Capitalismo em crise, governo impotente
Os media, académicos e políticos muitas vezes falam e actuam como
se políticas económicas do governo pudessem "resolver"
ou "acabar" ou "ultrapassar" crises do capitalismo. Elas
não podem. Nunca puderam. O contra-exemplo muito citado, o programa New
Deal de Franklin Dellano Roosevelt na década de 1930, fracassou em
retirar os EUA da Grande Depressão. Foi a II Guerra Mundial que fez
isso. Políticas económicas do governo destinadas a crises
são principalmente fracas encenações secundárias. O
evento principal é o relacionamento intrínseco entre o
capitalismo e as suas crises. A atenção pública é
desviada para as encenações secundárias, somos
distraídos do evento principal.
Crises são mecanismos internos do capitalismo como sistema. O
capitalismo é tendente a "bolhas" recorrentes
(especulações descontroladas em activos reais ou instrumentos
financeiros, investimento excessivo em capacidade produtiva, etc) que podem
ameaçar a sua sobrevivência. Portanto, ele tem desenvolvido crises
(aumento do desemprego, bancarrotas, arrestos) para "corrigir" as
suas bolhas. Hoje, por exemplo, após anos de concessão de
crédito sem controle e de uma insustentável bolha da
indústria habitacional, uma crise aqueles excessos eliminando milhares
de milhões em dívidas, levando ao colapso os preços das
casas e assim por diante. No fim da década de 1990, após anos de
especulações descontroladas do mercado de acções e
de preços das mesmas insustentáveis, uma crise em 2000 corrigiu
aqueles excessos desmoronando os preços das acções. Em
ambos os exemplos, as correcções implicaram o sofrimento em massa
associado ao desemprego, bancarrotas (especialmente de negócios de
pequena e média dimensão), crises fiscais que cortaram
serviços públicos, pensões e outros fundos sociais
reduzidos e assim por diante.
O método do sistema capitalista de auto-curar-se é a crise.
Quando uma das suas bolhas recorrentes explode, riqueza é
destruída, pessoas são despedidas e instalações de
produção são encerradas numa espiral descendente de
contracção. Finalmente, os cada vez mais desesperados
desempregados, sub-empregados e os ainda empregados que temem perder o emprego
aceitam salários mais baixos e menos benefícios. Da mesma forma,
empresas em bancarrota ou submetidas a
downsizing
desfazem-se de maquinaria ociosa no mercado de segunda mão, arrendam
menos espaço, compram menos inputs, fazem menos publicidade, etc. Os
custos de equipamento, espaço, materiais e anúncios então
caem juntamente com as quedas de salários e as reduções de
benefícios. Os custos cairão até que os negócios
vejam lucros outra vez na contratação de trabalhadores e retomada
da produção. A crise fez então a sua tarefa. A
recuperação arranca e o capitalismo começa a ascender para
a bolha seguinte quando todo o ciclo se repete.
As políticas do governo ao longo dos últimos dois séculos
de ascendência do capitalismo nunca terminaram nem substituíram as
crises como o método do sistema para corrigir excessos capitalistas. Nem
tão pouco políticas do governo impediram que tais excessos se
repetissem. Os dois excessos mais recentes (a bolha do mercado de
acções da década de 1990 e a bolha imobiliária/do
crédito de 2004-07) e as duas crises resultantes provam isso. O
capitalismo mantém-se a gerar excessos seguidos por crises seguidos por
excessos. É assim que o sistema funciona.
