Há uma grande diferença entre uma recessão impulsionada
pelos stocks e uma recessão impulsionada pelo crédito. Uma
recessão pelos stocks é provocada por uma disparidade entre
oferta e procura. Ela resulta da super-capacidade e da
sub-utilização da qual só se pode sair quando os stocks
são reduzidos e a procura acrescida. As recessões impulsionadas
pelo crédito são uma história completamente diferente.
Elas tipicamente perduram o dobro do tempo e podem precipitar crises
financeiras.
A actual recessão é uma severa quebra de crédito da
magnitude da era da Depressão. O sistema financeiro efectivamente entrou
em colapso. O sistema de crédito por grosso
(titularização) está congelado, o sistema bancário
é disfuncional e está insolvente e os gastos do consumidor
afundaram. A concessão de facilidades de muitos milhões de
milhões
(trillion)
de dólares do Fed e os seus estímulos
monetários impediram o sistema financeiro de pulverização
até à paralisação, mas os problemas não
foram resolvidos. O presidente do Fed, Ben Bernanke, preferiu evitar as
decisões duras e manteve o preços dos activos tóxicos
artificialmente altos com a ajuda de um escudo de liquidez de US$12,8
milhões de milhões. Eis porque as acções
animaram-se nos últimos quatro meses enquanto as condições
na economia real continuavam a deteriorar-se. Bernanke está a utilizar
todas as ferramentas à disposição do Fed para impedir a
liquidação do mercado e impedir que a montanha de dívida
que foi acumulada desde há décadas através da
expansão do crédito seja purgada do sistema.
A agitação no mercado de acções tornou mais
difícil ver que a economia está a redefinir-se a uma taxa de
actividade económica mais baixa. A deflação está a
começar em todos os sectores. Os preços da
habitação estão a liderar o recuo, caindo 18,1 por cento
de ano para ano segundo o novo relatório Case-Schiller. A
deterioração da situação líquida das casas
está a forçar os proprietários a cortar nos gastos, o que
enfraquece a procura e desencadeia mais despedimentos colectivos. É um
círculo vicioso que acaba em crescimento mais lento.
Além disso, o sistema bancário está arruinado. Os US$700
mil milhões do programa TARP não foram utilizados para comprar
activos tóxicos e sim para comprar posições
accionárias nos bancos e no salvamento do gigante dos seguros, a AIG.
Bernanke sabe que um sistema bancário coxo será uma drenagem
constante de recursos públicos, mas recusa-se a nacionalizar os bancos
ou a reestruturar a sua dívida. Ao invés disso, ele está a
expandir o balanço do Fed em US$1,2 milhão de milhões e
disparou uma corrida no mercado de acções. A corrida de Bernanke
ao mercado deprimido levantou os títulos financeiros
estagnados e gerou o capital que os bancos precisam para
sobreviver à degradação dos seus maus activos. O antigo
chefe do Fed, Alan Greenspan (não intencionalmente) clarificou este
ponto num editorial no
Financial Times:
"A ascensão dos preços globais das acções
desde o princípio de Março a meados de Junho é certamente
a causa primária da surpreendente viragem positiva no ambiente
económico. Os US$12.000 mil milhões de valor recém criado
das acções corporativas acrescentou-se significativamente ao
amortecedor de capital que apoia a dívida emitida pelas companhias
financeiras e não financeiras... Companhias anteriormente carentes de
capital foram capazes de levantar-se através consideráveis
empréstimos e vendas de acções nos últimos meses.
Os temores do mercado quanto à insolvência dos bancos,
particularmente, foram aliviados.
"Os mercados globais de acções têm-se reanimado
até agora e tão rapidamente este ano que é difícil
imaginar poderem avançar mais a algo próximo do seu ritmo
recente. Mas o que acontece se, após uma correcção, eles
continuarem inexoravelmente para cima? Isso reforçaria o balanço
global com grandes quantias de novo valor em acções e abasteceria
os bancos com novo capital que lhes permitiria intensificar a concessão
de empréstimos. (Alan Greenspan, "Inflation, The real threat to a
sustained recovery",
Financial Times
)
Bernanke estava a pensar claramente de acordo com as mesmas linhas que
Greenspan quando decidiu empurrar os
traders
de volta ao mercado com os seus generosos programas de liquidez e facilidades
quantitativas
(quantitative easing, QE).
