro (como, por exemplo, o da Venezuela,
o de Cuba, o da Bolívia, o do Equador e até o
moderadíssimo governo da Argentina).
Podemos ver assim como a CNN pede em écran, directamente, a
renúncia do presidente guatemalteco ao qual entrevista e tritura todos
os dias, dando como certo que o presidente Álvaro Colom ordenou um
assassinato e ocultando que o ódio da direita contra esse governo provem
das limpezas que ordenou às forças armadas e à
polícia, e das suas tímidas medidas sociais. Também
podemos observar como a Globovisión exorta os militares venezuelanos a
"porem as calças" contra o governo, ou como todos os media do
grupo argentino Clarín especulam sobre a necessidade da renúncia
da presidenta Cristina Fernández se não ganhar de forma
esmagadora as eleições, e dizem que o vice-presidente já
tem um gabinete formado.
Ao mesmo tempo, aumentam as provocações, como aquelas que faz o
Peru ao dar asilo político a delinquentes e assassinos da Venezuela e da
Bolívia disfarçados para o efeito de opositores
"democráticos" e, apesar de todas as acusações
por corrupção e cumplicidade em homicídios contra Uribe,
este avança a passo acelerado na Colômbia para a
preparação da sua reeleição, pisoteando a Carta
Magna. Mas também a direita veste a pelo de cordeiro, como no Chile,
para que se esqueçam de Pinochet e da ditadura, e avança o
proprietário da LAN [1], Sebastián Piñera, como candidato
a presidente da República; Calderón apresenta-se como o garante
da ordem contra a delinquência, como o demonstram as
declarações de De la Madrid sobre os Salinas); a direita
brasileira prepara-se para acabar com o governo de Lula, e a direita argentina
a retirar dos Kirchner a maioria nas Câmaras, para submeter a julgamento
político a presidente ou sabotar a sua política todos os dias.
Piñera pode chegar a ganhar no Chile; no Uruguai é
possível um segundo turno que una as direitas para deixar a Frente Ampla
em minoria; nas eleições de 28 de Junho o governo argentino, com
o auxílio da abstenção e dos votos em branco, pode sacar
menos votos que a aliança entre a extrema direita peronista, a
oligarquia latifundiária, o capital financeiro e os partidos
tradicionais anti-peronistas; existe a possibilidade de que a candidata de Lula
perca e a sorte do Mercosul pende por um fio perante a possibilidade concreta
de governos direitistas no Uruguai, Brasil e Argentina. Os factores
determinantes desses muito possíveis retrocessos e da
reanimação da direita são fundamentalmente dois: o
reflexo conservador das classes médias urbanas perante a crise mundial,
a queda do seu nível de vida, a insegurança social e o aumento da
luta de classes e, inter-relacionado com o mesmo, a incapacidade e o
carácter timorato das políticas dos governos mal chamados
"progressistas", que continuam a aplicar essencialmente as mesmas
políticas neoliberais dos anos noventa.
Eles, com os Kirchner ou Lula, não foram com efeito capazes de mobilizar
uma força própria com medidas audazes: não nacionalizaram
o comércio exterior de cereais, nem fixaram políticas
anti-mineração nem protegeram o ambiente e, pelo
contrário, financiaram a grande indústria (que é
estrangeira e está ligada à oligarquia e ao capital financeiro
internacional) e não lhes tocaram nem num fio de cabelo. Só as
mobilizações populares e a perspectiva de políticas de
mudança podem arrastar sectores pobres das classes médias, como
na Bolívia ou no Equador, ou contrapor-se à base social na classe
média da direita venezuelana. A tibieza da Concertación chilena,
do kirchnerismo, de Lula, convertem-se em troca na força da direita
frente a governos socialmente isolados e que persistem nas políticas e
concepções neoliberais que levaram ao desastre mundial. Se
acrescentarmos a isto que os trabalhadores estão a dar uma resposta
muito débil e desunida à utilização capitalista da
crise mundial e, em geral, não puderam elaborar um projecto
próprio de saída da crise, vemos também porque a direita e
o capitalismo podem manter a sua hegemonia político-cultural. Mais do
que nunca, é essencial travar a batalha ideológica contra os
valores e os meios do capital e organizar a actividades política
independente das vítimas do mesmo!
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2009/05/17/index.php?section=opinion&article=018a1pol
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|