A economia em profunda perturbação...

Pergunta a Bernanke: "Você tem cojones para aumentar taxas?"

por Mike Whitney

Cartoon de Ed Stein. Bá. É alvorada na América. Os números do desemprego estão a estabilizar, o mercado de acções está a ferver, as receitas trimestrais foram melhores do que o esperado, os correctores estão com mercado em alta, a habitação dá mostras de vida e a sucata dos swaps deu a Detroit uma bem necessária injecção de adrenalina. Mesmo economistas Cassandra – como Paul Krugman e Nouriel Roubini – têm sido pouco habitualmente optimistas. Será verdade que evitámos uma Segunda Grande Depressão? Estará o pior realmente para trás?

Talvez. Mas só há um meio de descobrir isso com certeza. Elevar taxas.

Bernanke deveria saudar a oportunidade de mostrar a toda a gente como arrancou a maior economia do mundo da beira do desastre. Tudo o que ele tem de fazer é cessar de dar dinheiro gratuito, encerrar algumas da suas chamadas facilidades de concessão de empréstimos e parar de manipular taxas de juro através da compra de títulos apoiados por hipotecas (mortgage-backed securities, MBS) da Fannie e do Freddie. Quão difícil será isto? O S&P 500 disparou 48 por cento desde 9 de Março. Do que Bernanke está à espera? Um aumento de 75 por cento, um aumento de 100 por cento??? Quão altas as acções têm de ficar para convencer Bernanke de que a economia pode aguentar-se nos seus próprios pés sem a torrente de liquidez barata emitida pelo Fed?

Bernanke pode provar aos seus críticos que a economia dos EUA não precisava dos programas de monetização e do controle de preços do Fed; que tão pouco precisava de injecções de liquidez e de comprar hipotecas lixo. (US$80 mil milhões só no mês passado) Afinal de contas, como opina Bernanke, "Os fundamentos da nossa economia estão fortes!"

Certo. Agora prove.

Tudo o que Bernanke tem a fazer é incrementar taxas em um ponto ou dois e demonstrar que está desejoso de limpar alguns dos US$12 milhões de milhões (trillion) que bombeou para dentro dos mercados financeiros. Apenas com um anúncio, o presidente do Fed poderia mostrar ao nosso maior credor – a China – que é sério quanto à defesa do dólar e ao trilião de dólares de Títulos do Tesouro dos EUA que a China comprou acreditando que os EUA eram um parceiro comercial responsável que nunca emitiria cheques sobre uma conta com um saldo líquido negativo de US$12 milhões de milhões. (A Dívida Nacional)

Assim, vá em frente, Ben. Eleve taxas, encerre as máquinas de impressão, embrulhe os programas de bem-estar corporativo. Seja um Grande Homem. Faça os seus críticos comerem as suas palavras. Isto é da Blooberg News, de 12/Agosto/09:

"A política de ajustamento do Open Market Committee do Fed limitará a taxa alvo de zero para 0,25 por cento e manterá planos para comprar até US$1,45 milhões de milhões de dívida habitacional este ano a fim de ajudar a assegurar uma recuperação, disseram analistas. Aguarda-se a declaração do FOMC para cerca das 14h15 em Washington".

Hummmmm. Assim toda a conversa alegre dos "rebentos verdes" é pura tagarelice, não é? Não há recuperação. Bernanke planeia continuar a inundar o sistema financeiro com liquidez barata. É tudo uma fraude. As coisas não estão melhores, estão piores.

Vejam-se os factos.

Houve 1,9 milhão de arrestos nos primeiros seis meses de 2009 e haverá mais 1,5 milhão antes do fim do ano. O que é melhor? Segundo a Bloomberg: "Uma saturação de casas não vendidas está a pressionar os preços para baixo. Os 3,8 milhões de casas para venda em Junho levariam 9,4 meses para vender ao ritmo actual das transacções, segundo a Associação Nacional de Correctores de Imóveis. A taxa de rotação do stock era em média de 4,5 meses nos seis anos decorridos entre 2000 e 2005... Mais de 18,7 milhões de casas, incluindo arrestadas, residências para venda e casas de férias, permaneciam vagas nos EUA durante o segundo trimestre. Isto deve ser comparado com os 18,6 milhões no ano anterior, disse o U.S. Census Bureau em 24 de Julho.

