Incoerência económica e duplo pensamento

por Caleb Irri

A figa de Sarkozy. O chefe de Estado falou na TV, na noite passada. Falou de justiça, honestidade, verdade e contentou-se em evoluir através de valores cujos conceitos são bastante relativos. E paralelamente a este discurso de fachada, desenvolvia contudo uma argumentação económica para defender acções efectuadas e futuras, com um pragmatismo cuja incoerência invalida os valores de que se arvorava defensor.

Em primeiro lugar é preciso admitir que a força das políticas reside sobretudo na sua linguagem e que os povos não estão nem formados nem aptos para poderem compreender todos os aspectos do sistema, isto é, o funcionamento do capitalismo com todas as consequências que isto implica. Não se pode portanto reprovar o povo por não se interessar senão remotamente pelos assuntos do governo, pois o próprio princípio de governo implica a transferência do poder democrático a um pequeno grupo cuja eleição é suposta ser o resultado objectivo do reconhecimento das suas competências. Por outras palavras, o povo abandona a direcção dos negócios em proveito de homens e mulheres cujo trabalho é dirigi-los. Não sendo o povo perito da coisa pública, é natural que estes "especialistas" da direcção dos homens se exprimam através de uma linguagem facilmente compreensível pelo maior número: como vulgarizadores, transmissores da maioria que o elegeu, seu papel é explicar em que as reformas adoptadas, as acções efectuadas, vão no sentido do interesse geral, que é o bem supremo procurado pela democracia.

Só que hoje, o sistema mundializado, aquele que constrange os povos e os Estados, é dominado exclusivamente pelo individualismo e pela satisfação do interesse privado. Como já disse alhures (ver "de la nécessité du complot" ), este interesse é portanto necessariamente contrário ao interesse geral e deve ser escondido do povo, o qual deve continuar a crer no seu poder ainda que se acredite indigno de utilizá-lo.

Assim começa o duplo pensamento, expresso pela dupla linguagem: o objectivo dos governantes tendo-se transformado, passando do interesse geral ao interesse particular, e não podendo confessar ao povo esta mudança de direcção, é preciso que os políticos redobrem o seu engenho a fim de explicar que as medidas propostas são boas para o povo, quando na realidade elas o prejudicam. É assim que o discurso administrado ao povo está cheio de conceitos, de valores, de moral, pois só a relatividade destes conceitos permite aos políticos que se safem: ali onde a matemática não pode trapacear, a linguagem tem o pode de travestir a realidade para substituir a verdade, pois o homem a quem não se ensinou que a verdade não é muito simplesmente senão uma opinião maioritária tende a crer que ela é absoluta.

Ao esconderem-se por trás destes conceitos, nossos políticos podem portanto com toda "honestidade" falar de "justiça", pois estes dois valores são ambos tão relativos quanto a verdade: a justiça sendo a emanação da Lei e as leis sendo votadas por e para "o povo" (conforme a ilusão democrática do interesse geral"), então uma lei injusta pode tornar-se "justa" do ponto de vista jurídico. Que ela seja realmente justa ou não importa pouco, pois a Lei é uma força constrangedora. E então torna-se honesto para um homem político referir-se à lei para agir nos limites que ela impõe e isto mesmo que a lei seja injusta de um ponto de vista social.

Assim, o presidente pode com legitimidade servir-se destes conceitos para escorar a sua argumentação: no sistema capitalista, cujo principal objectivo é a satisfação do interesse particular, é justo favorecer os ricos e é honesto assumi-lo, pois a verdade é que unicamente os mais "aptos" ao êxito económico "merecem" a ascensão social. Ao inverter assim o sentido da democracia, torna-se possível, com as mesmas palavras, fazer o contrário daquilo que se diz, de acordo com o que se pensa sem o dizer.

