A tragédia da GM: O sistema revida
A maior tragédia entre as muitas do colapso e bancarrota da General
Motors refere-se ao que não está a acontecer. Há
soluções para os problemas da GM que
não
estão a ser consideradas pela administração de Obama.
Há as soluções que
não
estão a ser reivindicadas pela United Auto Workers Union (UAW).
Há todas as soluções que
não
estão a ser discutidas pela maior parte dos comentadores de esquerda
acerca do desastre. Finalmente, há aspectos cruciais da morte da GM que
não
estão a ter a atenção que merecem.
Vamos começar com um exemplo desta última. Durante 50 anos, o
mercado mundial para automóveis cresceu espectacularmente. A companhia
melhor posicionada para aproveitar aquela maré ascendente era a GM, a
líder do mercado global durante a maior parte desse período. Ao
invés disso, a GM fracassou catastroficamente. Aqueles
responsáveis, que planearam, coordenaram e competiram fracamente,
têm um nome. Eles são o Conselho de Administração da
corporação: o punhado de indivíduos escolhidos pelos e
responsáveis perante o punhado de grandes accionistas da GM. Aquele
Conselho de Administração demonstrou ao longo de décadas
que não dispunha de entendimento, visão e flexibilidade para ter
êxito. A subida da maré é suposta levantar todos os barcos,
mas o capitão da GM conseguiu afundar o seu barco.
O presidente Obama prometeu não interferir nas decisões do
próximo Conselho de Administração da GM
pós-bancarrota apesar de o governo ser o maior accionista da empresa.
Ele mais uma vez prometeu vender rapidamente as acções do governo
para "reprivatizar" a GM (e promete o mesmo para bancos, companhias
de seguros e outras corporações que entraram em colapso e foram
ressuscitadas por infusões de dinheiro do contribuinte). O plano de
Obama devolve a tomada de decisões aos mesmos Conselhos de
Administração que acabaram de provocar o pior crash
económico em 75 anos.
A bancarrota da GM cortou empregados bem como salários e benefícios
dos trabalhadores remanescentes. Isto mais uma vez prejudicará os
já cambaleantes estados do Meio Oeste, dependentes da indústria
automobilística. Se a nossa cultura fosse menos subserviente aos
interesses e mentalidades capitalistas, o governo teria desenvolvido
anos atrás, mas certamente durante o ano passado assolado pela crise
grandes planos para manter o emprego e a economia regional através da
conversão de fábricas automobilísticas encerradas em, por
exemplo, produção de sistemas de transportes em massa
ecologicamente sensíveis. Esta seria uma indústria em crescimento
pois muitas regiões procuram reduzir o dano ecológico provocado
pelos sistemas de transporte baseados no automóvel privado. Os apoiantes
de Obama conversam acerca dessas coisas, mas a sua administração
não as faz.
O governo poderia igualmente ter desenvolvido programas para utilizar
fábricas encerradas, armazéns e salas de exposição
para ajudar trabalhadores despedidos a organizarem e operarem as suas
próprias empresas. Por uma minúscula fracção dos
milhares de milhões dados aos bancos, o governo poderia financiar tais
trabalhadores a utilizarem as suas qualificações, as suas
grandemente inexploradas capacidades administrativas e o seu conhecimento das
necessidades locais bem como o seu compromisso para com elas. Isto,
também,
não
está a acontecer.
A UAW não teve dúvida em aceitar os termos horríveis do
plano de bancarrota da GM de Obama porque caso contrário a bancarrota
era uma ameaça ainda pior para trabalhadores. Foi "o melhor acordo
possível nas circunstâncias". Contudo, aquelas
circunstâncias poderiam ter sido diferentes se a UAW e os seus aliado
houvessem começado a combater por eles mais cedo. Suponha-se, por
exemplo, que a UAW, outros sindicatos e a esquerda política houvesse
combatido e aprovado leis que obrigassem o governo a financiar investimentos
maciços em novas empresas (produzindo coisas novas e organizadas de
novas maneiras) sempre que capitalistas privados efectuassem despedimentos
colectivos de trabalhadores em grande número. Nesse caso a UAW
não teria tido de aceitar a espécie de acordo horroroso que Obama
e a GM acabam de empurrar sobre eles. Os trabalhadores da UAW teria recusado
porque teriam sabido que o governo era obrigado a proporcionar-lhes novos
empregos, empresas e novos apoios se fossem despedidos com a bancarrota da GM.