"As vendas totais de casas caíram 23,7 por cento em Junho em relação ao ano anterior". (Bloomberg

Oferta maciça, preços em queda, recorde de arrestos, procura exaurida e – segundo o Deutsche Bank – 48 por cento de todas as hipotecas estarão debaixo da água em 2011. Está tudo mau.

Aqui está um outro recorte de hoje 12/08/09 da Bloomberg:

"O declínio nos preços das casas nos Estados Unidos ACELEROU no segundo trimestre, caindo um recorde de 15,6 por cento em relação ao ano anterior, pois os arrestos pesaram sobre os valores.

O preço mediano de uma casa unifamiliar existente caiu para US$174.100, O MAIOR RECORDE desde 1979, disse hoje a National Association of Realtors.

"Não creio que já estejamos no fundo quanto a preços habitacionais", disse Scott Anderson, economista senior do Wells Fargo & Co. em Minneapolis. "Também há uma grande sombra na oferta de casas. As pessoas estão até certo ponto à espera do fundo mas há uma oferta reprimida aqui". ... Os preços das casas estão a despencar mesmo quando as taxas hipotecárias permanecem próximas de baixas históricas. A taxa média dos EUA para empréstimos habitacionais fixados a 30 anos era de 5,22 por cento na semana passada, uma redução dos 5,25 da semana anterior". (Bloomberg)

O declínio nos preços habitacionais está a ACELERAR, não a enfraquecer. O colapso histórico no imobiliário está em andamento e está a destruir milhões de milhões da situação líquida das habitações tornando cada vez mais difícil aos consumidores contrair empréstimos devido ao valor decrescente do seu colateral. Eis porque os arrestos, incumprimentos e bancarrotas pessoais estão a crescer. (Segundo o American Bankruptcy Institute: os pedidos de bancarrota do consumidor atingiram 126.434 em Julho, um aumento de 34,3% de ano para ano, e um aumento de 8,7% sequencialmente (116.365 em Junho). O número de Julho é o mais alto total mensal desde a reforma da lei da bancarrota de Outubro de 2005, também conhecida como Bankruptcy Abuse Prevention and Consumer Protection Act.

TRIPLA MALDIÇÃO

Esta é a razão porque proprietários de casas e consumidores já não podem gastar tanto como antes da crise. As linhas de crédito estão a ser reduzidas; as poupanças pessoais estão a subir e o PIB (excluindo o estímulo fiscal) está a encolher. Cada um dos 3,5 milhões de arrestos representa centenas de milhares de dólares que os bancos nunca recuperarão. NUNCA. Eis porque a taxa de falências bancárias será muito maior do que as estimativas actuais. Os bancos estão a enfrentar uma tripla maldição: arrestos em crescendo, mergulho nos preços activos e um colapso no imobiliário comercial. A combinação criou um buraco de capital gigantesco o qual força os bancos a arrefecerem a concessão de empréstimos mesmo para candidatos com crédito impecável. O Fed desenvolveu um excesso de reservas nos bancos de US$800 mil milhões, mas isto não fez a mínima diferença. Os bancos ainda não são capazes de conceder empréstimos.

O ligeiro aumento do mês passado na habitação reflecte mudanças sazonais e uma mudança do sofrimento do extremo inferior do mercado para casas com preços mais altos; nada mais. Casas que têm preços de mais de US$1 milhão estão agora postas no mercado há 20 meses; uma duração crónica na linguagem imobiliária. Bairros caros transformaram-se em colónias de leprosos. Juro zero, tráfego zero. Aguarde um crash este ano.

