por Mike Whitney
A economia dos EUA está no princípio de um período
prolongado de ajustamento. O declínio agudo na actividade dos
negócios, o qual principiou no Verão de 2007, foi ligeiramente
moderado, mas há poucas indicações de que o crescimento
retornará aos níveis anteriores à crise. As
acções comportaram-se bem nos últimos seis meses,
superando as expectativas da maior parte dos analistas, mas a fraqueza na
economia subjacente continuará a prejudicar a procura reduzindo qualquer
possibilidade de uma retomada forte. As bancarrotas, os não pagamentos
de dívidas e os incumprimentos estão a subir, o que pressiona em
baixa os preços dos activos e aumenta o desemprego. Como o desemprego
sobe, as dívidas acumulam-se, os gastos do consumidor arrefecem e os
negócios são forçados a reduzirem-se ainda mais. Isto
é a espiral deflacionaria que o presidente do Fed, Ben Bernanke,
pretendia evitar. Oscilações nas acções e uma
impressionante campanha de relações públicas acerca de
"brotos verdes" ajudaram a melhorar a confiança do consumidor,
mas os dados duros entram em conflito com a narrativa optimista repetida nos
media financeiros. Para os milhões de americanos que não se
qualificam para salvamentos do governo, as coisas nunca estiveram piores.
Kevin Harrington, administrador geral da Clarium Capital Management LLC,
resumiu a actual situação económica numa entrevista
à Bloomberg News: "Se temos realmente uma
recuperação, ela não é sustentável. Isto
mais provavelmente é uma recessão com rampa de esqui, com
estímulos a curto prazo para criar um inchaço que acabará
finalmente por levar a um declínio posterior mais precipitado".
Reflectindo sobre a relutância do Fed em forçar os bancos a
relatarem as suas perdas em activos ilíquidos ao seu valor real,
Harrington acrescentou: "Não consertámos o problema. Apenas
desacelerámos o seu reconhecimento oficial".
Nestes dois anos desde o princípio da crise, nem o Fed nem os decisores
políticos no Tesouro deram passos para remover activos tóxicos
dos balanços dos bancos. As principais artérias do crédito
ainda permanecem entupidas apesar do facto de Bernanke ter acrescentado cerca
de US$900 mil milhões de reservas em excesso ao sistema bancário.
Os consumidores continuam a reduzir a sua tomada de empréstimos apesar
das taxas de juro historicamente baixas e de os bancos ainda estarem a acumular
capital para liquidar perdas de empréstimos não cumpridos e maus
activos. Mudanças nas regras do Financial Accounting Standards Board
(FASB) para a contabilização dos ganhos e perdas
(mark-to-market)
de activos tornaram mais fácil aos bancos afogados esconderem a sua
tinta vermelha, mas, finalmente, as perdas terão de ser relatadas. A
onda de fracassos bancários está exactamente agora a
começar a acelerar. Ela deveria persistir até 2011. O sistema
está gravemente subcapitalizado e em risco. Christopher Whalen fez um
grande trabalho ao resumir a condição do sistema bancário
numa mensagem recente a The Institutional Risk Analyst.
"Os resultados do nosso teste de stress à indústria
bancária estado-unidense no 2º trimestre de 2009 são quase
implacáveis. Apesar de toda a conversa e das despesas de Washington, a
indústria bancária dos EUA ainda está a afundar fortemente
e nem a administração Obama nem o Federal Reserve parecem ter
quaisquer balas adicionais para disparar sobre o monstro da
deflação. Com o dólar aparentemente pronto para uma
retomada e os mercados de investimento e de dívida aparentemente
exauridos, um administrador veterano disse a
The IRA
que o final de 2009 parece mais problemático do que é habitual e
costumeiro em fins de ano.
O facto simples é que o Fed e o Tesouro gastaram toda a liquidez
disponível a apoiar a vasta montanha de activos tóxicos da Wall
Street e os bancos que a criaram, de modo que agora os empregadores comuns e os
investidores privados, e ainda os bancos relativamente mais pequenos que
suportam ambos, devem mendigar por capital e liquidez num mercado em que o
governo é o único actor que resta. A noção de que o
Fed pode mesmo considerar reverter o salvamento maciço para os mercados
de balcão isto para restaurar a normalidade nos modelos de
mercado que supostamente informam as deliberações do banco
central é ridícula tendo em vista a escassez de capital no
sector bancário e mais geralmente na economia do sector privado".
