Qual crise?

por Alejandro Marcó del Pont

A Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) cortou a sua taxa de referência em meio ponto percentual, numa tentativa de proteger a economia da desaceleração do sector imobiliário e das turbulências no mercado

A decisão unânime do banco central levou a taxa de fundos federal a 4,75%, o seu menor nível desde Maio do ano passado. Trata-se da primeira baixa no custo do dinheiro desde Junho de 2003 e do primeiro corte de meio ponto desde Novembro de 2002. O Fed também baixou em meio ponto a taxa de desconto que cobra aos bancos por empréstimos directos, para 5,25%.

Os mercados financeiros esperavam que o Fed reduzisse a taxa, mas surpreenderam-se com o corte agressivo de meio ponto percentual, o primeiro corte desde que Ben Bernanke assumiu a presidência em Fevereiro de 2006.

Gráfico 1. Aparentemente, os assessores do presidente americano ter-lhe-iam explicado em inúmeras ocasiões a instabilidade existente nos mercados – sem conseguir, naturalmente, que baby Bush compreendesse o problema. Ainda assim, e perante a insistência da imprensa quanto à sua visão da crise, o brilhante estadista declarou que "a culpa cabia aos devedores que assinaram hipotecas sem saber o que estavam a fazer. A solução está num programa de alfabetização financeira ".

A estupidez não parece ser património [exclusivo] da Casa Branca. De facto, o pobre American Idol que reside em Washington não foi o único não conseguiu decifrar os estranhos hieroglifos do mercado mundial de capitais. Tão pouco o conseguiram alguns telúricos economistas do terceiro mundo, que continuam a vasculhar as hipotecas lixo (subprime) como epicentro e continuidade da crise mundial.

Será um problema de avaliação de activo, ou é uma crise de liquidez? Não, talvez antes um problema de insolvência? A princípio foi tomada como uma crise de liquidez, em tal grau que a partir de 8 de Agosto tanto a Reserva Federal dos EUA como o Banco Central Europeu investiram 137.200 milhões o primeiro e 130.000 milhões o segundo para que, como mostra o quadro, nada se modificasse.

Gráfico 2. O estranho, para aqueles que acreditam que as subprime são o princípio e o fim do tsunami, é que actualmente estão a cair em mora os empréstimos de 2004 e 2005 — quando as exigências da banca eram ainda maiores do que nos concedidos em 2006 e 2007 em que se deram hipotecas "sem necessidade de ter trabalho e inclusive só com uma identificação bancária ou uma conta corrente". Se isto é assim, a queda será em câmara lenta.

Normalmente os bancos realizam operações de refinanciamento das suas dívidas a curto prazo. Isso é padrão. Mas agora as taxas para realizar essas operações elevaram-se desorbitadamente, o que é um indicador dos níveis de alarme que imperam no mercado. As ramificações são extraordinárias. Na Europa, por exemplo, os bancos estiveram a comprar títulos estado-unidenses com o suporte de activos que perderam valor de maneira brutal. Por isso, no dia da conferência de imprensa de Bush, o Banco Central Europeu (BCE) injectou 130 mil milhões de dólares nos mercados financeiros, respondendo à repentina falta de fundos para refinanciar operações. Para dar uma ideia da magnitude do problema, este montante é superior ao injectado no dia seguinte dos atentados no World Trade Center no 11 de Setembro [1] .

Uma vez que a reacção do mercado ao prémio aos especuladores não deu resultados, a segunda tarefa do Fed é reduzir de maneira significativa a taxa de juros. Com isto conseguirá um pouco de tempo nos mercados, pois estes trabalham de maneira inversa à taxas, ou seja, aumenta a taxa, cai o mercado, baixa a taxa aumenta o mercado.

A bolha imobiliária gerada e potencializada por Greenspan abrange só uma pequena parte das hipotecas americanas, pelo que a sua função foi apenas de disparador do desregulado mercado financeiro global — no qual o mercado de derivados converteu-se numa arma de destruição maciça.

As bolhas financeiras especulativas e a irracionalidade que as estende ao longo do sistema não surgem da noite para o dia, como antecipámos há um ano em "A futura crise da economia mundial" (Relatório Nº 91), onde expusemos que um sem número de indicadores punha em evidência a estrutura mundial de risco.

As salvações realizadas pelos bancos centrais resultaram insuficientes. Em consequência, o Fed adoptou medidas extremas de liquidez quando na realidade o problema é de solvência. Pelo que é provável que este lento e previsível choque de tartarugas assinale que as possibilidades de uma recessão sejam agora maiores.

Os Estados Unidos baixaram as taxas porque não podem conter o que eles mesmos geraram. Mas esta baixa teve impacto no preço do ouro, do petróleo e suspeita-se que a inflação e a perda de confiança retraiam o investimento, o consumo e portanto o seu crescimento e o comércio mundial.

Se os Estados Unidos crescem menos, o mundo cresce menos e, como é evidente, os donos do petróleo não querem pagamentos em moeda desvalorizada, pelo que continuam a aumentar o seu preço. Se o mundo cresce menos, a Ásia modificará o seu crescimento e com isso o valor das commodities que eles estão a manter. Menor consumo, menor investimento, maiores taxas para financiar a economia americana, tudo parece invertido.

Enquanto isto acontece, os amigos chineses que têm mais de 1 mil milhões de dólares em reservas, supõe-se que ficarão tranquilos a verem como os seus haveres de forma notória sem nada fazer. Ou seja, não sairão da área do dólar, seja quanto for que possam perder. De Setembro de 2006 até à data o dólar depreciou-se só uns 10% — e uns 63% desde 2001.

Os amigos japoneses, por sua vez, motores vivos da liquidez e prestamistas da festa dos carry trade, que haviam visto a sua moeda reavaliar-se em 5% desde a crise, agora em apenas oito dias viram-na depreciar-se em 2,9%. Depois de deixar a taxa de juros em 0,05% o próprio Banco do Japão ressuscitou a especulação.

Durou um só dia a euforia da baixa inesperada de 50 pontos da taxa de juros provocada pelo Fed. No segundo dia, os mercados continuaram com a sua desconfiança, o yen continuou a aumentar, o que implica compra e yens e venda de dólares para cobrir posições onde foi tomado crédito. Não é possível resgatar os loucos apostadores do mercado mundial, é preciso curá-los. Ainda que as autoridades monetárias já não saibam o que fazer para detê-los.

[1] Estados Unidos: insolvência e liquidez na crise , Alejandro Nadal

O original encontra-se em http://www.kpym.com.ar

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .