Muitos já notaram: os EUA realmente não parecem o líder
mundial, ou mesmo um "país do primeiro mundo". É
evidente que escrevo isto sarcasticamente, pois detesto expressões como
"primeiro mundo" e "terceiro mundo". Mas os leitores
entendem o que quero dizer.
Pontes, metros, cidades do interior, tudo está a desmoronar, a cair em
pedaços. Quando eu morava na cidade de Nova York, mais de duas
décadas atrás, retornar do Japão era chocante: os EUA
pareciam um país pobre, despojado, cheio de problemas, miséria,
pessoas confusas e deprimidas, pessoas sem abrigo, em suma desesperados.
Agora, sinto o mesmo quando aterro nos EUA depois de passar algum tempo na
China.
E está muito pior. Aquilo de que o Ocidente costumava acusar a
União Soviética agora é claramente detectável nos
Estados Unidos e também no Reino Unido: a vigilância está a
cada passo hoje em dia; em Nova York, Londres, Sydney e mesmo em áreas
rurais. Todo movimento que uma pessoa faz, toda compra, todo clique no
computador, é registado em algum lugar, de algum forma. E esse
monitoramento, muitas vezes, nem é ilegal.
O discurso é controlado pelo politicamente correcto. Alguém nos
bastidores decide o que é aceitável e o que não é,
o que é desejável ou não e até o que é
permissível. Se cometer um "erro" é excluído; de
posições de ensino nas universidades ou dos meios de
comunicação.
Em tais condições, o humor não pode prosperar e a
sátira morre. Não é muito diferente do fundamentalismo
religioso: você é destruído se "ofender". Nestas
circunstâncias, escritores não podem escrever romances inovadores,
porque verdadeiros romances ofendem por definição e sempre
empurram os limites. Em consequência, quase ninguém mais lê
romances.
Só o humor desdentado e "controlado" é permitido.
Nenhuma piada pode ser aplicada intuitivamente. Tudo tem de ser calculado
previamente. Nenhuma ficção política
"ultrajante" pode passar pela "censura invisível" no
Ocidente (e, portanto, os romances quase morreram). Quem lê em russo ou
chinês sabe perfeitamente bem que a ficção na Rússia
e na China é muito mais provocativa e de vanguarda.
No Ocidente, a poesia também morreu. E o mesmo acontece com a filosofia,
a qual foi reduzida a uma disciplina académica aborrecida, bolorenta e
indigesta.
Enquanto Hollywood e os
mass media
continuam a produzir, incansavelmente, toda espécie de lixo racista
altamente insultuoso e estereotipado (principalmente contra chineses, russos,
árabes, latinos e outros), grandes escritores e cineastas que querem
ridicularizar o regime ocidental e sua estrutura, já foram silenciados.
Só se pode humilhar os não-ocidentais de um modo que seja
aprovado (mais uma vez: em algum lugar, de alguma forma), mas Deus o livre se
se atrever a criticar as elites pró-ocidentais que estão a
arruinar seus países por conta de Londres e Washington, no Golfo, no
Sudeste Asiático ou na África isso seria
"arrogante" e "racista". Um óptimo arranjo para o
Império e seus serviçais, não é?
Todos nós sabemos o que aconteceu a Julian Assange e Edward Snowden. No
Ocidente, as pessoas estão a desaparecer, a ser presas, censuradas.
Milhões estão a perder empregos: nos media, editoras e
estúdios de cinema. A era da Guerra Fria parece ser relativamente
"tolerante", em comparação com o que está a
ocorrer agora.
Os medias sociais constantemente reprimem indivíduos
"incómodos", meios de comunicação
"inaceitáveis" e pensamentos demasiado "não
ortodoxos".
O "SECURISTÃO"
Viajar tornou-se um campo de treino. É aqui que eles o violam. Mova-se
pelos aeroportos ocidentais e encontrará o vulgar e insultuoso
"securistão". Agora, espera-se de si não só que
abaixe as calças, se solicitado, ou tire os sapatos, ou jogue fora todas
as garrafas que contêm líquidos: espera-se que sorria, que sorria
brilhantemente, como um idiota. Espera-se que demonstre quão ansioso,
quão cooperativo você é: responder em voz alta, olhando
directamente nos olhos de seus atormentadores. Se for humilhado, ainda assim
seja polido. Se quiser voar, mostre que está a desfrutar dessa
humilhação estúpida e inútil, administrada por uma
única razão: quebrá-lo, torná-lo patético e
submisso. Para ensinar-lhe o lugar a que realmente pertence. Se não. Se
não! Todos sabemos o que acontecerá se se recusar a
"cooperar".
Agora, "eles" utilizarão dupla linguagem para
informá-lo que tudo isso é para o seu próprio bem. Isto
não será pronunciado, mas fazem sentir: "Você
está a ser protegido daqueles horríveis monstros do Terceiro
Mundo, loucos, pervertidos". E, naturalmente, de Putin, dos comunistas
chineses, do carrasco Maduro, de Assad ou dos fanáticos xiitas iranianos.
O regime está a lutar por si, cuida de si, está a
protegê-lo.
Claro, se morar no Reino Unido ou nos EUA, as probabilidades são de que
esteja profundamente endividado, deprimido e sem perspectivas para o futuro.
Talvez seus filhos estejam com fome, talvez, nos EUA, não possa ter
recursos para cuidados médicos. Mais provavelmente, não pode
pagar habitação na sua própria cidade. Talvez seja
forçado a ter dois ou três empregos.
