O Vietname entrega o seu futuro soberano à TPP
por Sergei Solodovnik
As notícias sobre o acordo de Parceria Trans-Pacífico (TPP),
assinado por 12 países em outubro de 2015, foram amplamente ofuscadas
pelos últimos relatos sobre os combates na Síria. O Vietname, um
país com uma população de mais de 90 milhões de
habitantes, foi um dos assinantes desse acordo. Vamos comparar dois
acontecimentos diferentes. O primeiro ocorreu em 29 de maio de 2015, quando o
Vietname assinou um acordo de comércio livre (FTA) com a União
Económica Eurasiática (UEE). O segundo foi a assinatura do
Vietname no acordo PTP em 5 de outubro de 2015.
É mais que óbvio que não será fácil o
Vietname cumprir as suas obrigações para com os dois acordos de
integração. Então, porque é que Hanói tomou
essas decisões incongruentes? O imperialismo americano não
provocou já muita desgraça aos vietnamitas na segunda metade do
século XX?
Para perceber as razões por detrás das ações de
Hanói, é preciso analisar como os líderes vietnamitas
estabelecem as suas prioridades. A sua maior preocupação é
expandir o papel de negócios estrangeiros na economia vietnamita, em
segundo lugar, querem o acesso aos mercados de vendas e de capital, e em
terceiro lugar, estão à procura do acesso à tecnologia,
voltada para a exportação.
Há uma explicação para esta hierarquia. Por exemplo, numa
empresa vietnamita que funcione com a ajuda de capital estrangeiro, o
salário médio é de 230 dólares, mas nos
negócios que só têm acesso ao capital interno, o
salário desce para 160 dólares. Portanto, em termos de
financiamento para os cofres fiscais nacionais, um vietnamita empregado por um
estrangeiro é 30% mais lucrativo do que um vietnamita contratado por um
empresário local.
Quais são as vantagens de um negócio estrangeiro para um
burocrata vietnamita que seja responsável por aumentar as
exportações? Primeiro que tudo, os setores controlados por
estrangeiros são os que obtêm os maiores ganhos. Especificamente,
em 2013, a exportação de telemóveis aumentou 67,1% e de
computadores, 35,3%. Mas muitas exportações vietnamitas
tradicionais sofreram um grande declínio: o petróleo bruto desceu
11,9%, os produtos petrolíferos, 32,8%, o arroz, 18,7% e o café,
26,6%.
Porque é que os mercados estrangeiros se tornaram tão
problemáticos para o Vietname? Em 2013, quase um quarto das
exportações eram enviadas para a União Europeia.
Porém, devido ao novo Sistema de Preferências Generalizadas (SPG)
da União Europeia, que entrou em vigor em janeiro de 2014, as principais
exportações do Vietname podem não se classificar nas
tarifas preferenciais da UE. Segundo a nova política, se, durante
três anos, a exportação de um produto específico de
um país exceder 17,5% das importações totais desse produto
por todos os países beneficiários do SPG, esse país deixa
de ser elegível para as preferências. O limite nos têxteis e
nas confeções é de 14,5%. Muitas das
exportações vietnamitas (incluindo o café, o chá,
as especiarias, os têxteis e o vestuário) podem exceder esses
limites.
A China é um dos concorrentes do Vietname: as importações
da China totalizaram 36,8 mil milhões de dólares em 2013,
aumentando mais de 25%. Mas o Vietname só exportou 13,1 mil
milhões de dólares de artigos para a China nesse ano, um aumento
de apenas 2,1%. Tal como o mercado da UE, o mercado chinês oferece poucas
oportunidades ao Vietname.
O acordo de comércio livre UEE abre ao Vietname o acesso ao mercado
russo, e as compras russas ao Vietname aumentaram depois da
introdução das sanções dos EUA e da UE, mas esse
aumento tem um limite, porque os artigos vietnamitas não são
tão competitivos no mercado russo como os produtos chineses. Em termos
dos maiores parceiros comerciais do Vietname, a Rússia apenas se situa
entre os primeiros vinte.
