Os lucros da CGD em 2019
Eles reduzem-se de 775,9 milhões a apenas a 175,9
milhões
Isto se verifica ao deduzir-se a reversão de imparidades e
provisões criadas a mais em anos anteriores, bem como o valor da venda
de ativos internacionais e de mais-valias
O crédito e a quota de mercado da CGD continuam a diminuir
Recentemente os media fizeram grandes "caixas" com os lucros da CGD
em 2019 que teriam atingido, segundo a administração de Paulo
Macedo, 775,9 milhões . No entanto, e como é habitual,
limitaram-se a divulgar o que administração disse
"esquecendo-se", mais uma vez, de inquirir/investigar como esses
lucros foram obtidos a fim de poderem informar com verdade a opinião
pública sobre a situação da CGD. E isto porque criaram a
ideia de que recuperação da CGD era uma realidade. No entanto, a
realidade pode não ser essa porque lucros não são sempre
sinal de recuperação efetiva e consistente pois podem ser obtidos
através de medidas conjunturais que fragilizam a CGD e ocultam a sua
verdadeira situação cujas consequências só
sentirão mais tarde, eventualmente depois da saída de Paulo
Macedo.
A CGD já viveu momentos semelhantes, embora as causas fossem diferentes,
cujos efeitos só vieram à luz do dia vários anos mais
tarde, com consequências graves para os contribuintes que tiveram de a
recapitalizar com 3.900 milhões pagos com os seus impostos. Mas
esta é uma questão séria que só deve ser tratada e
respondida com base numa análise objetiva da informação
já divulgada pela administração de Paulo Macedo referente
a 2019, pois é a única disponível. É o que vamos
fazer neste estudo procurando mostrar a realidade para além das
aparências para alerta, informação e reflexão dos
portugueses.
77,4% DOS LUCROS DA CGD EM 2019 NÃO TIVERAM COMO ORIGEM O NEGÓCIO
BANCÁRIO POR EXCELÊNCIA MAS FUNDAMENTALMENTE REVERSÃO DE
IMPARIDADES E PROVISÕES CONSTITUIDAS A MAIS EM ANOS ANTERIORES E VENDA
DE ATIVOS QUE A CGD POSSUIA NO PAÍS E NO ESTRANGEIRO,
SITUAÇÃO ESSA QUE NÃO É REPETÍVEL
O quadro 1, construído com dados constantes da própria
informação divulgada pela administração de Paulo
Macedo, mostra de uma forma clara como a esmagadora maioria dos lucros (cerca
de 77,4%) apresentados pela CGD em 2019 775,9 milhões
foram obtidos.
Portanto, 600,2 milhões (77,4%) dos 775,9 milhões
dos lucros que a administração de Paulo Macedo apresentou em
2019, tiveram como origem a venda de ativos que a CGD possuía em
Portugal e no estrangeiro, mas fundamentalmente a reversão de
imparidades e provisões constituídas em excesso em anos
anteriores, muitas delas só certamente possíveis devido à
enorme recapitalização da CGD feita pelo Estado em 2016 com
dinheiro dos contribuintes. Pode-se dizer, que a CGD está apenas a
entregar ao Estado aquilo que recebeu a mais em 2019, e não na sua
totalidade. É preciso fazer uma análise objetiva para não
se criarem ilusões.
Este mesmo procedimento já tinha sido utilizado pela
administração de Paulo Macedo em 2018, mas com menor
dimensão. Dos 495,7 milhões de lucros apresentados em
2018 pela administração de Paulo Macedo, 207,8 milhões
, ou seja, 41,9% tiveram a mesma origem, tendo a parcela de
reversão de imparidades e provisões atingido 131,26
milhões
O CRÉDITO BANCÁRIO CONCEDIDO EM PORTUGAL PELA CGD CONTINUA A
DIMINUIR
Uma outra caraterística da gestão da administração
de Paulo Macedo na CGD é a continua diminuição do
crédito concedido à economia e às famílias
portugueses como revelam os dados do quadro 2 construído com a
informação divulgada pela própria CGD.
Entre 2018 e 2019, registou uma redução do crédito
concedido pela CGD de 4.328 milhões , sendo 3.749 milhões
a empresas, a particulares (fundamentalmente famílias) e ao setor
público. Se consideramos os três anos (2016/2019) da
administração de Paulo Macedo na CGD, a redução de
crédito concedido pela CGD em Portugal já atinge 15.066
milhões (-23,8%), sendo 4.606 milhões a empresas
(-25,1%), 3.577 milhões a particulares (-12,8%). Mesmo o
crédito à habitação em que a CGD teve sempre um
grande papel sofreu uma redução de 3.412 milhões .