Ele provavelmente percebeu que o apoio político para mais salvamentos
havia-se desvanecido e que "grandes quantias de nova liquidez" (nas
palavras de Greenspan) seriam necessárias para impedir os bancos de
incumprirem. Quaisquer que possam ter sido os motivos, o estímulo de
Bernanke turbinou o mercado de acções enquanto a economia real
continua a cambalear.
Jordan Irving, que colabora na administração de mais de US$110
mil milhões no Delaware Investments, em Filadélfia, disse
à Bloomberg News: "Isto foi uma corrida induzida pelo governo.
Precisamos ver alguns sinais positivos reais virem da procura interna, ao
contrário da procura relacionada com o governo, e não só
daí".
Até agora, a intervenção do Fed nos mercados não
afastou a ameaça colocada pelos activos tóxicos, um problema que
só pode piorar ao longo do tempo. Eis porque o Bank of International
Settlement (BIS) emitiu um relatório na semana passada a advertir dos
"perigos" de não agarrar a questão pelos cornos. Eis um
excerto do relatório, tal como apresentado em
The Guardian:
"... Apesar de meses de acção coordenada em todo o globo
para estabilizar o sistema bancário, perigos ocultos ainda espreitam as
instituições financeiras do mundo segundo o Bank of International
Settlements com sede na Basileia.
"Na generalidade, os governos podem não ter actuado com rapidez
suficiente para remover o problema dos activos dos balanços dos bancos
chave, diz o BIS no seu relatório anual. 'Ao mesmo tempo, as garantias
do governo e o seguro de activo expôs os contribuintes a perdas
potencialmente grandes'.
"Como uma das poucas instituições a tocar sistematicamente o
alarme acerca da acumulação de activos financeiros de risco e de
bancos sub-capitalizados na aceleração para a crise do
crédito, a avaliação do BIS influenciará os
governos. Ele diz: 'A falta de progresso ameaça prolongar a crise e
atrasar a recuperação porque um sistema financeiro disfuncional
reduz a capacidade de acções monetárias e fiscais
estimularem a economia' ".
O problema dos activos tóxicos é mais uma vez agravado por uns
estimados US$2 milhões de milhões de perdas adicionais devidas ao
incumprimento de hipotecas residenciais, empréstimos para o
imobiliário comercial, empréstimos com cartões de
crédito e empréstimos para automóveis. É a dupla
maldição: uma fétida carteira de empréstimos
não cumpridos e lixo de derivativos apoiados por hipotecas. Ao mesmo
tempo, o consumo pessoal caiu a pique e os sinais de contracção
económica são visíveis por toda a parte, desde o
inchaço de pessoas sem casa às longas filas nos gabinetes de
desemprego, aos cofres estaduais vazios, aos carrinhos de supermercado
semi-cheios. O desemprego está a aumentar a 600 mil postos de trabalho
por mês, a confiança do consumidor bate recordes de baixa, as
vendas retalho caíram drasticamente e a habitação continua
o seu mergulho. Os dados são claro; não há brotos verdes
ou raio de esperança.
A melhor fotografia instantânea da economia apareceu no Livro Bege do
Fed, o qual foi divulgado há duas semanas mas mal foi noticiado pelos
media financeiros. O relatório faz uma avaliação
cândida de uma economia que está em agonia profunda. Eis um
excerto:
"Relatórios dos doze Bancos Distritais do Federal Reserve indicam
que as condições económicas permanecem fracas ou a
deteriorar-se ainda mais durante o período de meados de Abril até
Maio... A actividade manufactureira declinou ou permaneceu num nível
baixo na maior parte dos Distritos... A procura por serviços não
financeiros contraiu-se na maior parte dos Distritos. Os gastos no retalho
permaneceram calmos pois os consumidores concentraram-se em comprar
necessidades menos caras e esquivaram-se à compra de bens de luxo. As
compras de carros novos permanecem deprimidas, com vários Distritos a
indicarem que condições de crédito difíceis estavam
a atrasar as vendas de automóveis. As viagens e actividades de turismo
também declinaram... As taxas de vacância para propriedades
comerciais estavam a subir em muitas partes do país... As
condições de crédito permaneceram estritas ou endureceram
mais. A actividade da energia continuou a enfraquecer na maior parte dos
Distritos e a procura por recursos naturais permaneceu deprimida... As
condições do mercado de trabalho continuaram a ser fracas no
país, com salários geralmente baixos ou em queda...
