A crise do coronavírus e a teoria do "Cisne negro"

por Nassim Nicholas Taleb
entrevistado por David Blanchard

Nassim Nicholas Taleb. Professor da Universidade de Nova York, o filósofo e estatístico americano-libanês Nassim Nicholas Taleb é o autor do Cisne negro, o impacto do altamente improvável , um ensaio que vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares no mundo todo, no qual teoriza a ocorrência de acontecimentos raros considerados imprevisíveis. Segundo Taleb, os homens racionalizam a posteriori estes acontecimentos que baralharam sua existência. Taleb inicialmente teorizou estes acontecimentos nos mercados financeiros, antes de ampliar o conceito também aos históricos. A ocorrência do coronavírus é encarada por numerosos comentadores como um "cisne negro". O que pensa o seu criador deste conceito?

O coronavírus é um "cisne negro", tal como encarado em muitos artigos, ou seja, um acontecimento imprevisível que vem baralhar o ambiente económico?

Não, um propriamente dito. O "cisne negro" é alguma coisa que não foi vista previamente, que sai dos nossos modelos, que é uma surpresa total. A posteriori, diz-se que as coisas eram previsíveis. Retrospectivamente, mas não prospectivamente. O "cisne negro" é epistémico e depende do observador. Assim, o 11 de Setembro foi um "cisne negro" para as vítimas [que não o anteciparam], não para os terroristas [que o prepararam durante meses]. Ele depende fundamentalmente do observador.

Examinei um caso assim no meu livro O cisne negro, estes fenómenos de concentração e o facto de que "o vencedor ganhar tudo" ("winner takes all"), nos domínios culturais, económicos ou biológicos. Por exemplo, no passado, era muito difícil a uma empresa como a Google invadir todo o planeta. Agora ela o faz graças à web. Era praticamente certo que alguma coisa do género chegasse por um vírus, que um vírus atingisse todo o planeta.

Este vírus era previsível, se se olhassem completamente as consequências da mundialização. Mas não há nada a temer da globalização desde que se conheçam os efeitos secundários. O problema é que as pessoas olham as coisas sem os efeitos secundários e este vírus é o efeito secundário da globalização.

Uma epidemia pode ser debelada e existem planos de saúde preventivos. Como se explica que ela desorganize tanto nossas sociedades?

O problema nesta história é um problema da modernidade, a que chamo o "pseudo-empirismo". Quando as pessoas não conheciam a estatística, elas compreendiam a dinâmica das coisas. Elas sabiam que eram preciso desconfiar de certas coisas e, se entrassem erradamente em pânico, os custos eram fracos. Inversamente, se você não entrasse em pânico erradamente, os custos eram fracos. Os auto-denominados especialistas não compreendem que a ausência de prova não é uma prova de ausência e começam a cometer erros enormes, como comparar o vírus do Ébola àquele da malária, quando as variáveis de contágio são muito diferentes. Não se pode, do mesmo modo, comparar a gripe com o coronavírus, que tem propriedades estatísticas muito diferentes.

Mas epidemias como o SRAS teriam devido nos alertar, não se extraiu nenhuma lição?

Estamos muito mais conectado do que há dez anos, há 20 anos ou há 100 anos no momento da gripe espanhola, ou ainda mais longe no momento da peste negra. Há grandes probabilidades de que esta doença acabe como o SRAS, mas um pequeno risco de que acabe de um modo diferente. E há riscos que não se podem tomar.

Deve-se esperar uma reorganização completa do mundo na sequência desta pandemia?

É preciso permanecer no quadro do "cisne negro". Quando o mundo está conectado, uma cidade não é uma aldeia, um Estado não é uma cidade. Ora, o isolamento é necessário em certos casos. Quanto maior for o espaço, menos espécies haverá por metro quadrado e mais a concentração de certos riscos se verificará. O sistema de confinamento é a boa resposta. E após a pandemia será preciso reverter a um sistema descentralizado, onde as pessoas tomam decisões localmente.

Um mundo menos globalizado?

Pode-se gostar da mundialização, porque se gosta do cosmopolitismo por exemplo, ou não gostar dela. Eu gosto dela, mas é absolutamente preciso determinar de onde podem vir os problemas. As fronteiras abertas de modo incondicional são perigosas. Um mecanismo de prudência impõe que não se possa olhar os efeitos desta mundialização sem olhar também os efeitos secundários. Deve-se ir rumo a mais localismo e isto começa pelas comunas.

Quem será o ganhador depois deste episódio?

O localismo. As comunas devem decidir, como na Suíça. Os Estados Unidos também são fundamentalmente localistas. Em França, vocês têm tudo centralizado. Assim, quando se vê um Estado federal relativamente incompetente como nos Estados Unidos, as colectividades locais são capazes de amenizar suas incompetências. O Estado, se ele actua bem, as coisas funcionam, mas do contrário isso concentra os erros. Esta doença, o coronavírus, será talvez relativamente fácil de erradicar, mas a próxima talvez seja mais grave. O sistema em vigor deve permitir lutar eficazmente.

O Estado não é um nível eficaz?

Uma pessoa numa aldeia compreende os riscos que a afectam. Uma pessoa em Washington marimba-se completamente para este risco na aldeia. A razão pela qual o localismo funciona é que não afasta demasiado os decisores das consequências das suas decisões. O localismo distribui as decisões e os riscos. O Estado central deve ser um coordenador, não um decisor. [NR]

Isto é um pouco o que dizem os "coletes amarelos"...

Sim, os "coletes amarelos" são localistas. Há coisas falsas no que eles dizem, mas nisso têm razão, é que os funcionários estão demasiado afastados do terreno. O Estado não é uma coisa teológica abstracta. Os funcionários têm um rendimento. O sistema é centralizado, as pessoas que cometem erros permanecem. Vivemos num mundo que acaba por ser muito frágil e o fenómeno da concentração acentua esta fragilidade. Um sistema como o nosso vai romper-se e refazer-se de modo mais robusto. Aquele que saberá comprar de modo mais distribuído, e não tudo na China, saberá sobreviver.

O senhor é um antigo trader. Qual é o vosso olhar sobre os bancos: estarão eles mais sólidos do que em 2008, como afirma o governo francês?

A fragilidade ligada à dívida é enorme. Os Estados acumularam até 20 milhões de milhões de dívidas e isto é fragilizante. Mas o salvamento dos bancos é feito a expensas dos contribuintes. Foram vocês que salvaram os bancos...

13/Março/2020

[NR] A experiência da China, no entanto, aponta para o papel decisivo do Estado central na tomada das decisões que permitiram dominar a crise do coronavírus. Trata-se neste caso de um Estado central eficaz e eficiente em favor do povo – ao contrário do que acontece nos Estados ao serviço do capital.

Ver também:
  • Nassim Nicholas Taleb: "Sans paranoïa, pas de survie!"

    O original encontra-se em www.20minutes.fr/...


    Esta entrevista encontra-se em https://resistir.info/ .
  • 18/Mar/20