Uma grave crise económica a que se pode associar uma eventual crise da banca em Portugal

– A banca é fundamentalmente financiada com os depósitos dos clientes que devem ser acautelados e não com dinheiro dos banqueiros

por Eugénio Rosa [*]

Tem-se assistido nos últimos dias a uma pressão sobre a banca para que ela seja "boa" e ajude as empresas e famílias (discurso de Rui Rio na Assembleia da República e teleconferência dos presidentes dos bancos com o próprio presidente da República) pois foi ajudada pelo Estado, ou seja, pelos contribuintes em mais de 23.800 milhões € segundo o próprio Banco de Portugal quando enfrentou grandes dificuldades devido à crise de 2008 e à má gestão dos banqueiros.

Muitos conhecem qual é a minha posição sobre os grandes grupos financeiros que têm estrangulado as empresas e as famílias, dificultando o crescimento económico e o desenvolvimento do país, já que estão mais interessados na extração de uma parte importante das mais-valias criada em outros setores do que na promoção do desenvolvimento. Basta lembrar, a este propósito, a multiplicação de comissões sobre os clientes/depositantes enquanto pagam taxas de juro de miséria àqueles que depositam o seu dinheiro na banca. No entanto, é importante não esquecer como a banca funciona e que meios financeiros utiliza quando concede crédito pois, na sua esmagadora maioria, não pertencem aos banqueiros mas são dinheiro dos depositantes que é preciso acautelar. Para além disso, é preciso ter presente que, devido à continuação de uma gestão de risco que já causou graves prejuízos, depois suportados pelos contribuintes ou associados (estes últimos, no Banco Montepio), a banca tem atualmente já incorporado nos seus Balanços elevados riscos. É tudo isto que vamos mostrar neste estudo para que o leitor/depositante fique atento à evolução da situação da banca.

O DINHEIRO QUE A BANCA UTILIZA É, NA SUA ESMAGADORA MAIORIA, DINHEIRO DOS DEPOSITANTES E NÃO DOS SEUS ACIONISTAS

Para tornar mais clara e mais facilmente compreensível a explicação de que os bancos funcionam fundamentalmente com o dinheiro dos depositantes, por isso há que acautelar a sua segurança, e de que incorpora novamente elevados riscos consequência da continuação de uma gestão de risco, construiu-se o quadro 1, com dados dos relatórios e contas dos bancos.

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A primeira conclusão importante que se tira dos dados do quadro 1, e que não deve ser esquecida é que, em média, 72% do Ativo líquido da banca é financiada com recursos (depósitos) dos clientes e apenas, em média, 9% do Ativo líquidos dos bancos é financiado com dinheiro dos acionistas. Portanto, quando se fala na concessão fácil de crédito, sem uma análise de riscos fundamentada, é preciso não esquecer que esse crédito é financiado com os depósitos feitos pelos clientes dos bancos que têm de ser acautelados. A parcela que cabe aos banqueiros é muito reduzida, e o seu risco é muito menor do que aquele que os depositantes ou os contribuintes têm. Referimos a contribuintes porque o Estado tem estado sempre disponível para salvar os bancos, como aconteceu na crise de 2008, devido à gestão ruinosa e irresponsável de muitos banqueiros.

Como prova que é o dinheiro dos depositantes que enfrenta os maiores riscos na concessão de mau credito, como aconteceu na crise de 2008, basta ter presente, como revelam os dados do quadro 1, que, em média, os depósitos são superiores ao credito concedido pela banca (correspondem a 117,4%, portanto são superiores em 17,4%), enquanto o dinheiro dos acionistas corresponde somente a 14,6% do credito concedido pela banca. O crédito é financiado, na sua totalidade, pelos recursos dos clientes (depósitos) e ainda resta muito dinheiro (36.279 milhões €) para o conjunto daqueles sete bancos em 2019).

UMA GESTÃO APÓS A CRISE DE 2008 QUE CRIOU GRAVES RISCOS PARA A BANCA QUE PODEM CAUSAR ELEVADOS PREJUÍZOS DURANTE A CRISE ECONÓMICA DO "CORONAVIRUS"

Os dados constantes do quadro 1 permitem também avaliar/identificar os principais riscos que enfrenta banca e, consequentemente, os depósitos de clientes devido à gestão de risco dos banqueiros após a crise de 2008 e à atual crise económica causada pelo "coronavírus". Comecemos pela análise do volume de "APLICAÇÕES EM TITULOS" que os sete maiores bancos têm nos seus balanços, o que são, por que fizeram e que riscos envolvem para a banca na presente crise.