(2ndQ 2009 Bank Stress Test Results: The Zombie Dance Party Rocks On"
Christopher Whalen, The Institutional Risk Analyst)
Não é apenas o sistema bancário que está em
perturbação. O mercado de acções começa
também a cambalear. O programa de facilidade quantitativa
(quantitative easing, QE)
de Bernanke proporcionou suficiente liquidez para pressionar as
acções mais para o alto, mas também criou uma outra bolha
que está a mostrar sinais de instabilidade. Segundo Charles Biderman,
presidente do TrimTabs Investment Research, a corrida ao mercado em baixa do
Fed esgotou o seu gás e os iniciados da companhia estão a correr
para as saídas tão rápido quanto podem. Numa entrevista a
Bloomberg, Biderman disse:
"As vendas de iniciados são 30 vezes as compras de iniciados,
ao passo que as compras das próprias acções são
inexistentes. As companhias estão a dizer que não querem nem
tocar nas suas próprias acções". ... "Quando
companhias vendem muito (das suas próprias acções) e os
clientes de retalho estão a tomar emprestado para comprar
acções, isso é sempre sinal de um mercado em auge".
Os participantes mais bem informados do mercado acreditam que os seis meses de
corrida começam a desfazer-se. O consenso é que as
acções estão com preços excessivamente exagerados e
que os fundamentos [da economia] estão fracos. A estratégia de
Bernanke melhorou a situação líquida de muitas das maiores
instituições financeiras mas, infelizmente, não houve
transmissão à economia real. O dinheiro não está a
ir para as pessoas que mais precisam e que podem utilizá-lo para por a
economia outra vez em movimento.
A economia não pode recuperar sem um consumidor forte. Mas os
consumidores e as famílias sofreram perdas maciças e estão
profundamente endividados. As linhas de crédito foram reduzidas e, para
muitos, a única fonte de receita é o cheque semanal. Isto
significa que tudo tem de cair dentro do orçamento familiar. A
reconstrução do balanço será uma luta
contínua quando as famílias tentarem reduzir sua carga de
dívida através de cortes adicionais nos gastos. Mas se os
salários continuarem estagnados e o crédito seco, a economia
deslizará para um estado de recessão semi-permanente. Os
decisores políticos de Washington impregnados por 30 anos de
ideologia do "gotejamento", do lado da oferta não
estão preparados para fazer as mudanças necessárias para
colocar a economia numa base saudável. Eles vêem a queda no
consumo como um abalo temporário que pode ser reparado com taxas de juro
baixas e estímulos fiscais. Pensam eles que a economia apenas encontrou
um "trecho difícil" entre períodos de expansão.
Mas um certo número de inquéritos recentes indicam que
estão errados e que "Desta vez
É
diferente". Os trabalhadores bateram numa parede. Os consumidores
não serão capazes de abrir caminho para fora deste afundamento.
Segundo um inquérito recente da Gallup:
"Os gastos médios diários da geração 'baby
boomers'
[NT1]
, de US$64 em 2009, baixaram drasticamente em relação à
média de US$98 em 2008. Mas os baby boomers o maior grupo
geracional de americanos não estão sós no recuo do
seu consumo pois todas as gerações mostram declínios
significativos em relação ao ano passado. A geração
X relatou o maior gasto em ambos os anos e é uma média de US$71
por dia até agora em 2009, uma baixa em relação aos US$110
em 2008.
A Gallup descobre declínios significativos entre todas as
gerações na média de gastos diários relatados em
2009 em comparação com 2008. Uma vez que o gasto do consumidor
é o motor primário da economia estado-unidense, não
é claro quanto a economia possa crescer a menos que os gastos aumentem
em relação aos seus baixos níveis actuais. Mas o gasto
pode não ser necessariamente a melhor opção para os baby
boomers quando se aproximam da idade da reforma e se preparam para confiar na
Segurança Social e nas suas poupanças de reforma como fontes
primárias de rendimento. Na verdade, as duas gerações
consistentes em grande parte de americanos em idade de reforma mostram
firmemente os mais baixos níveis de gastos relatados".
(
"Boomers' Spending, like other Generations, Down Sharply"
, Jeffrey M. Jones, Gallup)
Já não faz qualquer sentido para as pessoas gastarem mais do que
podem poupar, nem é possível. As famílias dos EUA
duplicaram a sua dívida nos últimos sete anos, para
aproximadamente US$14 milhões de milhões
(trillion).
A farra da tomada de empréstimos maciços alimentou o crescimento
da economia e pressionou os preços dos activos particularmente a
habitação firmemente mais para cima. Mas a profusão
de gastos só era possível devido às baixas taxas de juro,
padrões de empréstimo laxistas e parceiros comerciais com bolsos
fundos que só estavam demasiado ansiosos para comprar carregamentos de
valores, títulos (Fannie e Freddie) e Obrigações do
Tesouro. Agora as condições mudaram; o financiamento secou e os
bancos centrais e investidores estrangeiros limitaram as suas compras de
Obrigações do Tesouro. Os consumidores são relegados a si
próprios num ambiente hostil em que tantos os empregos como o
crédito são escassos.