Agora vamos ver esta peça de Diana Olick, da CNBC:
"O número de casas listadas oficialmente no mercado, se bem que ainda em níveis historicamente altos, pode ser apenas o topo do iceberg", disse Stan Humphries, economista chefe do sítio web imobiliário Zillow.com, em Seattle, Washington. Segundo o mais recente Inquérito à Confiança do Consumidor, de Zillow, 12 por cento dos proprietários disseram que seria "muito provável" colocarem a sua casa no mercado nos próximos 12 meses se vissem sinais de uma viragem no mercado imobiliário, 8 por cento consideraram "provável" enquanto 12 por cento considerou "algo provável". Os resultados do inquérito poderiam traduzir-se em cerca de 20 milhões de proprietários a tentarem vender suas casas, um número espantoso uma vez que o Gabinete do Recenseamento indica que há nos EUA 93 milhões de casas, condomínios e cooperativas, disse Humphries.

De acordo com a Associação Nacional de Correctores Imobiliários, o mercado está actualmente a caminho de vender 4,80 milhões de casas por ano.

"A este ritmo, levaria cerca de quatro anos para passar esta quantidade de stock acumulado", disse ele. "O stock sombra tem o potencial para nos dar uma rasteira quanto aos preços das casas durante o segundo semestre do ano", disse Steven Wood, economista chefe da Insight Economics, em Danville, Califórnia. (Diana Olick, "Shadow inventory lurks over US housing recovery" CNBC)

Os bancos estão a utilizar todos os tipos de truques contabilísticos para esconder as perdas reais ou o verdadeiro valor dos activos degradados. A única diferença entre um vigarista comum e um banqueiro comercial é um contabilista bem pago. O sistema bancário está arruinado e apenas ficará pior quando o martelo bater no mercado do imobiliário comercial. O Fed e o Tesouro já estão a trabalhar os pormenores de outro salvamento invisível que iniciarão sem aprovação do Congresso. É tudo muito "secreto". O plano envolverá mais mega-alavancagens de passivos do governo. Bernanke nomeou-se o czar de facto do País Hedge Fund, Cidade Sucata, EUA.

Um artigo no Financial Times desta semana ilustra mais uma vez como o Fed transformou a economia num casino à beira do rio:

"O Federal Reserve Bank de Nova York está a agressivamente a contratar correctores pois procura gerir seus florescentes haveres em títulos, tornando o banco central um dos mais activos recrutadores de talentos financeiros da Wall Street.

O Fed de Nova York – o braço do banco central dos EUA que aplica a sua política monetária – planeia aumentar a equipe no seu grupo de mercados para 400 no fim do ano, em relação aos 240 do fim de 2007.

O Fed, o qual diz que a maior parte dos seus novos recrutas vêm de firmas financeiras do sector privado, está a contratar tantos empregados quanto os bancos, agências de classificação, hedge funds e grupos de correctores que operam fora da bolsa (private equity) despedem equipes. Responsáveis de Nova York estimaram recentemente que as mazelas do sector levariam a uma perda de mais de 140 mil empregos.

A necessidade do Fed de mais correctores é uma consequência directa dos esforços do banco central para manter o crédito a fluir através da economia estado-unidense. O Fed tem estado a comprar títulos de rendimento fixado a uma taxa tal que os seus activos mais do que duplicaram para US$2000 mil milhões no ano passado, levando o banco central a concluir que precisa de mais pessoal para monitorar os mercados e administrar os seus riscos de crédito". ( Financial Times, "NY Fed in hiring spree as assets soar", Aline van Duyn)

Lindo, não é? De modo que agora o Fed precisa alistar um bando de especuladores profissionais só para manter todas as bolas no ar. Que brincadeira. Isto não é uma retomada; é apenas mais alarde. Aqui está como Warren Buffett resumiu isto na CNBC:

"Tenho números sobre 70 negócios estranhos, um bocado deles diariamente. Tudo que vejo acerca da economia é que não tivemos salto nenhum. O sistema financeiro estava realmente onde estava a crise em Setembro e Outubro e aquilo foi ultrapassado, o que é muito importante. Mas em termos de a economia voltar à situação anterior, leva um bocado de tempo... Eu disse que a economia estaria num pandemónio este ano e provavelmente bem para além. Receio que seja verdade". "A economia está num pandemónio". Isto vem da própria boca de uma autoridade. Os stocks estão baixos em 11 por cento em relação ao ano passado, os bens duráveis em 10,4 por cento, a capacidade industrial está num recorde baixa, a manufactura está em contracção, a habitação está no tanque, a navegação e os fretes ferroviários estão a arranhar o fundo, o retalho num pânico a longo prazo e – segundo Krugman – a ligeira imersão no desemprego foi uma anomalia estatística. Aqui está o grande resumo de Bob Herbert dos dados do desemprego:

PERDA DE 6,7 MILHÕES DE EMPREGOS

"Uns 247 mil empregos foram perdidos em Julho, número que sob circunstâncias habituais provocaria um estremecimento por todo o país. Foi a mais pequena perda mensal de empregos desde o último Verão. E por esta razão foi encarada como um sinal de esperança. A taxa oficial mensal de desemprego registou uma baixa de 9,5 por cento para 9,4 por cento... O país perdeu uns lancinantes 6,7 milhões de empregos desde que a Grande Recessão começou em Dezembro de 2007...

A percentagem de jovens americanos homens que estão realmente a trabalhar é a mais baixa que já houve nos 61 anos de existência de registos, segundo o Center for Labor Market Studies na Northeastern University, de Boston. Só 65 de cada 100 homens com idades entre 20 e 24 anos estavam a trabalhar em qualquer dia dos primeiros seis meses deste ano. Na faixa etária dos 25 até os 34 anos, tradicionalmente uma idade preferencial para casar e iniciar uma família, apenas 81 em cada 100 homens estavam empregados... Os números estão para além do assustador; eles são catastróficos.

Isto deveria ser a grande notícia nos Estados Unidos. Quando a condição de desemprego atinge esta espécie de extremo, ela não prejudica famílias individuais; ela corrói comunidades inteiras, promove um sentido de desesperança e leva à desordem...

Um quadro mais verdadeiro da crise do emprego emerge quando se soma o número de pessoas que são oficialmente contadas como desempregadas com aqueles que estão a trabalhar em tempo parcial porque não podem encontrar trabalho a tempo inteiro e aqueles no assim chamado mercado de trabalho de reserva — pessoas que não estão a procurar trabalho activamente (porque ficaram desencorajados, por exemplo) mas assumiriam um emprego se algum se tornasse disponível.

A contagem destas três categorias é um número estonteante de 30 milhões de americanos — 19 por cento da força de trabalho total.

Isto é, de longe, o maior problema do país e deveria ser a prioridade Nº 1. ("A Scary Reality" Bob Herbert, New York Times )

Sinto muito, Bob, os media não têm tempo para notícias do desemprego. Elas tendem a minar as vibrações positivas das histórias sobre rebentos verdes.

A corrida ao mercado de acções tornou mais difícil às pessoas verem a verdade. Mas os factos não mudaram. A deflação está a começar em todos os sectores e a economia reiniciou a uma taxa mais baixa de actividade económica. Os preços da habitação estão a cair, os gastos do consumidor estão a reduzir-se, os despedimentos estão a aumentar e a procura está a ficar mais fraca. Isto significa que o crescimento estará abaixo do padrão no futuro previsível. Aqui está um excerto de um discurso feito por Janet Yellen, do Fed de San Francisco, que apresenta a mesma conclusão:

"Não gosto de afastar o vento das velas da nossa expansão económica, mas uns poucos pontos de advertência deveriam ser considerados... uma mudança maciça no comportamento do consumidor está a caminho... As famílias americanas entraram nesta recessão esticadas até ao limite por hipotecas e outras dívidas. A taxa de poupança pessoal caiu de cerca de 8 por cento do rendimento disponível duas décadas atrás para quase zero. As famílias financiaram os seus estilos de vida aproveitando-se do aumento do mercado de acções e da riqueza habitacional e assumindo níveis de endividamento mais altos. Mas a queda habitacional e os preços das acções destruíram milhões de milhões de dólares em riqueza, cortando aquelas fontes imediatas de cash. Mais ainda, as realidades desoladas desta recessão assustaram muitas famílias, convencendo-as de que precisam poupar maiores fracções dos seus rendimentos... uma redescoberta da parcimónia significa menos vendas no centro comercial e menos empregos nas linhas de montagem e balcões nas lojas...