Melhor que quaisquer palavras estes números, disponibilizados pela
própria administração da CGD, mostram de uma forma clara o
que tem sido a gestão de Paulo Macedo na CGD
A CGD CONTINUA A PERDER QUOTA DE MERCADO EM PORTUGAL
A diminuição continuada do crédito concedido às
empresas e às famílias em Portugal tem determinado que a CGD
esteja a perder quota de mercado no país como o quadro 3 mostra, que foi
também construído com dados divulgados pela própria
administração de Paulo Macedo
Em três anos de administração de Paulo Macedo (2016/2019),
a CGD perdeu 18,8% da quota de mercado de crédito, sendo 27,5% na quota
de empresas e 14,3% de particulares. Este é um aspeto que a
administração de Paulo Macedo tenta ocultar pois em
relação a outros indicadores apresenta valores do período
2016/2019 mas relativamente a este não os divulga para todo o
período apesar de ser um indicador importante de avaliação
da capacidade da administração.
A administração de Paulo Macedo está a revelar falta de
capacidade para conceder crédito novo que, pelo menos, compense aquele
que é amortizado, liquidado, vendido ou abatido
.
Mesmo em relação aos depósitos, a posição da
CGD é pior do que a que tinha quando a administração de
Paulo Macedo entrou para ela, apesar de se ter verificado uma ligeira
recuperação em 2019, como mostra o quadro 4 (dados divulgados
pela administração).
Entre 2016 e 2019, a quota da CGD nos depósitos totais feitos na banca
diminuiu de 27,7% para 25,2%, ou seja, em -9,7%, apesar da reduzida
recuperação registada em 2019 (+0,2 p.p.).
Outra análise que interessa realizar para avaliar a capacidade de
gestão da administração de Paulo Macedo é
utilizando o
Rácio de transformação
que dá o valor em euros de crédito que a
administração da CGD consegue conceder por cada 100 de
depósitos que recebe. Entre 2016 e 2019, de acordo com o seu
Balanço Consolidado (ver Anexo), o crédito líquido da CGD
diminuiu de 59.413 milhões para 47.974 milhões (-
11.439 milhões ) e os depósitos passaram de 66.692
milhões para 65.792 milhões (-900M).
Calculando o
Rácio de transformação
que se obtém dividindo o total de crédito pelo total de
depósitos obtém-se, para 2016, 89,1% e para 2019 e apenas 72,9%.
Isto significa que, em 2016, por cada 100 que recebia a CGD emprestava
(crédito) 89,1 enquanto, em 2019, por cada 100 de
depósitos que recebe só consegue emprestar 72,9%. A falta de
capacidade que parece revelar a atual administração para aumentar
o crédito concedido à economia e às famílias
é preocupante e devia merecer a reflexão do acionista Estado e
daqueles que se interessam pela defesa do banco público. E tudo isto
torna-se mais incompreensível quando o seu Rácio de liquidez
(LCR) aumentou, entre 2016 e 2019, de 176% para 332%, um valor muito superior
ao exigido pelo Banco de Portugal (100%). Não é por falta de
liquidez que a CGD não concede crédito, até porque os seus
Rácios de capital são confortáveis como afirma a
própria administração.
E sem aumentar o negócio bancário não há
recuperação efetiva da CGD, a não ser que queira reduzir a
CGD a uma "caixinha
".
OS RESULTADOS DA ATIVIDADE "CORE" DA CGD OBTIDOS À CUSTA DOS
DEPOSITANTES
A atividade "core" de uma instituição bancária
como é a CGD, a qual devia ser a principal fonte de receitas, é
da intermediação, ou seja, receber depósitos pelos quais
devia pagar juros e conceder crédito pela qual recebe juros. O que tem
sucedido na CGD é que os resultados da atividade "core"
têm-se afundado como mostra o quadro 4 com dados divulgados pela CGD.
Uma das conclusões importantes que se tira dos dados do quadro é
que apesar da Margem financeira da CGD, que devia ser a sua principal fonte de
receitas, ter aumentado apenas 93,3 milhões entre 2016 e 2019,
esse aumento não teve como origem o aumento do credito concedido
(neste período os juros das operações ativas até
diminuíram em 642 milhões )
mas foi conseguido fundamentalmente à custa dos depositantes, cujos
juros recebidos sofreram uma redução de 735,3 milhões
(-51,4%). O mesmo sucedeu em relação às
comissões cobradas pela CGD, cujas receitas aumentaram, entre 2016 e
2019, de 568 milhões para 630,4 milhões . Como o
crédito concedido pela CGD diminuiu, foram também os depositantes
que tiveram de suportar os aumentos. Segundo dados do documento divulgado pela
administração de Paulo Macedo referente a 2019, neste ano as
"
comissões de crédito e extrapatrimoniais
" diminuíram em 10 milhões , enquanto as de "
cartões, meios de pagamentos e outros"
, que incidem fundamentalmente sobre os depositantes, aumentaram em 16
milhões . Foi desta forma que administração de Paulo
Macedo aumentou o "Produto bancário core" em 145
milhões (2016/19)
LUCROS CONSEGUIDOS TAMBÉM À CUSTA DA REDUÇÃO DOS
CUSTOS COM A ESTRUTURA (custos operacionais) DA CGD QUE A FRAGILIZA FACE
À CONCORRENCIA DA BANCA MAIORITÁRIAMENTE CONTROLADA POR
ESTRANGEIROS
Outro aspeto preocupante da gestão de Paulo Macedo é a
redução significativa da estrutura da CGD que estava implantada
por todo o país e que, convenientemente aproveitada e potenciada, era um
instrumento importante de apoio ao crescimento económico e ao
desenvolvimento do país. Essa preocupação deixou de estar
presente nos objetivos e também na Missão da atual
administração com os dados do quadro 5 revelam. E não se
pense que é com digitalização do banco que se
conseguirá depois compensar esta grave lacuna como alguns pensam ou
dizem.
Entre 2016 e 2019, os custos operacionais
(custos de estrutura)
da CGD diminuíram em 208,3 milhões , o que foi conseguido
fundamentalmente à custa da redução do número de
agências
(fecharam no país 103 agências)
e também por meio da redução de um número elevado
de trabalhadores
(em três anos a administração de Paulo Macedo dispensou
1407 trabalhadores).
Como consequência, entre 2016 e 2019, o "
Cost-to-income
"
(percentagem que os custos operacionais representam do VAB da banca)
diminuiu de 82% para apenas 51%, e a percentagem que os Custos com Pessoal
representam em relação também ao Produto Global da
Atividade reduziu-se de 46% para 31%, muito abaixo da média nacional.
É desta forma também que administração de Paulo
Macedo obtém lucros mas fragilizando a estrutura de funcionamento da CGD
perante a concorrência da banca controlada por capital estrangeiro que
já domina o setor bancário nacional
OUTROS ASPETOS DAS CONTAS DA CGD QUE MERECEM REFLEXÃO E ESCLARECIMENTOS
Há questões no documento divulgado pelo conselho de
administração da CGD conjuntamente com o
Press Realese
de 2019 que necessitam de ser explicadas pois são preocupantes.
A 1ª questão
prende-se com o elevado crédito abatido ao Ativo em 2019 por se
considerar totalmente perdido
(write-offs).
No fim de 2016, poucos meses antes do Estado recapitalizar a CGD com 3.891
milhões sendo 2.500 milhões em dinheiro e o resto
em espécie (ações da Parcaixa e Cocos), a CGD abateu ao
Ativo 1933 milhões
(write-offs)
por serem considerados totalmente perdidos. Na mesma altura constitui
"Imparidades e provisões " no montante de 3016,9
milhões , que agora estão a se revelar excessivas, e cuja
reversão tem sido utilizada para empolar artificialmente os lucros da
CGD como mostramos neste estudo. Apesar do elevado montante de crédito
abatido ao Ativo em 2016 (1933 milhões ) e de se pensar que o
restante credito podia ser recuperado, no entanto a administração
de Paulo Macedo continuou a abater ao Ativo elevados montantes de credito que
considerou totalmente perdidos. De acordo com os documentos anexos à
apresentação de contas, em 2019 o abate de créditos por se
considerarem totalmente perdidos correspondeu a 600 milhões da
diminuição dos NPL a que se adiciona mais 700 milhões
no período 2016/2018.
A pergunta que naturalmente se coloca é esta e que interessava que a
administração da CGD esclarecesse era a seguinte
:
Qual é a razão da administração de Paulo Macedo ter
abatido ao Ativo 1.300 milhões de crédito por considerar
totalmente depois de 1933 milhões de
"write-offs"
em 2016?