Os orçamentos familiares nunca foram tão esticados quanto
estão hoje. Os preços da habitação caíram 33
por cento em relação ao seu pico de 2007, mas o desalavancamento
das famílias mal começou. Há um bocado de aperto de cinco
a fazer se as famílias planeiam reduzir a sua dívida agregada em
cerca de US$2,5 milhões de milhões e retornar os rácios
dívida / situação líquida à sua linha de
tendência normal. Os decisores políticos precisam centrar-se no
alívio da dívida e no princípio hipotecário da
redução contabilística do valor dos activos a fim de
facilitar a transição e por as pessoas outra vez de pé.
A actual recessão revelou as falhas geológicas que dividem as
classes nos EUA. Nenhum dos dois partidos representa os trabalhadores. Tanto os
Democratas como os Republicanos são apoiantes da "engenharia social
para os ricos", a fiscalidade regressiva e políticas
económicas que comutam uma maior porção da riqueza para os
americanos mais ricos. A questão da desigualdade, a qual cresceu para
níveis nunca vistos desde a Era Dourada, dominará a
conversação nacional à medida que a recessão se
aprofundar e mais pessoas se desligarem das fileiras da classe média. O
vasto abismo entre os mega-ricos e as pessoas comuns é explorado num
recente
relatório do professor Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia
, o qual conclui que a desigualdade de rendimento nos Estados Unidos
está no máximo de todos os tempos, ultrapassando mesmo os
níveis verificados durante a Grande Depressão. O relatório
mostra que:
"Os 1 por cento do topo de rendimentos capturaram a metade do crescimento
económico geral ao longo do período 1993-2007" ... As 14.988
famílias do topo recebiam 6,04% do rendimento, o número mais
elevado em qualquer ano desde que os dados ficaram disponíveis. As
famílias do 1% do topo recebiam 23,5% do rendimento, enquanto os 10% do
topo recebiam 49,7% do rendimento (o mais elevado já registado)".
Por que isto importa? Além da questão moral de se um punhado de
pessoas merece viver como reis enquanto outras vivem na miséria,
há a questão política: Estão as nossas
políticas a serem conduzidas por plutocratas cujo único interesse
é esmagar a base e aumentar o seu próprio poder? Don Monkerud
trata da questão no seu artigo "Wealth Inequality Destroys US
Ideals" (Consortium News):
"Mais de 40 por cento do PNB vem das companhias Fortune 500. De acordo com
o World Institute for Development Economics Research, os 500 maiores
conglomerados nos EUA "controlam mais de dois terços dos recursos
de negócios, empregam dois terços dos trabalhadores industrias,
representam 60 por cento das vendas e arrecadam mais de 70 por cento do
lucros".
As corporações sistematicamente criaram um fosso de riqueza ao
longo dos últimos 30 anos. Em 1955, os registos do Internal Revenue
Service (IRS) indicavam que as 400 pessoas mais ricas do país estavam a
valer uma média de US$12,6 milhões, ajustado pela
inflação. Em 2006, os 400 mais ricos aumentaram a sua
média para US$263 milhões, o que representa uma mudança de
era da riqueza em direcção aos estratos mais altos nos EUA".
(Don Monkerud "Wealth Inequality Destroys US Ideals" Consortium News)
O consumidor dos EUA já não tem a capacidade de levantar-se outra
vez e gerar procura suficiente para produzir crescimento positivo. De acordo
com o McKinsey Global Institute, proprietários de casas retiraram
"US$2,3 milhões de milhões em empréstimos sobre a
situação líquida das casas e refinanciamentos entre 2003 e
2008". A maior parte do dinheiro foi gasta no consumo pessoal. De onde
virá o dinheiro agora que a situação líquida das
casas ficou negativa? A administração Obama precisará de
um segundo, terceiro e quarto estímulo só para preencher o rombo
deixado pelo colapso do mercado habitacional.
O Fed e seus aliados no establishment corporativo/financeiro mataram a Galinha
dos ovos de ouro. Depois de o estímulo de Obama acabar, o gasto do
consumidor ruirá mais uma vez e a economia deslizará outra vez
para a recessão. Quando o consumo pessoal declinar, os mercados dos EUA
tornar-se-ão menos atraentes para exportadores estrangeiros. Não
haverá então necessidade de continuar a comerciar em
dólares.
04/Setembro/2009
[1] Denominação dada à geração nascida entre
1945 e 1965.
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