Esta economia muito fraca está, na verdade, a provocar uma pressão baixista sobre salários e preços. Já vimos uma baixa significativa no crescimento salarial e relatos de cortes de salários tem-se tornado cada vez mais generalizados — um sinal dos sacrifícios que alguns trabalhadores estão a fazer para manter os seus empregadores à tona e preservar seus empregos. Os negócios também estão a cortar preços e margens de lucro para promover vendas... Com desemprego já substancial e provavelmente a aumentar outra vez, a pressão baixista sobre salários e preços deveria continuar e poderia intensificar-se...

Se a economia fracassar em recuperar-se em breve, é concebível que esta inflação muito baixa poderia redundar em deflação absoluta. Pior ainda, se a deflação viesse a intensificar-se, poderíamos encontrar-nos numa espiral devastadora na qual os preços caem a um ritmo sempre mais rápido e a actividade económica afunda cada vez mais".

"Preços em queda". "Deflação". "Espiral devastadora". Isto não é a espécie de honestidade que se espera de um chefe do Fed. Yellen não deve estar bebendo a limonada.

E não esqueça que o sistema bancário ainda está arruinado. Nem um centavo dos US$700 mil milhões do salvamento TARP foi utilizado para comprar activos tóxicos. Os bancos ainda estão a afogar-se em tinta vermelha. Bernanke sabia desde Setembro último, quando o Lehman Brothers incumpriu, que os activos podres teriam de ser removidos antes de a economia poder recuperar. Um sistema bancário debaixo da água é uma drenagem constante de recursos públicos e um peso sobre o crescimento. Bernanke sabia disto, mas ao invés de remover os activos pela nacionalização dos bancos ou reestruturação da sua dívida (como deveria ter feito) ele expandiu o balanço do Fed em US$1,2 milhão de milhões os quais proporcionaram liquidez que as instituições financeiras bombearam para dentro do mercado de acções. "A corrida de Bernanke" gerou o capital que os bancos precisavam para não reavaliarem em baixa (writing-down) as suas dívidas ou submeterem-se ao Capítulo 11, mas os problemas ainda persistem abaixo da superfície. Só esta semana, Elizabeth Warren, do Congressional Oversight Panel, divulgou um relatório condenatório o qual enfatiza a necessidade de tratar da questão dos activos tóxicos. De acordo com o relatório do COP:

"A estabilidade financeira permanece em risco se o problema subjacente dos activos tóxicos permanecer não resolvido...

Se a economia piora, especialmente se o desemprego permanecer elevado ou se o mercado do imobiliário comercial entrar em colapso, então os incumprimentos elevar-se-ão e os activos perturbados continuarão a deteriorar em valor. Os bancos incorrerão em novas perdas nos seus activos perturbados. O sistema financeiro permanecerá vulnerável às condições de crise que o TARP pretendia consertar...

A mudança de padrões contabilísticos ajudou os bancos temporariamente, permitindo-lhes maior liberdade de movimento na descrição dos seus activos, mas ela não muda o problema subjacente. A fim de avançar para uma plena recuperação da economia deve haver maior transparência, responsabilidade e clareza, tanto do governo como dos bancos, acerca do âmbito do problema dos activos perturbados.

O problema dos activos perturbados é especialmente sério para os balanços dos bancos pequenos. Os activos perturbados de bancos pequenos geralmente são todos em empréstimos, mas o programa principal do Tesouro para remoção de activos perturbados dos balanços dos bancos, o PPIP actualmente pretende tratar apenas de títulos hipotecários perturbados e não todos os empréstimos.