Mas, pelo menos, sabe que seus "líderes sábios" na Casa
Branca, no Congresso, no Pentágono e nas agências de
segurança estão a trabalhar dia e noite, protegendo-o de
incontáveis conspirações, de ataques cruéis do
exterior e daqueles maus chineses e russos, os quais estão ocupados a
construir sociedades progressistas e igualitárias.
Sortudo!
Excepção: algo não faz sentido aqui.
Durante anos e décadas foi-lhe dito quão livre era. E
quão oprimidos e não livres eram aqueles dos quais está a
ser protegido.
Disseram-lhe quão rico era e quão miseráveis eram
"os outros".
Para travar aquelas hordas de pessoas carentes e perturbadas, algumas medidas
sérias tinham de ser aplicadas. Um esquadrão da morte de direita
em algum país da América Central ou do Sudeste Asiático
tinha de ser treinado em campos militares dos EUA; um monarca totalmente
absolutista e corrupto precisava ser apoiado e mimado; um golpe militar
fascista tinha de ser arranjado. Milhões de violações,
dezenas de milhares de cadáveres. Não é nada bonito, mas
você sabe... necessário. Para o seu próprio bem,
cidadãos norte-americanos ou europeus; para o seu próprio
bem
. Até mesmo para o bem do país que destinamos a ser
"libertado".
No ocidente, poucos dissidentes protestaram, durante décadas.
Ninguém lhes prestou muita atenção. A maioria deles
tornou-se "não empregável" e foi silenciada pela
miséria e pela incapacidade de pagar suas contas.
Mas de repente
O que aconteceu de repente? Porque alguma coisa realmente aconteceu...
O Império cansou-se de pilhar exclusivamente as partes não
ocidentais do mundo.
Bem condicionado, com o cérebro bem lavado e assustado, o público
ocidental começou a ser tratado com o mesmo desprezo, tal como as
pessoas nas partes saqueadas e miseráveis do mundo. Bem, ainda
não, não exactamente. Ainda há algumas diferenças
essenciais, mas a tendência definitivamente está aí.
O público ocidental não pode fazer muito para se proteger,
realmente. O regime sabe tudo sobre todos: espiona todo cidadão: onde
anda, o que come, dirige, voa, observa, consome, lê. Não há
mais segredos.
É ateu? Não há necessidade de "confessar".
Já está a confessar a cada minuto, com cada clique no computador,
ao pressionar o botão do controle remoto ou a fazer compras na Amazon.
O Big Brother está a observar? Ah não; agora há uma
vigilância muito mais minuciosa. O Big Brother está a observar, a
gravar e a analisar.
O general Pinochet do Chile costumava jactar-se de que, sem seu conhecimento,
nenhuma folha poderia se mover. O velho desgraçado fascista estava a
gabar-se; exagerando. Por outro lado, os governantes ocidentais nada dizem, mas
sabem claramente o que estão a fazer. Sem o seu conhecimento, nada se
move e ninguém se move.
Ao chegar da China, da Rússia ou de Cuba, a primeira coisa que me
impressiona é quão disciplinados, obedientes e amedrontados os
europeus e os norte-americanos realmente são. Eles subconscientemente
sabem que estão a ser controlados e nada podem fazer acerca disso.
Quando os comboios atrasam ou são cancelados, eles timidamente murmuram
maldições semi-audíveis. Seus benefícios
médicos são reduzidos; eles aceitam ou silenciosamente cometem
suicídio. Sua infraestrutura pública desmorona; mas eles
não dizem nada, lembrando os "bons velhos tempos".
Por que sinto esperança, rio com as pessoas na Cidade do México,
em Joanesburgo ou Pequim? Por que são tão calorosos em cidades
geograficamente frias como Vladivostok ou Petropavlovsk no Kamchatka? Por que o
povo de Londres, Paris e Los Angeles parece tão preocupado, tão
deprimido?
Alguns países historicamente pobres estão em ascensão. E
as pessoas de lá demonstram apreço por cada pequena melhoria.
Nada é mais belo do que o optimismo.
O Ocidente combateu o chamado "terceiro mundo" por muitas e longas
décadas; oprimindo-o, atormentando-o, saqueando-o, violando seus povos.
Isso os impediu de escolherem seus próprios governos. Agora está
a ir longe demais: está a tentar controlar e oprimir o mundo inteiro,
inclusive seus próprios cidadãos.
Quando vários países do mundo inteiro estão a
recuperar-se, a resistir às pressões de Washington, Londres,
Paris e Berlim, o povo no Ocidente está a ser tratado pelos seus
governos com o desprezo que costumava ser reservado exclusivamente para os
"países subdesenvolvidos" (sim, mais uma
expressão repugnante).
Claramente, o Ocidente "aprendeu por si mesmo".
Enquanto países como a Rússia, China, Vietname, México,
Irão e outros estão a avançar, muitos impérios
colonialistas e neocolonialistas anteriormente ricos agora começam a
assemelhar-se ao "Terceiro Mundo".
Hoje em dia, é muito triste ser escritor em Nova York ou em Londres.
Tão assustador quanto ser pobre. Ou ser diferente. Por todo o mundo, os
papéis estão a ser revertidos.
02/Setembro/2019
[*]
Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigativo.
É o criador de
Vltchek's World in Word and Images
. Escreve especialmente para a revista online
"New Eastern Outlook".
O original encontra-se em
journal-neo.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.