Globalização Uma visão matreira
Considere-se o caso hipotético de uma economia com um PIB anual de 5
milhões de milhões de dólares (10
12
), cuja dinâmica económica ampla é objecto deste exame.
O país hipotético cuja economia analisamos aqui é chamado
AB, porque a sua economia interna é composta por dois componentes
distintos: A e B. A população total de AB é de 100
milhões, mas só cerca de 2% dela é constituída por
B; o restante é constituído por A. Para facilitar a
manipulação com números redondos, diremos que a
população A é de 100 milhões e a
população B de 2 milhões.
Em grande parte, as populações A e B são geograficamente
separadas dentro de AB, mas a separação não é
total. Verificam-se misturas. As principais estradas e rodovias, por exemplo,
são usadas por carros pertencentes tanto a membros de A como de B. As
companhias aéreas comerciais também transportam tanto membros de
A como de B, ao passo que aviões privados e fretados transportam
sobretudo os membros de B. Escolas, residências, lojas,
recreação, etc
são em grande medida segregados, uma vez que os membros de B
consideram-se como sendo uma classe à parte.
Do ponto de vista da governação, os membros de B têm um
controle quase total sobre o modo como o país AB é legislado e
administrado. Quaisquer tentativas dos membros de A de fazerem ouvir suas vozes
são recebidas com denúncias histéricas e estridentes pelos
membros de B utilizando termos como "nacionalismo",
"populismo", "socialismo", "deplorável" e
assim por diante.
Na óptica da prosperidade económica, os membros de B estão
a sair-se muito, muito melhor do que os de A. De facto, o PIB total de AB
é igualmente dividido entre A e B, o que significa que um membro
médio de B ganha cerca de cinquenta vezes mais por ano do que o membro
médio de A.
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População A
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População B
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Fatia do PIB
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US$2,5 x 10
12
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US$2,5 x 10
12
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Rendimento
per capita
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US$25.000
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US$1.250.000
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Fluxo de fundos de outros países
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Insignificante
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US$0,5 x 10
12
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Balança comercial interna entre A e B
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Défice de US$1 x 10
12
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Excedente de US$1 x 10
12
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Efeito da expansão monetária
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Insignificante
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US$0,5 x 10
12
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Educação
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Licenciatura ou menos
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Licenciatura ou mais
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Comércio interno e governação:
A economia de A consiste em bens e serviços de baixo valor e baixa
margem de lucro tais como produtos agrícolas, produtos
industriais básicos, trabalho manual, segurança (incluindo
policias e militares), serviços administrativos, retalho,
serviços de supervisão e entrega, transporte, enfermagem,
limpeza, cuidados de beleza/cabeleireiros e assim por diante.
Portanto, A fornece bens e serviços de baixo valor e baixa margem. Como
uma população de 100 milhões fornece estes bens e
serviços a uma população muito menor de 2 milhões,
os preços destes bens e serviços permanecem deprimidos. Para
piorar a situação de A, os membros de B mantiveram ferozmente
abertas suas opções de substituir os fornecedores de A por
fornecedores de menor custo de qualquer outro país do mundo. Assim, os
tipos de B retiveram a margem de negociação máxima nas
suas compras de A.
A população B fornece à população A produtos
e serviços de alto valor e alta margem de lucro, relacionados a
finanças, seguros e imóveis, media, relações
públicas, produtos farmacêuticos e direito. Uma vez que estes
produtos tendem a ser complexos, os termos legais relevantes de comércio
entre B e A são fortemente tendenciosos em favor dos primeiros. Na
verdade, esta situação reflecte o facto de que os membros de A
quase não têm influência na governação do
país AB.
Em consequência desta disposição comercial injusta entre A
e B, todos os anos B desfruta de um "superávite comercial
interno" com A no valor de cerca de 1 milhão de milhões de
dólares, o que explica uma grande parte da diferença entre os
rendimentos
per capita
anuais de A e de B.
Os tipos B são viciados em buscar retornos cada vez mais altos dos seus
activos já enormes; de facto, esse parece ser seu único objectivo
na vida. Eles ajustaram com perfeição seus esquemas de
exploração por financiamento de dívida e alavancagem ao
máximo em todos os seus empreendimentos financeiros. Para atender
à sua procura crescente por cada vez mais dívida, eles
conseguiram crédito barato e abundante disponível 24 horas por
dia, 7 dias por semana. Para fins de relações públicas,
esse esquema de crédito à disposição
é chamado de política monetária e é
apregoado como bom para AB.
Com esta política de crédito à
disposição, a economia dos B ganha uma
injecção de cerca de 500 mil milhões de dólares
recém-criados por ano. Contudo, nenhum benefício disso é
atribuído aos A, pos as economias de A e de B não se
sobrepõem muito. No entanto, quando as coisas dão errado,
espera-se que os membros de A paguem as dívidas incobráveis dos B
supostamente para manter a "estabilidade financeira" dentro de
todo o país.
Cidadãos ricos de outros países ao redor do mundo também
participam da festa de dinheiro livre que acontece dentro de B. O dinheiro
estrangeiro flui para B ao ritmo de 500 mil milhões de dólares
por ano. O espírito da época parece ser este:
enquanto o dinheiro puder ser criado do nada, deixe o champanhe fluir.
A economia de B é administrada como um clube muito exclusivo e caro.
Seus encargos de entrada e manutenção anual são
extremamente altos. Como política deliberada de relações
públicas, cria-se o mito de que o mais elevado objectivo para um ser
humano é tornar-se membro proeminente da economia dos B. Como resultado,
o objectivo de vida de muitos Morenos, Escuros e Alis fora do país AB
é tornarem-se também membros reconhecidos de B.
