A OPA dos grupos económicos sobre a futura administração
da CGD
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| António Domingues, indicado para presidente da CGD | Vice-presidente BPI e há 20 anos nele ( Caixabank detém já 44,8% do capital do BPI e lançou uma OPA) |
| Tiago Ravara Marques, indicado para administrador executivo CGD | Responsável dos recursos humanos BPI (Caixabank) desde 2000 , ex-administrador BPI/Pensões |
| Henrique Cabral Menezes, indicado administrador executivo CGD | Administrador BPI desde 1998, sendo administrador Caixa Brasil |
| Paulo Rodrigues da Silva, indicado administrador executivo CGD | Administrador do BPI entre 1992-2000, depois administrador VODAFONE |
| Emídio Pinheiro, indicado para administrador executivo CGD | Entrou para o grupo BPI (Caixabank) em 1991, e desde 2005 presidente do Banco Fomento Angola |
| João Tudela Martins, indicado para administrador executivo CGD | Fez toda a sua carreira no BPI (La Caixabank) , sendo diretor do risco |
| Pedro Leitão, indicado administrador executivo CGD | Presidente da TELECOM ANGOLA , não tem experiência bancária |
| Leonor Beleza, indicada para administradora não executiva da CGD | Presidente atual da Fundação Champallimaud , esteve no BCP e no Banco Totta em órgãos de fiscalização, fez o discurso de homenagem a Cavaco Silva em Julho de 2016 |
| Rui Vilar, indicado administrador não executivo CGD | Foi presidente da CGD 1989-1995, e fez o discurso de homenagem a Mário Soares em Julho 2016 |
| Pedro Norton, indicado administrador não executivo CGD | Administrador da IMPRESA que controla o Expresso de 1998 a 2016 |
| Carlos Tavares, indicado administrador não executivo CGD | Atualmente presidente do conselho de administração da PEUGEOT-CITROEN |
| Ângelo Paupério, indicado administrador não executivo CGD | Atualmente Co-CEO da SONAE e braço direito de Paulo Azevedo |
| Herbert Walter, indicado administrador não executivo CGD | Ex-presidente do DRESDNER BANK e representou a ALLIANZ (grande grupo alemão) no BPI |
| Rui Ferreira, indicado administrador não executivo CGD | É presidente atual da UNICER (44% do capital é da Carlsberg e o resto pertence aos grupos Viola, Arsopi e BPI) desde 2015, passou pelo BPI |
| Bernardo Trindade, indicado administrador não executivo CGD | Administrador atual do grupo PORTO BAY e líder parlamentar do PS Madeira |
| Paulo Pereira da Silva, indicado administrador não executivo CGD | Presidente da RENOVA há mais de 20 anos |
| Angel Coorcóstegui, indicado administrador não executivo CGD | Antigo presidente executivo do SANTANDER CENTRAL HISPANO |
| Fernando Guedes, indicado administrador não executivo CGD | Presidente executivo atual da SOGRAPE |
O domínio de homens que vêm do grupo BPI/La Caixabank
(atualmente La Caixabank, já detém 44,8% do capital e
lançou uma OPA sobre o BPI);
para ocupar lugares executivos na futura administração da CGD
é avassalador (6 em 7 administradores executivos). Nem houve a
preocupação de manter uma certa continuidade na gestão
através da presença de alguém que fosse da CGD e a
conhecesse bem. Mas como se isto já não fosse suficiente, os
futuros membros não executivos ocuparam ou ocupam lugares na
administração de grandes grupos económicos nacionais e
estrangeiros, e vários deles nem têm experiencia bancária.
Para além disso vão ocupar lugares na futura
administração da CGD mantendo as funções que
têm nos atuais grupos económicos (SONAE, UNICER, Porto Bay,
RENOVA, SOGRAPE, Fundação Champalimaud). É
previsível que muitos destes grupos económicos cujos
administradores vão ocupar lugares no futuro conselho de
administração da CGD, segundo o
Expresso,
tenham negócios com a CGD.
