O 'soft power' dos EUA e os bancos
O privilégio de fornecer a divisa de reserva do mundo, o dinheiro que os
países utilizam para efectuar negócios para além das suas
fronteiras, é uma fonte de poder para o país que a controla mais
valiosa do que a mais poderosa força militar. Uma vez que virtualmente
todo dinheiro é criado 'a partir do ar" por meio de entradas em
contabilidades bancárias, o país que fornece a divisa de reserva
do mundo tem o poder de criar dinheiro suficiente para comprar o mundo. A
trabalhar em conjunto com os seus bancos, o país fornecedor da divisa de
reserva pode conquistar e controlar muito mais da riqueza mundial do que o
poderia através da força militar. É este poder, o
fundamento do "padrão dólar' do sistema monetário
internacional, que o governo dos EUA em conjunto com a Wall Street, os
(grandes) bancos estado-unidenses e bancos centrais submissos por todo o mundo,
que trabalham desesperadamente para sustentar. Até que isto seja
reconhecido e resistido, não apenas nos EUA mas por todo o mundo,
há pouca esperança de uma economia mundial estável ou de
uma ordem económica internacional mais justa.
No seu livro
Super Imperialism
escrito há 37 anos, o Dr. Michael Hudson descreveu o novo sistema
monetário internacional que
emergia do colapso do Acordo Monetário Internacional de Bretton Woods,
de 1944. Aquele acordo especificava os pormenores de um sistema
monetário internacional que perdurou até que o excesso de US
dólares nos cofres de bancos centrais estrangeiros forçaram
Richard Nixon a acabar com a sua convertibilidade no ouro possuído pelos
EUA. Em "Global Fracture", sequência de "Super
Imperialism", Hudson descreve várias tentativas, que acabaram por
não ter êxito, de governos europeus no sentido de escapar à
armadilha do dólar na qual se encontravam a seguir ao colapso de Bretton
Woods. Esta armadilha do dólar tinha um cert o número de
componentes funcionais em acréscimo à necessidade de
protecção militar dos EUA em relação à
antiga União Soviética ou pelo menos
protecção para uma ordem social fundada sobre infraestrutura
económica de propriedade privada.
Em 1973, apesar de uma séria erosão da sua aparentemente
inexpugnável ascendência industrial a seguir à II Guerra
Mundial, os EUA ainda possuíam uma capacidade industrial substancial
para competir nos mercados internos e mundiais. Os europeus temiam que a
desvalorização do US dólar, o mecanismo tradicional para
corrigir défices crónicos de balanças de pagamentos de
países gastadores, transformariam este potencial numa vantagem
inexpugnável nos mercados mundiais e dos EUA. Este componente da
armadilha do dólar foi reforçado em 1974 por um acordo com a
Arábia Saudita para reciclar os dólares recebidos pelo
petróleo saudita em bancos de Nova York e Londres. Àquele acordo
seguiu-se, uns poucos anos depois, um outro pelo qual "... o
secretário do Tesouro Blumenthal fez um acordo secreto com os sauditas
para assegurar que a OPEP continuaria a cotar o preço do petróleo
em dólares exigindo que os clientes pagassem o petróleo saudita
apenas em dólares dos EUA"
[1]
. Efectivamente, a partir daquele momento, o petróleo do Médio
Oriente foi substituído por ouro como suporte para o US dólar.
Este uso da dominação hegemónica das reservas de energia
do Médio Oriente, quer a sua motivação subjacente seja ou
não sustentar o Império da Dívida baseado no padrão
US dólar que emergiu a seguir a ruptura de Bretton Woods, merece
consideração especial. O poder das companhias petrolíferas
e automobilísticas dos EUA tem sido mencionado como a força
condutora do envolvimento militar dos EUA no Médio Oriente bem como a
razão porque este país não deu passos significativos para
o desenvolvimento de fontes de energia alternativas e o controle do aquecimento
global
[NR2]
. Contudo, com uma pequena reflexão, esta explicação
é pouco convincente. As fontes geográficas reais e previstas do
petróleo dos EUA sugerem que o resto do mundo é que está
mais dependente do Médio Oriente, não os EUA.
A seguir, vem a segunda Guerra do Golfo Pérsico. Muitos argumentam que o
conflito foi precipitado não por uma necessidade de petróleo
urgente ou a pedido de companhias de petróleo do EUA mas sim pela
decisão de Saddam Hussein, em Novembro de 2000, de exigir Euros ao
invés de US dólares pelo pagamento do petróleo do Iraque.
O jornalista Greg Palast documenta repetidas tentativas de companhias de
petróleo dos EUA para conseguirem que a administração
Cheney/Bush lhes permitisse recorrer ao processo menos provocativo de
simplesmente comprar petróleo iraquiano ao invés de tentar tomar
a posse física dos poços do Iraque.
