Nos últimos três anos registaram-se alterações
qualitativas no emprego que afectaram ainda mais a sua estabilidade e
qualidade, e 588.900 portugueses estão no desemprego
RESUMO DESTE ESTUDO
De acordo com as Estatísticas do Emprego do 2º Trimestre de 2007,
que acabaram de ser divulgadas pelo INE, para além do crescimento
persistente do desemprego em Portugal, registaram-se durante os três anos
de governo Sócrates alterações importantes na estrutura do
emprego, que se acentuaram no último ano (2T2006/2T2007), com efeitos
negativos quer na estabilidade quer na qualidade do emprego, que não
têm sido nem estudadas nem divulgadas pelos media e que, por isso,
têm passado em grande parte despercebidas à opinião
pública
Assim, a 1ª alteração importante é a
substituição de emprego a tempo inteiro por emprego a tempo
parcial com remuneração naturalmente reduzida. De acordo com os
últimos dados divulgados pelo INE, entre o 2º Trimestre de 2006 e o
2º Trimestre de 2007, o emprego a tempo completo diminuiu em 67.100 e o
emprego a tempo parcial cresceu em 28.700. Esta evolução
determinou que a redução no emprego em 2006/07 tenha sido de
facto maior do que os dados revelam, pois um emprego a tempo parcial não
corresponde a um emprego a tempo completo (em média são
necessários dois empregos a tempo parcial para se obter a mesma
remuneração de um emprego a tempo completo), embora para as
estatísticas publicadas pelo INE sejam iguais. Por isso, os 618.100
empregos a tempo parcial existentes no 2º Trimestre de 2007, embora em
termos estatísticos correspondam a igual número de empregos a
tempo completo, de facto isso não é verdadeiro, pois quanto muito
são equivalentes a metade em empregos a tempo completo. O
Secretário de Estado do Emprego quando afirma, como fez ao jornal
Púbico
de 19/08/2007, que foram criados 60.000 postos de trabalho nos últimos
3 anos, por um lado, não fala verdade (segundo o INE, entre o
2ºT2005 e o 2T2007 foram criados apenas 22.600 postos de trabalho) e, por
outro lado, "esquece" que este crescimento foi também
conseguido à custa da substituição de emprego a tempo
completo por emprego a tempo parcial. Para se poder ficar com uma ideia das
consequências que está a ter esta alteração, basta
lembrar que, de acordo com o INE, em 2006, o salário médio mensal
no País era de 712 euros, no entanto, 10 % dos trabalhadores, ou seja,
389.500 recebiam menos 380 euros por mês; e, entre 2004 e 2006, apesar de
remuneração média mensal ter aumentado de 670 euros para
712 euros, 20%, ou seja, 779.000, mantiveram uma salário mensal inferior
a 400 euros, portanto não aumentou.
A 2ª alteração importante que se está a verificar na
estrutura do emprego em Portugal é a substituição de
contratos sem termo por contratos a termo. Por ex., entre o 2ºTrimestre de
2006 e o 2ºTrimestre de 2007, o emprego permanente (sem termo) diminuiu em
77.600, e os contratos a prazo cresceram em 56.000 atingindo 673.800. Para
além disso, a rubrica "Outros" contratos dos trabalhadores por
conta de outrem que inclui, por ex., o emprego temporário, cresceu entre
2005/2006 em 5,1%, mas entre 2006 e 2007 o aumento já foi de 13%,
alcançando 189.900.
A 3ª alteração importante que se está a verificar na
estrutura do emprego em Portugal é a substituição de
emprego mais qualificado por emprego menos qualificado. Assim, de acordo com os
últimos dados divulgados pelo INE, entre o 2º Trimestre de 2005 e o
2º Trimestre de 2007, o emprego no grupo de profissões de
"escolaridade e qualificação mais elevada" diminuiu em
115.900; no grupo de "escolaridade e qualificação
média" aumentou em 59.700; e no grupo de
"qualificação de banda estreita e escolaridade mais
baixa" aumentou em 72.100. Esta evolução na estrutura do
emprego, lança dúvidas sobre o tipo de alteração do
perfil produtivo da economia portuguesa, tão apregoada pelo governo, e
nomeadamente pelo seu ministro da Economia e pelo Banco de Portugal (veja-se
Relatório de 2006), pois a questão que naturalmente se coloca
é a seguinte: Como é que é possível alterar o
perfil da economia portuguesa para um de mais elevada tecnologia e valor
acrescentado, substituindo emprego mais qualificado por emprego menos
qualificado? E quando 119.400 desempregados têm o ensino
secundário e superior?
Finalmente, um aspecto também preocupante da evolução da
situação do emprego em Portugal é o crescimento continuado
e persistente do desemprego desde a tomada de posse do governo de
Sócrates, apesar do compromisso eleitoral da criação
liquida de 150.000 postos de trabalho: No 2º Trimestre de 2007, o
desemprego oficial atingiu 440.500 portugueses quando no 2º Trimestre de
2005, eram 399.500; e o desemprego corrigido alcançou, no 2ºT2007,
588.900 quando no 2º Trimestre de 2005, era de 539.600. No 2º
Trimestre de 2007, a taxa de desemprego oficial era de 7,9% quando, no 2º
Trimestre de 2005, era de 7,2%; e a taxa de desemprego corrigido atingiu 10,5%
no 2º Trimestre de 2007 quando, no 2º Trimestre de 2005, era de 9,8%.
E 49% deste desemprego já tem mais de uma ano de duração,
é de longa duração.
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Não é só o desemprego que continua a crescer em Portugal.
Também a nível do emprego estão-se a verificar
alterações qualitativas importantes, com efeitos graves na
estabilidade e na qualidade do emprego, que ainda não foram analisadas
com a necessária profundidade e de uma forma global.
Se analisarmos a evolução da estrutura do emprego em Portugal nos
três anos a contar desde a tomada de posse do governo de Sócrates,
conclui-se que o emprego a tempo parcial com salário reduzido, os
contratos a prazo e o emprego menos qualificado estão a aumentar,
enquanto o emprego permanente, o a tempo completo e o mais qualificado
estão a diminuir. E estas tendências negativas acentuaram de uma
forma muito clara no último ano (2ºTrimestre de 2006
/2ºTrimestre 2007).
CONTRATOS A TEMPO PARCIAL COM SALÁRIO REDUZIDO E CONTRATOS A PRAZO
AUMENTARAM MUITO, ENQUANTO OS CONTRATOS A TEMPO COMPLETO E SEM TERMO
DIMINUÍRAM
Para analisar a evolução que se tem verificado na estrutura de
emprego em Portugal vão-se utilizar os dados oficiais do emprego
divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Por isso
interessa saber o que o INE considera como empregado, pois debaixo deste
conceito escondem-se situações muito diferenciadas.
Assim, para o INE empregado é todo "o indivíduo com idade
mínima de 15 anos que, no período de referência (em que foi
feito o inquérito), se encontrava numa das seguintes
situações (portanto, bastava satisfazer apenas uma
condição, não exigindo que satisfizesse simultaneamente
todas as condições). (a) Tivesse efectuado um trabalho de pelo
menos uma hora mediante o pagamento de uma remuneração ou ganho
familiar em dinheiro ou géneros; (b) Ter um emprego, mas não
estando ao serviço, portanto bastava uma ligação formal
com o emprego; (c) Ter uma empresa mas não estar temporariamente ao
trabalho; (d) Estar em situação de pré-reforma mas a
trabalhar no período em que foi feito o inquérito"
(CONCEITOS págs. 34 e seguintes - Estatística do Emprego
-INE). Portanto, basta trabalhar apenas uma hora e receber uma
remuneração ou ser pago em espécie no período em
que foi feito o inquérito, por ex., para que o INE considere um
individuo nesta situação como estando empregado, e ser
incluído nos valores oficiais do emprego).
Tendo presente esta definição do INE sobre o que considera como
empregado, torna-se já mais fácil compreender o verdadeiro
significado dos dados divulgados por este instituto que constam do quadro
seguinte.
Como revelam os dados do quadro, registou-se no último ano (2006/2007)
uma alteração sensível na evolução da
estrutura do emprego em Portugal relativamente ao ano anterior (2005/2006).
