A derrota do neoliberalismo e a classe trabalhadora
por Robert P. Brenner
[*]
entrevistado por Seongjin Jeong
[**]
SEONGJIN JEONG A maior parte dos media e dos analistas etiquetam a crise
actual como "crise financeira". Concorda com esta
caracterização?
ROBERT P. BRENNER É compreensível que analistas da crise
tenham feito do colapso nos mercados bancários e de seguros o seu ponto
de partida. Mas a dificuldade é que eles não foram mais ao fundo.
Desde o secretário do Tesouro Paulson e ao presidente do Fed Bernanke,
eles argumentam que a crise pode ser explicada simplesmente em termos de
problemas no sector financeiro. Ao mesmo tempo, asseveram que a economia real
subjacente está forte, os chamados
fundamentals
em boa forma. Isto não podia ser mais ilusório. A fonte
básica
da crise de hoje é o declínio da vitalidade das economias
avançadas a partir de 1973 e, especialmente, desde 2000. O desempenho
económico nos EUA, Europa ocidental e Japão deteriorou-se
constantemente, ciclo de negócios a ciclo de negócios em termos
de todos os indicadores macroeconómicos padrão PIB,
investimento, salários reais e assim por diante. O mais notável,
o ciclo de negócios que acaba de terminar, de 2001 até 2007, foi
de longe o mais fraco do período do pós-guerra e isto apesar dos
maiores estímulos económicos patrocinados pelo governo na
história dos EUA em tempo de paz.
JEONG Como explicaria o enfraquecimento da economia real a partir de
1973, a que no seu trabalho chama "a longa baixa"?
BRENNER O principal factor responsável disto é um profundo
e duradouro declínio da taxa de retorno sobre o investimento de capital
desde o fim da década de 1960. O fracasso da taxa de lucro em recuperar
é ainda mais notável, em vista da enorme queda no crescimento dos
salários reais ao longo do período. A causa principal, embora
não a única causa, do declínio da taxa de lucro tem sido
uma tendência persistente para a super-capacidade nas indústrias
manufactureiras globais. O que aconteceu foi que um após o outro novos
poderes manufactureiros entraram no mercado mundial Alemanha e
Japão, os NICs do nordeste asiático, os Tigres do sudeste
asiático e finalmente o Leviatã chinês. Estas economias de
desenvolvimento recente produziam os mesmos bens que estavam a ser produzidos
pelos países já desenvolvidos, apenas mais barato. O resultado
foi demasiada oferta relativa à procura em uma indústria
após a outra, e isto forçou preços baixos e dessa forma os
lucros. As corporações que experimentaram o esmagamento dos seus
lucros não quiseram abandonar docilmente as suas indústrias. Elas
tentaram manter o seu lugar recorrendo à sua capacidade de
inovação, acelerando o investimento em novas tecnologias. Mas
naturalmente isto apenas piorou a super-capacidade. Devido à queda na
sua taxa de retorno, os capitalistas estavam a obter excedentes mais pequenos
dos seus investimentos. Eles portanto não tinham outra
opção senão desacelerar o crescimento das fábricas,
do equipamento e do emprego. Ao mesmo tempo, a fim de restaurar a
lucratividade, eles mantinham baixa a remuneração dos empregos,
enquanto os governo reduziam o crescimento das despesas sociais. Mas a
consequência de todos estes cortes nos gastos foi um problema a longo
prazo na procura agregada. O enfraquecimento persistente da procura agregada
foi a fonte imediata do enfraquecimento da economia longo prazo.
JEONG A crise foi realmente disparada pela explosão da bolha
habitacional histórica, a qual estivera a expandir-se durante uma
década inteira. Que visão tem do seu significado?
BRENNER A bolha habitacional precisa ser entendida em
relação à sucessão de bolhas de preços de
activos que a economia tem experimentado desde meados dos 90 e especialmente ao
papel do Federal Reserve dos EUA em alimentar tais bolhas. Desde o
princípio da longa baixa, as autoridades económicas do Estado
têm tentado enfrentar o problema da procura insuficiente encorajando o
aumento da tomada de empréstimos, tanto públicos como privados. A
princípio, eles voltaram-se para défices no orçamento do
Estado e por este meio evitaram realmente recessões profundas. Mas,
à
medida que o tempo decorria, os governos obtinham cada vez menos crescimento a
partir da mesma quantia de empréstimos. Com efeito, a fim de protelar a
espécie de crise profunda que historicamente tem atormentado o sistema
capitalista, eles tinham de aceitar um deslizamento rumo à
estagnação. Durante o princípio da década de 1990,
governos nos EUA e na Europa, liderados pela administração
Clinton, tentaram claramente romper a sua dependência à
dívida movendo-se em conjunto rumo a orçamentos equilibrados. A
ideia era deixar o mercado livre governar a economia. Mas, como a lucratividade
ainda não se havia recuperado, a redução nos défices
proporcionou um grande choque na procura e ajudou a desencadear as piores
recessões e o crescimento mais lento da era do pós-guerra, entre
1991 e 1995. Para fazer com que a economia se expandisse outra vez, as
autoridades dos EUA acabaram por adoptar uma abordagem de que o Japão
foram pioneiro no fim da década de 1980. Ao manter taxas de juros
baixas, o Federal Reserve tornou fácil assumir empréstimos de
modo a encorajar o investimento em activos financeiros. Quando os
preços dos activos subiram, as corporações e
famílias experimentaram aumentos enormes na sua riqueza, pelo menos no
papel. Eles foram portanto capazes de assumir empréstimos numa escala
titânica, aumentar amplamente o seu investimento e consumo e, desse modo,
impulsionar a economia. Assim, défices privados substituíram os
públicos. Aquilo que pode ser chamado "keynesianismo de
preços de activos" substituiu o keynesianismo tradicional.