Os mais ricos entre os membros de B tomam grandes cuidados para garantir que as
massas da população (os
hoi polloi)
de A não tenham voz na maneira como são administrados os
assuntos de AB. Ao mesmo tempo, contudo, eles se esforçam
ao máximo para convencer as mesmas massas
de que os seus melhores interesses permanecem como importantes nas mentes dos
membros mais ricos e poderosos de B. O termo RP para essa grande
manipulação dos A pelos B é "a arte da
governação".
Periodicamente, os membros mais ricos e poderosos de B seleccionam uma pessoa
adequada para "dar a cara" na grande manipulação, com o
entendimento de que esta também se será sacrificada se por acaso
o jogo de manipulação estiver em risco de ser revelado.
Os tipos B entendem muito bem como lhes é útil manter o mito de
AB ser "um país". Afinal de contas, a multidão de
membros de A são seus clientes tolos, mão-de-obra barata,
contribuintes, bodes expiatórios, soldados... e muito mais. Uma
"dádiva de Deus", pode-se dizer. Como os B poderiam
administrar sem eles?
Mas nunca se deve permitir aos membros de A aprenderem que estão a ser
manipulados no seu próprio interesse, é claro. O povo
pobre de A estaria perdido sem a governação de alto custo
proporcionada pelas pessoas inteligentes de B tudo com espírito
do serviço público, é claro.
Redes B globais
Agora, estendamos este modelo a 200 países do mundo. É certo que
alguns países são mais parecidos com A, ao passo que
outros são mais parecidos com B. De modo geral, no entanto,
a maioria das economias dos países ao redor do mundo está
dividida de alguma forma tal como o descrito.
O diagrama abaixo ilustra como as redes económicas podem operar entre
quatro países: AB1, AB2, AB3 e AB4. No mundo real, redes semelhantes
abrangem todos os 200 países.
Vemos que, do ponto de vista dos fluxos monetários, cada um destes
países legalmente estabelecidos está efectivamente dividido em
duas partes A e B. As partes B de quase todos os países do mundo
isto é, B1, B2, B3, B4 e assim por diante entram em conluio
economicamente quando os seus interesses coincidem.
Tipicamente, o que são estes interesses coincidentes? Todos os tipos B
por todo o mundo desejam retornos anuais máximos dos seus activos
já maciços. Portanto, eles B1, B2, B3, B4, etc
competem, conluiem ou colaboram entre si, conforme a necessidade. Para eles, o
resto da espécie humana ? A1, A2, A3, A4, etc são
pessoas de uma espécie diferente: deploráveis, subdesenvolvidos,
atrasados... seja o que for.
Considere um exemplo de dois países, digamos AB1 e AB2. A economia de
cada um é dividida em duas partes, como explicado acima. Dentro de AB1,
as duas partes são A1 e B1; dentro de AB2, as duas partes são A2
e B2. Pelas razões descritas, B1 e B2 estão economicamente muito
mais próximos um do outro do que de A1 e A2. Isso torna possível
que B1 e B2 entrem em colusão e explorem A1 e/ou A2, conforme a
necessidade.
Para manter o comboio da alegria a rolar, o código básico de
comportamento dos tipos B é:
faça o que for que seja preciso.
Não há outra moral ou ética subjacente ao seu
comportamento.
Diz-me que 500 mil crianças podem morrer? E daí?
Diz-me que uma região deve ser bombardeada até voltar à
idade da pedra? E daí?
Diz-me que taxas de juros negativas roubam os poupadores? E daí?
Atrito e resistência aqui e ali
Um ponto simples esquecido pelos tipos B é o seguinte:
Seres humanos normais e saudáveis os quais os tipos B não
entendem não gostam de serem denegridos, insultados, explorados
ou manipulados.
Para abrir o seu caminho no mundo dos B é preciso erradicar de si
próprio quaisquer traços de tendências humanas normais e
saudáveis. Caso contrário, enfrentaria conflitos diários
entre o que é certo e o que se deve fazer para sobreviver como B. Uma
vez que abandonar o mundo dos B não é uma opção
para a maior parte dos tipos B, o único modo de sobreviver é
extinguir qualquer senso de certo e errado. Não é de surpreender,
portanto, que os tipos B não compreendam os sentimentos dos seus demais
compatriotas. Os dois são praticamente estranhos um ao outro.
À medida que o entendimento desta situação se propaga pelo
mundo, evidências de atritos e lutas são vistas aqui, ali e por
toda a parte. A reacção dos tipos B beira a histeria. Isto
não é de surpreender porque, afinal de contas, o seu muito
trombeteado
(trumpted)
sem trocadilho! modo de vida está a ser posto em causa.
A falta de compreensão dos tipos B tem enormes
implicações, as quais recordam os famosos versos de
Robert Burns
:
Mas ratinho, não estás sozinho,
Provar a previsão, pode ser inútil:
Os melhores projectos de ratos e homens
Muitas vezes dão para o torto,
E não nos deixam nada senão tristeza e dor,
Pela alegria prometida!
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But Mousie, thou art no thy lane,
In proving foresight may be vain:
The best-laid schemes o' mice an' men
Gang aft agley,
An' lea'e us nought but grief an' pain,
For promis'd joy!
|
É aí que as coisas parecem inclinar-se de modo um tanto
precário, Caro Leitor, nesta conjuntura crucial da história em
constante desdobramento da busca da humanidade pela felicidade no Planeta Terra.
Escrito anterior relacionado:
Mapping the Global Divide
[*]
Engenheiro electrotécnico, indiano,
nareshjotwani.blog
O original encontra-se em
thesaker.is/globalization-a-sneaky-overview/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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