A agricultura urbana em Havana
Durante os últimos quinze anos, Cuba desenvolveu um dos exemplos mais
bem-sucedidos de agricultura urbana no mundo. Havana, a capital de Cuba, com
uma população de mais de dois milhões de pessoas, tem
protagonizado um papel proeminente, se não dominante, na
evolução e na revolução deste tipo de agricultura.
A expressão "agricultura urbana em Cuba" tem um significado
algo diferente, simultaneamente mais e menos restritivo do que pode parecer
à primeira vista. É mais inclusiva, visto que ocupa
extensões mais amplas, franjas urbanas e terrenos suburbanos. Por
exemplo, toda a área cultivada da província Cidade de Havana
está ocupada com agricultura urbana. A definição inclui
terreno que é muito mais rural que urbano alguns dos
municípios da cidade nas partes este e sudoeste têm densidades
populacionais relativamente baixas, cerca de 2300 a 3500 pessoas por milha
quadrada [1 milha quadrada=2,59 quilómetros quadrados.
N.T.
], contra 50 000 a 100 000 pessoas por milha quadrada nas partes mais
densamente povoadas. Como resultado, mais de 35 000 hectares (mais de 87 000
acres) de terra estão a ser utilizados com agricultura urbana em Havana
[1]
! O desenvolvimento sério da agricultura urbana em Cuba começou
em simultâneo com o desaparecimento de petroquímicos, como
fertilizantes e pesticidas, dos mercados cubanos. Consequentemente, a
produção urbana utiliza apenas fertilizantes biológicos e
técnicas de controlo de pragas biológicas e culturais. As
quantidades limitadas de petroquímicos disponíveis são
empregues numas poucas culturas não-urbanas como o açúcar,
as batatas e o tabaco. Em Cuba, a distinção entre orgânico
e urbano é difícil de fazer, visto que quase toda a agricultura
urbana segue práticas orgânicas.
A necessidade sentida por Cuba de se virar para a agricultura urbana e
orgânica no início dos anos 1990 é bem conhecida e
compreendida. O colapso da União Soviética e o fim do
comércio no âmbito do COMECON em condições bastante
favoráveis ditaram o fim da agricultura industrial de tipo
soviético, de larga escala, que Cuba vinha praticando desde, pelo menos,
os anos 1970. Quase de um dia para o outro, o gasóleo, a gasolina,
camiões, maquinaria agrícola, peças sobressalentes para
camiões e maquinaria, bem como fertilizantes e pesticidas de base
petroquímica, tornaram-se bastante escassos. Perante a crise severa na
produção de alimentos, uma viragem para a agricultura urbana
pareceu ser uma solução óbvia e necessária: a
produção urbana minimizava os custos de transporte e a
produção de pequena escala minimizava a necessidade de
maquinaria. A produção agro-ecológica (aplicando os
princípios da ecologia às práticas agrícolas), em
parte, necessitava de zonas de produção perto das áreas de
habitação de grande concentração de pessoas e, ao
mesmo tempo, evitava a utilização de fertilizantes e pesticidas
petroquímicos tóxicos que haviam deixado de estar
disponíveis.
Menos bem conhecidas, mas talvez igualmente importantes, são as
razões de prudência e segurança nacional que pressionaram
Cuba nessa direcção desde os anos 1970. Cuba estava, e ainda
está, sob um bloqueio parcial por parte dos Estados Unidos. Mais
ameaçadora ainda, e sempre presente, é a possibilidade de um
bloqueio total sobre a ilha. Desde cedo, as instituições
científicas começaram a investigar a possibilidade de substituir
a produção importada, incluindo a produção
agrícola, o que tornaria a ilha menos dependente de bens importados
[2]
. Ao mesmo tempo, no Ministério da Defesa (e não no
Ministério da Agricultura, que tratava da agricultura industrial de alto
consumo) e em instituições como o Instituto Nacional de Reservas
do Estado (INRE), dava-se início a programas para estudar as respostas
possíveis a uma ruptura total de importações de
petróleo. Foi durante a visita ao Projecto Hortícola das
Forças Armadas em 27 de Dezembro de 1987 que Raul Castro, na qualidade
de ministro da Defesa, encorajou a introdução de uma tecnologia
que veio, mais tarde, a ser empregue na agricultura urbana.
O general Moises Sio Wong dirigente do INRE relembrou essa visita
a Raul Castro dez anos mais tarde durante uma outra visita: uma engenheira
agrícola, apresentada por Sio Wong simplesmente como "Engenheira
Anita", levou a cabo algumas experiências bem-sucedidas no cultivo
de vegetais sem o recurso a petroquímicos
[3]
. Castro afirmara nessa altura que era desejável a
generalização desses métodos de cultivo. Por conseguinte,
já em 1987, quatro anos antes do colapso da União
Soviética, os chamados
organoponicos,
construções rectangulares de cerca de trinta metros por
um metro , contendo canteiros elevados de uma mistura de solo com
matéria orgânica como adubo, começaram a ser estabelecidos
em instalações das forças armadas.
No entanto, foi só no final de 1991 que o primeiro
organoponico
"civil" em Havana foi operacionalizado, num lote vazio de dois acres
em frente à sede do INRE, no distrito de Miramar. Desde então, o
organoponico
transformou-se num dos sustentáculos do cultivo de vegetais na
agricultura urbana cubana
[4]
.
Assim, no tempo em que a crise tornou inevitável a mudança da
produção agrícola para as cidades, pelo menos algumas
partes da estrutura institucional cubana foram capazes de responder com
tecnologias, políticas e práticas que haviam sido desenvolvidas
durante um largo período de tempo antes da crise.
Em 1994, foi criada uma organização para superintender a
introdução sistemática de
organoponicos
e de hortas intensivas na agricultura urbana. Em 1997, criou-se o Movimento
Nacional da Agricultura Urbana. As condições de acesso a terra
sofreram alterações consideráveis. Antes da crise, a terra
era ou privada e trabalhada pelos proprietários ou detida pelo Estado e
trabalhada por empregados. Depois, passou a ser distribuída a
indivíduos (como
parcelos
, com os indivíduos a serem designados por
parceleros
) e cooperativas. Novas formas cooperativas com ou sem uma área
de utilização comum cultivada colectivamente
começaram a ser postas em prática. Uma Cooperativa de
Crédito e Serviços (CCS) juntou em regra lotes de terra com
quintas privadas já existentes
[5]
.
Além disso, há também os
patios
(hortas caseiras privadas que produzem principalmente para consumo familiar),
lotes de terra individuais, quintas do Estado e
areas de autoconsumo
(empresas do Estado que produzem alimentos para consumo dos seus
trabalhadores).