Testemunhámos portanto durante os últimos 12 anos ou mais o
espectáculo extraordinário de uma economia mundial na qual a
continuação da acumulação de capital acabou
literalmente por depender de ondas históricas de
especulação, cuidadosamente alimentadas e racionalizadas pelos
decisores e reguladores do Estado primeiro a bolha histórica do
mercado de acções do fim dos anos 90, a seguir as bolhas dos
mercados habitacionais e de crédito do princípio dos anos 2000.
JEONG O sr. foi profético ao prever a crise actual bem como a
recessão de 2001. Qual é a sua perspectiva para a economia
global? Ela piorará, ou recuperar-se-á antes do fim de 2009?
Espera que a crise actual seja tão severa quanto a Grande
Depressão?
BRENNER A crise actual é mais grave do que a pior recessão
anterior do pós guerra, a de 1979-1982, e é concebível
que possa rivalizar com a Grande Depressão, embora não haja
qualquer meio de saber com certeza. Os previsores económicos
subestimaram quão má ela é porque super-estimaram a
força da economia real e deixaram de levar em conta a extensão da
sua dependência sobre um crescendo de dívidas que repousavam em
bolhas de preços de activos. Nos EUA, durante o ciclo de negócios
recente dos anos 2001-2007, o crescimento do PIB foi de longe o mais lento da
época do pós-guerra. Não houve aumento de emprego no
sector privado. O aumento em fábricas e equipamento foi cerca de um
terço da baixa anterior do pós-guerra. Os salários reais
estavam basicamente esmagados. O crescimento económico foi impulsionado
inteiramente pelo consumo pessoal e o investimento residencial, tornado
possível pela facilidade do crédito e a ascensão dos
preços das casas. O desempenho económico foi fraco, apesar dos
enormes estímulos da bolha habitacional dos enormes défices
federais da administração Bush. A habitação em si
representou quase um terço do crescimento do PIB e acabou por ser metade
do aumento do emprego nos anos 2001-2005. Portanto era de esperar que quando a
bolha habitacional explodisse, o consumo e o investimento residencial cairiam e
a economia mergulharia.
JEONG Muitos afirmam que a crise actual é uma típica
"crise de Minsky", não uma crise marxista, argumentando que o
estouro da bolha da especulação financeira desempenhou o papel
central na crise. Como responderia a isso?
BRENNER Não penso que seja útil contrapor desse modo os
aspectos reais e financeiros da crise. Como enfatizei, é uma crise
marxista, que encontra as suas raízes numa queda a longo prazo da taxa
de lucro, e no fracasso em recuperá-la, a qual é a fonte
fundamental da prolongada baixa de acumulação de capital
até o presente. Em 2001, a taxa de lucro da corporações
não financeiras dos EUA era a mais baixa do período do
pós-guerra, excepto para 1980. As corporações portanto
não tinham outra opção senão retrair o investimento
e o
emprego, mas isto tornou ainda pior o problema da procura agregada, mais uma
vez ensombrando o clima dos negócios. Isto é o que conta para o
ultra baixo crescimento durante o ciclo de negócios que acaba de
terminar. No entanto, para entender o colapso actual, é preciso
demonstrar a conexão entre a fraqueza da economia real e o colapso
financeiro. A principal ligação é a dependência cada
vez maior da economia da assumpção de empréstimos a fim de
mantê-la a girar e da dependência cada vez maior dos governos dos
aumentos dos preços dos activos para permitir que a
contracção de empréstimos continue. A
condição básica para as bolhas do mercado habitacional e
de crédito foi a perpetuação dos baixos custos da tomada
de empréstimos. Além disso, a fraqueza da economia mundial,
especialmente
após as crises de 1997-1998 e 2001-2002, mais as enormes compras de
dólares por parte de governos do Extremo Oriente a fim de manterem
baixas as suas divisas e o crescimento do consumo nos EUA, feitas por taxas de
juros a longo prazo inabitualmente baixas. Ao mesmo tempo, o Fed dos EUA
manteve as taxas de juros a curto prazo mais baixas do que em qualquer momento
desde a década de 1950. Como podiam emprestar barato, os bancos estavam
desejosos de conceder empréstimos a especuladores, cujos investimentos
impulsionaram os preços de activos de todo tipo sempre mais altos e o
retorno sobre os empréstimos (taxas de juros de títulos) sempre
mais baixos. Sintomaticamente, os preços da habitação
ascenderam e o rendimento em termos reais dos títulos do tesouro dos EUA
mergulhou. Mas como os rendimentos caíam cada vez mais baixo, as
instituições do mundo todo que dependiam dos retornos do
emprestado tinham cada vez mais dificuldade em ganhar lucros suficientes. Os
fundos de pensão e as companhias de seguros foram particularmente
atingidos, mas os hedge funds e os bancos de investimento também foram
afectados. Estas instituições estavam portanto prontas para
fazerem investimentos maciços em títulos apoiados pelas altamente
dúbias hipotecas sub-prime devido aos inabituais altos retornos que
ofereciam, ignorando o seu inabitual alto risco. De facto, elas não
podiam conseguir o suficiente destes títulos. As suas compras de
títulos apoiados por hipotecas permitiram aos originadores das hipotecas
manterem-se a emprestar para tomadores cada vez menos qualificados. A bolha
habitacional atingiu proporções históricas e a
expansão económica pôde continuar. Mas, naturalmente, isto
não podia perdurar para sempre. Quando os preços habitacionais
caíram, a economia real entrou em recessão e o sector financeiro
experimentou um colapso, porque ambos haviam dependido para o seu dinamismo da
bolha habitacional. Hoje, a recessão está tornando o colapso pior
porque está a exacerbar a crise habitacional. O colapso está a
intensificar a recessão porque está a fazer demasiado
difícil o acesso ao crédito. Foi a interacção entre
a crise na economia real e o sector financeiro a reforçarem-se
mutuamente que tornou o deslizamento declinante tão intratável
para os decisores políticos e o potencial para a catástrofe
tão evidente.