E isso parece confirmar-se já que o
Economico Digital
de 3 de Agosto de 2016, noticiou:
"Alguns dos nomes propostos para administradores não executivos da
CGD
são administradores executivos de empresas clientes do banco
público. É o caso da Sonae, da Renova, da Sogrape, da Partex, do
Grupo PSA, do Grupo Porto Bay, e do Fundo Magnum
[a CGD tem unidades de participação]). A
informação sobre a relação entre estas empresas e o
banco português tem estado a ser pedida pela equipe do Banco de Portugal
que pertence ao Joint Supervision Team do BCE e que participa na
avaliação fit and proper (competência e idoneidade) dos
novos administradores da CGD. Os administradores da CGD que têm merecido
a especial atenção do BCE (no âmbito do Mecanismo
Único de Supervisão), em nome, por um lado do potencial conflito
de interesses, e por outro em nome do risco de, a partir do 'board' da CGD,
terem acesso a informação bancária de empresas
concorrentes às suas, são:
Carlos Tavares
que é presidente do grupo PSA Peugeot Citroën;
Bernardo Trindade,
administrador do grupo hoteleiro Porto Bay, e que foi secretário de
Estado do Turismo em 2011;
Ángel Corcostegui
, porque em 2006, fundou o "private equity" Magnum Capital juntamente
com João Talone, e a CGD é financiadora desse fundo, detendo
unidades de participação;
Ângelo Paupério
que è Co-CEO da Sonae, repartindo a liderança do grupo com Paulo
de Azevedo;
Rui Ferreira
que é presidente da Unicer desde o ano passado;
Paulo Pereira da Silva
que é presidente do grupo Renova desde 1993;
António da Costa Silva
, outro administrador não executivo da CGD que é o presidente da
Partex Oil Gas, empresa petrolífera da Fundação
Gulbenkian; e
Fernando Guedes,
presidente da Sogrape, que substituiu o irmão Salvador Guedes na
liderança da empresa de vinhos da família em 2012".
O leque é muito numeroso o que é preocupante.
E esta situação é ainda mais preocupante se se tiver
presente que a análise do conflito de interesses por parte do BdP/BCE
está ser feito tendo como base o Regime Geral das
Instituições de Crédito e Sociedade Financeiras (RGICSF),
que é a lei do setor, e que é extremamente permissiva sobre esta
matéria, como rapidamente se conclui da simples leitura do seu artº
85º sobre "CONFLITOS DE INTERESSES". O nº1 do seu artº
85º dispõe que
"as instituições de crédito não podem
conceder crédito, sob qualquer forma ou modalidade, incluindo a
prestação de garantias, quer direta quer indiretamente, aos
membros dos seus órgãos de administração ou
fiscalização, nem a sociedades ou outros entes coletivos por eles
direta ou indiretamente dominados".
No entanto, o nº5 do mesmo artº 85º estabelece que
"o disposto o disposto nos nº 1 a 4 não se aplica aos membros
do conselho geral e de supervisão que não integrem a
comissão para as matérias financeiras, aos administradores
não executivos das instituições de crédito que
não façam parte da comissão de auditoria, nem a sociedades
ou outros entes coletivos por eles dominados".
Portanto, os membros do conselho de administração que não
sejam executivos, nem pertençam à comissão de auditoria
nem a sociedades por eles dominados, as empresas a que pertençam podem
ter negócios com a CGD. O conflito de interesses é evidente e
real, embora à luz do RGICSF não o seja.
Quem defende o controlo público das empresas estratégicas e,
nomeadamente, da banca não pode ficar nem passivo nem alhear-se daquilo
que, segundo o
Expresso
e o
Economico Digital,
se está a passar na CGD, pois esta é vital para apoio às
PMEs, para o desenvolvimento do país e para a independência
nacional.
Não se pode em palavras defender uma coisa e, em atos, nada fazer.
É uma questão de coerência que não passa
despercebida à opinião pública, mesmo que se pense o
contrário. Não é certamente colocando na
administração da CGD homens dos grandes grupos económicos
e financeiros que se defende a CGD e o país, se apoia as PMEs e se
promove o crescimento económico e o desenvolvimento do país. E
não é depois de se tornar um facto consumado que interessa tomar
posição pois depois não muda realmente nada. Só
atuando antes do facto consumado é que poderia ter algum efeito. E o
futuro não deixará de julgar as posições tomadas ou
omissões em momentos como este.