Na base deste novo enquadramento institucional, a tecnologia do
organoponico
introduzida em 1987 está hoje generalizada em Havana, e também
no resto do país, com dimensões que vão do meio hectare a
muitos hectares. As chamadas hortas intensivas são idênticas aos
organoponicos
excepto no facto de que os canteiros não têm paredes e o solo
é em regra suficientemente bom para ser misturado directamente com a
matéria orgânica adicional. Nos
patios
e nos lotes de terra, predominam as práticas de horticultura e cultivo,
com a introdução parcial de algumas técnicas utilizadas
nos
organoponicos
. As estufas, tal como as técnicas de bloqueio da intensidade solar para
incrementar os resultados, melhorar a qualidade e tornar possível a
produção anual de vegetais, são também utilizadas
[6]
.
Este sistema organizado de produção começou a funcionar em
1994 e adquiriu a sua forma mais ou menos final em 1997. Com ele, Cuba atingiu
resultados que pareceriam muito pouco plausíveis em 1991. A
produção aumentou muito rapidamente. A dieta dos cubanos
beneficiou da introdução dos produtos agrícolas
orgânicos produzidos localmente. Nas cidades cubanas, o ambiente
beneficiou porque elas tornaram-se mais verdes devido aos cultivos
(especialmente acoplados à reflorestação urbana, a ser
discutida adiante) e também pelo facto de que tudo isso foi concretizado
de forma agro-ecológica. Os lotes de terra anteriormente utilizados como
lixeiras desordenadas e feias foram transformados em terra produtiva. O
ambiente social e económico ficou favorecido pela criação
de fontes consideráveis de emprego urbano e pela
incorporação de trabalhadoras e jovens abaixo dos 35 anos,
importantes em termos da sustentabilidade de longo prazo da agricultura urbana,
bem como de reformados, trazendo-lhes resultados e saúde. Finalmente, a
construção de comunidade e os efeitos terapêuticos da
agricultura urbana são mais-valias significativas desses esforços.
Embora eu aqui me concentre no exemplo de Havana, tem havido desenvolvimentos
muito importantes nesta área por todo o país. No programa de
agricultura urbana existem 28 subprogramas: doze em cultivos, sete na
criação de animais e nove em áreas de apoio como o adubo,
as sementes, a irrigação e a drenagem, o
marketing
e a formação técnica. Nesses subprogramas, foram criados
mais de 350 mil novos e bem pagos empregos durante os últimos doze anos
[7]
. No início do Período Especial, Cuba sofreu uma enorme queda do
PIB e do emprego. Em 2005, a força de trabalho total era de cerca de 4,8
milhões de pessoas, pelo que os empregos criados na agricultura urbana
são uma importante contribuição para o bem-estar
não só das pessoas proveitosamente empregadas, mas também
para a sociedade cubana como um todo. No subprograma dos vegetais e das ervas
frescas, um dos mais bem-sucedidos, a produção multiplicou mil
vezes de 1994 a 2005: de quatro mil toneladas para 4,2 milhões de
toneladas
[8]
. Este tipo de crescimento implica, obviamente, um grande aumento na
área cultivada (chegava a 70 mil hectares em 2006)
[9]
, mas os resultados por milha quadrada também subiram de forma
impressionante (nos
organoponicos
, por exemplo, de 1,5 kg por milha quadrada em 1994 para 25,8 kg por milha
quadrada em 2001, o que representa um aumento de 17 vezes)
[10]
.
As razões para estes resultados espectaculares são
idênticas em Havana e no resto do país e, por conseguinte, podem
ser discutidas de um modo mais geral. O princípio mais importante e
abrangente é, provavelmente, o organizacional: onde há uma
direcção central forte, disciplinada e coerente, a
liderança e a política são combinados com a
acção descentralizada, o
marketing
e a produção. O mote principal é: "Temos que
descentralizar até ao ponto em que o controlo não se perca e
centralizar até ao ponto em que a iniciativa não seja
aniquilada"
[11]
. A liderança geral do Grupo Nacional da Agricultura Urbana (GNAU)
é complementada pelas correspondentes organizações
provinciais (14 no total) e municipais (169 no total). As tarefas dos grupos
municipais e provinciais são definir as linhas gerais, mobilizar a
população, dar estímulos a toda a actividade na
agricultura urbana e supervisionar e controlar os esforços locais. As
funções administrativas como a supervisão, a
formação com vista à difusão das valências
necessárias e o
marketing
são asseguradas pelas empresas estatais "Quinta Urbana"
(cerca de uma por município, embora alguns municípios de maior
dimensão tenham mais que uma)
[12]
.
Em cada uma destas estruturas descentralizadas, os delegados do
Ministério da Agricultura em cada Conselho Popular (a unidade
administrativa na organização territorial de Cuba imediatamente
abaixo ao município) dos quais existem 1452, ou seja, uma
média de oito ou nove por município desempenham um papel
essencial. As tarefas desses delegados incluem a discussão de planos de
produção com cada unidade produtiva, promovendo novas
tecnologias, supervisionando as redes de difusão de valências,
coligindo dados, assegurando a qualidade e a veracidade, divulgando os
alimentos e formando as pessoas nas técnicas da agricultura urbana. Em
resumo, o delegado é um muito importante "primeiro homem da
escala" do Estado central, cuja função e papel não
podem ser subestimados
[13]
.
No entanto, o quadro descrito acima é apenas uma
contextualização geral. Ele necessita de ser preenchido com
políticas e práticas reais antes de ser apropriadamente avaliado
em termos da sua eficácia na promoção da agricultura
urbana em Cuba. Abaixo, discuto brevemente quatro áreas fundamentais
dessas políticas e práticas, cada uma das quais poderia
facilmente ser o tema de uma monografia:
1. Formação e educação:
No início do Período Especial, Cuba dispunha de uma
população com um alto nível de educação
escolar, mas com pouco conhecimento acerca da agricultura ecológica.
Apesar disso, a população urbana foi capaz de aprender depressa.
Ao mesmo tempo, havia muitos cientistas que haviam investigado nesta
área e havia muitos camponeses que tinham um conhecimento
agro-agrícola tradicional que poderia ser partilhado. Essa
combinação, talvez única, de formadores qualificados e
estudantes qualificáveis com um esforço sério, organizado
e concertado de extensão participativa através dos institutos,
universidades e organizações de investigação,
permitiu a rápida disseminação do
know-how
agro-ecológico. A formação em agricultura urbana é
mais do que a mera transmissão de conhecimentos tecnológicos. O
seu lema é: "produzir enquanto se aprende, ensinar enquanto se
produz e aprender enquanto se ensina"
[14]
. Os técnicos agrícolas de formação e os cientistas
e engenheiros nas universidades também contribuem para este
esforço. Finalmente, também os liceus e as escolas
secundárias ensinam e formam as próximas gerações
de agrónomos urbanos.
2. Investigação e desenvolvimento:
Os esforços que tiveram início nos anos 1970 continuam a todo o
vapor nas universidades e nos institutos de investigação ligados
aos ministérios e a outros centros científicos. O GNAU lidera num
plano interdisciplinar e interinstitucional as actividades agrícolas.