JEONG Mesmo que se concorde em que o capitalismo do pós-guerra
entrou num período de baixa prolongada na década de 1970, parece
inegável que a ofensiva capitalista neoliberal impediu o agravamento da
baixa a partir da década de 1980.
BRENNER Se por neoliberalismo quer dizer a viragem para as
finanças e as desregulação, não vejo em que isto
tenha ajudado a economia. Mas se quer dizer com isto o movimento de assalto dos
empregadores e dos governos aos salários dos trabalhadores, às
condições de trabalho e ao estado previdência, então
não há dúvida de que impediu a queda da taxa de lucro de
ficar ainda pior. Mesmo assim, a ofensiva dos empregadores não esperou
pela
era neoliberal da década de 1980. Ela começou na esteira da queda
de lucratividade, tendo começado no princípio da década de
1970, juntamente com o keynesianismo. Além disso, ela não
resultou na recuperação da taxa de lucro e apenas exacerbou o
problema da procura agregada. O enfraquecimento da procura agregada finalmente
impeliu as autoridades económicas a virarem-se para formas mais
poderosas e perigosas de estímulo económico, o
"keynesianismo de preços de activos" que levou ao desastre
actual.
JEONG Alguns argumentaram que um novo paradigma de
"financiarização" ou "capitalismo conduzido pelas
finanças" sustentou um chamado "Capital Ressurgente"
(Gerard Dumesnil) entre a década de 1980 e o presente. O que pensa da
tese da "financiarização" ou "capitalismo
conduzido pelas finanças"?
BRENNER A ideia de um capitalismo conduzido pelas finanças
é uma contradição em termos, porque, falando na
generalidade há excepções significativas, como a
concessão de empréstimos aos consumidores a feitura
sustentada de lucros financeiros depende da feitura sustentada de lucro na
economia real. Para responder à queda da taxa de lucro na economia real,
alguns governos, liderados pelo dos EUA, encorajaram uma viragem para as
finanças desregulamentando o sector financeiro. Mas, porque a economia
real continuava a definhar, o principal resultado da
desregulamentação foi intensificar a competição no
sector financeiro, o que tornou a feitura do lucro mais difícil e
encorajou ainda maior especulação e assumpção de
riscos. Os executivos de proa em bancos de investimento e hedge funds foram
capazes de fazerem fortunas fabulosas, porque os seus salários dependiam
de lucros a curto prazo. Eles puderam assegurar temporariamente altos retornos
expandindo os activos/empréstimos das suas firmas e aumentando o risco.
Mas este modo de fazer negócio, mais cedo ou mais tarde, acaba por ser a
expensas da saúde financeira a longo prazo das próprias
corporações dos executivos, levando, espectacularmente, à
queda dos principais bancos de investimento da Wall Street. Toda a
chamada expansão financeira a partir dos anos 1970 acabou muito
rapidamente numa crise financeira desastrosa e exigiu um salvamento
maciço por parte do Estado. Isto foi verdadeiro em relação
ao boom de concessão de empréstimos ao terceiro mundo da
década de 1979 e princípio da de 1980; às poupanças
e
aumento dos empréstimos, à mania do buyout alavancado e à
bolha do
imobiliário comercial da década de 1980; à bolha do
mercado de
acções da segunda metade da década de 1990; e naturalmente
às bolhas do mercado habitacional e de crédito dos anos 2000. O
sector
financeiro parecia dinâmico só porque os governos estavam prontos
para apoiá-lo em qualquer medida.
JEONG O keynesianismo ou estatismo parece pronto a retornar como o novo
espírito do tempo (Zeitgeist). Qual é a sua
avaliação geral da ressurreição do keynesianismo ou
estatismo? Será que isto pode ajudar a resolver ou, pelo menos, a
aliviar a crise actual?
BRENNER Os governos hoje realmente não têm
opção senão virarem-se para o keynesianismo e o Estado
para tentar salvar a economia. Afinal de contas, o mercado livre mostrou-se
totalmente incapaz de impedir ou enfrentar a catástrofe
económica, quem dirá assegurar a estabilidade e o crescimento.