As actividades do governo durante as crises servem tipicamente três
finalidades principais. Políticas de bem-estar social amenizam ou pelo
menos dão mostras de amenizar o sofrimento da massa enquanto a crise
prossegue para corrigir os excessos anteriores. Segundo, políticas
financeiras estimulam e regular empresas privadas e salvam também
aquelas firmas cujo fracasso iminente poderia comprometer o sistema. Tais
políticas podem diminuir os extremos da crise enquanto ela prossegue a
fim de corrigir os excessos anteriores. Terceiro, declarações do
governo atribuem a culpa pelos sofrimentos provocados pela crise a
"causas" diferentes do funcionamento interno e de rotina do sistema
capitalista. Responsáveis conservadores enfatizam que (1) o sofrimento
das massas é o preço que "devemos pagar" para corrigir
excessos que eles atribuem aos trabalhadores ou ao governo ou a ambos e (2)
"deveríamos confiar" nos negócios privados (livres de
constrangimentos impostos pelo governo ou pelos trabalhadores) para ultrapassar
aqueles excessos. Responsáveis liberais pressionam por aliviar o
sofrimento da massa associado à crise enquanto insistem em que (1) os
excessos passados foram provocados por "maçãs podre
cobiçosas" e mercados "não regulados"e (2)
intervenções do governo ultrapassarão a crise actual e
impedirão crises futuras. A crítica do capitalismo como sistema
é impossível literalmente impensável tanto
para uns como para outros.
As políticas do governo são principalmente camuflagens para os
ciclos penosos da instabilidade inerente ao capitalismo. Na melhor das
hipóteses, elas suavizam as pontas mais agudas das crises. Porque os
capitalistas opõem-se à mudança ou mesmo ao questionamento
do sistema, as crises recorrentes são deixadas como o instrumento
principal para corrigir os excessos recorrentes. Os capitalistas tornam as
políticas do governo impotentes utilizando os lucros que eles tomam
directamente das suas empresas (lobbying, subornos, etc) ou indirectamente
(relações públicas). Políticos dependentes do apoio
de capitalistas mostram "preocupação" pelo sofrimento
da massa enquanto limitam o que o governo realmente faz para as três
encenações acima listadas. Previsivelmente, as políticas
do governo nunca chegam à raiz do problema das crises.
Tal problema é o sistema capitalista com suas profundas tensões
embutidas dentro de si. No interior de todas as empresas, lutas
infindáveis entre trabalhadores e capitalistas provocam decisões
(exemplo: sobre salários e benefícios) que levam a crises.
Conflitos entre conselho de administração e accionistas provocam
decisões (exemplo: super-investimentos) que contribuem para crises. A
competição de mercado entre empresas provoca decisões
(exemplo: mais
outsourcing
para empresas com salários miseráveis) que moldam as crises. O
capitalismo como sistema económico estrutura conflitos internos entre os
seus participantes que reiteradamente geram excessos e crises.
Uma resposta óbvia às crises seria questionar o sistema
capitalista que as produz e reproduz. Isto leva logicamente a avaliar sistemas
económicos alternativos. Podemos reorganizar empresas de modo a que os
trabalhadores se tornem os seus próprios empregadores colectivos para
ajudar a ultrapassar a instabilidade imposta pelo capitalismo? Pode o
planeamento económico local, regional e/ou nacional feito por
agências democraticamente responsáveis finalizar os caminhos com
que a competição de mercado produz bolhas e fracassos? Pode a
substituição da propriedade privada (contestando
corporações e seus accionistas) por um sistema de propriedade
colectiva, socialmente responsável, ajudar a reduzir os excessos
económicos e as crises?
Longe de responder a estas questões chave, a maior parte das
discussões sobre a crise ignora-as. Elas continuam tabus porque (e
enquanto) os capitalistas tiverem o incentivo e os recursos para sustentar a
sua proibição do questionamento do sistema. Portanto,
sabichões, políticos e professores, continuem a actuar como se
isto fossem assuntos há muito arrumados, como se nenhuma alternativa ao
capitalismo existisse ou valesse a pena considerar. Faltando a coragem para
questionar o sistema, eles limitam as políticas governamentais apenas a
camuflagens impotentes.
Mas a própria crise do capitalismo mina os seus tabus. O número e
a influência social dos críticos do capitalismo estão outra
vez a crescer. As injustiças do sistema, os desperdícios
materiais e os imensos custos humanos provocam o questionamento e a
crítica que podem identificar as mudanças necessárias para
finalmente romper o ciclo de excessos e de crise. A dialéctica da
contradição, a velha toupeira, assalta novamente o capitalismo.
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst. Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006). Acerca da crise económica actual ver o seu
filme documentário
Capitalism Hits the Fan,
em
www.capitalismhitsthefan.com
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/wolff070809.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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