[3]
No livro "The Prize", de Daniel Yergin, uma história da
indústria mundial do petróleo, Yergin enfatiza que as companhias
de petróleo ocidentais aprenderam há muito a adaptar-se a uma
nova ordem política mundial fundada sobre formas de imperialismo e
colonialismo menos declaradas.
Há toda a razão para acreditar que a presença dos EUA no
Médio Oriente tem muito mais a ver com a preservação de
uma camisa de força sobre as maiores reservas de petróleo barato
do mundo do que qualquer necessidade premente da economia estado-unidense. O
novo Grande Jogo que está a ser travado com a Rússia sobre o
controle dos pipelines das províncias ricas em petróleo da antiga
URSS para a Europa reforça a probabilidade de que o centro da
estratégia diplomática dos EUA tenha sido e continue a ser o
controle hegemónico sobre a oferta mundial de energia. Será isto
uma apólice de seguro para garantir que o mundo continuará a
aceitar US dólares? Será isto, ao invés do poder bruto das
companhias de petróleo dos EUA, a razão por que o presidente
Reagan imediatamente removeu os painéis solares da Casa branca quando
tomou posse um piscar de olho e um aceno aos aliados sauditas, ao
complexo militar-industrial, à Wall Street e aos bancos, bem como uma
carrancuda advertência aos nossos 'aliados'?
Será que a urgente necessidade de o mundo desenvolver fontes de energia
alternativas e de reestruturar-se economicamente a fim de preparar-se para um
futuro de recursos naturais minguantes foi sacrificada aos imperativos de uma
estratégia geopolítica dos EUA fundada sobre a
dominação dos combustíveis fósseis remanescentes no
mundo? Se o motivo subjacente para isto é reter o petróleo para o
US dólar e o mundo pretende ser sério acerca da
alteração climática
[NR2]
, do esgotamento dos combustíveis fósseis, da paz no Médio
Oriente e no mundo, precisamos de um novo sistema monetário
internacional.
Como mencionado acima, os elementos essenciais da armadilha do dólar
foram entendidos há muito. Alem de Hudson, há o
"défice não importa" de Dick Cheney ou o "a divisa
é nossa mas o problema é seu" do antigo secretário
Tesouro John Conolly. É esta incapacidade para fazer algo acerca da
armadilha do dólar na qual se encontram os europeus, para efectuar as
opções duras necessárias para conseguirem a liberdade, que
explica o desdenhoso desprezo do Donald Rumsfeld para com a "Velha
Europa".
Eis mais um comentário recente do Dr. Hudson sobre este tema:
Os Estados Unidos estão a incidir num défice comercial
crónico, no topo do qual está um aprofundamento das saídas
com gastos militares. Ao tratar deste viver crónico para além dos
meios financeiros do país, os diplomatas americanos são quase os
únicos do mundo que conduzem a diplomacia internacional do modo que os
manuais assumem que todos os países o fariam. Eles actuam puramente e
implacavelmente no seu próprio interesse nacional. O seu interesse
reside em obter o proverbial almoço gratuito, ao darem IOUs
(títulos de dívida) pelos recursos e activos reais de outros
países, sem intenção ou capacidade para pagar.
[4]
Uma falha fundamental no sistema monetário internacional do
padrão dólar pós Bretton Woods tem sido a sua
tolerância para com a dívida crescente dos EUA implícita
nos seus défices crónicos de balança de pagamentos.
Certamenteo, poder-se-ia argumentar que em mãos menos arrogantes e mais
refinadas do que aquelas da segunda administração Bush esta
sistema monetário internacional baseado no padrão dólar
poderia ter sido administrado de modo a perdurar muito mais tempo. Por exemplo,
utilizando uma política monetária inflacionária, as
dívidas dos EUA poderia ter sido reduzidas a uma dimensão
administrável em relação à escala da economia real
do país e à sua base fiscal. Naturalmente, líderes
políticos refinados no estrangeiro teriam percebido o que estava em
andamento. Contudo, enquanto o processo não tivesse impacto directo nas
suas clientelas, é improvável que tivessem objectado abertamente.
Contudo, os cortes fiscais de G.W. Bush e a implacável agenda militar
imperial foram tudo menos subtis. Os subornos à sua "base"
política e possivelmente ao seu fundo de aposentadoria como um
herdeiro da fortuna da família Bush encharcada no sangue dos
investimentos do Grupo Carlyle e em um século de investimentos nas
indústrias de armas e petróleo são óbvios.