Assim, enquanto no 1º ano (2005/2006) o emprego aumentou, embora pouco
(+0,9%), no 2º ano (2006/2007) já se verificou uma tendência
inversa pois o emprego diminuiu, embora também pouco (-0,5%). No
entanto, esta simples comparação não é suficiente
para uma avaliação correcta das mudanças que se
estão a verificar neste domínio, e relativamente às quais
interessa chamar a atenção.
Um emprego a tempo parcial não corresponde a um emprego a tempo
completo. Para se obter a mesma remuneração de um emprego a tempo
completo são, em média, necessários dois empregos a tempo
parcial, por isso o aumento em 28.700 do emprego a tempo parcial, verificado no
período 2006/2007 corresponderá a cerca de 14.350 a tempo
completo, o que determina uma redução de 14.350 empregos e,
consequentemente, a perda efectiva de empregos, entre o 2ºT2006 e o
2ºT2007, não foi apenas 67.100,como foi divulgado pelo INE, mas
sim a 81.450 (67.100 + 14.350). .
Idêntica conclusão se tira em relação aos
trabalhadores por conta de outrem, relativamente à
diminuição em 28.200 do emprego a tempo completo e do aumento em
28.400 a tempo parcial. A compensação é ilusória,
já que os 28.400 empregos a tempo parcial devem corresponder a cerca de
14.200 a tempo completo, o que determina que, no último ano, se
reduzirmos o emprego a tempo completo e a tempo parcial à mesma base
emprego a tempo completo se tenha verificado uma
diminuição de 14.200 postos de trabalho a tempo completo.
Em resumo, no último ano (2006-2007) verificou-se em Portugal uma
acentuada substituição de emprego a tempo completo por emprego a
tempo parcial com salário naturalmente mais reduzido, portanto diferente
do registado em 2005/2006 (neste ano até se verificou o contrário
como revelam os dados do quadro), determinado certamente pelo facto de um
número crescente de trabalhadores não conseguir arranjar emprego
a tempo completo. E embora a nível formal de números de emprego
possa não se verificar uma redução muito grande, a
realidade é diferente já que esses números do
próprio INE, devido àquela substituição, não
traduzem a mesma realidade, pois correspondem a um número menor de
empregos a tempo completo.
Mas não é apenas neste campo que se estão a verificar
alterações sensíveis na estrutura do emprego em Portugal.
Também outra face da precariedade está-se a acentuar em Portugal.
Assim, no período que vai do 2ºTrim.2006/2ºTrim.2007, os
contratos de trabalho sem termo, ou seja, permanentes diminuíram em
77.600, e os contratos a prazo aumentaram em 56.000, quando no ano anterior
(2005/2006), os contratos permanentes até tinham aumentado em 37.600, e
os contratos a prazo tinham crescido em 35.900, ou seja, menos 36%. Assim,
entre 2006 e 2007, os trabalhadores com contrato sem termo diminuíram em
-2,5%, e os contratados a prazo cresceram 9,1%. Crescimento ainda mais elevado
verificou-se na rubrica "Outros" dos "trabalhadores por conta de
outrem", que inclui o emprego temporário que, segundo a
própria associação patronal, já atinge mais de
100.000 trabalhadores, e que teve um crescimento de 5,1% entre 2005/2006, e de
13% entre 2006/2007.
Como consequência de todas estas alterações a nível
de estrutura do emprego, no 2º Trimestre de 2007, em relação
ao emprego total, 4,9% era já a tempo parcial com salário
reduzido; 13,1% eram contratados a prazo; 3,7% constituíam o grupo de
"outros", e 17,4% eram os chamados "recibos verdes" ,
muitos deles trabalhadores por conta de outrem de facto. Se somarmos todas
estas percentagens, obtém-se uma percentagem total de 39,1%, o que
é já muito elevada, embora devido a duplicações
(ex. tempo parcial/contratados a prazo) possa ser um pouco mais baixa, mas que
revela uma realidade cujas consequências ainda não foram
suficientemente estudadas e que são sistematicamente ignoradas pelo
poder económico e politico nas suas declaradas intenções
de pretender desregulamentar ainda mais as relações laborais..
