por La Quadrature du Net
[*]
Em Setembro de 2018, sob a influência da França e da Alemanha, a
Comissão Europeia propôs um regulamento "relativo à
prevenção da difusão on line de conteúdos de
carácter terrorista.
Este novo regulamento imporá a todo actor da Web (alojadores de blogues
ou de vídeos, sítios da imprensa, pequenos fóruns ou
grandes redes sociais:
-
Bloquear na mesma hora
qualquer conteúdo assinalado como "terrorista" pela
polícia (sem autorização prévia de um juiz) e
portanto ficar à sua disposição 24 horas por dia 7 dias
por semana.
-
Adiantar-se aos pedidos da polícia detectando por si mesmo os
conteúdos ilícitos com a ajuda de ferramentas de filtragem
automática.
Se um sítio web não respeitar estas regras ele se arrisca a uma
multa de até 4% do seu volume de negócios.
Delegação da censura aos gigantes da web
De um ponto de vista técnico, económico e humano, só um
punhado de actores os gigantes da web poderão respeitar
obrigações tão estritas.
Os outros actores (comerciais ou não) não terão outra
opção senão cessarem suas actividades ou submeterem-se
às ferramentas de moderação (filtragem automática e
listas de bloqueio) desenvolvidas pelo Facebook e Google desde 2015 com o apoio
da Comissão Europeia.
Estas multinacionais tornar-se-ão portanto os juízes do que pode
ser dito na Internet. A estrutura rica, variada e descentralizada da web
é destinada a desaparecer.
Censura dos discursos políticos
No direito da União Europeia, a noção de
infracção "terrorista" é voluntariamente ampla,
cobrindo os actos de pirataria ou de destruição maciça de
bens (ou a simples ameaça de fazê-lo) cometidos para influenciar
uma decisão política ou desestabilizar instituições.
Deixar à polícia e não ao juiz
o poder de decidir o que é um conteúdo "terrorista"
poderia levar à censura de opositores políticos e de movimentos
sociais.
A obrigação de por em vigor medidas proactivas, com a
ameaça de multas pesadas, terá como efeito motivar os actores da
web a adoptar uma definição do terrorismo o mais ampla
possível a fim de não serem sancionados.
Uma lei inútil
Este regulamento "anti-terrorista" não permitirá sequer
atingir seu objectivo ostensivo: impedir que o Daesh ou a Al Qaeda difundam sua
propaganda junto a pessoas já seduzidas pelos seus discursos.
Parece absurdo precisar ainda repetir: na Internet,
não importa qual a lei de bloqueio
pois ela pode ser contornada pelas pessoas que desejam aceder às
informações censuradas. Os únicos efeitos desta lei
serão seus danos colaterais: o grande público certamente
não terá mais de sofrer os conteúdos terroristas, mas
tão pouco terá conhecimento das informações
censuradas abusivamente.
Exijamos a rejeição do texto
Sob a cobertura do solucionismo tecnológico, este regulamento joga com o
medo do terrorismo para melhor enquadrar a expressão na Internet e
limitar as oposições.
Devemos pedir a rejeição deste texto
-
A censura de Estado não deve poder ser determinada senão por um
juiz.
-
Nenhuma censura automatizada deve ser imposta aos actores da web.
-
A luta contra o terrorismo jamais deverá ser um pretexto para censuras
as oposições políticas.
No dia
21 de Março de 2019
será a primeira votação sobre este texto, na
comissão de "liberdades civis" do Parlamento Europeu (60
deputados). As eleições europeias vindo logo após,
tratar-se-á provavelmente da nossa
última oportunidade de fazer com que este texto seja rejeitado.
Apelemos aos deputados europeus
Pode telefonar aos deputados de segunda a sexta-feira, entre as 9h00 e as
18h00. Se tiver um assistente ao telefone, não hesite em lhe falar,
pedindo-lhe para partilhar vossa opinião com o seu deputado.
Entre os 60 deputados da comissão "liberdades civis",
só oito vêem de países de língua francesa
[1]
. Todos os outros compreenderão o inglês: mesmo que o vosso
nível de inglês não seja muito bom, não se sinta
envergonhado de lhes falar.
Basta uma discussão bastante simples, do tipo:
"Hello, my name is [...]. I am calling about the Anti-Terrorism
Regulation. I think it will destroy freedom of speech. There must
be no censorship without the authorization of a judge. Internet censorship must
not be outsourced to Internet giants. Reject this text. I will watch your
decision".
Para ir mais longe
Convidamos a ler nossa
análise pormenorizada
do futuro regulamento,
mostrando sua génese, suas implicações técnicas e
políticas assim como o estado do seu debate no Parlamento Europeu.
Notas
[1]
E apenas um de língua portuguesa: a deputada Ana Gomes (PS), tel.
+32.228.45.824, anamaria.gomes@europarl.europa.eu, @AnaGomesMEP
Ver também:
Vers l'automatisation de la censure politique
(Rumo à automatização da censura política)
O original encontra-se em
www.laquadrature.net/censureterro/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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