Entre os seus membros, contam-se delegados de treze institutos de
investigação. Muitos outros institutos e universidades
também participam no trabalho do GNAU
[15]
. Em 2002, centenas de projectos em dezenas de instituições
investigavam aspectos da agricultura orgânica sustentável em
três Programas Nacionais de Investigação: o programa
Produção Alimentar para a População através
de Métodos Sustentáveis tinha 63 projectos em 40
instituições científicas e universidades; o programa
Produção de Alimentação Animal através de
Meios Biotecnológicos e Sustentáveis tinha 35 projectos em dez
instituições; e o programa Desenvolvimento Sustentável em
Zonas Montanhosas (apesar de não se aplicar à agricultura urbana)
tinha 60 projectos em 38 instituições
[16]
. Há uma ênfase na investigação e desenvolvimento
participado, com unidades na base a gerar novo conhecimento através do
próprio processo de produção.
3. Provisão de consumíveis agro-ecológicos:
Mais de duas centenas de instalações ocupam-se dos
necessários consumíveis para a agricultura urbana
produzindo, fornecendo e/ou vendendo sementes, fertilizantes orgânicos,
preparações para combate às pestes biológicas, mas
também serviços técnicos e de aconselhamento. Mais de sete
mil Centros de Matéria Orgânica produzem fertilizantes
orgânicos (compostos e vermicompostos, adubo orgânico). A
água para a irrigação vem de depósitos municipais
urbanos, bem como de poços, rios e reservatórios. A
disponibilidade de água é maximizada pelos melhoramentos na
captura de água da chuva e de técnicas eficientes de
irrigação, especialmente nos
organoponicos
e nas hortas intensivas. Na medida em que algumas importações
(por exemplo, canalizações para os sistemas de
irrigação) continuam a ser necessárias, o
Ministério da Agricultura assume a sua compra e alocação.
4. Incentivos materiais e morais:
Espera-se que as unidades de produção sejam rentáveis. O
mercado determina alguns preços e o governo define outros. Uma
esmagadora maioria dessas unidades são rentáveis. Os lucros
são a base do pagamento de incentivos, o que posiciona os rendimentos da
agricultura urbana bem acima da média nacional dos funcionários
do Estado. Existem igualmente diversos incentivos "morais" para os
agricultores urbanos. No plano individual, esses incentivos oferecem amplas
oportunidades para uma subsequente educação formal e para um
ambiente de trabalho rico, solidário e dignificado. No plano societal,
há um esforço para "dignificar" o trabalho e os
trabalhadores da agricultura urbana. Essa actividade é crescentemente
vista como dispondo de elevados níveis de conteúdo
científico e técnico. A imagem dos camponeses como a componente
mais atrasada da sociedade já não impera
[17]
. As próprias unidades de produção são distinguidas
com um conjunto de classificações (sendo
"excelência" a mais elevada), de acordo com critérios
rigorosos que continuam a ser verificados a cada três meses
através de visitas de inspecção. A inclusão de uma
unidade numa dessas categorias não é apenas uma honra e, por
conseguinte, um incentivo moral (há apenas 82 centros de
excelência em todo o país), mas permite também que esses
protagonistas excepcionais sirvam de pontos essenciais para a
introdução e propagação de novas tecnologias. Com
efeito, tornam-se agentes de extensão e educadores
[18]
.
Como podem as questões acima referidas ser sumarizadas? Um
parcelero
bem-sucedido com um pequeno lote em Vedado, Havana, produtor de plantas
medicinais, que entrevistei, afirmava que as três forças motrizes
por detrás do sucesso de qualquer coisa na vida, mesmo em
circunstâncias difíceis, são "a necessidade, a
possibilidade e a vontade"
[19]
. Se aceitarmos este pressuposto, podemos dizer que, no início dos anos
1990, Cuba foi capaz de juntar as três componentes do sucesso na sua
resposta à crise que enfrentou. E fez progressos consideráveis e
continua a ter espaço para progredir mais. Dito isto, não devemos
subestimar os obstáculos e os afunilamentos que Cuba enfrenta no
transporte e no processamento industrial dos alimentos, bem como na
introdução de matéria orgânica, água, energia
e na moeda forte esta última, determinada pela necessidade
continuada de importar consumíveis para a produção.
Agricultura urbana em Havana: análise geral
Havana tem apenas 3 por cento da terra utilizada na agricultura urbana e 0,4
por cento de todo o terreno agrícola em Cuba, cerca de 20 por cento da
população da ilha, mas apenas 0,67 por cento da sua área
total
[20]
. Sendo a província mais densamente urbanizada de Cuba, a sua
área de terreno agrícola é uma percentagem mais pequena do
terreno agrícola total em Cuba do que o é a sua área total
em relação à área total do país. Mas, na
medida em que todo o seu terreno agrícola é considerado urbano,
é bastante maior em termos de percentagem de todo o terreno
agrícola urbano. Porém, com a importância que, no
pós-anos 1990, foi dada à produção utilizando
recursos locais para o consumo local (daí o lema da agricultura urbana:
Produção do bairro, pelo bairro, para o bairro)
[21]
, Havana teve que lutar, ficando para trás em relação a
outras províncias. Por exemplo, só recentemente é que
atingiu o nível de referência da Organização das
Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO) dos 300g diários
per capita
de fornecimento de vegetais à sua população. Já em
2001, a sua produção diária de vegetais
per capita
era de 171g, consideravelmente abaixo do índice da FAO, bem como abaixo
do nível da seguinte cidade que produzia menos vegetais
per capita,
Santiago de Cuba, com 415g
[22]
. A razão é medianamente óbvia. Tendo Cuba como um todo um
pouco mais de um décimo de hectare de terreno agrícola urbano por
pessoa, esse número desce para menos de uma ducentésima parte de
um hectare em Havana
[23]
. O terreno para cultivo continua a ser mais limitado. De 33 mil hectares
ocupados com a agricultura, apenas 10 500 servem para
cultivos varios
(incluindo raízes de vegetais, grãos, vegetais e citrinos e
outros frutos)
[24]
. No entanto, tal como ocorreu no resto do país, Havana conseguiu
aumentar a sua produção de vegetais muito rapidamente
[25]
. Os dados da Tabela 1 correspondem a um crescimento anual de 38 por cento
durante os oito anos considerados.
Tabela 1: Produção anual de vegetais em Havana
|
Ano
|
Milhares de toneladas
|
|
1997
|
20,7
|
|
1998
|
49,9
|
|
1999
|
62,6
|
|
2000
|
120,1
|
|
2001
|
132,2
|
|
2002
|
188,6
|
|
2003
|
253,8
|
|
2004
|
264,9
|
|
2005
|
272
|
O resultado de 2005 corresponde a cerca de 340g diárias
per capita
para os habitantes de Havana, um pouco abaixo da quantidade atingida noutras
províncias, mas significativamente acima das recomendações
da FAO.
Muitos outros tipos de cultivo também aumentaram bastante em Cuba. A
Tabela 2, que apresenta dados entre 1999 e 2001, revela avanços na
produção de outros cultivos durante esse período. O
programa de vegetais de Cuba cresceu de 62,6 mil toneladas para 132,2 mil
toneladas de produção
[26]
.