Eis porque as elites políticas do mundo, que ainda ontem celebravam os
mercados financeiros desregulamentados, subitamente agora são todas
keynesianas. Mas há razões para duvidar que o keynesianismo, no
sentido de enormes défices governamentais e crédito fácil
para estimular a procura, possa ter o impacto que muitos esperam. Afinal de
contas, durante os últimos sete anos, graças à
contracção de empréstimos e aos gastos encorajados pela
bolha habitacional do Federal Reserve e pelos défices orçamentais
da administração Bush, verificámos que era, com efeito,
provavelmente o maior estímulo económico keynesiano na
história do tempo de paz. Contudo, obtivemos o mais fraco ciclo de
negócios da época do pós-guerra. Hoje, o desafio é
muito maior. Quando a bolha habitacional entra em colapso e o crédito
se torna mais difícil de obter, as famílias estão a cortar
no consumo e no investimento residencial. Em consequência, as
corporações estão a experimentar lucros cadentes. Elas
estão portanto a cortar nos salários e a despedir trabalhadores a
um ritmo rápido, detonando uma espiral de procura declinante e o
declínio da lucratividade. As famílias contaram por muito tempo
com a ascensão dos preços da casas para poderem tomar mais
empréstimos e dedicam as suas poupanças a eles. Mas agora, por
causa do acumular de dívida, elas terão de reduzir a
contracção de empréstimos e aumentar a poupança no
próprio momento em que a economia mais necessita que elas consumam.
Podemos esperar que grande parte do dinheiro que o governo coloca nas
mãos das famílias será poupado, não gasto. Uma vez
que o keynesianismo dificilmente podia mover a economia durante a
expansão, o que podemos nós esperar dele na pior recessão
desde a década de 1930? Para ter um efeito significativo sobre a
economia, a administração Obama provavelmente terá de
contemplar uma enorme onda de investimento directo ou indirecto do governo, uma
forma na verdade de capitalismo de Estado. Realmente cumprir isto, contudo,
exigiria ultrapassar enormes obstáculos políticos e
económicos. A cultura política dos EUA é extremamente
hostil à empresa estatal. Ao mesmo tempo, o nível de despesas e
de endividamento do Estado que seria exigido ameaçaria o dólar.
Até agora, os governos do Leste asiático têm estado felizes
em financiar os défices externo e governamental dos EUA, a fim de
sustentar o consumo estado-unidense e as suas próprias
exportações. Mas, com a crise a alcançar mesmo a China,
estes governos podem perder a capacidade para financiar os défices dos
EUA, especialmente quando eles crescem para uma dimensão sem
precedentes. A perspectiva verdadeiramente terrífica de uma corrida
sobre o dólar assoma no pano de fundo.
JEONG Qual é a sua avaliação geral da
vitória de Obama na última eleição presidencial?
Pensa que Obama é um "mal menor", em comparação
com a administração Bush? Muitos encaram Obama como um F.D.R. do
século XXI. Na verdade, Obama prometeu um "novo New Deal".
Pensa que os progressistas anti-capitalistas podem dar apoio crítico a
algo do seu "novo New Deal"?
BRENNER O triunfo de Obama na eleição deve ser saudado.
Uma vitória de McCain teria sido uma vitória do Partido
Republicano e dado um enorme impulso às forças mais
reaccionárias da cena política estado-unidense. Teria sido um
endosso do hiper-militarismo e do imperialismo da administração
Bush, bem como à sua agenda explícita de eliminar o que resta de
sindicatos, do estado previdência e da protecção ambiental.
Dito isto, Obama é, como Roosevelt, um Democrata centrista, de que
não se pode esperar, por sua própria iniciativa, fazer muito para
defender os interesses da vasta maioria do povo trabalhador, que será
sujeita a um assalto acelerado das corporações a tentarem
compensar os seus lucros em colapso através da redução do
emprego, dos salários e assim por diante. Obama apoiou o salvamento
titânico do sector financeiro, o qual representa talvez o maior roubo do
contribuinte na história dos EUA, especialmente porque ele não
vem com condições para os bancos. Ele também apoiou o
salvamento da indústria automóvel, embora condicionado a cortes
maciços na remuneração dos trabalhadores. A moral da
história é que, como Roosevelt, só se pode esperar que
Obama tome acções decisivas em defesa do povo trabalhador se for
pressionando para isso pela acção organizada directa dos de
baixo. A administração Roosevelt aprovou a principal
legislação progressista do New Deal, incluindo o Wagner Act e a
Segurança Social, só depois de ter sido pressionada a
fazê-lo por uma grande onda de greves em massa. Podemos esperar o mesmo
de Obama.
JEONG Segundo Rosa Luxemburgo, e recentemente David Harvey, o
capitalismo ultrapassa a sua tendência para a crise através da
expansão geográfica. Segundo Harvey, isto é muitas vezes
facilitado por investimentos maciços do Estado em infraestrutura, para
apoiar investimento de capital privado, muitas vezes investimento directo
estrangeiro. Pensa que o capitalismo pode encontrar uma saída para a
crise actual, na terminologia de Harvey, através de um "conserto
espaço-temporal"?
