Inflação e risco financeiro
Estará a inflação a retornar às principais
economias capitalistas? Quando a economia dos EUA (em particular) e outras
economias importantes começam a recuperar-se do declínio de 2020
do COVID, o tema de discussão entre economistas académicos
é se a inflação nos preços de bens e
serviços naquelas
economias está em vias de acelerar até o ponto em que bancos
centrais tenham de endurecer a política monetária (isto é,
parar de injectar crédito no sistema bancário e elevar taxas de
juro). E se isso acontecesse, provocaria um colapso nos mercados de
acções e títulos e bancarrotas de muitas companhias mais
fracas quando o custo de servir a dívida corporativa ascendesse?
A actual teoria dominante para explicar e medir a inflação
é a das "expectativas inflacionárias". Eis como
um economic paper convencional
apresenta-a em relação aos EUA: "A longo prazo, um factor
determinante das pressões contínuas sobre os preços
é a expectativa de inflação. Quando as empresas, por
exemplo, esperam que os preços a longo prazo se mantenham em torno do
objectivo de 2% de inflação da Reserva Federal, poderão
ter menos probabilidades de ajustar os preços e salários devido
aos tipos de factores temporários discutidos anteriormente. Se, no
entanto, as expectativas inflacionárias se desprenderem desse objectivo,
os preços podem subir de forma mais duradoura".
Mas expectativas têm de ser baseadas em alguma coisa. As pessoas
não são estúpidas; expectativas das empresas e das
famílias de que os preços vão subir (mais rápido)
dependem de algumas hipóteses ou estimativas de como os preços
estão a mover-se e porque. Além disso, expectativas de
ascensão de preços não explicam as próprias
ascensões de preços.
Há uma razão para a teoria económica dominante ter sido
conduzida a este canto "subjectivo" na explicação e
previsão de inflação. É porque teorias dominantes
anteriores se demonstram erradas. A teoria principal do período do
pós-guerra era a monetarista,
que já discuti anteriormente
. Sua hipótese básica é que a inflação de
preços na economia "real" verifica-se e acelera-se se a oferta
monetária ascender muito mais rapidamente do que a
produção numa economia. A inflação é
essencialmente um fenómeno monetário (Milton Friedman) e é
causada por bancos centrais e autoridades monetárias a interferirem na
expansão harmoniosa da economia capitalista.
Mas a teoria monetarista demonstrou-se errada, particularmente durante a queda
do COVID. Durante o ano de 2020, a oferta monetária que entrou no
sistema bancário subiu mais de 25% e ainda assim a
inflação de preços no consumidor mal se modificou e
até mesmo desacelerou.
[NT]
A teoria monetarista demonstrou-se errada porque ela parte da hipótese
errada: que a oferta monetária conduz os preços de bens e
serviços. Mas o caso é o oposto: são mudanças nos
preços e na produção que conduzem a oferta
monetária.
Tome-se a fórmula monetarista: MV=PT, em que M é a oferta
monetária; V é velocidade da moeda (a taxa de
rotação de intercâmbios da moeda); P = preços de
bens e serviços e T = transacções ou actividade de
produção real.
A teoria monetarista assume que a velocidade do dinheiro (V) é constante
mas isto não é verdade, especialmente durante as quedas
(slumps)
e a queda da COVID em particular.
A enorme ascensão na oferta monetária (M) foi dissipada pela
queda sem precedentes na velocidade da moeda (V). Assim, MV, o lado esquerdo da
equação monetarista, não subiu muito. Ao contrário
da teoria monetarista, os preços dos bens e serviços não
foram impulsionados pelas injecções de crédito
monetário.
Mas então, será que esta moeda desapareceu? Não, ela ainda
lá está, mas as injecções de dinheiro da Reserva
Federal e de outros bancos centrais, conseguidas principalmente através
da "impressão de dinheiro" e da compra de enormes quantidades
de títulos do governo e de empresas, bem como da concessão de
empréstimos e subsídios, acabaram, em geral, não nas
mãos de empresas e famílias para ser gasta, mas nos
depósitos de bancos e outras instituições financeiras.
Esta moeda foi entesourada ou utilizada para financiar a
especulação em activos financeiros (um mercado bolsista em
expansão e investimentos em hedge funds, etc.). Assim, a velocidade da
moeda (V) em transacções de bens e serviços caiu a pique.
A teoria alternativa dominante da inflação é a keynesiana.