Este truque de prestidigitação, teorizado pelo conceito de "duplo pensamento", deve igualmente ser posto em perspectiva diante dos argumentos económicos rapidamente evocados pelo presidente. Pois, naturalmente, a realidade acaba sempre por apanhar a verdade e os belos conceitos, as belas palavras, não bastam para encher o frigorífico daqueles que os escutam. São precisos números, explicações sobre o fosso flagrante existente entre as sucessivas promessas de aumento do poder de compra e a sua baixa real e contínua. A mentira, a interpretação dos números, o contexto internacional podem por vezes serem úteis, mas nem sempre bastam para adormecer os "vigilantes" do quarto poder, com a sua clique de peritos e analistas sempre de sentinela e que têm o mau hábito de se servirem de informadores aos contestatários de toda espécie. [NR]

Mas o verdadeiro problema com os números é que a teoria não corresponde à realidade: a soma dos interesses particulares não favorece o interesse geral e isto por razões que já expliquei alhures (ver "la rationalisation de l'individu" ). Sabendo isto melhor do que ninguém, torna-se em suma bastante difícil aos economistas (e mesmo ao presidente) explicar ao povo o paradoxo seguinte: o sistema funciona muito bem, mas a crise (criada pelo sistema) põe o sistema em perigo. Por outras palavras, ele funciona muito bem para nós e não para vós, mas isto é por vossa causa!

E eis que se chega a uma aberração económica como aquela que nos ofereceu o nosso presidente e que já ouvi muitas vezes em outras bocas: o slogan tradicional e revoltante referente à relação emprego-consumo-crescimento-investimento. Com efeito, a propósito da baixa dos encargos para as empresas, o presidente indica que um aumento de impostos estimula as empresas a deslocalizarem-se, ou seja, a despedir, ou seja, menos consumo... menos crescimento.

A seguir, a propósito dos funcionários, o mesmo presidente defende desta vez os dinheiros públicos, considerando que a não substituição de um funcionário em cada dois é inevitável para fazer economias... como se, por um golpe de varinha mágica, a baixa de consumo devida aos despedimentos dos funcionários não fosse enfraquecer o crescimento mas "sanear" as finanças do Estado. Como é possível? Enquanto toda a teoria económica é baseada no investimento (que suposto criar emprego e portanto consumo), na realidade os factos exprimem-se inteiramente ao contrário: uma prenda mais para as empresas (sem aumento de salário nem contratação) de uma parte e uma dívida menor para os Estados à beira da mandíbula do outro. Conclusão do caso: nada de bom para os assalariados e para eles um futuro longe de radioso. Em contrapartida, maiores lucros para as empresas e aumento, a prazo (pois menos empregos significa menos consumo e a prazo menos crescimento...) do défice público.

Finalmente, o presidente não nos terá mentido e dever-se-ia agradecer-lhe. Se a finalidade do capitalismo fosse realmente a satisfação do interesse geral, o investimento seria a única política a efectuar. Mas se for bem ouvido, compreender-se-á rapidamente como tudo isso vai realmente terminar: depois de terem enchido os bolsos e depois de terem arruinado os povos, nos governantes nos encurralarão diante de uma escolha decisiva. E então, mesmo que não possam mais esconder o jogo duplo que fazem, nos proporão a seguinte alternativa: a governação mundial para nos retirar de uma democracia desviada, ou a guerra para repor o capitalismo no lugar. Mas pode ser que a resposta não lhes interesse pois, tanto num caso como no outro, uma coisa terá completamente desaparecido: a liberdade. Para que não tenhamos mais a possibilidade de ter a opção.

15/Julho/2010

[NR] O autor parece de um optimismo desmesurado quanto aos "poderes de vigilância" do dito "quarto poder". Em Portugal ele é praticamente nulo: os media corporativos que se auto-apregoam como "referência" são meros transmissores dos políticos e da ideologia da classe dominante, o seu papel não é informar e sim desinformar.

O original encontra-se em http://calebirri.unblog.fr/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
20/Jul/10