BRENNER Esta é uma questão complexa. Penso, antes de mais
nada, que é verdadeiro e criticamente importante dizer que a
expansão geográfica tem sido essencial em toda a grande onda de
acumulação de capital. Pode-se dizer que o crescimento da
dimensão da força de trabalho e o crescimento do espaço
geográfico do sistema são o
sine qua non,
o essencial, para o crescimento capitalista. O boom do pós-guerra
é um bom exemplo, pois apresentou expansões espectaculares do
capital para o Sul e Sudoeste dos EUA, para a Europa ocidental devastada pela
guerra e para o Japão. O investimento de corporações dos
EUA desempenhou um papel crítico, não só nos EUA mas na
Europa ocidental nesta época. Sem nenhuma dúvida, esta
expansão da força de trabalho e da arena geográfica
capitalista foi indispensável para as altas taxas de lucro que tornaram
o boom do pós-guerra tão dinâmico. De um ponto de vista
marxista, isto foi uma onda clássica de acumulação de
capital e, necessariamente, implicou tanto a absorção de enormes
massas de trabalho externas ao sistema, especialmente das zonas rurais
pré-capitalistas na Alemanha e no Japão, e a
incorporação ou re-incorporação de espaço
geográfico adicional numa enorme escala. No entanto, penso que de modo
geral o padrão da longa baixa, desde o fim da década de 1960 e
princípio da de 1970, foi diferente. É verdade que o capital
respondeu à lucratividade em queda com nova expansão externa,
procurando combinar técnicas avançadas com trabalho barato. A
Ásia do Leste é naturalmente o caso fundamental e
inquestionavelmente representa um momento histórico para o capitalismo
mundial, de transformação fundamental. Mas, apesar de a
expansão na Ásia do Leste ter representado uma resposta à
lucratividade em queda, ela não tem, penso, constituído uma
solução satisfatória. Isto porque, no fim, a nova
produção manufactureira que emergiu tão espectacularmente
na Ásia do Leste é também em grande medida uma
duplicação da produção manufactureira que estava a
verificar-se alhures, embora a verificar-se de forma mais barata. O problema
é que numa escala de todo o sistema, isto é mais preocupante do
que resolver o problema da super-capacidade. Por outras palavras, a
globalização foi a resposta à lucratividade em queda, mas
uma vez que as suas novas indústrias não são, basicamente,
complementares para a divisão mundial do trabalho, e sim redundantes,
houve uma continuação do problema da lucratividade. O resultado,
penso, é que para realmente resolver o problema da lucratividade que por
tanto tempo o atormentou lenta acumulação de capital e
recorrendo a sempre maiores níveis de contracção de
empréstimos para sustentar a estabilidade o sistema exigiu que a
crise fosse adiada por muito tempo. Porque o problema é
super-capacidade, agravada maciçamente pela acumulação de
divida, o que ainda exige, como na visão clássica, uma
sacudidela do sistema de firmas de alto custo e baixo lucro, o subsequente
embaratecimento de meios de produção e a redução do
preço do trabalho. É por meio da crise que, historicamente, o
capitalismo tem restaurado a taxa de lucro e estabelecido as
condições necessárias para a acumulação de
capital mais dinâmica. Durante o período do pós-guerra, as
crises foram evitadas, mas o custo foi um fracasso no ressuscitar da
lucratividade levando ao agravamento da estagnação. A actual
crise é aquela sacudidela que nunca aconteceu.
JEONG Assim, pensa que apenas a crise pode resolver a crise? Esta
é a resposta marxista clássica.
BRENNER Penso que provavelmente é este o caso. A analogia seria
esta. Primeiro, no princípio da década de 1930, o New Deal e o
keynesianismo foram ineficazes. De facto, apesar da extensão [da crise]
ao longo dos anos 1930, houve um fracasso em estabelecer as
condições para um novo boom, como se demonstrou quando a economia
caiu outra vez em recessão profunda em 1937-1938. Mas, finalmente,
devido à longa crise dos anos 30, sacudiram-se os altos custos e baixo
lucro dos meios de produção, criando as condições
básicas para altas taxas de lucro. Assim, no fim dos anos 1930, podia-se
dizer que a taxa de lucro potencial era alta e que o que estava a faltar um
choque era um choque de procura. Tal procura foi proporcionada naturalmente
pelos gastos maciços com armamento para a II Guerra Mundial. Assim,
durante a guerra, obtiveram-se altas taxas de lucro e estas proporcionaram a
condição necessária para o boom do pós-guerra. Mas
não penso que os défices keynesianos pudessem ter funcionado
mesmo que tivessem sido tentados em 1933, porque era preciso, em termos
marxistas, primeiro uma crise de limpeza do sistema.
JEONG Pensa que a crise actual levará a um desafiar da hegemonia
dos EUA? Teóricos do sistema mundial, como Immanuel Wallerstein,
também entrevistado neste jornal, estão a argumentar que a
hegemonia do imperialismo estado-unidense está a declinar.
BRENNER Isto é, mais uma vez, uma questão complexa. Talvez
eu esteja errado, mas penso que muitos daqueles que acreditam haver um
declínio na hegemonia dos EUA vêm a hegemonia basicamente
sobretudo como expressão do poder geopolítico estado-unidense e,
por fim, da força dos EUA. Deste ponto de vista, é principalmente
a dominância dos EUA que faz a liderança dos EUA, é o poder
dos EUA sobre e contra outros países que mantém os EUA no topo.
Não vejo a hegemonia dos EUA deste modo. Vejo as elites do mundo,
especialmente as elites do núcleo capitalista concebido em termos
amplos, como estando muito felizes com a hegemonia dos EUA porque o que ela
significa para eles é que os EUA assumem o papel e o custo do
polícia mundial. Isto é verdade, penso, para as elites mesmo dos
países hoje mais pobres. Qual é o objectivo do polícia
mundial EUA? Não é atacar outros países. É
principalmente manter a ordem social numa escala mundial, criar
condições estáveis para a acumulação global
de capital. O seu principal propósito é liquidar quaisquer
desafios populares ao capitalismo, apoiar as existentes estruturas de
relações de classe. Durante a maior parte do período do
pós-guerra, houve desafios nacionalistas-estatistas, especialmente dos
de baixo, à rédea solta do capital. Eles sem dúvida foram
recebidos pela força mais brutal dos EUA, na maior parte
expressões nuas da sua dominação. Dentro do núcleo
houve hegemonia dos EUA, do lado de fora houve dominação. Mas com
a queda a União Soviética, com a China e o Vietname a adoptarem o
caminho capitalista, e a derrota de movimentos de libertação
nacional em lugares como o sul da África e a América Central, a
resistência ao capital no mundo em desenvolvimento foi muito
enfraquecida, pelo menos por enquanto. Assim, hoje, os governos e as elites
não só da Europa ocidental e oriental, Japão e Coreia,
como também Brasil, Índia e China a maior parte dos
lugares que se possa nomear prefeririam a continuação da
hegemonia dos EUA. A hegemonia dos EUA não cairá devido à
ascensão de uma outra potência capaz de competir pela
dominação mundial. Acima de tudo, a China prefere a hegemonia dos
EUA. Os EUA não estão a planear atacar a China e, até
agora, mantiveram o seu mercado amplamente aberto às
exportações chinesas. Com os EUA a efectuarem o papel de
polícia mundial e a assegurar sempre comércio mais livre e
movimentos de capital, foi permitido à China competir em termos de custo
de produção, num campo de jogo igual, e isto tem sido
incrivelmente benéfico para a China não podia ser melhor.
Poderão os EUA continuar a sua hegemonia na crise actual? Isto é
uma pergunta muito mais difícil. Mas que, em primeira
aproximação, a resposta é sim. As elites do mundo querem
antes de mais nada sustentar a actual ordem globalizada, e os EUA são a
chave para isso. Ninguém das elites do mundo está a tentar
explorar a crise, e os enormes problemas económicos dos EUA, para
desafiar a sua hegemonia. A China mantém-se a dizer, "não
vamos continuar a pagar para os EUA continuarem a dissipar", referindo-se
à maneira como a China cobriu o record do défice de
transacções correntes dos EUA durante a última
década e os gigantescos défices orçamentais dos EUA agora
a serem criados. Mas, pensa você que a China rompeu com os EUA? Nada
disso. A China ainda está a despejar tanto dinheiro quanto pode dentro
dos EUA a fim de tentar manter a economia estado-unidense em andamento, de modo
a que a China possa manter o desenvolvimento do modo como o faz. Mas,
naturalmente, o que é desejado nem sempre é possível. A
profundidade da crise chinesa pode ser tão grande que não possa
mais permitir-se financiar os défices dos EUA. Ou, na hipótese de
défices sempre maiores dos EUA e de a impressão de dinheiro pelo
Federal Reserve poder conduzir ao colapso do dólar, detonar a verdadeira
catástrofe. Em ambos os casos, todas as apostas acabam. Se estas coisas
acontecerem, teria de haver a construção de uma nova ordem. Mas,
sob condições de crise profunda que seriam extremamente
difíceis. Na verdade, sob tais condições, os EUA, bem como
outros Estados, poderiam facilmente virar-se para o proteccionismo, o
nacionalismo e mesmo a guerra. Penso, a partir deste momento, que as elites do
mundo ainda estão a tentar evitar isto eles não
estão prontos. O que querem é manter mercados abertos, manter o
comércio aberto. Isto porque entendem que da última vez que os
Estados recorreram ao proteccionismo para resolver o problema foi a
época da grande depressão e que tornou a depressão ainda
pior, porque efectivamente quando alguns Estados começaram a proteger,
todos moveram-se para a protecção e o mercado mundial encerrou. A
seguir, naturalmente, veio o militarismo e a guerra. O fechamento de mercados
mundiais hoje seria obviamente desastroso, de modo que elites e governos
estão a fazer tudo o que podem para impedir um resultado proteccionista,
estatista, nacionalista, militarista. Mas a política não é
apenas uma expressão do que querem as elites, o que querem as elites
muda ao longo do tempo. As elites estão, além disso, geralmente
divididas e política implica autonomia. Assim, por exemplo, dificilmente
pode ser descartado que, se a crise ficar muito má o que neste
ponto não seria uma grande surpresa ver-se-ia um retorno à
política de extrema-direita uma política de
proteccionismo, militarismo, anti-imigração, nacionalismo. Esta
espécie de política podia ter amplo apelo popular.
Secções crescentes dos negócios poderiam considerar isto
como a única saída, pois veriam os seus mercados entrarem em
colapso, o sistema em depressão, veriam uma necessidade de
protecção da competição e de subsídios do
Estado à procura através do gasto militar. Isto foi,
naturalmente, a resposta que prevaleceu em grande parte da Europa e do
Japão durante a crise do período entre guerras. Hoje, a direita
está de rastros, devido aos fracassos da administração
Bush e devido à crise. Mas, se a administração Obama for
incapaz de conter o colapso económico, a direita poderia facilmente
retornar... especialmente porque os Democratas não estão
realmente a oferecer qualquer alternativa ideológica.
JEONG Falou acerca de uma crise potencial na China. O que pensa do
estado actual da economia chinesa?
BRENNER Penso que a crise chinesa vai ser um bocado pior do que se
espera, e isto por duas razões principais. A primeira é que a
crise americana, e mais geralmente a crise global, é muito mais
séria do que se espera e, em última análise, o destino da
economia chinesa está inextricavelmente dependente do destino da
economia dos EUA, a economia global. Isto não é só porque
a China tem dependido em tão grande medida das
exportações para o mercado dos EUA. É também porque
a maior parte do resto do mundo também está dependente dos EUA,
o que inclui especialmente a Europa. Se eu não estiver enganado, a Europa
recentemente tornou-se o maior mercado de exportação da China.