Esta é fundamentalmente uma teoria da "pressão dos
custos", nomeadamente que as empresas aumentam os seus preços
quando os seus custos de produção aumentam, particularmente os
salários, a maior parte dos custos de produção. Com
efeito, a teoria keynesiana é uma teoria de "pressão dos
salários". A inflação depende da procura e oferta
relativas de mão-de-obra que forçam aumentos salariais. Assim, o
argumento é: quanto mais baixa for a taxa de desemprego e quanto mais
elevada for a procura de mão-de-obra em relação à
oferta disponível, mais os salários e depois os preços
serão forçados a subir. A teoria keynesiana vê a
inflação como sendo causada por trabalhadores que recebem
aumentos salariais demasiado elevados (e acabam por perder em termos reais
à medida que os aumentos de preços comem os aumentos salariais).
A forma keynesiana habitual para estimar prováveis mudanças na
inflação é utilizar a chamada curva de Phillips: a curva
da relação estatística entre a taxa de desemprego e a taxa
de inflação dos preços. Mais uma vez, no entanto, esta
teoria provou ser falsa. A 'curva' não se mantém ou é
tão 'plana' que não fornece qualquer orientação
sobre a inflação. De facto, desde a Grande Recessão de
2008-9, as taxas de desemprego nas principais economias caíram para os
níveis mais baixos de todos os tempos e, no entanto, os aumentos
salariais têm sido relativamente moderados e as taxas de
inflação abrandaram. Esta é a imagem reflexa dos anos 70,
quando as taxas de desemprego subiram para máximos, mas a
inflação também, e tivemos o que se chamou de
"estagflação". Ambos os exemplos mostram que a teoria
keynesiana da "pressão dos custos" é falsa. Na figura
abaixo, com base em dados mensais, a linha azul mostra onde deveria estar a
curva keynesiana Phillips se ela funcionasse; e a linha vermelha mostra onde
ela
realmente está.
Na verdade, a linha vermelha mostra que a queda do desemprego leva a um
abrandamento da inflação, pelo menos desde 2010!
O problema com a teoria keynesiana da inflação é que ela
assume que os lucros vêm do investimento e não da
exploração da força de trabalho. A teoria keynesiana diz
que o S (valor excedente) é o resultado de C (stock de capital) e
não do V (força de trabalho). Assim, se C é constante,
então S é constante e quaisquer aumentos de preços devem
vir de V (aumentos salariais). A visão de Marx era diferente. No seu
discurso a sindicalistas em 1865
, ele argumentou contra a visão de que aumentos salariais causam
inflação. Na sua opinião, uma subida em V levará
geralmente a uma queda em S (lucros) e não a uma subida de
preços. Eis porque os capitalistas se opõem veementemente aos
aumentos salariais.
E não há inflação salarial. Na verdade, nos
últimos 20 anos até ao ano da COVID, os salários semanais
reais aumentaram em média apenas 0,4% ao ano, menos ainda que o
crescimento médio anual do PIB real de cerca de 2%+. Foi a parte do
crescimento do PIB que a ir para os lucros que aumentou (como argumentou Marx
em 1865).
Se haverá alguma "pressão de custos" este ano, ela
virá de empresas a subirem preços quando o custo das
matérias-primas,
commodities
e outros factores de produção aumentarem, em parte devido
à "ruptura da cadeia" de abastecimento decorrente do COVID. O
Financial Times
relata que " aumentos de preços emergiram como tema dominante no
momento dos rendimentos trimestrais começados este mês nos EUA.
Executivos da Coca-Cola, da Chipotle e da fabricante de
electrodomésticos Whirlpool, bem como gigantes de marcas familiares como
Procter & Gamble e Kimberly-Clark, na semana passada disseram todos a analistas
de rendimentos que se preparavam para aumentar preços a fim de compensar
custos crescentes dos insumos, particularmente de
commodities
".
Para entendermos realmente do que causa inflação e se esta
está a voltar depois da COVID, temos de retornar à teoria do
valor de Marx. A procura de bens e serviços numa economia capitalista
depende do novo valor criado pelo trabalho e apropriado pelo capital. O
capital apropria-se do valor excedente da exploração da
força de trabalho e compra bens de capital com esse valor excedente. O
trabalho recebe salários e compra bens de primeira necessidade com estes
salários. Assim, são os salários MAIS os lucros que
determinam a procura (investimento e consumo).
Voltando à fórmula monetarista MV=PT. Se MV ficar inalterado como
grosso modo se passou na queda do COVID, então qualquer
alteração em P (preços) dependerá de qualquer
alteração em T (o novo valor dos bens e serviços
produzidos).