Esse rápido crescimento foi atingido pela extensão de área
cultivada e, talvez mais importante, por estar ligado a
alterações tecnológicas e organizacionais da
produção agro-ecológica de pequena escala. A crescente
força de trabalho empregue na agricultura urbana tornou-se cada vez mais
qualificada devido ao método aprender-fazendo e à
formação de especialistas. Igualmente, a sua produtividade foi
estimulada através de esquemas de remuneração que geraram
rendimentos para os trabalhadores de acordos com os resultados atingidos na
produção.
Tabela 2: Produção anual de cultivos seleccionados em Havana
|
Cultivo
|
Produção em 2001
(1000 toneladas)
|
Crescimento anual 1999-2001
(percentagem)
|
|
Banana-pão
|
1,9
|
8
|
|
Banana (fruto)
|
0,8
|
13,2
|
|
Frutos
|
21,1
|
8,4
|
|
Raízes de vegetais
|
21
|
10,2
|
|
Feijão
|
2,4
|
29,9
|
|
Arroz
|
0,6
|
21,9
|
A força de trabalho na agricultura urbana em Havana cresceu de nove mil
em 1999 para 23 mil em 2001 e para mais de 44 mil em 2006
[27]
. A agricultura urbana em Havana é de maior trabalho intensivo que no
resto do país. Apesar de Havana ter apenas 3 por cento do terreno
agrícola urbano em Cuba, emprega cerca de 12,5 por cento da força
de trabalho da agricultura urbana da província. Cerca de 25 por cento
dessa força de trabalho é feminina, uma percentagem que sobe
acima dos 35 e 50 por cento, respectivamente, entre os trabalhadores
tecnicamente qualificados de nível médio e alto
[28]
.
Havana trabalha muito a sua agricultura. Em 3 por cento do terreno
agrícola urbano, produz cerca de 6,5 por cento dos vegetais de
agricultura urbana. A distribuição alimentar faz-se
através de venda directa em centenas de locais de produção
e/ou estabelecimentos integrados numa unidade de produção ou
noutro local, aprovados pelas autoridades locais. Cerca de 60 por cento da
produção a nível nacional é distribuída
desta forma. Cerca de 11 por cento é vendida em dois tipos de mercados
agrícolas: uns em que os preços flutuam livremente e os mercados
estatais com preços mais reduzidos. O governo local controla os
preços nos mercados estatais, definindo-os de acordo com tabelas de
preços mensais. Unidades de produção como famílias
e instituições consomem cerca de 22 por cento desses produtos.
São feitas provisões especiais para outras necessidades sociais,
como escolas, hospitais e universidades. Nessas situações, os
produtores e os consumidores estabelecem contratos de alimentação
a preços definidos pelas autoridades locais por três meses. Esses
preços são geralmente baixos e constituem um imposto sobre os
produtores. O cumprimento dessas obrigações sociais é
supervisionado e feito cumprir em termos de qualidade, quantidade e rapidez na
entrega, que é da responsabilidade do produtor. Este modelo de consumo
social utiliza 2 por cento do produto a nível nacional
[29]
. Em Havana, dada a densidade institucional e populacional, as quantidades
utilizadas pelo consumo social e de auto-suficiência são
necessariamente maiores. Com efeito, em 2006, as entregas para essas
necessidades sociais chegaram às 1300 toneladas por mês, ou seja,
quase 6 por cento do produto
[30]
.
Um programa que não é um subprograma da agricultura urbana deve
ser aqui mencionado, devido à sua relação próxima
o programa de reflorestação urbana. O objectivo no
contexto urbano é plantar uma árvore, de fruto ou não, em
todos os locais adequados que não sejam já utilizados para fins
agrícolas. Iniciado em 1996, em 2004 o programa já tinha
posicionado todos os municípios de Havana acima dos doze metros
quadrados de espaço verde por habitante e atingido níveis acima
dos trinta metros quadrados nos municípios suburbanos. Além dos
benefícios ambientais óbvios, este "esverdeamento" da
cidade também favorece a produção adicional de
víveres, bem como de alimentos para animais que podem ser convertidos em
matéria orgânica.
Um bom problema para Havana é que está lentamente a ficar sem
terrenos cultiváveis inutilizados para recuperar e pôr a uso. De
35 890 hectares, só 2970 não eram ainda utilizados para pastagem,
floresta e terreno de cultivo em 15 de Novembro de 2006
[31]
. A Misión al 2007 propôs-se recuperar todos esses terrenos,
terras devolutas e lixeiras e replantá-los com floresta e árvores
de fruto
[32]
.
Mas isso também significa que, daqui para frente, os ganhos adicionais,
por exemplo, na produção de vegetais vêm de: (1)
realocação de terrenos entre as três
utilizações (cultivos, criação animal e floresta);
(2) melhor interligação entre as três; (3) interior da
área dedicada à produção de vegetais, passando mais
dessa área para técnicas mais intensivas, como o
organoponico
e uma tecnologia desenvolvida em Cuba e quase de origem exclusivamente cubana
recentemente introduzida o cultivo semiprotegido nos
organoponicos
e nas hortas intensivas. Semiprotegido significa a instalação
nos canteiros de filtros de cobertura assentes em postes, permeáveis
à chuva e sem quaisquer estruturas de parede. Essa tecnologia aumenta os
resultados e possibilita a produção de certos vegetais
sensíveis a radiações solares intensas durante o
Verão.
Em 2006, foram construídos 21 novos
organoponicos
, cobrindo quinze hectares em Havana, apesar de metade deles continuarem a
aguardar, devido a atrasos, por sistemas de irrigação importados
[33]
. O cultivo semiprotegido foi transformado num subprograma da agricultura
urbana e terá cada vez mais importância nos próximos anos
[34]
.
A importância desta possibilidade de converter a produção
de vegetais em
organoponicos
semiprotegidos é óbvia. Os resultados mais elevados deste
sistema de produção, se for generalizado a toda a
nação, significam que apenas uma fracção de terreno
em utilização pode responder a todas as necessidades. A este
respeito, Cuba parece dispor de possibilidades "ilimitadas".
Agricultura urbana em Havana: experiências particulares
Como é que as questões discutidas nas duas primeiras partes deste
artigo se reflectem nas vidas das unidades de produção
particulares na agricultura urbana de Havana? Entre Janeiro e Maio de 2007,
visitei um grande número de locais de produção de
agricultura urbana em Havana, de diversos tipos e dimesões
[35]
. Algumas dessas visitas foram formais e acompanhadas por responsáveis
da unidade em questão. Outras foram informais, algumas não foram
mais que tirar fotos da parte de fora da unidade e outras incluíram
conversas informais com agrónomos urbanos acerca do seu trabalho e da
sua unidade. A percepção e a informação que recolhi
e a observação que fiz durante essas visitas contribuíram
para a minha compreensão da forma como a agricultura urbana em Havana
funciona a partir do terreno.