Mas, quando a crise com origem nos EUA deitar abaixo a Europa, o mercado
europeu para bens chineses também contrairá. Assim, a
situação para a China é muito pior do que se espera,
porque a crise económica é muito pior do que se espera. Em
segundo lugar, o entusiasmo pelo crescimento económico verdadeiramente
espectacular da China tem ignorado o papel das bolhas na condução
da economia chinesa. A China tem crescido basicamente através de
exportações e particularmente de um excedente comercial crescente
com os EUA. Devido a este excedente, o governo chinês teve de adoptar
passos políticos para manter a divisa chinesa baixa e a sua manufactura
competitiva. Especificamente, ele comprou activos denominados em dólares
numa escala gigantesca imprimindo quantias gigantescas do renmibi, a divisa
chinesa. Mas o resultado foi injectar enormes quantias de dinheiro dentro da
economia chinesa, avançando sempre crédito a longo prazo mais
facilitado. Por um lado, as empresas e os governos locais utilizaram este
crédito fácil para financiar investimentos maciços. Mas,
isto eternizou maior super-capacidade. Por outro lado, eles utilizaram o
crédito fácil para comprar terra, casas, acções e
outras espécies de activos financeiros. Mas isto provocou bolhas
maciças de preços de activos, as quais têm actuado, como
nos EUA, para permitir mais contracção de empréstimo e
gastos. Quando as bolhas chinesas estalarem, a profundidade da super-capacidade
tornar-se-á clara. Quando as bolhas chinesas estalarem, ver-se-á
também, tal como no resto do mundo, uma enorme pancada na procura do
consumidor e crises financeiras desordenadas. Assim, a crise chinesa é
muito séria e poderia tornar a crise global ainda mais severa.
JEONG Assim, pensa que a lógica capitalista da
super-produção também é aplicável à
China.
BRENNER Sim, tal como a Coreia e grande parte da Ásia do Leste
após os anos 90. Não é diferente. A única coisa que
não aconteceu ainda é a espécie de
revalorização da divisa que realmente matou a expansão da
manufactura coreana. O governo chinês está a fazer tudo para
evitar isso.
JEONG De modo que não concorda com a caracterização
da sociedade chinesa como uma espécie de "economia de mercado
não capitalista".
BRENNER Não, de modo algum
JEONG Então pensa que a China actualmente é capitalista?
BRENNER Penso que é plenamente capitalista. Talvez se possa dizer
que a China teve uma economia de mercado não capitalista até os
anos 80, quando tiveram um crescimento impressionante por meio de empresas de
cidade e de aldeia
(town and village enterprises, TVEs).
As TVEs eram de propriedade pública, possuídas por governos
locais mas operadas com base no mercado. Aquela forma económica, pode-se
dizer, iniciou a transição para o capitalismo. Assim, talvez no
princípio dos anos 90, ainda era uma espécie de sociedade de
mercado não capitalista, especialmente porque ainda havia um grande
sector industrial possuído e planeado pelo Estado central. Mas, a partir
daquele ponto, houve uma transição para o capitalismo, a qual
certamente neste momento foi completada.
JEONG O que pensa da severidade da crise económica coreana que
está a decorrer? Pensa que poderia ser mais severa do que a crise do FMI
de 1997-1998? A fim de enfrentar a crise em curso, o governo Lee Myung-bak
está agora a ressuscitar o estilo Park Chung-Hee de investimento
conduzido pelo Estado na construção de enorme infraestrutura
social, especialmente o "Grande Canal" da península coreana,
enquanto copia políticas de Obama de crescimento verde. Contudo, o
governo de Lee Myung-bak ainda tenta aderir às políticas de
desregulação neoliberal do período da crise pós
1997, especialmente ao voltar-se para o Acordo de Livre Comércio
EUA-Coreia. Pode-se chamar a isto uma abordagem híbrida, combinando o
que parece ser um retorno anacrónico ao estilo Park Chung-Hee de
desenvolvimento conduzido pelo Estado com o neoliberalismo contemporâneo.
Será isto eficaz para combater ou aliviar a crise que vem aí?
BRENNER É duvidoso que isto venha a ser eficaz. Não
necessariamente porque represente um regresso ao capitalismo organizado pelo
Estado de Park ou porque abrace o neoliberalismo. É porque, qualquer que
seja a sua forma interna, continua a depender da globalização
numa época em que a crise global está a provocar uma
contracção extraordinária do mercado mundial.
Estávamos a conversar acerca da China e eu argumentava que a China
provavelmente terá sérias perturbações. Mas a China
tem salários baixos, potencialmente um enorme mercado interno, de modo
que, com tempo, seria concebível que pudesse ter um melhor resultado do
que a Coreia ao enfrentar a crise, embora eu não esteja seguro acerca
disto. A Coreia, penso, terá uma queda dura. Houve uma queda dura em
1997-1998, mas foi salva pela bolha do mercado de acções dos EUA
e o resultante crescimento da contracção de empréstimos,
gastos e importações dos EUA. Mas, quando a bolha do mercado de
acções dos EUA explodiu em 2000-2002, a Coreia caiu numa
recessão ainda mais séria do que a crise de 1997-1998. No
entanto, a bolha habitacional estado-unidense veio em resgate da Coreia durante
o período recente. Mas, agora a bolha, a segunda dos EUA, entrou em
colapso e não há terceira bolha para por a Coreia fora da crise
actual. Não é necessariamente porque a Coreia esteja a fazer as
coisas erradas. Não penso que possa haver um caminho fácil para
qualquer parte do que se tornou um sistema capitalista verdadeiramente global,
interdependente.