Mas o custo do que um comentador europeu chamou de "saqueio"
precedendo o colapso das bolhas habitacionais e de endividamento podem ser ter
sido fatais para o soft-power
[NR1]
(dinheiro) baseado na ordem
económica internacional do pós guerra para a qual Franklin
Dellano Roosevelter e seus conselheiros tão brilhantemente
lançaram os fundamentos. Pois enquanto o governo dos EUA estava a
saquear bancos centrais estrangeiros para pagar os custos de projectar poder
militar por toda a parte do mundo, a Wall Street e os bancos dos EUA estavam a
saquear as poupanças dos cidadãos estado-unidenses e a
desindustrializar o que antes era um poderoso gigante industrial.
Em ambos os casos, o modus operandi foi o abuso de um sistema monetário
estado-unidense dependente dos bancos e do 'sistema monetário sombra' da
Wall Street para criar dinheiro como uma dívida directa a bancos
ou rendimento de investimento para os possuidores de títulos
financeiramente engendrados. Por mais de 300 anos reformadores do sistema
monetário têm estado a insistir junto a governos nacionais para
que reclamassem o direito de emitir dinheiro directamente, baseado sobre o seu
crédito soberano, isto é, sua capacidade para tributar,
afastando-se das "festas privadas" às quais foram disseminadas
com a criação do primeiro moderno banco central em 1694, o Banco
da Inglaterra. Mas há um certo número de razões para a
reforma monetária, embora certamente essencial, não poder ser a
cura para tudo que muitos dos seus advogados acreditam que poderia ser sem
certas pré condições.
Aqui está mais um excerto do Dr. Hudson sobre a utilização
da dívida pelas classes dominantes como um princípio
técnico para explorar as populações que elas dominam
um prática que, aliás, precedeu muito o advento da
banca central e que, se não controlada, resulta invariavelmente na
destruição das
civilizações que o permitiram:
Despenhadeiro abaixo! Foi a isto que a revolta dos senadores romanos de extrema
direita conduziu os seguidores dos irmãos Graco sobre a colina do
Senado, num exercício de violência política que impediu
Roma de conceder alívio da dívida no fim do segundo século
AC. Lívio, Diodorus, Plutarco e outros historiadores da época
atribuíram a provável queda do Império Romano às
suas duras leis de dívida orientada em favor dos credores. Mas hoje,
historiadores publicam livros especulando que talvez os problemas fossem
tubagens de chumbo ou taças de chumbo para o seu vinho, ou
doença, ou transcendência dos limites imperiais, ou
superstição tudo menos a causa que os próprios
historiadores romanos apontavam.
[5]
A utilização da dívida como uma ferramenta para explorar
populações estrangeiras e domésticas é uma forma
mais genérica do capitalismo financeiro que infligiu tal
destruição sobre o mundo do século XX e já
está a destruir os fundamentos da prosperidade dos EUA. A minha
definição de capitalismo financeiro é: a
utilização do dinheiro para criar lucros ao invés da
indústria, agricultura e infraestrutura social sobre a qual estes lucros
e a riqueza e o bem-estar de uma nação depende em última
análise.
(Há uma fascinante nota editorial que acompanha a
definição da Wikepedia de 'capitalismo financeiro':
"Tem sido sugerido que este artigo ou secção seja
fundido
no
capital financeiro
". Aqui está a definição da
Wikepedia: "
Capitalismo financeiro
é uma expressão na economia política marxista definida
como a subordinação de processos de produção para a
acumulação de lucros monetários num sistema
financeiro". E aqui está a sua definição para capital
financeiro: "Capital financeiro pode referir-se ao dinheiro utilizado por
empreendedores e homens de negócio para comprar o que precisam para
fabricar os seus produtos ou providenciar os seus serviços...".
Coisas elementares! Quem poderia objectar?)
Isto é o que os EUA tem estado a fazer furiosamente desde a ruptura de
Bretton Woods. Para ser mais preciso, os bancos, a Wall Street e os
investidores ricos têm na verdade estado a investir na infraestrutura
mas na China e em outros países em desenvolvimento onde eles
podem aproveitar-se de padrões de protecção ambiental
laxistas ou não existentes e níveis salariais de
subsistência (o eufemismo falado pelos economistas académicos
é 'arbitragem do trabalho').
A condição sine qua non para a escravização pela
dívida e o capitalismo financeiro é o controle do dinheiro
utilizado pelas populações sujeitas. Desde o fim da II Guerra
Mundial, mesmo após a ruptura de Bretton Woods, aquele dinheiro foi o US
dólar. Há razão para acreditar que os actuais interessados
no actual sistema monetário internacional baseado no padrão
dólar estão a tentar conceber uma nova forma global de dinheiro
que estaria livre das consequências do abuso de uma divisa de reserva
baseada sobre o dinheiro de qualquer país específico.
