Os objectivos infames do "grande reinício"

por Dimitri Orlov [*]

Um sósia de Jeff Besos. Suponha que é um dos génios maléficos que dirigem a economia mundial. Certamente gostaria de continuar a dirigi-la de maneira estável, segura e rentável, apesar dos problemas que podem surgir de tempos a tempos. Gostaria de resolver esses problemas de maneira rápida e eficaz, sem chamar a atenção para si mesmo e para os seus maus hábitos. Quais são então os problemas que acha serem os principais, exigindo uma solução rápida e preventiva e como deveriam ser resolvidos?

Em primeiro lugar, iria descobrir que existe um grande problema com o abastecimento mundial de energia. Isto foi previsto repetidamente desde meados da década de 1990, mas vários avanços tecnológicos e manobras geopolíticas atrasaram a crise final em duas décadas. Agora a crise final aproxima-se cada vez mais. As descobertas de novos recursos ficaram tão aquém da produção que não há esperança de um dia a alcançar. A última grande esperança para os Estados Unidos e o mundo, a fracturação hidráulica, está a caminho da falência, nunca tendo obtido muito lucro. A maioria das empresas do sector faliu ou está prestes a falir. As energias renováveis, na forma de electricidade eólica e solar, provaram ser muito caras e pouco atraentes para as redes eléctricas devido à sua intermitência e à incapacidade de armazenar grandes quantidades de electricidade. Manobras geopolíticas, como a tentativa de derrubar o governo da Venezuela e roubar seu petróleo ou sancionar a Rússia para que se comportasse como um posto de gasolina com uma economia destroçada, todas falharam. A taxa de retorno de energia EROEI uma medida difícil de calcular, mas em última análise decisiva da viabilidade de qualquer empreendimento de energia – continua a declinar.

No papel de génio do mal e não apenas como um simples amador ignorante na sua poltrona, deve estar totalmente ciente que a incapacidade de fazer algo para equilibrar a oferta e a procura de combustíveis fósseis causaria o colapso da economia mundial. Desde o advento da industrialização baseada no carvão, o crescimento económico sempre foi acompanhado por um aumento proporcional do uso de combustíveis fósseis. Mas agora esses aumentos parecem impossíveis. A economia global de hoje depende do crédito para apoiar a produção e do crescimento contínuo para se manter solvente. Nesse esquema, a única alternativa para o crescimento económico contínuo é o colapso económico. Portanto, tem de se começar a procurar formas de reequilibrar a equação da energia fechando partes da economia mundial e permitindo que outras continuem a crescer. Como ninguém está particularmente desejoso de se precipitar para o matadouro, a sua tarefa é encontrar uma maneira de induzi-los a irem para lá voluntariamente, supostamente para o seu próprio bem.

A próxima questão a colocar é saber quais as nações industrializadas que estão prontas para o gancho do talhante. Verificará que alguns países viveram continuamente acima das suas possibilidades. Pediram dinheiro emprestado repetidamente muito para além de seu potencial de crescimento económico, a sua capacidade de pagar as dívidas em que incorrem é exactamente nula. O mais importante dentre estes são os Estados Unidos, que vivem desde há décadas de empréstimos e cuja dívida gigantesca ofusca todos os excessos precedentes reunidos.

Combinado com a crescente perda de estatuto do dólar como de moeda de reserva e a consequente perda do exorbitante privilégio de imprimir dinheiro conforme as suas necessidades, isto coloca os EUA no epicentro do inevitável colapso financeiro.

Interpretaria então o pânico do mercado REPO [1] de Agosto de 2019, quando os juros sobre empréstimos overnight, usando a dívida federal dos EUA como garantia, atingiram 10%, como uma fissura na fachada da cuidadosamente mantida aldeia Potemkin [2] do sistema financeiro dos EUA.