No extremo ocidental do município de Habana del Este situa-se a
comunidade "dormitório" de Alamar onde a Unidade
Básica de Produção Cooperativa (UBPC) Organoponico Vivero
Alamar, uma das experiências mais bem-sucedidas de agricultura urbana em
Havana, se situa. É um pouco erroneamente designado como
organoponico
, na medida em que é mais um
huerto intensivo
(horta intensiva). Teve início em 1997, quando Miguel Salcines, um
agrónomo de nível intermédio do Ministério da
Agricultura, pediu para utilizar um lote de 3,7 hectares de "terra
devoluta". Juntou forças com quatro outras pessoas, incluindo um
carpinteiro e um químico, para iniciar o processo de
constituição de uma unidade de produção. É
justo dizer-se que o que aconteceu, desde então, ultrapassou todas as
expectativas razoáveis. Começou modestamente e cresceu até
ao ponto de ser uma das 82 unidades de todo o país a obter e conservar a
classificação de
excelência
. A sua força de trabalho cresceu de 5 para 147, a área de que
faz uso aumentou de 3,7 para 11,2 hectares e a sua produção anual
saltou de 20 para 240 toneladas de vegetais.
O aumento na quantidade de terra sob cultivo não derivou da compra de
terras, dado que não há mercado de terras em Cuba, mas de dois
tipos diferentes de aquisições. O primeiro, uma área
adjacente de mais de seis hectares foi absorvida pela unidade de
produção, depois de os ocupantes desses terrenos terem
começado a abandonar os seus lotes quando a economia cubana
começou a melhorar nos anos mais recentes. Essa nova área
está actualmente a ser desenvolvida em
huertos intensivos
adicionais. O segundo acrescento deveu-se à decisão do Estado de
ceder um
organoponico
estatal de 1,2 hectares, situado perto mas não adjacente à
unidade Organoponico Vivero Alamar, devido a dificuldades em manter
níveis de produção adequados. Os 27 trabalhadores estatais
da antiga unidade não foram dispensados. Foram incorporados na unidade
de produção como membros da cooperativa. Isso representa parte do
aumento da força de trabalho, diversificando os seus esforços no
cultivo e na comercialização. Novos trabalhadores foram
contratados durante períodos experimentais de três meses, findos
os quais tornam-se em regra membros da cooperativa. Por conseguinte, cerca de
135 das quase 150 pessoas que trabalham na unidade de produção
são membros da cooperativa.
A unidade produz uma grande variedade de vegetais. Os cinco principais
são alface, acelga suíça, tomate, pepino e couve, seguidos
por beterraba e beringela. Também produz cenoura, feijão verde,
aipo, couve-flor, hortelã, salsa, quiabo e pimento verde. Terá,
em breve, a funcionar instalações de produção de
cogumelos comestíveis. Está em construção uma
capoeira com capacidade para mais de duzentas galinhas poedeiras. Quando
estiver concluída, contribuirá com ovos para venda e com estrume
de galinha para o
organoponico.
Cerca de 90 por cento da produção é vendida directamente
ao público em cinco mercados adjacentes a preços que vão
de 1 a 3 pesos por libra [1 libra=453,6 gramas.
N.T.
]. A unidade de produção também processa e vende 167
variedades de plantas ornamentais, bem como fruta e árvores criadas a
partir da semente para transplante.
Até 10 por cento da produção de vegetais desta unidade
são utilizados socialmente, ou seja, são vendidos a escolas e
hospitais a preços reduzidos estabelecidos por contrato, ou vendidos
à indústria do turismo, obtendo moeda forte para o
Ministério da Agricultura, com a qual Cuba consegue importar os
necessários consumíveis agrícolas.
Embora esta unidade não tenha uma ligação formal com uma
escola, mantém uma política de porta aberta para o aconselhamento
de estudantes com projectos que para lá são enviados por
professores, bem como de adultos da comunidade com questões acerca da
agricultura urbana.
Depois desta breve perspectiva da unidade, vale a pena considerar como é
que ela participa nas quatro importantes áreas de políticas e
práticas discutidas acima: formação e
educação, investigação e desenvolvimento,
provisão e incentivos materiais e morais.
(1) A força de trabalho aqui já é altamente qualificada
embora não em agricultura urbana! Dos 147 trabalhadores, 50
têm ou formação em engenharia ou formação
técnica de nível intermédio. Os membros
recém-chegados passam por um processo intensivo de
formação durante um período experimental de três
meses. Esse período consiste numa formação directa no
local de trabalho, entre os restantes trabalhadores que já conhecem bem
as suas funções, bem como numa sala de aula formal. A unidade tem
no seu centro uma sala de aula que também serve de cantina para os
almoços e lanches diários.
(2) O espírito da investigação e desenvolvimento
participativo está vivo e recomenda-se nesta unidade. A
experimentação e as novas tecnologias acontecem rotineiramente.
Durante a minha visita, estavam a ser testados como controlo de pestes em
diversos cultivos líquido de fumo, uma biopreparação feita
de folhas e frutos de mangueira, amargoseira e noni. A
interplantação o crescimento de dois cultivos no mesmo
canteiro em alas alternadas, de forma a aumentar os resultados e melhorar a
gestão das pestes é um outro foco da tecnologia da
agricultura urbana. Numa das mais interessantes hortas intensivas dos terrenos
recentemente adquiridos, um tomate híbrido israelita não estava a
resultar quando semeado experimentalmente em alas alternadas com couve. Esta
couve tinha funcionado bem, previamente, quando havia sido interplantada com
cenoura e alface. Num canteiro de "controlo" colocado perto, o tomate
plantado isoladamente tinha muito mais sucesso. Entre outras novas tecnologias
que foram, ou serão em breve, introduzidas contam-se a
utilização de água magnetizada na irrigação
e o enraizamento directo de enxertos de árvores de fruto. Está
também para ser introduzido este ano um hectare de cultivo
semiprotegido. Embora esta última tecnologia tenha sido desenvolvida em
Cuba, continua a precisar de algumas importações (sistemas de
irrigação) e, portanto, de moeda forte. Será instalada em
uma ou duas centenas de hectares durante este ano. Havana receberá
trinta hectares e a unidade de produção de Alamar terá uma
delas.
(3) A unidade produz algumas das suas próprias sementes e a maioria das
suas plantas criadas a partir da semente, com outros consumíveis
comprados. Tem um contrato para a aquisição de biopesticidas.
Produz todos os seus próprios compostos para os canteiros no
organoponico
e nas hortas intensivas com resíduos orgânicos das suas
próprias operações, bem como com a compra de estrume numa
quinta próxima que cria animais. Com a excepção da parte
da unidade que era até há pouco tempo um
organoponico
do Estado, não há utilização de qualquer
água canalizada da cidade para a irrigação. Construiu seis
poços que fornecem as quantidades necessárias de água para
a irrigação dos cultivos em terrenos virgens contíguos
à unidade. O factor limitativo e difícil é a
disponibilidade e o transporte de matéria orgânica para ser
utilizada como matéria-prima na produção de composto.
