Crise económica e alienação política
Em 15 de Setembro de 2009, 3,2 milhões de democratas registados da
Cidade de Nova York podiam votar na sua eleição primária.
Apenas 11 por cento deles foram votar. Exceptuando o mandato de presidente da
municipalidade concedido virtualmente a Michael Bloomberg, um
republicano nominal e multimilionário real todos os postos
importantes da cidade estavam a ser decididos, uma vez que os nova-iorquinos
votam esmagadoramente pelos Democratas. Isto inclui lugares no Conselho da
Cidade de Nova York, o controlador financeiro e o advogado público. O
Conselho tem poder real sobre a vida da cidade. O controlador administra US$82
mil milhões de activos das pensões dos trabalhadores da cidade e
é o contabilista oficial do orçamento de US$60 mil milhões
por ano de Nova York. O advogado público é o responsável
chave encarregado de manter o resto do governo urbano pelo menos minimamente
honesto (e, também, substituir um presidente da municipalidade que fique
incapacitado). Na eleição corrente de 29 de Setembro de 2009 para
o controlador e o advogado público, apenas 7 por cento dos democratas
registados votaram.
Estes responsáveis eleitos da cidade financiam e moldam
significativamente a educação pública, os departamentos de
polícia e bombeiros, os transportes públicos, as
condições de saúde e assim por diante. A
alienação em massa da governação e da
política atingiu níveis notáveis numa cidade inundada com
a atenção dos media para estas questões. Além
disso, a Cidade de Nova York tem alguns media de boa qualidade e também
alguns genuinamente diferentes; a cobertura séria e a crítica
real pelo menos tem algumas saídas. Eles são menos ignorados,
reprimidos ou marginalizados do que em muitas outras cidades dos EUA.
Por que 95 por cento do nova-iorquinos rejeitam mesmo o esforço
político mínimo do processo de votação?
Obstáculos estruturais duradouros à participação
política das massas são parte do problema (elites pequenos,
fechadas, dirigem os partidos e seleccionam a maior parte dos candidatos, a
representação proporcional está ausente, etc). Mas estes
obstáculos provavelmente são menos e não mais excludentes
do que no passado; eles permitem algum espaço para a
intervenção dos de baixo. Além disso, a crise
económica de hoje ensina aos trabalhadores despedidos,
ex-proprietários de casas arrestadas, negócios em bancarrota e
todos aqueles agora seriamente ameaçados com estes desastres quanto
precisam da assistência do estado. Mas não só a sua
participação como até o seu interesse no governo
despenha-se.
A imprensa tablóide da cidade critica os seus leitores pela atitude
"Quem se importa?" e apela-lhes para "irem votar". Caso
contrário, diz ela, os liberais serão desproporcionalmente
numerosos entre aqueles poucos que votam.
A percepção prática mais uma vez iludiu os
tablóides. O problema dificilmente é o "quem se
importa?" A questão é ao invés "por que dar-se
ao trabalho?" Dentre as respostas relevantes, considere que, afinal de
contas, as diferenças entre os principais candidatos e entre os dois
maiores partidos são pequenas. As posições declaradas dos
candidatos, quando chegam a articular alguma, não os constrangem depois
de serem eleitos. A ajuda do governo para a pessoa média parece
constantemente magra e inadequada, ao passo que a atenção do
governo às necessidades dos ricos e poderosos parece constantemente
óbvia e complacente. Durante as eleições, a promessas dos
candidatos de proporcionar serviços públicos de alta qualidade e
reduzir impostos são concebidas e promovidas por consultores altamente
pagos para a máxima exposição nos media. Uma vez eleitos,
as promessas transformam-se em faz-de-conta encenados pelos mesmos consultores
de media agora na folha de pagamento do governo. Os contribuintes financiam a
manipulação e engano do "seu" governo e sabem disso.
Porque nenhuma oposição ou alternativa crível à
política como habitual emergiu durante cinquenta anos e porque promessas
vazias e o faz-de-conta deslocaram a mudança real, a massa do povo
está a votar pela sua ausência contra as espécies de
eleições que esta sociedade oferece. Eleitores anteriormente
interessados e empenhados são queimados. Aqueles que nunca votaram ou
cessaram de votar anos atrás não encontram nada que mude o seu
comportamento. Sejam quais forem as esperanças momentâneas que
candidatos ocasionais como Obama possam suscitar, elas evaporam-se uma vez que
se torne claro que nenhuma alternativa política real está a
caminho. Enquanto a crise económica simultaneamente sublinha a
necessidade para todos de mais e melhor ajuda governamental, ela também
revela como a política como habitual impede que isto aconteça. As
corporações financeiras obtêm salvamentos maciços e
custosos, ao passo que serviços públicos "devem" ser
cortados porque "falta ao governo dinheiro bastante para
preservá-los, muito menos para expandi-los".
Desde a década de 1970 os salários reais estão estagnados,
ao passo que a produtividade dos trabalhadores se manteve em crescimento
proporcionando aumentos de lucros aos patrões. Eles utilizaram aqueles
lucros para refazer a política estado-unidense cada vez mais ao seu
gosto. Salários invariáveis levaram a que as famílias de
trabalhadores dos EUA enviassem mais membros da família para fora a fim
de efectuar mais horas de trabalho pago. O tempo perdido, a exaustão e o
stress minaram a participação das famílias trabalhadoras
na política. Os salários invariáveis também levaram
à tomada maciça de empréstimos pelos trabalhadores e
portanto elevou a ansiedade do endividamento. Manter junta a família e
as finanças tornou-se cada vez mais difícil; isto absorvia o
tempo e a energia que restavam após o trabalho. A política
tornou-se cada vez mais irrelevante e remota em relação às
vidas reais dos trabalhadores. Ela desapareceu como uma actividade e reemergiu,
ao invés, como espectáculos feitos para viciados em TV.
Em contraste, o recorde de lucros pós década de 1970 dos
patrões financiou tanto custosas campanhas de TV dos candidatos e a
infindável actividade de lobby junto a responsáveis eleitos. As
corporações efectuaram despesas directas para estas finalidades.
Os seus administradores de topo e principais accionistas, grandes
beneficiários dos lucros corporativos em ascensão, fizeram-no
igualmente. Como o campo de jogo da produção, salários e
lucros inclinava-se sempre mais contra os trabalhadores e a favor dos
patrões, administradores e accionistas, da mesma forma o jogo
político transformou-se igualmente. Finalmente, mesmo os
dispendiosamente promovidos espectáculos de TV com "eventos
políticos" começaram a perder as suas audiências junto
a trabalhadores. Talvez possamos ver a campanha presidencial de 2008 como o
último suspiro de um sistema moribundo de espectáculos
políticos. Talvez o extremamente baixo comparecimento de eleitores na
Cidade de Nova York represente o estouro de uma bolha política juntamente
com o estouro das bolhas imobiliária e de crédito da economia.
Uma lição política desta situação fica
clara. Não existe partido político ou grupos que falem por e para
esta maioria política profundamente alienada. Algo novo e diferente pode
ultrapassar as profundas e bem fundamentadas suspeitas que a maioria tem da
política. Para isso, um novo projecto político teria de ousar
tornar claro a sua diferença fundamental e opor-se à
política nos moldes habituais e às condições
económicas e sociais básicas que produziram aquela
política nas décadas seguintes à de 1970.
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst. Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006). O seu novo livro acerca da crise actual é
Capitalism Hits the Fan
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/wolff300909.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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