Gulliver no país da macroeconomia

por Alejandro Nadal [*]

Quando Jonathan Swift escreveu As Viagens de Gulliver, uma sátira sobre as vaidades que animam a política e as guerras entre as nações, a teoria económica ainda não havia nascido. Sem embargo, já existiam reflexões sobre os preços e a quantidade de moeda em circulação O mesmo Swift participou de uma controvérsia sobre uma reforma monetária na Irlanda, opondo-se à introdução de moedas de cobre, argumentando que o valor de cada unidade se degradaria e a moeda de má qualidade deslocaria a moeda de boa qualidade da circulação, a qual seria entesourada.

Em sua história, Lemuel Gulliver chega ao país de Lilliput e se surpreende com sua população de homúnculos (15 centímetros de altura), mas não estranha que no reino exista uma economia com moeda própria, um tesouro público, empréstimos e taxas de juros. Ao mesmo tempo, as classes sociais, a divisão do trabalho e as diferenças hierárquicas e órgãos de governo lhe revelam que não é possível agrupar todo o complexo tecido social numa única entidade. A heterogeneidade de grupos sociais impedia a agregação de todos os minúsculos indivíduos para pensar em um único capaz de representar todo o reino. Gulliver percebeu que Lilliput era mais que a soma de suas partes.
A obra de Swift foi um êxito. Porém, algum tempo depois os economistas ressuscitaram a ideia de que a agregação de indivíduos para conformar uma única entidade era, sim, possível. Em 1890 Alfred Marshall utilizou a noção de firma representativa (em seus "Princípios de Economia" ) para analisar a oferta de mercadorias. O objectivo era representar uma única curva de oferta de bens a nível agregado com as mesmas características das curvas de custo médio e marginal das firmas individuais. Sua ideia era a de que a agregação de todas as firmas daria como resultado uma firma que pudesse representa-las para fins analíticos. Em 1928, o economista italiano Piero Sraffa demonstrou que isso era impossível e desmontou as bases analíticas do conceito de Marshall. Porém, em 1970 o economista Robert Lucas começou a utilizar a noção de agente representativo em modelos macroeconómicos. Nos anos seguintes, o enfoque de Lucas revolucionou a forma de se fazer teoria e política macroeconómica.

Desgraçadamente, o movimento desencadeado por Lucas e associados pôs a teoria e a política macroeconómica no caminho do obscurantismo e da superstição. A noção de agente representativo foi utilizada por Lucas para agregar fundamentos microeconómicos à teoria macroeconómica, conferindo-lhe rigor e consistência. Os modelos inspirados nesta corrente reduzem o problema económico duma economia às decisões que o agente representativo deve tomar sobre a optimização, a escolher entre o consumo, o trabalho e o lazer. Tem-se como dado que em tais modelos não existe o desemprego involuntário, somente o lazer.

Em 1974, três economistas do establishment (Hugo Sonnenschein, Rolf Mantel e Gerard Debreu) demonstraram com seus teoremas matemáticos que a agregação dos agentes individuais utilizados nos modelos neoclássicos não permite reencontrar as propriedades de racionalidade que a teoria convencional atribui aos agentes individuais, isto é, a ideia de um consumidor racional que reduz a compra de uma mercadoria quando seu preço se eleva não se conserva no agregado. Em outras palavras, o consumidor representativo pode comportar-se de maneira absurda e decidir comprar mais de uma mercadoria ainda que seu preço esteja a aumentar. Certamente isso destrói a ideia de que os mercados sempre alcançam um equilíbrio entre a oferta e a procura.

Porém, a quem os resultados científicos estorvam quando tudo que se busca é uma bela ideologia? Os teoremas de Sonnenschein-Mantel-Debreu foram convenientemente ocultados e exilados das aulas onde se ensina a teoria económica. E os modelos macroeconómicos de expectativas racionais com agentes representativos seguiram como o cavalo de batalha dos bancos centrais e dos ideólogos do neoliberalismo. Claro, sofreram várias metamorfoses (modelos de ciclos de negócios, modelos neokeynesianos e novos clássicos) e passaram por sessões de maquiagem matemática e econométrica para disfarçar a estultice (modelos dinâmicos estocásticos de equilíbrio geral). Talvez o resultado mais conveniente desses modelos seja que as crises viram fumaça.

A teoria macroeconómica neoclássica está doente. Do ponto de vista científico, o programa reducionista da teoria macroeconómica baseado na possibilidade de agregar os habitantes de Lilliput para conceber uma espécie de novo Gulliver conduz a resultados aberrantes. O mundo que nos rodeia é heterogéneo e orgânico. Se continuamos a utilizar o reducionismo (o todo é igual à soma de suas partes) na macroeconomia, não é por suas virtudes analíticas e sim por sua eficácia ideológica.

18/Julho/2018

[*] Economista.

O original encontra-se em www.jornada.com.mx/2018/07/18/opinion/020a1eco . Tradução de LL.


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