Passando duma análise do fluxo de bens entre a Rússia e o
Vietname para o movimento de capitais, é óbvio que a
Rússia foi incapaz de influenciar a decisão do Vietname de aderir
ao TPP. Segundo a Câmara do Comércio e Indústria da
Rússia, o investimento total vietnamita na Rússia cifrou-se em
456 milhões de dólares no final de 2012. Mas a Rússia
só investiu 27 milhões de dólares no Vietname. Por outras
palavras, Hanói não considera a Rússia como uma fonte de
capital.
Dada a lógica linear das entidades vietnamitas responsáveis pelos
parâmetros para o desenvolvimento da economia nacional, não havia
alternativas ao TPP.
Mas almoços grátis é uma coisa que não existe.
Talvez fosse exatamente por causa dos custos ocultos que tiveram que realizar
múltiplas sessões de negociações à porta
fechada, na preparação do acordo de Parceria
Trans-Pacífico.
Os próprios vietnamitas comentaram a primeira parte desse custo oculto:
a regulamentação dos direitos de propriedade intelectual
ou melhor, a necessidade de voltar a escrevê-los totalmente. Conforme
assinalou Bui Hong Hai, o vice-diretor da sociedade de advogados SMiC, o
Vietname não só tem que alterar as suas leis públicas, mas
também será forçado a rever os procedimentos empresariais
internos e a cooperação a nível de empresas individuais.
Isso significa que todos os cidadãos vietnamitas, assim como o
funcionamento de todos os mecanismos do país produtivos,
financeiros e tecnológicos vão ser analisados ao
microscópio pelo Big Brother americano. Já não se trata
duma questão de grandes empresas a estabelecer ditames a fim de
maximizar os lucros. Esta capacidade de controlar informações a
nível de empresas individuais proporcionará uma oportunidade
ilimitada de influenciar as ações e motivações de
todos os cidadãos do país.
A segunda parte desse custo envolve os ditames das empresas multinacionais
(MNCs) que são emitidos através de um centro que
não está sujeito a qualquer jurisdição nacional
para resolução de conflitos e disputas comerciais com o
país em que se situam essas mesmas MNCs. Em palavras simples, na
prática do século XX, a arbitragem era realizada na base das leis
de um determinado país e os contratos incluíam
disposições para o local onde as partes contratantes requeriam um
julgamento, como Estocolmo ou Moscovo, mas agora a autoridade local não
ficará determinada como fonte, enquanto questão de
princípio. Existe um precedente, que tem a ver com as decisões
financeiras à escala global. É o Sistema de Reserva Federal
(FRS), que tem sido uma empresa totalmente privada, desde a sua
fundação em 1913, a que por vezes e incorretamente se chama o
Banco Central dos EUA.
Por fim, a terceira parte deste preço impressionante. Todo o
financiamento de investimento será proveniente duma bolha financeira. E
não há necessidade de arrombar os cofres dos negociadores
americanos para provar que isto é verdade. O simples facto é que
o patrono do TPP, Washington, só tem fundos em dinheiro extraído
do ar. O problema é que as economias nacionais tornaram-se viciadas
nestes investimentos extraídos do ar, e portanto eles não podem
ter qualquer impacto no processo de criação de capital no seu
país porque este capital pode ser retirado instantaneamente. E aí
a economia deflaciona, visto que até os pagamentos não podem ser
sustentados por acordos financeiros, e quaisquer dívidas externas
incorrem em pedidos de colaterais adicionais (cobertura adicional).
O texto do acordo TPP ainda não foi publicado. Apenas podemos fazer uma
conjectura sobre os encargos financeiros adicionais em que o Vietname vai
incorrer. Mas os líderes vietnamitas que foram autorizados a assinar o
texto completo do acordo não podiam deixar de estar conscientes das
consequências desse passo e, em especial, do facto de que a sua
decisão de aderir ao TPP estava a pôr o futuro do seu país
nas mãos erradas.
As implicações para a Rússia são óbvias. A
Rússia mantém-se fora do novo Anel do Pacífico que foi
criado pelos Estados Unidos, o que significa que está na mesma
situação que a China. A China mantém-se fora da Parceria
Trans-Pacífico, o que significa que as suas maiores batalhas financeiras
e comerciais com os EUA ainda estão por travar.
31/Outubro/2015
Ver também:
Vietnam: From National Liberation to Trans-Pacific Vassal (1975-2015)
Text of the Trans-Pacific Partnership
(divulgado em 05/Nov/1015 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Nova
Zelândia).
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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