Relatórios dos distritos respeitantes a serviços não
financeiros indicam que a maior parte da actividade continuou a declinar... A
actividade continuou a enfraquecer ou permanece branda para fornecedores de
serviços profissionais tais como contabilidade, arquitectura,
consultoria de negócios e serviços legais... Os gastos do
consumidor permaneceram brancos pois as famílias concentraram-se em
compra necessidades menos caras. ... A actividade de viagens e turismo declinou
e as pessoas em férias tendem a gastar menos...
"Os mercados do imobiliário comercial continuaram a enfraquecer em
todos os Distritos. ... Com poucas excepções, os Bancos
Distritais relataram que os preços em todas as etapas da
produção estavam geralmente baixos ou em queda...
Relatórios de um certo número de Distritos indicam que os
preços no retalho permanecem muito brandos..." (Fed's Beige Book)
Está tudo mau.
O colapso financeiro deixou os proprietários de casas com o pior
rácio dívida/rendimento da história. Os trabalhadores
foram forçados a cortar gastos opcionais e começar a poupar. A
taxa de poupança das famílias passou subitamente para 6,9 por
cento em Maio, um recorde de 15 anos. Em Abril de 2008 a taxa era zero.
O aspecto negativo do aumento da taxa de poupança é que isto
aprofundará e prolongará a recessão. O aumento
desprezível nos gastos a retalho pode ser atribuído ao
estímulo fiscal. Sem o livro de cheque do governo, a economia
continuará a cambalear.
Houve uma súbita mutação do consumo alimentado pela
dívida para a frugalidade. O trauma da perda de emprego, de cuidados de
saúde ou do lar, ou simplesmente de viver a um cheque de distância
do desastre provavelmente moldará atitudes nos próximos anos. As
poupanças pessoas continuarão a avolumar-se pois as
famílias constroem um cesto de ovos maior para aguentar o tombo e
compensar a situação líquida perdida, as contas de
aposentadoria debilitadas e a possibilidade de perder o emprego. Esta
mudança fundamental no comportamento do consumidor aponta para menor
actividade económica, mais redução de stocks,
despedimentos colectivos adicionais e lucros corporativos mais pequenos. Quando
os consumidores poupam, a economia contrai-se.
O gasto do consumidor constituir 70 por cento do PIB, mas os consumidores
subitamente pisaram os travões. Isto é uma mudança de jogo
real. Mesmo que os mercados de crédito sejam restaurados e os bancos
mostrem uma maior disposição para conceder empréstimos,
não haverá retorno aos níveis de consumo anteriores
à crise, aqueles dias estão ultrapassados. A
administração terá de proporcionar mais estímulo
fiscal, programas de emprego, ajuda estatal e outras formas de alívio
público para compensar a super-capacidade e queda da procura. Os
balanços das famílias estão tão esticados que mais
rendimento disponível terá de ser dedicada ao pagamento da
dívida e ao aumento das poupanças. Não se pode confiar nas
tendências de consumo do passado para prever o futuro. É uma
situação inteiramente nova.
A riqueza das famílias deslizou US$14 milhões de milhões
desde que a crise começou. Isto inclui perdas apreciáveis no
imobiliário, nos investimentos e nos fundos de aposentadoria. A
situação líquida das casas caiu para 41 por cento (uma
nova baixa) e o desemprego está em crescimento. Quando o crédito
era fácil, a tomada de empréstimos aumentava, os preços
dos activos subiam e a economia crescia. Agora o processo comutou para o seu
inverso. O crédito secou, os valores colaterais mergulharam, o PIB
é negativo e os consumidores estão enterrados sob uma montanha de
dívida. As bancarrotas pessoais, os incumprimentos e os arrestos
estão em alta. Levará anos, talvez uma década ou mais,
para reconstruir os balanços familiares e restaurar a
sinalização da economia. O consumidor continua no vazio e as
possibilidades de uma recuperação robusta são nulas.
[*]
Economista,
fergiewhitney@msn.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney07032009.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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