Esses planos alternativos socialistas de "estímulo"

por Rick Wolff [*]

Cartoon de Paresh Nath. Há, evidentemente, outras formas de "apoiar e estimular" a decadente economia americana: as que nunca são discutidas pelos deputados do Congresso, pelos conselheiros presidenciais e pelos subservientes meios de comunicação. O mais que o Federal Reserve e o Tesouro dos EUA fazem sempre é justificar as suas funções de emprestadores e consumidores "de último recurso" (quando o sector privado deixa de o fazer). Nunca se refere que o estado também poderia estimular a economia se passasse a ser o empregador e o produtor de último recurso (quando o sector privado suspende o trabalho e reduz a produção). A aprovação do pacote de política económica de Obama, cuidadosamente encenada, impediu quaisquer considerações perturbadoras de todas as vias de estímulo que não foram consideradas.

Após trinta anos de hibernação estão a ressuscitar os diversos tipos de alternativas mais ou menos socialistas. Agitam-se à superfície da vida pública: produto directo da crise do capitalismo global, que se vai aprofundando, e do fracasso continuado das respostas políticas oficiais americanas. Dentro em breve essas alternativas irão entrar na consciência pública e ser debatidas aqui como já o são na América Latina, na Europa e noutros locais. As demonstrações anti-capitalistas, as greves gerais, e novos movimentos políticos no estrangeiro que ali levantam reivindicações socialistas também têm o seu impacto cá.

Já despontou nos EUA um certo tipo de socialismo – que se concentra na nacionalização de empresas anteriormente privadas. O governo nacionalizou algumas grandes empresas financeiras e os debates públicos pressionam para mais nacionalizações na finança, na indústria automóvel e por aí fora. A acusação instintiva – de que essa conversa é socialista – já não funciona para fazer parar os debates. Podemos perguntar-nos, até onde irão parar as nacionalizações?

Um outro tipo de socialismo mantém-se tabu – a contratação de trabalhadores pelo estado, para os quais não exista trabalho no sector privado. Essa ideia ainda se mantém intocável. O facto de F.D. Roosevelt o ter feito no auge da Grande Depressão ainda não tem impacto. A contratação de desempregados para empregos do estado iria pôr directamente em circulação o dinheiro pago em salários (que é o que os empréstimos aos bancos não têm conseguido fazer). Significaria de imediato o reinício do pagamento de muitas hipotecas e a redução de muitas penhoras.

O crescimento do emprego estatal pode confrontar as empresas capitalistas privadas com uma nova concorrência. O medo dessa concorrência supera o desejo dessas empresas por novos clientes que um programa de empregos estatais poderia fornecer. Assim, muitos dos meios de comunicação mantêm-se calados quanto a um programa maciço de empregos governamentais e os funcionários públicos seguem-lhe o exemplo. No entanto, tal como o que era impensável discutir há seis meses atrás – a nacionalização de bancos – está agora a ser discutido, o boicote à discussão do emprego público para os desempregados do sector privado pode aparecer de um momento para o outro.

Depois há socialistas para quem os programas de nacionalização e de emprego público não são suficientes. O seu programa de estímulo preferido iria mais longe do que emprestar e gastar mais e cobrar menos impostos (políticas até aqui sem qualquer êxito). Querem reorganizar a produção – alterar a forma como os bens e serviços são produzidos – assim como dar emprego a mais gente. A mudança que defendem instituiria empresas estatais onde os trabalhadores funcionassem como o seu próprio conselho colectivo de directores – em vez de os directores serem outras pessoas que respondem perante os accionistas e/ou funcionários governamentais. Pretendem também proporcionar incentivos financeiros a reorganizações paralelas em empresas privadas. Para eles, a substituição de uma organização capitalista de produção por uma socialista é a melhor solução para o presente e para um futuro liberto da instabilidade atreita à crise do capitalismo.

