Urge alterar a situação da Administração Pública
110 mil trabalhadores precários
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Neste estudo, utilizando dados do Ministério das Finanças,
mostramos que:
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Uma das promessas deste governo era o combate à precariedade, a defesa
do emprego como principal fonte de rendimento dos trabalhadores, e
também meio de dignificação do trabalhador. É
traumatizante e humilhante para qualquer trabalhador viver numa
situação de permanente precariedade ou de ser despedido e,
depois, não arranjar emprego como já acontece a centenas de
milhares de portugueses, que desapareceram das estatísticas oficiais
pois não constam nem das estatísticas oficiais de emprego nem de
desemprego. Entre 2007 e 2016, cerca de 1,5 milhões de trabalhadores com
o ensino básico perderam o emprego e, destes, cerca de 850 mil nunca
mais conseguiram nem devem conseguir emprego. E isto apesar do programa do XX
governo prometer:
"A recuperação de emprego, em especial com a criação
de postos de trabalho sustentáveis, diminuindo a
segmentação e a precariedade, serão prioridades das
políticas de trabalho deste Governo"
(pág.71).
PRECARIEDADE ATINGE MAIS DE 110 MIL TRABALHADORES NAS
ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS
Na Administração Pública, a realidade é
também preocupante, como revela a DGAEP.
Segundo a Direção Geral da Administração e Emprego
Público (DGAEP) do Ministério das Finanças, no fim de
Jun/2016, existiam nas Administrações Públicas
(Central, Local e Regional),
94.427 trabalhadores, ou seja, 14,3% do total, com vinculo precários
pois tinham ou um contrato a prazo, ou eram tarefeiros ou tinham uma
avença. E há ainda a acrescentar os CEIs
(Contratos Emprego Inserção, uma forma de precariedade financiada
pelo IEFP, com dinheiros da Segurança Social)
que, no fim de 2015, eram mais 15.627 trabalhadores
(12.308 nas Autarquias Locais, 2.554 em diversas entidades públicas dos
diferentes ministérios, 713 em escolas, etc)
, que somados aos 94.427 dá
110.054 trabalhadores com vínculo precários em todas as
Administrações Públicas.
Tudo isto é também um mau exemplo para os patrões
privados que utilizam a precariedade para aumentar a exploração
dos trabalhadores. E a única disposição que se encontra no
projeto de Lei OE-2017 referente a esta matéria é o art.º
22,
"Estratégia de combate à precariedade
" em que se prevê apenas que sejam
"reforçados os mecanismos de controlo e fiscalização
com vista à identificação de situações
consideradas precárias e da sua progressiva eliminação, de
acordo com os regimes legalmente aplicáveis".
No entanto, nada de medidas concretas para eliminar a precariedade existente,
e não há necessidade de mais identificações, pois o
governo já conhece a realidade. A prová-lo estão os dados
que utilizamos, os divulgados pelos Ministérios das Finanças e do
Trabalho.
NO 1º SEM. 2016, PROFISSÕES IMPORTANTES CONTINUARAM A PERDER
TRABALHADORES
Embora muitos serviços das Administrações Públicas
estejam a enfrentar graves dificuldades devido à falta de trabalhadores
necessários à prestação de serviços
públicos, causada pela destruição levada a cabo pelo
governo PSD/CDS, a redução do numero dos trabalhadores da
Função Pública continuou no 1ºsem.2016, como revelam
dados da DGAEP
No 1º sem.2016, as entradas em toda a Função Pública,
resultantes de novos recrutamentos, foi de 14.017, enquanto as saídas
definitivas atingiram 15.668, o que determinou um saldo negativo de 1.651
trabalhadores. Esta situação foi "atamancada"
através da mobilidade de outras entidades. Mas uma análise mais
fina revela o agravamento da situação (quadro 3).
Entre 2011 e 2015, a redução do numero de trabalhadores da
Função Pública levada a cabo pelo governo PSD/CDS e
"troika" para reduzir o défice foi elevada (-68.024),
nomeadamente em categorias profissionais fundamentais para garantir a
prestação de serviços públicos de qualidade
à população. No entanto,
com o atual governo a situação não se alterou ainda
significativamente.
Embora os dados da DGAEP constantes do quadro 3 revelem que, entre Dez.2015 e
Junho de 2016, o número de trabalhadores das
Administrações Públicas aumentou em 797,
no entanto esse crescimento não é totalmente real
, pois a categoria profissional que mais aumentou foi a de médicos
(+1.275) e a maioria destes fazem um reduzido número de horas
diárias
(ex.: médicos aposentados contratados em "part-time")
. Profissões fundamentais para o funcionamento de serviços
essenciais à população continuaram a perder trabalhadores.
São exemplos, a redução, durante o 1º sem.2016, de
782 técnicos superiores, de 275 assistentes técnicos, de 715
assistentes operacionais, e de 552 trabalhadores nas forças de
segurança
(a PSP e GP queixam-se de falta de efetivos)
. A falta de auxiliares da educação
(que são assistentes operacionais)
, necessários ao funcionamento das escolas noticiado pelos media,
confirma a degradação da situação com
consequências graves para a população. A falta de
trabalhadores está também a dificultar a aplicação
do horário das 35 horas embora ele tenha sido aprovado pelo governo e
ele se comprometeu a implementá-lo.
Apesar desta situação, o governo tenciona reduzir ainda mais o
número de trabalhadores em 2017 aplicando a norma, tal como o governo
PSD/CDS, de "
sai 2 trabalhadores e entra um"
para reduzir a despesa em 122 milhões e assim reduzir o défice
orçamental como consta do quadro III.1 do Relatório do OE-2017
(pág. 37).
A CONTINUAÇÃO DO CONGELAMENTO DE REMUNERAÇÕES E
CARREIRAS
A proposta de Lei do OE-2017 no art.º 18º dispõe a
continuação do congelamento de remunerações e
carreiras nos seguintes termos:"
Durante o ano de 2017 são prorrogados os efeitos dos art.º 38º
a 42º, 44º e 46º e 73 da Lei 82-B/2014, cujas medidas são
progressivamente eliminadas"
, mas não se diz quando e como. E contrariamente ao que muitos pensam
e afirmam, a redução das remunerações nominais da
maioria dos trabalhadores da Função Pública continua,
apesar da reposição do corte nos salários.
Entre 2011 e Jun.2016, o número de trabalhadores da Função
Pública foi reduzido em 68.024, mas houve profissões que foram
mais destruídas pelo governo PSD/CDS, nomeadamente assistentes
técnicos e operacionais (-34.766) e docentes (-21.278), etc. E como
mostramos mesmo com o atual governo não se verificou uma inversão
em algumas destas profissões.
Por outro lado, há um conjunto de profissões
(12 abrangendo mais de 403 mil trabalhadores)
cujas
remunerações nominais em 2016, mesmo com reposição
dos cortes, são inferiores às de 2011
, ano em que as remunerações pagas já tinham sofrido o
"corte do governo de Sócrates"
(entre 3,5% e 10% nas remunerações superiores a 1.500,sendo
a média do corte 5%).
E isto acontece porque, para além dos cortes de
remunerações que estão a ser agora repostos, muitos
trabalhadores perderam, no período 2011-2015, vários suplementos
que não são repostos
(ex. horas de qualidade),
e a substituição de uma parte dos trabalhadores que deixam a
Função Pública por outros, com as mesmas
qualificações, é feita pagando remunerações
mais baixas.
Existem também categorias profissionais, como as de assistentes
operacionais e assistentes técnicos, com mais de 236 mil trabalhadores,
que, pelo facto das suas remunerações serem muito inferiores a
1.500/mês
(inferiores a 909 e mesmo a 619)
, não sofreram cortes nos salários mas que, apesar disso, as suas
remunerações nominais em Junho de 2016 são inferiores
às de 2011 como revelam também os dados do Ministério das
Finanças. Para além disto há ainda o aumento da taxa de
desconto para a ADSE para 3,5% (+133%), o enorme aumento de impostos
(+3,7p.p.), e a inflação que corroeu os salários e que,
entre 2010 e 2016, foi superior a 8%, o que, em conjunto,
determinou uma redução do poder de compra dos trabalhadores
superior a 14,3%. E isto sem entrar em consideração com a
eliminação de vários complementos e com a
redução do pagamento por horas extraordinárias, o que
reduziu o ganho médio nominal a muitos trabalhadores. Segundo o OE-2017,
entre 2016 e 2017, na Administração Central, a Despesa com
Pessoal aumenta apenas
de 15.713 milhões para 15.923,8 milhões
(+210,4 milhões , que é praticamente o necessário
para suportar os efeitos da reposição dos cortes que teve lugar
em 2016, que foi feita trimestralmente, mas que em 2017 a
remuneração sem cortes será paga logo a partir de 1 de
Janeiro que não sucedeu em 2016 , o que determina um
aumento liquido
de despesa estimado pelo governo em 181 milhões , mas o efeito
ilíquido é maior)
mas a despesa com "Aquisição de bens e
serviços" sobe de 8.291,8 milhões para 9.024,2
milhões
(+732,4 milhões, 3,5 vezes mais).