Se olharmos para o orçamento dos EUA, notamos que este país não é capaz de financiar os seus défices orçamentais, cada vez maiores, pedindo empréstimos no exterior, já que os estrangeiros agora são vendedores líquidos de títulos de dívida dos EUA. Ficará chocado ao descobrir que o governo dos EUA pede empréstimos para quase metade das suas despesas, estando a acumular dívidas de curto prazo duas vezes mais rapidamente do que poderiam pagá-las, despreocupadamente prevendo contrair mais dívidas de curto prazo e obter ainda mais empréstimos nos próximos anos. A imagem que vem à mente é a de um touro particularmente teimoso, parado no meio dos carris tentando desafiar o comboio que se aproxima.

Como génio financeiro que é, você sabe tudo o que há para saber sobre esquemas em pirâmide e identifica facilmente o estado actual das coisas como um puro esquema em pirâmide. Como todos os esquemas em pirâmide falham, e tendem a fazê-lo mais ou menos instantaneamente, começará a procurar uma maneira de antecipar o colapso para conservar o controlo da situação. O seu principal objectivo a curto prazo seria evitar o pânico e mergulhar a economia mundial numa espécie de coma induzido, alimentando-a com uma infusão de dinheiro grátis. Essa pausa iria dar-lhe a oportunidade para fazer algumas mudanças necessárias, algumas meramente cosméticas, outras mais espectaculares.

Contudo, não haverá energia suficiente para fazer funcionar a economia industrial global; por isso partes dela precisam ser fechadas. Que partes? É improvável que uma abordagem ad hoc segundo os seus desejos seja eficaz porque o que resta da economia mundial no final deste processo deve estar intacto, contíguo, estável, próspero e ser suficientemente amplo, abrangendo, digamos, dois ou três mil milhões de almas, de um total absolutamente supérfluo de mais de 7,5 mil milhões, dos quais se diz que metade subsiste com menos de um dólar mítico por dia. O Sul indigente claramente não é um problema com o qual você, o génio do mal que governa o mundo, precise de se preocupar. Essas pessoas, de uma maneira ou de outra, já se desembaraçam sozinhas. Na realidade, não fazem parte da economia mundial.

Então, que partes da economia mundial deveriam fechar? Uma excelente oportunidade, imediatamente disponível, graças ao medo artificialmente exagerado da pandemia, é matar o turismo internacional. Isso é o que tem sido feito: a indústria hoteleira e aérea está arrasada, assim como restaurantes, estações termais e muitos outros negócios que recebem turistas internacionais. Os navios de cruzeiro estão a ser desmantelados para sucata. Isto reduziu o consumo de destilados de petróleo. Ao contrário da gasolina, útil para viajar sem rumo em pequenos veículos de passageiros e que é em grande parte um resíduo criado por refinarias de petróleo, destilados de petróleo como combustíveis para aviões, nafta, fuel e diesel, são a força vital da economia global. O seu uso para transportar turistas para locais de férias é um grande desperdício, inacessível.

Mas enquanto o uso de destilados de petróleo diminuiu, o mesmo ocorre com a gasolina, dado que é cerca de metade do que cada barril de petróleo bruto pode refinar. A solução é evitar que os trabalhadores se desloquem para o trabalho fazendo com que trabalhem em casa. É puro desperdício fornecer aos trabalhadores de escritório um lugar para dormir e se distraírem e outro para trabalhar; eles podem fazer tudo com o mesmo colchão e a mesma conexão de Internet, usando o mesmo computador portátil e telemóvel. Uma vez que já não há necessidade de viajar, a necessidade de manter escritórios nas grandes cidades também desaparece e as cidades e subúrbios podem ficar despovoadas. A população pode facilmente realizar teletrabalho no campo. A necessidade de ir ao supermercado em automóvel pode ser substituída por um caminhão de entrega semanal, o que permite que a maioria das lojas de comércio local também feche. Num ambiente rural, pode-se eventualmente ensinar as pessoas a cultivar e produzir sua própria comida, a se aquecerem com a lenha que apanhem e, finalmente, a ficarem meio selvagens para desaparecerem da vista dos génios.