(4) Um incentivo moral para a unidade como um todo advém da sua
condição de centro de excelência, atribuída a
algumas unidades por todo o país. Essa condição, uma vez
atingida, tem que ser mantida através do escrutínio continuado de
equipas de inspecção que visitam a unidade uma vez a cada
três meses. Na própria unidade, a filosofia de base da
atencion al hombre
(uma versão cubana daquilo a que chamamos "recursos humanos")
assegura que os incentivos, quer morais, materiais e individuais quer
colectivos, são suficientes para atrair membros qualificados e
estáveis. As condições de trabalho dignificadas incluem
uma jornada de trabalho diária de sete horas (das 7h00 às 15h00,
com uma pausa para almoço), instalações sanitárias
adequadas e almoço saudável e gratuito maioritariamente baseado
na própria produção da unidade. Há oportunidades,
dentro e fora do local, para os membros poderem aperfeiçoar a sua
formação; muitos membros frequentam cursos nos pólos
universitários do seu município, que são parte de um
grande esforço de Cuba para universalizar a educação
superior. Há também membros que participam nos programas
culturais na Casa de Cultura local e os residentes nas zonas urbanas têm
oportunidade de assistir a espectáculos de dança ou teatro
à noite. A liderança da unidade está empenhada em fazer o
que está ao seu alcance para espalhar a percepção de que o
trabalho se baseia na ciência e na tecnologia. Longe vão os dias
em que a agricultura era vista como um trabalho pesado, feito por camponeses
atrasados que trabalhavam de sol a sol. A ideia é apoiar a auto-estima
dos trabalhadores e, em simultâneo, aumentar o respeito da sociedade por
eles e pela sua contribuição.
Encorajar um sentido de "propriedade" entre os membros faz parte do
tratamento dos trabalhadores com a dignidade que eles merecem. Não
só os rendimentos estão dependentes das receitas geradas pelas
vendas, mas a assembleia-geral da cooperativa, composta por todos os seus
membros, decide sobre a distribuição desse rendimento, seguindo
quer as leis gerais que se aplicam às cooperativas quer as suas
regulações internas. As questões financeiras da unidade
são completamente transparentes para os membros. Com efeito, os
escritórios centrais exibem na parede um quadro com
informação financeira acerca das operações do
último mês, bem como os saldos acumulados desse ano até ao
momento. A percentagem de cumprimento do plano anual em relação
à percentagem planeada até ao momento é também
divulgada nesse quadro. A informação disponibilizada inclui as
receitas e despesas totais (incluindo cada salário pago), o custo em
pesos das receitas, dos lucros, da média salarial e do rendimento
médio para a unidade. O último ponto deve ser enfatizado: os
membros da cooperativa recebem um salário. Além disso, cerca de
metade dos lucros são distribuídos em rendimento individual e o
resto vai para despesas sociais colectivas, incluindo o investimento.
Podemos ter uma ideia dos incentivos materiais oferecidos aos membros da
cooperativa através de um resumo da informação
disponibilizada no quadro do escritório em Março de 2007. O
rendimento médio planeado para 2007 foi 8528 pesos, com 1421 pesos para
os dois primeiros meses. O rendimento médio real nos dois primeiros
meses foi 1629 pesos. Por conseguinte, o rendimento mensal real para os
membros, chegando aos 815 pesos, excedeu o rendimento médio mensal
planeado de 711 pesos em 15 por cento e o rendimento médio mensal dos
trabalhadores assalariados do Estado, que é de 385 pesos, em 12 por
cento. Não surpreende que um estudo de 2005 sobre unidades de
produção de agricultura urbana, que incluía Alamar, tenha
concluído que 35 dos 50 membros a trabalhar estivessem ao serviço
há mais de cinco anos
[36]
.
Visitei um conjunto de outras cooperativas agrícolas em Havana. Uma
delas, a Cooperativa de Crédito e Serviços (CCS) Arides Estevez
Sanchez, fica no extremo ocidental de Havana, no município de Playa.
Claramente opulenta e próspera, a CCS tem uma área colectiva que
consiste num
organoponico
e em três estufas que produzem tomates e pepinos para os hotéis
turísticos. Tem 140 membros e 90 lotes (mais de vinte de propriedade
individual e os restantes de propriedade comum). Produzem composto e adubo
orgânico suficientes para ter uma parte disponível para venda. A
obrigação mais importante desta cooperativa é honrar os
seus contratos com 38 escolas que necessitam de oito libras mensais de vegetais
por estudante. A CSS tem um veículo pesado que faz a
distribuição pelas escolas. Outros "organismos
autorizados" compram também sob contrato na cooperativa, mas
têm que ter o seu próprio transporte. Além disso, a CSS tem
diversos pontos de venda directa à população. As
autoridades locais determinam os preços de acordo com tabelas de
preços mensais ou trimestrais (para as escolas). Os preços dos
pontos de venda são estabelecidos cerca de 20 por cento abaixo dos
preços correspondentes nos mercados agrícolas nos quais a CSS
não participa.
Longe da zona central, há um pequeno
organoponico
(o Organoponico Girasol), propriedade desta cooperativa, mas detido por dois
membros. Com uma dimensão de apenas 0,22 hectares, tem o seu
próprio poço para a irrigação e especializou-se na
produção de flores. Produz o seu próprio adubo
orgânico e tem o seu ponto de venda nas próprias
instalações. Um dos "proprietários" é
especialista em irrigação e ensina a sua especialidade a um
círculo de interesses numa escola secundária. E, de acordo com
ele, não é caso único: muitos membros da CSS visitam
regularmente escolas ou recebem visitas de alunos nos seus lotes.
Além dessas experiências "cooperativas", há
centenas de milhares de lotes e quintais com horta com menos de um quarto de
acre em Havana. Essas hortas dão as suas contribuições
individuais à agricultura urbana. Por exemplo, um lote em Vedado, no
município de Plaza, está dedicado à produção
de plantas medicinais. Em 1992, o "proprietário", A. Falcon,
era um trabalhador comum sem qualquer experiência na agricultura quando
lhe foi atribuída a tarefa de recuperar um lote abandonado, cheio de
lixo, e de aí produzir plantas medicinais, numa altura em que o governo
se virava para a "medicina verde" na atmosfera pesada do
Período Especial. Hoje, quinze anos depois, cerca de 40 plantas
diferentes crescem em canteiros dedicados no
organoponico
. Os canteiros são construídos com recurso a composto e adubo
orgânico produzido no local, com desperdício de matéria
vegetal gerado no lote e com estrume obtido das galinhas ali criadas
[37]
. Além disso, aos fins-de-semana, Falcon recolhe folhas das ruas das
redondezas e junta-as ao seu composto e obtém cascas de laranja e outros
desperdícios dos mercados agrícolas. Tem planos para criar
coelhos e peixe, de modo a gerar mais matéria orgânica.
As pestes estão controladas pela diversificação e a
plantação de plantas repelentes, bem como pela limpeza manual nos
casos de pragas de caracóis. Há, em geral, alguns problemas.