JEONG Assim, o que está a dizer é que o ambiente externo
é muito pior do que alguma vez já o foi anteriormente.
BRENNER Esse é o ponto principal.
JEONG Quais são então as tarefas prioritárias dos
progressistas na Coreia? Os progressistas coreanos são muito
críticos de Lee Myung-bak. Eles habitualmente apoiam o crescimento do
Estado Previdência e a redistribuição do rendimento como uma
alternativa ao projecto de Lee de investir na construção do
Canal, com grandes despesas de capital. Esta é a questão candente
na sociedade coreana de hoje. Os progressistas coreanos destacam que apesar das
conversas de Lee Myung-bak acerca do crescimento verde, o seu projecto de
construção destruiria ambientes completos. Concorda com eles?
BRENNER Naturalmente deveríamos opor-nos a tais projectos
ecologicamente desastrosos.
JEONG Pensa que construir um Estado Previdência estilo sueco seria
a estratégia razoável para os progressistas coreanos em meio
à crise económica?
BRENNER Penso que a coisa mais importante que os progressistas coreanos
poderiam fazer seria refortalecer as organizações coreanas do
trabalho. Só pela reconstrução do movimento da classe
trabalhadora coreana a esquerda poderia construir o poder de que precisa para
vencer quaisquer exigências que defenda. O único meio de a classe
trabalhadora poder realmente desenvolver o seu poder é através da
construção de novas organizações no decorrer da
luta e é apenas através da luta que elas poderão chegar a
políticas progressistas, ou na verdade decidir quais as políticas
progressistas que realmente deveriam ser avançadas neste momento. Penso
que o melhor caminho para forjar uma resposta política de esquerda hoje
é ajudar o povo mais afectado a ganhar a organização e o
poder para decidir o que é colectivamente do seu interesse. Assim, ao
invés de tentar imaginar a partir de agora, a partir de cima de um modo
tecnocrático, o que é a melhor resposta, a chave para a esquerda
é catalisar a reconstituição do poder do povo trabalhador.
O movimento trabalhista coreano foi obviamente um bocado enfraquecido a partir
da crise de 1997-1998. No mínimo, a prioridade para os progressistas
é fazer o que puderem para melhorar o ambiente para o trabalho
organizado, para refortalecer os sindicatos a partir de agora. Isto vale
não só para a Coreia, mas para toda a parte do mundo. Aqui
está o objectivo chave. Sem revivificar o poder da classe trabalhadora,
a esquerda rapidamente descobrirá que a maior parte das questões
de política governamental são realmente académicas. Quero
dizer que se a esquerda tiver de afectar a política do Estado deve haver
uma mudança, uma grande mudança, no equilíbrio do poder de
classe.
JEONG Espera que haja uma abertura para os progressistas num mundo em
que se verificam os fracassos recentes do neoliberalismo?
BRENNER A derrota do neoliberalismo está definitivamente a criar
grandes oportunidades que a esquerda antes não dispunha. O
neoliberalismo nunca recorreu muito a grandes partes da
população. O povo trabalhador nunca se identificou com mercados
livres, finanças livres e tudo isso. Mas, penso que amplas
secções da população foram convencidas de que isto
era a única alternativa, estavam convencidas do TINA. Mas agora a crise
económica revelou a bancarrota total do modo neoliberal de
organização económica e já se pode ver a
mudança. Ela foi muito poderosamente manifestada na
oposição do povo trabalhador americano aos salvamentos dos bancos
e do sector financeiro. O que eles estão a dizer hoje é:
"Disseram-nos que salvar as instituições financeiras, os
mercados financeiros, é a chave para restaurar a economia, a
prosperidade. Mas nós não acreditamos nisto. Não queremos
que vá mais dinheiro para estas pessoas que estão apenas a
roubar-nos". De modo que há um grande vácuo
ideológico. Portanto há uma grande abertura para ideias de
esquerda. O problemas é que há muito pouca
organização do povo trabalhador, quem dirá qualquer
expressão política. De modo que se pode dizer que há uma
oportunidade muito grande criada pela mudança no ambiente
político, ou o clima ideológico, mas que por si mesmo não
vai proporcionar uma saída progressista. De modo que, mais uma vez, a
prioridade principal para progressistas para quaisquer activistas da
esquerda em que deveriam ser activos é tentar reviver as
organizações do povo trabalhador. Sem a re-criação
do poder da classe trabalhadora pouco progresso será possível e o
único caminho para recriar esse poder é através da
mobilização para a acção directa. Só
através da entrada em acção do povo trabalhador,
colectivamente e em massa, ele será capaz de criar a organizar e
acumular o poder necessário para proporcionar a base social, por assim
dizer, para uma transformação da sua própria
consciência, para a radicalização política.
[*]
Do Departamento de História da Universidade da Califórnia, director do
Center for Social Theory and Comparative History
.
[**]
Professor de C. Económicas na Gyeongsang National University, Coreia do
Sul, e editor de
Marxism 21.
O original encontra-se em
http://www.hani.co.kr/arti/society/society_general/335869.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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