Uma vez que não é necessário deslocar-se em automóvel para dirigir-se até às lojas, é possível reduzir a mobilidade geral da população, reduzindo ainda mais o consumo de energia. A melhor maneira de conseguir isso é eliminar o transporte privado de longa distância instituindo portagens muito altas em auto-estradas e, ao mesmo tempo, introduzir regulamentos estritos que devem ser seguidos antes de permitir que os passageiros embarquem em transportes públicos, comboios ou aviões. As medidas de saúde pública e segurança podem desempenhar um papel importante a este respeito.

Um efeito secundário admirável de dispersar a população no campo ao mesmo tempo que se limita a sua mobilidade é que o protesto político se torna inútil. Uma vez que as pessoas deixam de poder reunir-se e protestar em massa, os seus movimentos de protesto tornam-se virtuais e limitados às plataformas das redes sociais que, sendo privadas, podem simplesmente ser fechadas. Quando as autoridades precisam intervir, elas podem controlar facilmente o tráfego da Internet e do telemóvel e restringir a movimentação física de qualquer pessoa que considerem suspeita. Os custos de manutenção da ordem, dispersão de protestos e supressão de rebeliões são, portanto, consideravelmente reduzidos. Uma primeira medida útil consiste num primeiro tempo, deixar de manter a ordem nas grandes cidades permitindo que criminosos e saqueadores governem livremente, provocando um êxodo perfeitamente voluntário das cidades para o campo.

Um outro efeito secundário do colapso das grandes cidades sob ondas de crime, protestos e tumultos é que criminosos, manifestantes e desordeiros podem ser agrupados, presos e usados como escravos. A vigilância electrónica contemporânea, com detecção de telemóveis, videovigilância e reconhecimento facial baseado na inteligência artificial, torna mais fácil identificar e localizar os autores daqueles actos. Em particular nos Estados Unidos, onde a escravatura ainda é legal desde que um tribunal imponha uma sentença por um crime específico (como afirma a 13ª Emenda da Constituição) e onde massas de escravos negros e latinos trabalham duramente em prisões privatizadas, bastante análogas às plantações do sul antes da Guerra Civil, esta é uma técnica poderosa para converter o excedente de população em mão-de-obra gratuita.

Uma das principais fontes de consumo de energia é gasta no que pode ser definido como luxo. Numa economia de mercado livre a escolha do consumidor é sagrada, um grande número de empresas respondem a todas as necessidades, desde salões de manicura a cuidados com cães, passando por bares, restaurantes, serviços de restauração, serviços de massagem, ioga, roupas de marca, etc. Nenhum destes negócios é essencial e, portanto, pode ser encerrado, desde que seja encontrada uma desculpa ligada à segurança pública para o fazer. Em vez de tudo isto, uma cesta de bens de consumo essenciais pode ser entregue em casa, gratuitamente e regularmente, por equipas de voluntários da comunidade fortemente armados.

Normalmente, seria de se esperar que a proposta de mergulhar a economia mundial num coma induzido por medicamentos encontrasse considerável resistência. A solução brilhante é assustar todos para que se submetam, fazendo incessantemente a apologia de um vírus respiratório não particularmente perigoso. De acordo com estimativas recentes e provavelmente ainda muito altas da Organização Mundial da Saúde, o novo SARS-CoV-2 tem uma taxa de mortalidade por infecção (IFR) de apenas 0,14%. [3] Essa taxa é significativamente maior do que os 0,10% da última grande pandemia viral respiratória, a gripe de Hong Kong de 1968-69, que matou entre 1 e 4 milhões de pessoas em todo o mundo e talvez tenha contribuído um pouco para a queda de 0,6% do PIB dos EUA (embora essa queda se deva principalmente ao fim dos gastos relacionados com a Guerra do Vietname). Mas, como a taxa de infecção do novo vírus tende a ser gravemente subestimada (isso é complicado porque não causa sintomas na maioria das pessoas), o valor IFR final provavelmente será significativamente menor.