A longo prazo, o crescimento em T tende a abrandar. Porquê? Porque T se
baseia na produção capitalista para lucro e como os capitalistas
tendem a tentar aumentar os lucros através da mecanização
e da substituição do trabalho, há um declínio
relativo do
novo
valor produzido (porque só o trabalho pode criar valor, não as
máquinas). Se o crescimento de T abranda, então há uma
tendência para a inflação de preços abrandar. E
isso está provado empiricamente. Quando a taxa de lucro começou
a cair na maior parte das grandes economias após o fim dos anos 90 e o
crescimento do novo valor diminuiu, particularmente na última
década, os aumentos de preços diminuíram.
Agora os trabalhadores não querem inflação pois esta se
corrói padrões de vida real. Mas o capital gosta de alguma
inflação, pois aumentos de preços permitem às
empresas expandir a produção e aumentar os lucros à custa
dos salários. Assim, os bancos centrais e as autoridades
monetárias tentam combater a tendência de longo prazo para a baixa
da inflação dos preços injectando moeda e crédito
(mais M). A oferta de moeda actua como uma contra-tendência para
abrandar a criação de valor. Assim, a taxa de
inflação (P) depende tanto de M<>T. Evidentemente, na
prática, o Fed e outros bancos centrais não podem
"administrar" a inflação, pois ela depende do que
está a acontecer na produção capitalista. Na verdade,
durante os últimos 20 anos, os bancos centrais não conseguiram
atingir o seu objectivo de taxa de inflação de cerca de 2% ao ano
com ziguezagues monetários nas taxas de juro e nos controlos
monetários.
Um modelo marxista de inflação,
que já esbocei num post anterior
, sugere que é o movimento dos lucros e da procura de investimento,
juntamente com o crescimento da oferta monetária, que irá
impulsionar a inflação dos preços este ano e no seguinte.
Assim, assumindo aumentos acentuados dos lucros e injecções
contínuas de oferta monetária (se a um ritmo mais lento), este
modelo prevê que a inflação no consumidor norte-americano
irá ultrapassar os 3% este ano e no próximo.
A curto prazo, a inflação de bens e serviços poderia
aumentar de qualquer forma devido a "efeitos de base" (efeitos
estatísticos), "rupturas de cadeia" devido ao COVID ou da
chamada "procura reprimida". Mas estes factores são
provavelmente transitórios, como argumenta o Presidente do Fed Jay
Powell. Mas se a inflação for bem acima da meta anual de 2% do
Fed durante algum tempo, isso poderá levar a um aumento significativo
nos rendimentos (taxas de juro) de títulos, os quais não
estão sob o controlo do Fed. A secretária do Tesouro dos EUA,
Janet Yellen, a ex-chefe do Fed, deu a entender que se a inflação
subisse mais do que o esperado, o Fed actuaria para controlá-la
através de uma política monetária "mais
rigorosa", a qual também aumentaria os rendimentos
(yields).
Isto aumenta as probabilidades de as partes mais fracas do sector empresarial
nas grandes economias entrarem em dificuldades e apelarem a uma crise de
dívida. Lembre-se: a dívida das empresas em
relação à produção está no seu ponto
mais alto de sempre nas grandes economias.
No seu recente
Financial Stability Report
, a Reserva Federal dos EUA advertiu que medidas existentes de alavancagem de
hedge funs "podem não estar a capturar riscos importantes",
apontando o
colapso da Archegos Capital como um exemplo de vulnerabilidades ocultas no sistema financeiro global
. O Fed descobriu que algumas avaliações de activos são
"elevadas em relação às normas
históricas" e "podem ser vulneráveis a declínios
significativos caso o apetite de risco caia". Por outras palavras,
é possível um colapso do mercado de acções e
títulos.
Tomar emprestado barato acumulado pelos bancos para especular nos mercados
financeiros é chamado "dívida marginal". De acordo com
a
Financial Industry Regulatory Authority
dos EUA, a dívida marginal atingiu US$822 mil milhões no final
de Março logo após a Archegos ter falido. Isto era quase o
dobro do nível de US$479 mil milhões de Março de 2020,
quando começaram os confinamentos pandémicos e o Fed injectou
crédito. E é muito mais do que o pico de cerca de US$400 mil
milhões que a dívida marginal atingiu em 2007, pouco antes da
crise financeira.
Assim, qualquer retorno significativo da inflação em bens e
serviços pode deitar abaixo o castelo de cartas que é o sector
financeiro. O que acontece nos sectores produtivos da economia capitalista
ainda continua decisivo.
09/Maio/2021
[NT]
Os conceitos de M0, M1, M2 e M3, relativos à oferta monetária, estão
explicitados
aqui
. Em 23/Março/2006
o banco central dos EUA cessou de divulgar as suas estatísticas do M3
.
[*]
Economista.
O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/2021/05/09/inflation-and-financial-risk/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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