Dada a incerteza permanente, a vigilância é essencial. Se as condições excederem aquelas do cenário de pior caso dos recentes testes de stress, então os testes de stress dos maiores bancos do país deveriam ser repetidos para avaliar o que aconteceria se activos perturbados sofressem perdas adicionais".

Para resumir: NÃO haverá qualquer recuperação real até que o problemas dos activos tóxicos esteja resolvido. Infelizmente, o Tesouro e o Fed mostraram que pretendem varrer esta questão para debaixo do tapete durante tanto tempo quanto possível.

Activos tóxicos, preços em queda da habitação, mal-estar generalizado nos mercados de crédito são apenas parte do problema. A questão mais profunda é a deplorável condição do consumidor estado-unidense que viu a situação líquida da sua casa evaporar-se, os seus fundos de aposentação cortados pela metade, o seu acesso ao crédito restringido e o seu emprego colocado em risco. Americanos comuns da classe trabalhadora agora enfrentam o que David Rosenberg denomina "a era da frugalidade do consumidor – novo paradigma de poupanças, liquidação de activos e reembolso de dívida". Os estilos de vida terão de ser afinados em baixa e os padrões de vida reduzidos para atenderem à nova realidade deflacionária. Mais e mais pessoas serão forçadas a desfazerem-se dos seus cartões de crédito e viver de acordo com os seus meios.

Não é o fim do mundo, mas prenuncia um período prolongado de crescimento negativo, inquietação social e alto desemprego persistente. Aqui está como o Wall Street Journal resume isto: "Um número surpreendentemente grande de gestores de dinheiro e economistas estão a advertir que, apesar do sinais de esperança, a economia ainda está profundamente embrenhada nas florestas, não suficientemente forte para suportar uma longa corrida às acções e a recuperação dos títulos... Mesmo após o fim da recessão, economistas esperam que a redução gradual da dívida maciça do consumidor do país demore anos.

Os dados da dívida são impressionantes. De acordo com o Federal Reserve, o endividamento habitacional total atingiu o pico no fim de 2007 a 132% do rendimento disponível. Aquilo foi de longe o mais alto nível desde o fim da II Guerra Mundial, aproximadamente o quádruplo dos 36% de 1952. No fim de Março, com famílias a aumentarem poupanças, reembolso de dívidas e incumprimentos, o rácio caiu para 124%, um pouco mais baixo mas ainda a quilómetros do nível de, digamos, 69% nos meados de 1985. Os gastos do consumidor hoje representam dois terços ou mais do produto económico. Mas quando aumentam poupanças e cortam a tomada de empréstimos, os consumidores não podem ser os condutores do crescimento económico como foram no fim de outras recessões recentes.

Em Junho a contracção de empréstimos pelo consumidor caiu pelo quinto mês consecutivo...

"Os consumidores estão sob pressão financeira significativa", observa Goldman no seu relatório. "A fraqueza no rendimento habitacional – parcialmente resultante da aguda desaceleração do crescimento do salário horário – tornará mais difícil elevar a poupança sem constrangimentos significativos do consumo".

Quanto à construção de casas e gastos de capital, dois outros possíveis motores de crescimento, "não esperamos uma retomada 'tradicional' nestes sectores, em grande parte porque a oferta excessiva de capacidade não utilizada tanto na habitação como nos sectores de negócios continua enorme", disse Goldman". ("Debt Burden to Weigh on Stocks", E.S. Browning and Annelena Lobb, Wall Street Journal )

A euforia do mercado de acções pode perdurar um longo tempo, mas as leis da gravidade ainda se aplicam. A economia está em perturbação muito profunda e Bernanke sabe isto ou estaria a elevar taxas neste exacto momento. O paciente está em hemorragia, meus amigos, e nenhuma quantidade de palração alegre vai parar a sangria.

14/Agosto/2009
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=14759

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Ago/09