A SITUAÇÃO DA CGD SEGUNDO O ATUAL PRESIDENTE DA
ADMINISTRAÇÃO
O ainda atual presidente da CGD, José de Matos, esteve na
Comissão Parlamentar de Inquérito à CGD, onde prestou
declarações e distribuiu aos deputados um documento com
informações sobre a CGD que, pela sua importância,
interessa analisar.
Segundo esse documento, em 2012, a CGD foi recapitalizada pelo Estado com 750
milhões mais 900 milhões de Cocos
(instrumentos financeiros híbridos, elegíveis para fundos
próprios Core Tier 1, no valor global de 900 milhões , os
quais foram subscritos na sua totalidade pelo Estado Português),
pelos quais a CGD teve de pagar uma taxa de juro de 9,5% em 2016 (85,5
milhões ) que, em 2017 aumentará para 10% (90
milhões ), como consta da pág. 238 do Relatório e
Contas da CGD de 2015.
Como é referido no mesmo documento, a Comissão Europeia
considerou aquela recapitalização como uma ajuda de Estado, tendo
aproveitado esse facto para impor um "plano de
reestruturação" aprovado pela DG Comp, que foi aceite
obedientemente pelo governo PSD/CDS, o qual incluía a venda da maior
seguradora portuguesa, assim como da área de saúde da CGD, a
redução de balcões e de trabalhadores.
O atual presidente da CGD, na informação que distribuiu aos
deputados da CIP, gaba-se de ter ido para além do exigido pela DG Comp
pois, segundo ele, desde 2012 foram fechadas 108 agencias
(mais 49 do que as exigidas pela DGComp)
e o numero de trabalhadores em Portugal foi reduzido em 1.348
(mais 598 do que os exigidos pela DGComp)
, tendo sido vendida a Fidelidade
(80% do seu capital)
ao grupo chinês FOSUN e a área de saúde
(hospitais)
ao grupo brasileiro AMIL. Desta forma uma parte importante do grupo Caixa
passou para o controlo de grupos económicos estrangeiros, e a CGD sofreu
uma amputação importante, o que a enfraqueceu como instrumento do
Estado para apoiar as PMEs, promover o crescimento económico e o
desenvolvimento do país. O que temos agora é uma CGD muito mais
reduzida e fraca.
Segundo o seu Balanço de 2015, cerca de 73% do Ativo da CGD foi
financiado, em 2015, com recursos de clientes e outros empréstimos,
fundamentalmente depósitos. Apenas 5,4% teve como origem
empréstimos obtidos junto do BCE. E o volume de depósitos tem
aumentado de uma forma continua (exceto em 2013) e o seu custo
(juros)
tem registado uma forte diminuição, o que tem contribuído
para reduzir o impacto negativo verificado a nível do crédito
concedido, como revelam os dados do quadro 2 construído com dados da
informação distribuída aos deputados da comissão de
inquérito parlamentar.
Em 2010, por cada milhão de euros de depósitos a CGD pagou
43.927 de juros anuais; em 2014 pagou apenas 33.050 (-24,8%) e, em
2015, apenas 25.114
(- 24% do que em 2014).
Se a CGD tivesse pago em 2015 a mesma taxa de juros por um milhão de
euros de depósitos que pagou em 2014, teria pago mais 582,7
milhões . Esta redução muito significativa de juros
pagos pelos depósitos que recebe
(entre Jun/2014 e Dez/2014, a taxa baixou de 1,56% para 0,71% e, entre Dez/2014
e Dez/2015, reduziu-se de 0,71% para apenas 0,32% como consta da
informação aos deputados)
compensou em 79% a quebra verificada nos juros recebidos pelo crédito
concedido
(entre 2010 e 2014, os juros pagos diminuíram em 1.129 milhões
, e os juros recebidos reduziram-se em 1.430 milhões ).
É de prever que, em 2017, o efeito desta redução
significativa da taxa de juros verificada entre 2014 e 2015
(redução em 55%)
determine uma redução também significativa dos custos dos
depósitos, pois uma parte vencerá nesse ano, sendo
substituído por uma taxa muito mais baixa.