Quando há necessidade, Falcon procura ajuda e aconselhamento na Tienda
Consultorio del Agricultor [loja e aconselhamento do agricultor] local. Todas
as suas vendas são feitas directamente no lote: os vizinhos passam por
lá para comprar plantas medicinais e "espirituais" a dois
pesos o ramo. Mais importante, porém, do que o seu papel de produtor de
plantas medicinais é a sua capacidade e vontade de partilhar o
conhecimento que adquiriu durante os últimos quinze anos com a
comunidade. Ele saúda a chegada de grupos de alunos enviados pelas suas
escolas para visitar o lote. Ele próprio visita escolas para dar
workshops
de cultivo e preservação de ervas e plantas, através de
secagem e conservação. Aconselha os vizinhos sobre como podem
começar a sua própria horta ou produção em
telhados. Dá igualmente consultas a médicos que, muitos dos
quais, não dispõem de grandes conhecimentos acerca das plantas
medicinais.
O seu compromisso com a melhoria do ambiente da sua comunidade é
confirmado pela sua participação vigorosa no Mi Programa Verde.
Criou plantas ornamentais, muitas recuperadas de entre as plantas que outros
dispensaram, nalguns metros que separam a estrada do portão do lote. E,
entre o passeio e a berma da estrada em frente à
parcela
, plantou diversas árvores. O que era um lote abandonado e cheio de
entulho é hoje um espaço verde, e o Mi Programa Verde está
a correr bem.
Um outro exemplo interessante de contribuição individual é
o
patio
que pertence ao Dr. Raul Gil, na sua casa na cidade de San Miguel del Padron.
O proprietário da casa tem um mestrado em psiquiatria social e é
director de um centro de saúde mental na cidade de Regla. Depois de se
ter interessado pela eficácia da "terapia das plantas" no
tratamento de problemas de saúde mental, decidiu aprender como criar
plantas para utilização clínica e, em 1995, contactou
Miguel Salcines (da UBPC de Alamar) para obter ajuda. Na sua casa, tinha um
quintal com terreno que não utilizava. Ao lado da sua casa estava uma
fábrica abandonada, transformada numa lixeira infestada de ratazanas e
baratas e num espaço de actividades sociais
"indesejáveis". O Dr. Gil pediu autorização
às autoridades locais para utilizar esse espaço. Quando o seu
pedido foi aceite, limpou a "lixeira", retirando 23 camiões de
lixo.
Hoje, no seu quintal, incluindo o espaço adicional de que fez uso,
está uma horta de alface, beterraba, pepino, feijão verde,
espinafres, cebola, acelga suíça, salsa, hortelã e
coentro, produzindo em pequenos canteiros, com recurso a grandes canos de
água cortados ao meio, e banana, manga, tamarindo, tangerina, figo e
goiaba. Para plantar as árvores, o Dr. Gil abriu buracos de um metro de
diâmetro e 80 centímetros de profundidade, antes de os encher com
um mistura de solo, adubo orgânico e composto, para que as árvores
criadas a partir de semente pudessem ser transplantadas para cada um dos
buracos. É também criado orégão (um repelente de
pestes) e milho (que atrai insectos benéficos) para controlo das pestes.
A amargoseira e a noni dão uma protecção adicional. Por
último, estão também a ser criadas árvores bonsai.
As sementes, bom como outros consumíveis e assistência
técnica, vêm da Tienda Consultorio del Agricultor. O
Ministério da Agricultura fornece matéria orgânica
gratuitamente. Há plantas para começar a produção
de adubo orgânico numa banheira na horta. Numa segunda banheira,
são utilizados sapos para controlar os mosquitos.
Ainda assim, o
patio
não produz qualquer produto para venda! Tal como sucede com a maioria
dos 60 mil
patios
de Havana, todos os produtos são utilizados para a
auto-suficiência e/ou para partilha com os vizinhos. Portanto, a
contribuição deste
patio
para a agricultura urbana de Havana não é tanto a
produção, mas o seu impacto no ambiente físico e social da
comunidade.
E este impacto é maior do que a pequena descrição feita
acima pode sugerir: todos os sábados de manhã durante duas horas,
o Dr. Gil e a sua esposa promovem um
workshop
educacional para as crianças da vizinhança. Durante a minha
visita, cerca uma dezena de jovens, a maioria com menos de dez anos,
frequentava essas formações. A primeira metade do
workshop
era composta de instrução teórica e discussão
sobre a questão do ambiente físico e social. Depois de um
intervalo, seguia-se a formação prática na horta. As
crianças aprendiam a plantar sementes e criar plantas, a ser
sensíveis para com o ambiente, a comportar-se na praia e a relacionar-se
entre si. Também desenvolviam actividades como o desenho.
O Dr. Gil encara essas actividades como desenvolvimento ambientalmente focado
na comunidade: ao mesmo tempo que os alimentos são produzidos,
alteram-se as atitudes em relação ao ambiente físico e
social. O seu sucesso na conversão de uma monstruosidade urbana numa
horta bonita e produtiva e num projecto de desenvolvimento comunitário
impressionante com as crianças gerou o reconhecimento nacional.
Conclusão
O título de 8 de Junho de 2008 da Associated Press era "O programa
de agricultura urbana em Cuba, um sucesso formidável". E, de facto,
assim é, em diversos sentidos. Os dois últimos exemplos ilustram
um ponto fundamental acerca da agricultura urbana como é praticada em
Havana e, em geral, na ilha: não se trata apenas de economia, ou seja,
de produzir alimentos, ou até apenas de produzir alimentos e criar
emprego. Trata-se também do desenvolvimento da comunidade e da
preservação e melhoramento ambiental, proporcionando uma vida
mais saudável e rica nas cidades. Com efeito, quando o director do
Le Monde diplomatique
, a certa altura durante as duzentas horas de entrevistas em 2005, perguntou a
Fidel Castro sobre as medidas de preservação ambiental em Cuba
que ele destacaria, Castro referiu a agricultura urbana como a principal
[38]
.
Tal como para o impacto na produção de alimentos, podemos
concluir definitivamente que, devido à agricultura urbana, os residentes
em Havana têm acesso a uma produção mais fresca e
melhorada, e não apenas em quantidade, mas também em qualidade e
diversidade.
Mesmo com recursos escassos, tornados ainda mais dramáticos devido ao
bloqueio imposto pelos Estados Unidos, Cuba tem como perspectiva expandir o seu
sucesso na agricultura urbana com as suas úteis inovações
e avanços no conhecimento básico, na tecnologia e na
organização social. Os ingredientes básicos de tal sucesso
existem já em Cuba: uma população formada; um governo
central orientado para as pessoas, comprometido e empenhado socialmente, que
dá apoio e condições organizacionais a todo o
esforço; e um amplo estímulo à iniciativa descentralizada
e à tomada de decisões pelos produtores na base, encorajando as
soluções locais para os problemas locais.
A agricultura urbana em Havana é um modelo de auto-suficiência
urbana que vale a pena seguir. Mas há um alerta que se impõe:
pode não ser fácil, ou mesmo possível, replicar noutros
sítios todos os factores que tornaram possível o sucesso de Cuba.