Por exemplo, dizem eles, se os trabalhadores tivessem sido os seus próprios directores nos anos 70, não teriam deixado de aumentar os salários reais dos trabalhadores à medida que a produtividade deles ia subindo. Se os salários não estivessem estagnados desde os anos 70, a dívida familiar e os lucros empresariais não teriam atingido níveis perigosos, insustentáveis. Relacionam esses lucros com a bolha do mercado de acções de 2000, e relacionam a dívida fora de controlo mais os lucros da indústria financeira com a bolha do imobiliário que rebentou em 2007/2008. Estes socialistas também argumentam que as empresas geridas pelos seus trabalhadores estariam menos dispostas do que as empresas capitalistas a despedir trabalhadores, a penhorar casas, e a transferir a produção para além fronteiras: acções que actualmente alastram e aprofundam a crise económica. Por fim, a reorganização da produção que estes socialistas propõem exigiria que os trabalhadores se tornassem aptos para as tarefas dos conselhos de directores (para decidir o que produzir, onde e como; e para distribuir os lucros). Coroam os seus argumentos afirmando que a democracia económica no trabalho é uma condição para uma democracia real (em oposição a uma meramente formal) na política.

Curiosamente, uma parte do programa de estímulo de Obama, acabado de aprovar, alia uma resposta imediata à crise (estabelecendo um novo plano de saúde que vai injectar mais dinheiro na economia) com a reorganização de parte da economia. Um novo conselho de investigação federal vai receber 1,1 mil milhões de dólares para "comparar drogas, instrumentos médicos, cirurgia, e outras formas de tratar doenças específicas" . Para além de estimular a economia através da contratação de investigadores, da compra de equipamentos, etc., o novo conselho também começa a reorganizar os cuidados de saúde avaliando e relatando publicamente qual o tratamento realmente mais eficaz entre os tratamentos em concorrência. Se lhe permitirem que funcione, este novo conselho vai desafiar muitas das afirmações publicitárias empresariais quanto a medicamentos, instrumentos médicos, etc, que vendem. A determinação independente e a publicidade dos melhores tratamentos para uma doença poderá baixar os enormes custos médicos americanos tanto para as pessoas como para os negócios (que ultrapassam em muito os de todas as outras economias avançadas). Obviamente, as empresas que receiam perder vendas muito provavelmente vão tentar sabotar o novo conselho.

As grandes empresas também vão lutar contra os esforços dos socialistas para reorganizar a produção. As empresas capitalistas sentir-se-ão ameaçadas porque os directores das empresas reorganizadas por dentro – chamemos-lhes socialistas – criariam condições de trabalho muito diferentes para os seus trabalhadores/empregados. Como os trabalhadores das empresas socialistas seriam tratados de forma diferente, produziriam uma qualidade diferente de resultados e utilizariam os lucros das suas empresas de formas diferentes. Suponhamos que as empresas capitalistas tinham que competir a um nível igual com essas empresas socialistas. Os consumidores americanos teriam então verdadeiras opções – pela primeira vez – entre bens e serviços que dependeriam do tipo de organização da produção de que proviessem (de modo semelhante a como agora podem optar consoante o local onde os bens são produzidos, como são produzidos organicamente, se são comercializados de forma leal, etc). Os trabalhadores americanos teriam então verdadeiras opções – pela primeira vez – entre vidas de trabalho alternativas.

Em resposta à crise capitalista actual, a política do governo poderia encaminhar-se numa direcção socialista para mais nacionalizações, mais emprego público, e para uma reorganização socialista da produção. Esta política aliaria uma resposta imediata à crise com soluções para as suas causas mais afastadas e de base mais profunda. Ao evitar e adiar o debate público sobre estas alternativas socialistas, os poderes sujeitam a grande maioria aos custos sociais ainda maiores da crise do seu sistema.

[*] Professor de Economia na Universidade de Massachusetts – Amherst. Autor de muitos livros e artigos , incluíndo (c/ Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/wolff220209.html . Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
03/Mar/09