Como começamos a saber, certo descrédito dos alarmistas está a tornar-se inevitável. Mas até agora a missão das elites de apostarem no medo tem tido um grande sucesso. As previsões alarmistas de milhões de mortes baseadas num falso modelo de computador inventado por Neil Ferguson, um ex-físico teórico do Imperial College of England (cujas previsões, por muitos anos, foram tão falsas quanto o dia é longo), associadas ao espectáculo e exagero usual, ao frenesim em torno do surto inicial na China, fez com que os governos em todo o mundo reagissem de forma exagerada, fechando grande parte de suas economias.

As pessoas mais espertas já reuniram uma série de factos que minam muito a excessiva publicidade mediática, nomeadamente que tentar impedir o vírus de se propagar era uma corrida louca; que os danos causados pelas medidas de emergência são muito mais graves do que os causados pelo próprio vírus; que este vírus é um inoculante seguro e eficaz contra si mesmo, evitando assim a necessidade de vacinas.

Mas nada disso importa: o coma económico global foi induzido conforme previsto e apenas as nações e economias mais promissoras e estáveis sairão dele um dia. Essa pausa legal vai dar ao génio do mal no comando da economia mundial a possibilidade de resolver alguns problemas mais importantes, como:

  • Longevidade: resolver o problema da sobrepopulação de pensionistas e reformados, uma vez que os fundos de pensão e reforma ficarão vazios e não haverá recursos para dedicar à medicina geriátrica.
  • Automação: reduzir a intensidade energética da economia, voltando ao trabalho manual, mantendo um controle muito rígido sobre a força de trabalho.
  • Inteligência artificial: retirar funções intelectuais dos cérebros humanos e entregá-las a servidores informáticos que executam algoritmos de inteligência artificial, enquanto os sistemas de educação pública são reformados afastando-os do desenvolvimento intelectual, limitando-o ao ensino das competências manuais, ou seja, carregar em botões e obedecer.
  • Lidar com o problema dos "macacos com granadas nas mãos": livrar certas nações anteriormente desenvolvidas e industrializadas, mas agora em colapso, de certas armas muito perigosas, incluindo as nucleares, para evitar que travem combates no seu próprio país ou noutros países.
  • Reorganizar: reconectar as cadeias de abastecimento agora interrompidas, em novas associações da indústria incluindo apenas os países e regiões que permanecerão economicamente viáveis pelo menos nas próximas décadas, enquanto se desconecta permanentemente o resto.

Discutiremos estas questões em próximos artigos. Entretanto, aproveite o coma económico induzido pela medicina e, se alguém perguntar por que tudo isso é necessário, diga que é por causa do terrível coronavírus e não tem nada a ver com coisas tais como a bolha financeira dos EUA que está prestes a estourar ou a falência da indústria de fracturação hidráulica dos EUA (o que, a propósito, é certamente o caso).

NT
[1] Acordo de venda e recompra, forma de empréstimo de curto prazo, principalmente em títulos do governo.
[2] Uma aldeia Potemkin é em política e economia uma construção cujo único objectivo é proporcionar uma fachada externa a um país que está mal, fazendo as pessoas acreditarem que o país está bem, embora os dados mostrem o contrário.
[3] Segundo a OMS, o valor atual do número de mortes em relação à população mundial é de 0,016%. Em relação aos casos de infeção globais é de 2,53% case fatality rate


[*] Autor de The Five Stages of Collapse: Survivors' Toolkit ,   Reinventing Collapse: The Soviet Experience and American Prospects e   Shrinking the Technosphere

O original encontra-se em cluborlov.blogspot.com/2020/10/nefarious-objectives.html


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09/Nov/20