O EMPREGO MAIS QUALIFICADO DIMINUIU E O EMPREGO MENOS QUALIFICADO AUMENTOU
Outro aspecto preocupante da evolução do emprego em Portugal nos
últimos três anos, é precisamente a redução
do emprego mais qualificado, que tem sido substituído pelo aumento do
emprego menos qualificado como revelam os dados do INE constantes do quadro
seguinte.
Agrupamos os dados do emprego por profissões do INE, que são
indicativos do nível de escolaridade e de qualificação, em
três grandes grupos que deverão corresponder, na sua maioria, a
níveis de qualificação e escolaridade diferentes, a saber:
1º Grupo "Qualificação e escolaridade mais
elevada
em que incluímos os quadros superiores, os especialistas das
profissões intelectuais e cientificas e os técnicos e
profissionais de nível intermédio;
2º Grupo, a que chamamos de "Qualificação e
escolaridade média
", que abrange o pessoal administrativo e similares bem como o pessoal de
serviço e vendedores; e finalmente um
3º Grupo , que designamos por "Qualificação de banda
estreita e de escolaridade mais baixa
", onde incluímos a restantes profissões (agricultores, e
trabalhadores da agricultura e pescas, operários, operadores de
máquinas e trabalhadores não qualificados).
As conclusões que se tiram desse agrupamento são fundamentalmente
as seguintes, como revelam os dados do quadro anterior. Nos últimos
três anos 2ºTrim.2005/2ºTrim.2007 verificou-se uma
diminuição continua e significativa no 1º grupo (115.900
empregos destruídos) que é o de qualificação e
escolaridade mais elevada; um crescimento moderado no 2º grupo, que
é o de qualificação e escolaridade média (+ 59.700
postos de trabalho); e um aumento mais elevado no último grupo, que
é o de "qualificação de banda estreita e de
escolaridade mais baixa (72.100)". Portanto, e de uma forma
sintética, pode-se dizer que se verificou um aumento do emprego menos
qualificado e destruição significativa do emprego de
qualificação e de escolaridade mais elevada.
Em resumo, as conclusões anteriores a que se chegam com base nos dados
oficiais do INE sobre o emprego por profissões, que são os que se
dispõem sobre esta realidade, não deixam de ser preocupantes, e
lançam dúvidas sobre o tipo de alteração do perfil
produtivo da economia portuguesa, tão apregoada pelo governo, e
nomeadamente pelo seu ministro da Economia e pelo Banco de Portugal (veja-se
Relatório de 2006), pois a questão que naturalmente se coloca
é a seguinte: Como é que é possível alterar o
perfil da economia portuguesa para um de mais elevada tecnologia e valor
acrescentado, substituindo emprego mais qualificado por emprego menos
qualificado?.
O DESEMPREGO CONTINUA A CRESCER E ATINGE JÁ 588.900 PORTUGUESES
Os dados sobre o desemprego divulgados pelo INE referentes ao 2º Trimestre
de 2007, que constam do quadro seguinte, revelam que o desemprego continua a
crescer de uma forma consistente em Portugal.
Desde 2005, ano de tomada de posse do governo de Sócrates, e apesar do
compromisso eleitoral da criação liquida de 150.000 postos de
trabalho, o desemprego tem aumentado de uma forma continua, quer se considere o
chamado emprego oficial , que inclui apenas uma parte do desemprego total
(+41.200 desempregados), quer se considere o desemprego corrigido que, por
incluir os "inactivos disponíveis" e o "subemprego
visível", que são também desempregados de facto
embora não constem dos números oficiais de desemprego do INE,
está por isso, mais próximo de desemprego real (+49.300
desempregados)
Como consequência, no 2º Trimestre de 2007, o desemprego oficial
atingiu 440.500 portugueses quando no 2º Trimestre de 2005 eram 399.300, e
o desemprego corrigido alcançou, em 2007, 588.900, quando no 2º
Trimestre de 2005 eram 539.600. E, no 2º Trimestre de 2007, a taxa de
desemprego oficial alcançou 7,9% e a de desemprego corrigido atingiu
10,5% quando, no 2º Trimestre de 2005, eram, respectivamente, 7,2% e 9,8%.
20/Agosto/2007
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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