Mas quanto mais um país avançar nessa direcção,
mais hipóteses tem de construir uma sociedade mais verde e humana.
Notas:
1. No entanto, só 10 mil hectares são utilizados para cultivo. O
restante é utilizado para criação animal,
florestação e produção de frutos.
2. Soledad Díaz Otero e Emilio García Capote,
"Organización de la Investigación y su Infraestructura en el
Sector Agraria",
in
AAVV,
Las Investigaciones Agropecuarios en Cuba: Cien Años Después,
Havana, 2006, pp. 1-21; Libertad García López e José
Luís García Cueva, "Investigación, Formación
de Profesionales y Estudios de Posgrado en la Educación Superior
Agropecuario en Cuba",
in
AAVV,
Las Investigaciones Agropecuarios en Cuba
, pp. 22-57.
3. Raul Castro Ruz,
Desatar los Nudos que atan el Desarollo a las Fuerzas Productivas,
ACTAF, Havana, 1997.
4. Moisés Sio Wong, "General y Agricultor, Una Experiencia",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, pp. 2-3.
5. Eugenio Fuster Chepe, "Diseño de la Agricultura Urbana
Cubana",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, p. 6.
6. Grupo Nacional de Agricultura Urbana,
Manual Técnico de Organiponicos y Huertos Intensivos,
Ministerio de la Agricultura, Marzo, Habana, 2007, pp. 68-77.
7. Nelso Companioni Concepción,
La Agricultura Urbana: Un Sistema Alternativa de Produccion de Alimentos en Cuba
, apresentação Powerpoint, slide 35, INIFAT, Havana, 2007.
8. Adolfo A. Rodríguez Nodals, Nelso Companioni Concepción e
Rosalia Gonzáles Bayón, La Agricultura Urbana y Periurbana
en Cuba: Un Ejemplo de Agricultura Sostenible, Apresentação
Powerpoint, slide 9, apresentada no VI Encontro de Agricultura Orgânica,
realizado em Maio 2006, em Havana.
9. Adolfo A. Rodríguez Nodals and Nelso Companioni Concepción,
"Situación Actual, Perspectivas y Retos de la Agricultura Urbana en
Cuba",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, p. 4.
10. Santiago Rodríguez Castellón, "La Agricultura Urbana y la
Producción de Alimentos: la Experiencia de Cuba",
Cuba Siglo XXI
, n.º 30, Junho de 2003, p. 85, com acesso em
www.nodo50.org/cubasigloXXI/economia2.htm.
11. Fuster Chepe, "Diseño de la Agricultura Urbana Cubana", p.
6.
12. Adolfo A. Rodríguez Nodals, Nelso Companioni Concepción e
Maria Elena Herrería Martínez, "Las Granjas Urbanas en la
Agricultura Cubana",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, pp. 7-9.
13.
Ibid.
, p. 8.
14. Nelso Companioni Concepción, "Particularidades del Movimiento
Extensionista en la Agricultura Urbana",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, p. 32.
15. Rodríguez Nodals, "Síntesis Histórica del
Movimiento Nacional de Agricultura Urbana de Cuba", p. 27.
16. Nilda Pérez Consuegra, "Agricultura Orgánica: Una
Visión desde Cuba",
Agricultura Orgánica
8, n.º 2, 2002, p. 11.
17. Entrevistas do autor com Salcines na UBPC Alamar e com Companioni no INIFAT.
18. Nelso Companioni Concepción, "Particularidades del Movimiento
Extensionista en la Agricultura Urbana", p. 32; Grupo Nacional de
Agricultura Urbana,
Lineamientos para los Subprogramas de la Agricultura Urbana para 2008
2010 y Sistema Evaluativo,
Ministerio de la Agricultura, Havana, Fevereiro 2007, pp. 88-103.
19. Entrevista com A. Falcon.
20. Cálculos do autor com base em: Companioni Concepción,
La Agricultura Urbana: Un Sistema Alternativa de Produccion de Alimentos en Cuba
, slide 6; Grupo Provincial de Agricultura Urbana en la Ciudad de la Habana,
La Agricultura Urbana en los Municipios de Ciudad de la Habana con Enfoque
Sostenible u Agroecológico
, apresentação Powerpoint, slide 4, Havana, 2006.
21. Tradução livre.
22. Rodríguez Castellón, "La Agricultura Urbana y la
Producción de Alimentos: la Experiencia de Cuba", p. 86.
23. Elaborado pelo autor utilizando dados de Companioni Concepción,
"Particularidades del Movimiento Extensionista en la Agricultura
Urbana", slide 6.
24. Grupo Provincial de Agricultura Urbana en la Ciudad de la Habana,
La Agricultura Urbana en los Municipios de Ciudad de la Habana con Enfoque
Sostenible u Agroecológico
, slide 6.
25.
Ibid.
, slide 13.
26. Com base na Tabela 1
in
Adela Cuba,
Participacion en la Esfera de Sanidad Vegetalen el Movimiento Cooperativo de la
Agricultura Urbana,
Tese de mestrado, FLACSO, Universidade de Havana, 2002, p. 62.
27.
Cuba, Participacion en la Esfera de Sanidad Vegetalen el Movimiento Cooperativo
de la Agricultura Urbana
, p. 64; Raisa Pages, "Una Ciudad Agroecológica",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2002, p. 17.
28. Pages, "Una Ciudad Agroecológica", p. 18.
29. Companioni Concepción,
La Agricultura Urbana: Un Sistema Alternativa de Produccion de Alimentos en Cuba
, slide 37.
30. José Puente Nápoles, "La Agricultura Urbana Asume el
Abastecimiento de Hortalizas a Círculos Infantiles, Escuelas y
Hospitales",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, p. 22.
31. Orlando Acosta Mirrelles, "Misión al 2007",
Agricultura Orgánica
12, n.º 2, 2006, p. 14.
32.
Ibid.
, 15.
33. Acosta Mirrelles, "Misión al 2007", p. 14.
34. Ronal Suárez Ramos, "Aumentaran Cultivos Semiprotegidos",
Granma
, 12 de Febrero de 2007, p. 2.
35. Excepto quando é referido em contrário, toda a
informação desta secção baseia-se nas minhas
observações e entrevistas com diversas pessoas durante a minha
visita.
36. Gema González Hernández,
Practicas Agroecológicas: Desarrollo y Limitaciones en las Cooperativas
(UBPC) Urbanas
, Tese de mestrado, FLACSO, Universidade de Havana, 2005, p. 126.
37. Falcon afirma: "Comecei com cem minhocas, agora tenho
milhões".
38. Fidel Castro,
My Life
, Ignacio Ramonet, ed., Penguin, Londres, 2008, p. 400.
[*]
Sinan Koont ensina economia e é coordenador de Estudos
Latino-Americanos no Dickinson College, em Carlisle, na Pensilvânia.
Passou recentemente um semestre sabático em Cuba a estudar agricultura
urbana.
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/090119koont.php
Tradução de Zion Edições,
http://www.zionedicoes.org/
, gentilmente cedida a resistir.info.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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