Os custos do governo com o salvamento da GM através da bancarrota teriam
tido de incluir as despesas de proporcionar os novos empregos e apoios aos
trabalhadores despedidos. O governo podia então ter feito forte
pressão sobre a GM por um salvamento com muito menos empregos perdidos.
Em qualquer caso, se tais leis tivessem sido aprovadas, os membros da UAW
despedidos numa bancarrota não enfrentariam o desemprego nem as suas
comunidades enfrentaria a devastação agora a caminho.
A questão é que nada na tragédia Obama-GM era
necessário ou inevitável. As lutas políticas não
travadas e as leis não aprovadas criaram as circunstâncias que
levaram a UAW a capitular à bancarrota de Obama como opção
menos penosa. Os apologistas automáticos do status quo estão
errados na sua recusa a falar do que poderia ter acontecido. O que pode ter
sido mas não venceu ou mesmo nem se combateu por isso
determina os sofrimentos em massa de hoje à medida que a tragédia
da GM se desdobra. Sem alianças passadas trabalho-esquerda a lutarem por
leis tais como as que o exemplo acima descreve, o caminho estava limpo para a
GM e Washington conceberem uma opção para a UAW que tornou os
seus membros perdedores de qualquer maneira.
A GM jogava de acordo com as regras do sistema capitalista. Primeiro, ela
sempre procurou lucrar tratando os seus empregados tão duramente quanto
possível e pagando-lhes tão pouco quanto podia. Segundo, a GM
assegurou o mercado dos EUA para os seus carros e camiões ao bloquear o
desenvolvimento de transporte em massa de alta qualidade no país. Os
trabalhadores da indústria automobilística combateram,
através da UAW, e acabaram por ganhar salários e
benefícios decentes que se tornaram objectivos para todos os outros
sindicatos e trabalhadores durante décadas. Os esforços dos
cidadãos dos EUA para obter transporte em massa de qualidade fracassaram
(daí os sistemas de transporte em massa muito superiores da Europa).
Sob a regras do capitalismo, salários decentes e condições
de trabalho conquistadas pela UAW levaram a GM a revidar levando a
produção para onde os salários e os benefícios
fossem mais baixos. Portanto, a produção de veículos da GM
dentro dos EUA atingiu o pico no fim da década de 1970 (mais de 6
milhões) e desde então caiu constantemente (mais de 2
milhões em 2008). A GM lucrava mais com o trabalho muito mais barato na
China, Brasil, Índia e alhures
. Os grandes perdedores foram as centenas
de milhares de despedidos, os aposentados, os poucos trabalhadores ainda
empregados na indústria automobilística e toda a gente em Detroit
e todas as outras comunidades devastadas em consequência. A bancarrota da
GM desta semana cria ainda mais perdedores a fim de "reconstruir a
lucratividade da GM".
Trabalhadores que têm êxito na luta por salários e
condições de trabalho decentes acabam sempre por descobrir que o
sistema revida. É assim que o capitalismo funciona, como os capitalistas
lucram. Os republicanos e os sósias democratas servem orgulhosamente tal
sistema. E a lição para os trabalhadores da GM e demais é
.........?
[*]
Professor de Economia na Universidade de Massachusetts
Amherst. Autor de
muitos livros e artigos
, incluíndo (c/ Stephen Resnick)
Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR
(Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick)
New Departures in Marxian Theory
(Routledge, 2006). Acerca da crise económica actual ver o seu
filme
documentário
Capitalism Hits the Fan,
em
www.capitalismhitsthefan.com
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/wolff050609.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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