Estes títulos são fundamentalmente títulos de divida pública (portuguesa e de outros países) e títulos de empresas (ações, obrigações, etc). No fim de 2019, a CGD tinha aplicado em títulos 20.452 milhões € o que correspondia a 23,8% do seu Ativo líquido total, um valor muito elevado que envolve um elevado risco. Estes sete bancos tinham aplicados em títulos 77.336 milhões € o que correspondia a 22,8% do seu Ativo líquido total, o que é um valor enorme que envolve riscos enormes para a banca, e mais numa crise económica com dimensão que será a atual.

A banca comercial em Portugal, no lugar de apostar na concessão do crédito às empresas e às famílias tem direcionado uma parcela muito elevada da liquidez que possui para investimentos em ativos financeiros, apostando na especulação visando obter mais-valias (lucros fáceis e rápidos). Para além disso, quando investe em divida publica que, de acordo com as normas do supervisor tem teoricamente risco zero o que não é verdadeiro, visa assim também reduzir o Ativo ponderado pelo risco (RWA) para, através desta engenharia financeira, aumentar os rácios de capital sem que seja necessário os acionistas entrarem com mais dinheiro. Mas esta gestão envolve grandes riscos para a estabilidade da banca e para a segurança dos depósitos dos clientes em relação aos quais os supervisores (BdP e BCE) se têm mantido passivos e mesmo coniventes, nomeadamente em situações de grave crise económica como aquela que resultará do "coronavírus".

E isto porque com agravamento da situação da economia de cada pais e, em particular, de Portugal, o risco para os investidores, que são normalmente grandes grupos financeiros, aumenta e é de prever que eles aumentem as taxas de juro da divida publica (e já começaram, a taxa de juro, a "yield", dos títulos da divida publica portuguesa a 10 anos já está em 1,643% e a italiana em 2,737%). Logo que estas taxas sejam superiores àquelas a que os bancos adquiriram esses títulos, os bancos começarão a acumular elevadas menos valias, ou seja, prejuízos, que terão ser contabilizados ou na conta de "Resultados", o que determinará prejuízos imediatos para a banca, ou na conta de "Capital" corroendo os capitais próprios dos bancos, que já são reduzidos (em média correspondem a apenas 9% do Ativo liquido dos bancos) diminuindo a segurança dos depósitos dos clientes. Em relação aos títulos de empresas, com a queda das bolsas devido à queda brutal da atividade económica que se está a verificar, perdem valor o que determinará também menos valias para quem investiu nestes títulos, portanto mais prejuízos para a banca.

Em resumo, a gestão de risco que tem sido seguida pelos banqueiros nos últimos anos, apostando mais em ativos financeiros visando obter mais valias, ou seja, lucros rápidos e fáceis (atividade especulativa), e não na concessão de credito às empresas e famílias, com o objetivo também de reduzir as entradas de dinheiro dos acionistas (recapitalizações) para aumentar os rácios de capital, incorporou na banca a operar em Portugal elevados riscos que, numa situação de grave crise como a do " coronavirus ", se podem materializar em elevados prejuízos afetando a estabilidade financeira da banca. É um risco real que é preciso estar atento pois, caso contrário, as consequências para o Estado e para os contribuintes ainda poderão ser mais dramáticas

O RISCO DAS IMPARIDADES NO CRÉDITO CONCEDIDO PODEREM DISPARAR

Apesar do aumento reduzido do crédito concedido pela banca às empresas e às famílias nos últimos anos, mesmo assim o crédito concedido pelos sete bancos totalizava 208.504 milhões € como revelam os dados do quadro 1. Com a queda brutal da atividade económica (fecho e desaparecimento de muitas empresas) e com a redução dos rendimentos das famílias é previsível que as imparidades no crédito já concedido disparem e, com isso, os prejuízos da banca. Por outro lado, o governo tem procurado, por lei, aliviar as obrigações das empresas e das famílias junto da banca e, os supervisores, flexibilizar as exigências de aumentos dos rácios de capital o reduz a segurança dos depósitos dos clientes e aumenta os riscos para os contribuintes terem de acudir à banca. É um quadro extremamente difícil que se avizinha para a banca em Portugal, o que é agravado pela incapacidade e mesmo incompetência que a maioria das administrações da banca têm mostrado para aumentar o negócio bancário optando pela solução mais fácil que é multiplicar as comissões sobre os depositantes. O futuro da banca em Portugal exige uma politica de muito equilíbrio e de muita vigilância.

10/Abril/2020

[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
11/Abr/20