A 2ª questão
que também merecia esclarecimento por parte da
administração de Paulo Macedo é a politica de investimento
maciço em títulos, que é uma atividade especulativa
(pode-se ganhar mas pode-se perder muito), contrária ao ADN da CGD, que
é um banco comercial já que, entre 2018 e 2019, a carteira de
títulos da CGD, que já era enorme, aumentou de 16.383
milhões para 20.543 milhões , representando
já 23,9% do Ativo liquido total da CGD, certamente o mais elevado valor
em toda a banca em Portugal. E isto quando se sabe que tal
aplicação incorpora na CGD três riscos elevados (risco de
mercado, de taxa de câmbio e de taxa de juro).
A 3ª questão
prende-se com a primeira e é uma pergunta que era importante que
administração de Paulo Macedo esclarecesse e que é a
seguinte: Os elevados montantes de "
write-offs
" feitos por esta administração (1.300M da
redução dos NPL) e a venda maciça de carteiras
(2600M, e , como se sabe quem compra é quem lucra, entre 15% e 25%
é o seu objetivo)
e, consequentemente, quem vende perde
(atualmente a compra de carteiras de credito é um grande negócio
para os grandes grupos financeiros internacionais)
não terá como razão principal reduzir o Ativo ponderado
pelo risco (RWAs) para assim fazer crescer artificialmente os rácios de
capital? A que se junta o investimento maciço em divida pública
que, de acordo com normas bancárias, pelo menos na teoria, é um
ativo sem risco. Havia muitas mais questões a esclarecer.
ANEXO
O Balanço dá um retrato da situação
económica e financeira de uma empresa, incluindo banco, num determinado
momento (por ex., no fim de cada ano). O Balanço consolidado (porque
inclui empresas do grupo) da CGD do período 2016/2019, ou seja, durante
a administração de Paulo Macedo mostra os resultados mais
importantes da sua gestão.
E as conclusões principais que se tiram são nomeadamente as
seguintes:
(1) A redução continuada do Ativo liquido da CGD
que, entre 2016 e 2019, diminuiu de 94.411 milhões para 85.776
milhões , o que diminui a importância e peso da CGD no
contexto do setor bancário em Portugal e reduz a sua capacidade para
promover o crescimento económico e o desenvolvimento do país;
(2) A queda continuada do credito
(em três anos diminuiu em 11.439 milhões ),
pois o novo credito não foi suficiente para compensar o credito
amortizado, liquidado, vendido e abatido ao Ativo, apesar da elevada liquidez
que tem a CGD pois o seu rácio de liquidez (LCR) no fim de 2019 atingia
332%, ou seja, 3,3 vezes superior ao exigido pelo Banco de Portugal;
(3) Um Rácio de transformação muito baixo
72,9% em 2019 o que significa que, por cada 100 de
depósitos recebidos, a CGD emprestou apenas 72,9
(indicador de ineficiência, já que não rentabiliza
adequadamente os recursos que dispõe),
o que também determina que a CGD pague juros de miséria aos
seus clientes por falta de rentabilidade dos recursos que dispõe;
(4) Um investimento maciço em títulos
que é uma aplicação de risco elevado, que representam
já 23,9% de todo o Ativo liquido da CGD, que não se enquadra na
missão e os objetivos ( a sua missão é apoiar as empresas
e as famílias e não em atividades que podem ser designadas como
especulativas) e que incorpora potenciais riscos elevados para a CGD;
(5) Uma redução da taxa de NPL
(créditos improdutivos)
de 15,8% para 4,7% o que é positivo mas conseguido em grande parte,
como mostramos, à custa de créditos abatidos ao Ativo por se
considerarem totalmente perdidos e de venda maciças de carteiras de
crédito, naturalmente perdendo dinheiro, pois os fundos que as compram
querem ter lucros, e não são baixos;
(6) Aumento dos rácios de capital
, o que é positivo, apesar de serem em parte conseguido através
da redução dos RWAs
(a taxa de densidade de RWAs era apenas 53% em 2019)
obtida por meio da venda de carteiras de credito, de abate de créditos
ao Ativo e de aplicações maciças em títulos,
aumento este dos rácios de capital que depois não é
aproveitado para aumentar o crédito concedido.
09/Fevereiro/2020
[*]
edr2@netcabo.pt
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