Só devido a isso estima-se que os custos da CGD se reduzam em mais de
200 milhões em 2017, cujos louros serão aproveitados pela
nova administração sem fazer nada para isso
.
SERÁ QUE ESTÁ A SER PREPARADO UM NOVO PLANO DE
REESTRUTURAÇÃO DA CGD PARA A REDUZIR AINDA MAIS DE FORMA A QUE
BANCA PRIVADA SEJA DOMINANTE?
Um dos grandes objetivos da Comissão Europeia é a
diminuição do número de bancos em Portugal, com a
consequente concentração em benefício da banca espanhola
(a absorção do BANIF pelo Santander com o apoio da DG Comp
é um exemplo comprovativo dessa politica), e a redução da
importância do banco público (CGD). A
recapitalização da CGD poderá ser o pretexto para que a
Comissão Europeia e o BCE imponham mais amputações na CGD,
com o objetivo de reduzi-la a um "pequeno banco" a fim de diminuir a
sua capacidade para concorrer com a banca privada. E quanto maior for o valor
da recapitalização maiores serão as exigências da
Comissão Europeia e do BCE.
Segundo o Relatório e Contas de 2015, o Ativo ponderado pelo risco (RWA)
é de 60.316 milhões
, o que significa que a transformação dos CoCos (900
milhões ) em capital, e uma recapitalização da CGD
com mais 2.500 milhões , os rácios de capital da CGD, que,
no fim do 1º Trim.2016, eram 10,4% para o CET1 e 11,7% para o rácio
total, aumentariam em 4,1 pontos percentuais, ou seja, para mais de 14% e 15%,
respetivamente. E estes valores parecem ser suficientes até porque o
Banco de Portugal publicou um comunicado em 29/07/2016 adiando para Janeiro de
2018 o aumento dos fundos próprios das instituições
financeiras com risco sistémico que, no caso da CGD, é de 0,5% em
2018 e 0,5% em 2019 (antes era em 2017 e 2018). A redução dos
rácios de capital para os valores que defendemos reduziria o pretexto
para a Comissão Europeia, através da DG Comp, e do BCE exigirem
grandes cortes na atividade da CGD, nomeadamente redução
significativa de balcões e de trabalhadores e venda de ativos. A
recapitalização da CGD em 5.000 milhões , como os
media divulgaram, estará naturalmente associada a uma maior
destruição da CGD exigida pela Comissão Europeia e BCE.
É um aspeto importante que não deverá ser omitido e que
é preciso estar atento.
Em conclusão, a transformação dos 900 milhões
de Cocos em capital, eliminará um encargo de 90 milhões
de juros em 2017 pois, como já se referiu, a taxa de juro a pagar
pela CGD no próximo ano referente aos Cocos será de 10%. Se
somarmos a este valor o redução de custos em 2017 determinada
pela redução da taxa de juros dos depósitos que diminuiu,
entre 2014 e 2015, de 0,71% para 0,32%, mas que se aplicará a uma
parcela dos depósitos só em 2017, pois são
depósitos a prazo que só se vencem neste ano e, consequentemente,
a nova taxa só se poderá aplicar em 2017, assim como a
redução de custos resultantes da aplicação do
chamado Plano Horizonte
(fecho agencias e redução de trabalhadores)
, em que alguns dos seus efeitos terão também lugar em 2017;
repetindo, a soma destas reduções, deverá determinar uma
redução total de custos superior a 300 milhões em
2017. É um "presente" que a nova administração
receberá sem ter feito nada, mas cujos louros naturalmente se
apropriará.
No documento distribuído aos deputados há ainda uma
informação importante que interessa evidenciar porque ela
é sistematicamente silenciada pelos media. A CGD deu, durante muitos
anos, muitas centenas de milhões de lucros ao Estado. Só
no período que vai de 2000 a 2010, a CGD entregou ao Estado 2.646
milhões de dividendos que constituíram receitas do
Orçamento do Estado. Só a partir de 2011, com a entrada da
"troika" e do governo PSD/CDS que impuseram uma politica de
consolidação orçamental violenta e recessiva a qual atirou
a economia e o país para uma profunda crise, é que a CGD deixou
de entregar dividendos ao Estado e passou a acumular prejuízos.