Não há dinheiro para salários mas já há
para aquisição de bens e serviços ao exterior. Dois pesos
e duas medidas distintas.
TRABALHO EXTRAORDINÁRIO NA FUNÇÃO PÚBLICA É
PAGO POR METADE DO PRIVADO
Umas das muitas desigualdades a que continuam sujeitos os trabalhadores da
Função Pública é a que resulta do trabalho
extraordinário na Administração Pública ser pago
por um valor significativamente inferior ao que vigora no setor privado.
Recordemos, então, a evolução do valor/hora pago pelo
trabalho extraordinário tanto no setor privado como na
Administração Pública anterior ao período da
"troika", durante o governo PSD/ CDS e a "troika", e
atualmente.
Antes da
"troika"
e do governo PSD/CDS, o trabalho extraordinário era pago aos
trabalhadores do setor privado como da Função Pública com
um acréscimo de
"50% na retribuição da 1º hora, e de 75% nas horas e
frações subsequentes. O trabalho extraordinário prestado
em dia de descanso semanal ou em dia feriado era pago ao trabalhador com um
acréscimo de 100% da retribuição, por cada hora de
trabalho efetuado"
(art.º 258º Código do Trabalho).
Com o governo PSD/CDS e
"troika"
esta disposição foi profundamente alterada passando a vigorar
normas e pagamentos por horas extraordinárias realizadas diferentes para
o setor privado e para a Administração Pública, que este
governo ainda não alterou, criando assim um profunda desigualdade de
tratamento entre os trabalhadores do setor privado e os da Função
Pública. Segundo o art.º 265 do Código do Trabalho, o
trabalhado extraordinário é pago aos trabalhadores do setor
privado da seguinte forma:
"com um acréscimo de 25% pela 1ª hora ou fração
desta, e 37,5% por hora ou fração subsequente em dia útil;
e com um acréscimo de 50% por cada hora ou fração, em dia
de descanso semanal, obrigatório ou complementar, e feriado
". Esta alteração representou uma perda significativa de
rendimento para os trabalhadores do setor privado, já que os
acréscimos de remuneração por trabalho
extraordinário foram reduzidos para metade pelo governo PSD/CDS, o que
significou um importante beneficio para os patrões privados.
Mas os trabalhadores da Função Pública foram ainda mais
lesados, o que criou desigualdade de tratamento entre o setor privado e a
Função Pública. Segundo o art.º 45 da Lei 82-B/2014,
cuja vigência tem sido prolongada pelas leis do O.E. de 2016 e 2017, a
1ª hora extraordinária na Função Pública
é paga com um acréscimo de apenas 12,5%, as restantes horas com
acréscimo de 18,75%, e o trabalho extraordinário realizado em dia
de descanso semanal e em feriados é pago com acréscimo de apenas
25%,
ou seja, acréscimos que são metade dos que são pagos aos
trabalhadores do setor privado
. E o nº 5 do art.º 29º da proposta de lei do OE-2017 estabelece
que o "
disposto no artº 73º da Lei 92-B/2014,mantido em vigor pela presente
lei, "não prejudica a definição de um regime
especifico de trabalho extraordinário ou suplementar prestado pelos
profissionais de saúde necessário para assegurar o funcionamento
dos serviços de urgência que constituem pontos da Rede de
Urgência/Emergência, como das unidades de cuidados intensivos, nos
termos que venham a ser definidos por decreto-lei" O
setor de saúde que já tinha um tratamento diferenciado pois, de
acordo com o art.º 73º da Lei 92-B/2914, cuja vigência foi
prolongada, a 1ª hora extraordinária era paga com acréscimo
de 12,5%, mas a 2ª e seguintes horas eram pagam com um acréscimo de
25%, mas agora o art.º 29º da Lei do OE-2017 vem permitir agravar as
desigualdades de tratamento no seio da própria
Administração Pública, mantendo a situação
de discriminação da Função Pública em
relação ao setor privado, que é urgente corrigir.