O processo contra Bernanke
Barack Obama tomou uma das suas mais importantes decisões pós
crise: Ben Bernnke será nomeado para um segundo mandato como presidente
do Federal Reserve. Trata-se de uma decisão extremamente míope.
Se bem que o chefe do banco central da América mereça
crédito por ser criativo e corajoso ao orquestrar um excepcionalmente
agressivo programa de facilidade monetária, é importante recordar
que as suas acções anteriores à crise desempenharam um
papel igualmente crítico no estabelecimento do cenário para a
mais lancinante recessão desde a década de 1930. É como se
a um médico culpado de negligência fosse dado crédito por
inventar uma cura milagrosa. Talvez o paciente precisasse de um novo
médico.
O sr. Bernanke fez três erros críticos na sua
encarnação pré Lehman: Primeiro, e acima de tudo, ele
estava profundamente apegado à convicção filosófica
de que bancos centrais devem ser agnósticos quando se trata de bolhas
de activos. Sob este aspecto, ele mantém-se com o seu antecessor
o assoprador de bolha em série Alan Greenspan o qual argumentava
que as autoridades monetárias estão melhor posicionadas para
arrumar a desordem após o estouro de bolhas de activos ao invés
de prevenir o dano. Como um corolário desta abordagem, tanto o sr.
Bernanke como o sr. Greenspan extraíram as conclusões erradas das
estratégias pós bolha anteriores nesta década postas em
prática após o estouro da bolha das acções em 2000.
Em retrospectiva, a injecção de excesso de liquidez feita pelo
Fed em 2001-2003, a qual foi endossada com fervor pelo sr. Bernanke,
desempenhou um papel chave ao estabelecer o cenário para a mistura letal
de bolhas de propriedade e de crédito.
Segundo, o sr. Bernanke era o campeão intelectual da defesa da
"inundação de poupança global" que isentava os
EUA das suas tendência pró bolha e atribuía a culpa aos
excessos dos poupadores da Ásia. Se bem que não se possa negar a
procura por activos em dólar dos credores estrangeiros, é absurdo
culpar os prestamistas além-mar pelo comportamento imprudente de
americanos que um banco central estado-unidense deveria ter contido. Os
excessos dos poupadores da Ásia nada têm a ver com
irresponsável tendência da América para alavancar uma bolha
habitacional e utilizar o dinheiro resultante para financiar o consumo. O
argumento da inundação de poupança do sr. Bernanke era o
núcleo de uma negação profundamente enraizada dos EUA, que
não se olhou ao espelho e atribuiu a culpa a outros.
Terceiro, o sr. Bernanke é cortado do mesmo pano libertário que
colocou o Fed na desordem. Impregnado com o credo de Greenspan de que os
mercados sabem melhor do que os reguladores, o sr. Bernanke alinhou com a
mentalidade prevalecente no Fed que abdicava da sua autoridade reguladora na
era do excesso. A explosão dos derivativos, a extrema alavancagem dos
bancos regulados e dos bancos sombra e os excessos de empréstimos
hipotecários foram tudo abusos flagrantes a que tanto o sr. Bernanke
como sr. Greenspan poderiam ter dito não. Mas eles não o fizeram.
Em consequência, um sistema complexo e instável tornou-se
perigosamente fora de controle.
Não obstante estes erros, o sr. Obama pode ser prematuro ao dar ao sr.
Bernanke o crédito pela grande cura. Ninguém sabe ao certo se a
estratégia do Fed acabará finalmente por ter êxito. O pior
da recessão dos EUA parece ter sido interrompido por agora um
razoavelmente típico, mas temporário, resultado do velho ciclo de
stocks. Mas a sustentabilidade de qualquer recuperação pós
bolha é sempre duvidosa. Basta perguntar ao Japão 20 anos
após o estouro das suas bolhas.
Enquanto os mercados financeiros estão exultantes com esperanças
de revitalização económica em parte inspirado pelos
aplausos ao sr. Bernanke na reunião anual do Fed em Jackson Hole
ainda há boa razão para acreditar que a recuperação
dos EUA será anémica e frágil. Os consumidores
estado-unidenses estão nas primeiras etapas de uma
retracção plurianual pois têm de cortar dívidas e
reconstruir poupanças de reforma. A excepcional amplitude e
sincronicidade da recessão global dificultará a procura por
exportações dos EUA e que estas se tornem um novo motor do
crescimento.
Seria o cúmulo da loucura premiar o sr. Bernanke pela
recuperação que nunca conseguiu. Mas o prémio aparente do
sr. Bernanke é, infelizmente, típico dos improvisados julgamentos
que guiam a tomada de decisão em Washington. Nesta mesma veia, é
difícil esquecer o discurso de missão cumprida do sr. Greenspan
em 2004 que afirmava "nossa estratégia de corrigir as
consequências da bolha ao invés da própria bolha teve pleno
êxito". Ansioso por declarar ultrapassada a crise, o julgamento de
Obama pode igualmente ser prematuro.
A renomeação de Bernanke é uma oportunidade bem vida para
um debate mais vasto acerca da conduta e do papel da política
monetária dos EUA. O sr. Obama propostas ambiciosas que dão ao
Fed vastos poderes novos na administração de riscos
sistémicos. Argumentei no
Financial Times,
10 meses atrás, que não deveriam ser concedidos estes poderes ao
Fed sem maior responsabilização como o exigido por um
"mandato de estabilidade financeira" forçando com
efeito o Fed a modelar a política monetária rumo ao objectivo de
esvaziar bolhas de activos e desequilíbrios. Sem um mandato
político renovado, é concebível que possamos enfrentar
outra crise desestabilizadora.
Finalmente, estas decisões reduzem-se à pessoa neste caso,
o sr. Bernanke que está a ser encarregado da terrível
responsabilidade como decisor económico chefe da América. Como
estudante da Grande Depressão, ele deveria ter sabido [actuar] melhor.
Sim, ele reagiu fortemente após o facto ao tomar acções
para evitar as armadilhas realçadas pela sua própria
investigação. Mas faltou-lhe a antevisão e coragem para
resistir à maior parte das tendências temerárias da era do
excesso. O mundo precisa de banqueiros centrais que evitem problemas,
não aqueles que se especializam e controle de danos pós crise.
Por esta razão, só, ele não deveria ser renomeado. Deixem
o debate começar.
[*]
Presidente do Morgan Stanley Asia e autor de
The Next Asia
O original encontra-se no
Financial Times,
25/Agosto/2009.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|