Nesse meio tempo, Bernanke, Geithner e os seus parceiros na comunidade
bancária internacional estão freneticamente a tentar evitar o
colapso do actual sistema monetário internacional baseado no
padrão dólar. Isto é o que quer dizer Henry Liu quando
escreve:
Através da globalização e do crescimento dos
euro-dólares (o nome dado a todos os dólares offshore em toda a
parte, não tem relação directa com o Euro ou com a
União Europeia), a economia dólar está cada vez mais
destacada da economia dos EUA. O que é bom para a economia dólar
não é necessariamente bom para a economia dos EUA.
[6]
Por outras palavras, o objectivo não é salvar o 'homem comum' e a
economia real nos EUA e alhures. É proteger o valor da riqueza do mundo
denominada em dólar.
Há algumas conclusões óbvias que podemos retirar de tudo
isto:
1. Se pretendermos salvar 'economias reais' nos EUA e em todo o mundo, o
primeiro passo essencial é repudiar
(writing down)
a maior parte da dívida fraudulenta acumulada sobre o mundo pela Wall
Street, pela comunidade bancária internacional, pelo complexo
congressional-militar-industrial dos EUA e, na base de tudo isto, investidores
ricos constantemente à procura de novas oportunidades para estender o
seu estrangulamento pela dívida às populações
sujeitas.
2. Uma vez limpo o terreno pelo repúdio da dívida, devemos
assegurar a reforma monetária baseada sobre dinheiro de
criação pública dinheiro criado por governos
nacionais de cuja criação o público e não partes
privadas desfrutam os benefícios e crédito nacional
soberano. Um dinheiro global, se ele tomar a forma de uma nova divisa de
reserva de um país como a China ou um cabaz de divisas dela e de outros
países ricos em recursos naturais ou humanos, é uma ameaça
à liberdade do mundo inteiro.
Finalmente, precisamos basear tanto os nossos sistemas monetários
nacionais como uma disciplina transformada da teoria económica sobre a
percepção de que:
"Quando a democracia houver assimilado que, nos dias de hoje, a
produção de riqueza é realmente um assunto de engenharia
científica, e não primariamente um assunto de como fazer bocados
de papel renderem juros, ..., terá aprendido alguma coisa a qual, como
matéria de facto, repousa tão próximo quanto
possível das raízes da liberdade económica nos dias
actuais".
[7]
O trabalho do Prémio Nobel
de química
Frederick Soddy apresenta um fundamento importante para um sistema
monetário nacional baseado sobre princípios científicos,
uma disciplina transformada da teoria económica e a substância de
um artigo seguinte.
24/Abril/2009
[1] "Petrodollar warfare: oil, Iraq and the future of the dollar",
William Clark, New Society Publishers, 2005, p. 20.
[2] O título de um livro de Bonner e Wiggins
[3] "Armed Madhouse, Greg Palast, Dutton, 2006
[4] "A guerra financeira contra a Islândia", Dr. Michael Hudson,
http://resistir.info/crise/hudson_05abr09.html
.
[5] "A pensar o impensável: Um cancelamento da dívida e um ano jubileu com
uma reabilitação", Dr. Michael Hudson,
http://resistir.info/crise/hudson_24set08.html
[6] "G20 Summit Missed the Real Target", Henry C.K. Liu,
http://www.atimes.com/atimes/Global_Economy/KD15Dj04.html
[7] "Wealth, Virtual Wealth and Debt", Frederick Soddy, E. P. Dutton
& Co., INC., 1933, p. 249.
[NR 1] Soft power:
Expressão usada em teoria das relações internacionais para
descrever a capacidade de um corpo político, como um Estado, de
influenciar indirectamente o comportamento ou interesses de outros corpos
políticos por meios culturais ou ideológicos. A expressão
foi usada pela primeira vez pelo professor de Joseph Nye, de Harvard. Ele
desenvolveu o conceito no seu livro de 2004,
Soft Power: The Means to Success in World Politics
(Soft Power: Os meios para o êxito no mundo político). Soft power
entrou desde então em discursos políticos como uma maneira de
distinguir os efeitos subtis de culturas, valores e ideias no comportamento de
outros. Nas palavras de Nye:
"O conceito básico de poder" é a capacidade de
influenciar outros a fazer o que você quer. Há três maneiras
de se fazer isto: uma delas é ameaçar o outro com o
bastão; a segunda é dar-lhes cenouras; e a terceira é
atraí-lo o outro, ou cooperar com ele, para que faça o que
você quiser. Se conseguir induzi-lo a querer o mesmo que você, isso
custará menos cenouras e cacetes".
Soft power representa portanto o terceiro meio de conseguir os resultados
desejados e é a antinomia de hard power, o poder sobretudo militar.
[NR 2] Trata-se de um falso problema. Ver
Aquecimento global: uma impostura científica
, de Marcel Leroux.
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