Os "Hospitais EPE" também têm sido utilizados pelo
governo para reduzir o défice orçamental
RESUMO DESTE ESTUDO
O défice orçamental real é superior ao apresentado pelo
governo. E isto porque Sócrates está a utilizar artifícios
de engenharia financeira para ocultar uma parte desse défice, ou seja,
está a utilizar os mesmos procedimentos que tanto criticou ao governo
PSD/PP. Por essa razão, e contrariamente à mensagem que tem
procurado fazer passar junto a opinião pública, o País
não está preparado também neste campo para enfrentar a
crise.
Tal como mostrámos em relação às empresas publicas
de transportes, este governo está a utilizar também os Hospitais
EPE, que pertencem ao SNS, para reduzir o défice orçamental. Como
esses hospitais empresas, embora pertencendo ao SNS, são entidades
autónomas, os seus prejuízos não são considerados
para o cálculo do défice orçamental. Assim, a
"habilidade" de engenharia financeira deste governo tem sido a
seguinte: fazer transferências insuficientes do OE para o SNS, o que
contribui para a redução do défice. Os prejuízos
que inevitavelmente resultam dessa politica são concentrados nos
Hospitais EPE. E como eles não entram para o cálculo do
défice, reduz este. E apresenta desta forma um défice mais baixo
ficando ele, no entanto, oculto nos Hospitais EPE, à semelhança
do que também acontece mas empresas públicas de transportes.
No período 2005-2009, as transferências do Orçamento do
Estado para o Serviço Nacional de Saúde aumentam 6,1%, enquanto
os preços sobem, no mesmo período, 12,5%, ou seja, o dobro do
aumento verificado nas transferências. Isto significa, que o valor real
das transferências de 2009 é inferior ao de 2005. Por outras
palavras, os 8.100 milhões de euros que vão ser transferidos em
2009 para o SNS correspondem apenas a 7.200 milhões de euros de 2005, ou
seja, em termos reais, em 2009, o SNS receberá do Estado menos 434
milhões de euros do que em 2005, pois o valor deste ano foi de 7.634
milhões de euros. Como consequência, as transferências do
SNS para os Hospitais EPE, através da rubrica
"Aquisição de serviços", tem sido manifestamente
insuficientes para pagar as suas despesas, o que tem determinado o surgimento
de elevados prejuízos.
Em seis anos, ou seja, entre 2003 e 2008, os Hospitais EPE acumularam
resultados operacionais negativos que já somam -1.129,6 milhões
de euros, e os resultados líquidos negativos, referentes ao mesmo
período, já totalizam -793 milhões de euros. E apesar
destes hospitais empresa pertencerem ao SNS, estes prejuízos não
entraram no cálculo do défice orçamental. Se estes
hospitais continuassem a ser hospitais do Sector Administrativo Público,
(Hospitais SPA) como eram no passado, e como ainda são muitos hospitais,
os seus prejuízos teriam de ser considerados no cálculo do
défice orçamental. Como consequência, as dividas dos
Hospitais EPE dispararam. No fim de Dezembro de 2007, as dividas do
Serviço Nacional de Saúde somavam 2.247,35 milhões de
euros. Deste total, 59,7%, ou seja, 1.342,4 milhões de euros, eram
dividas de Hospitais EPE
Apesar destas dividas resultarem, na sua esmagadora maioria, de despesas
correntes, o governo pretende que elas sejam pagas com as
dotações para capital que ainda restam nos Hospitais EPE. Mas
para evitar que isso entre para o cálculo do défice
orçamental, inventou um artificio de engenharia financeira. Criou um
fundo, a que chamou Fundo de Apoio aos pagamentos de fornecedores do
Serviço Nacional de Saúde, para onde os Hospitais EPE
terão de encaminhar a parte que ainda resta das dotações
de capital que lhe foram atribuídas, através da compra de
unidades de participação, e então os meios financeiros
obtidos desta forma pelo Fundo já poderão ser utilizados pelos
diversos hospitais, através de empréstimos obtidos junto desse
Fundo, para pagar despesas correntes. E embora o governo tenha tomado o
compromisso de devolver aos hospitais os meios que eles foram obrigados a
colocar nesse Fundo, o certo é que enquanto isso não acontecer
não haverá necessidade do Orçamento do Estado fazer
transferências para esses hospitais poderem anular esses
prejuízos, portanto não haverá necessidade de aumentar o
défice orçamental. Assim se vê como é que este
governo, com "um passe de mágica", utiliza
dotações de capital para pagar despesas correntes sem aumentar o
défice orçamental e como transfere mais este "buraco"
para as gerações futuras.
Em resumo, fica assim claro que este governo utiliza os mesmos métodos
que tanto criticou ao governo PSD/CDS, por um lado, e, por outro lado, que o
défice orçamental real é superior ao apresentado pelo
governo. É urgente calcular o défice oculto que este governo
espalhou por várias entidades pois, tarde ou cedo, os portugueses
terão também de o pagar, ou à custa de mais impostos ou de
uma maior degradação dos serviços dos hospitais EPE com o
objectivo de obrigar a criar excedentes para anular os prejuízos
acumulados.
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Uma das mensagens que actualmente este governo tem procurado fazer passar junto
à opinião pública, é que conseguiu reduzir
significativamente o défice orçamental e que, por esse facto, o
País está mais preparado para enfrentar a crise, pois assim
poderá tomar medidas que, se o défice fosse mais elevado,
já não poderiam ser implementadas. Como mostraremos num
próximo estudo, a maioria das medidas anunciadas pelo governo não
terão quaisquer efeitos em 2009 e, para além disso, como iremos
provar neste estudo, utilizando dados do próprio governo, a
redução real do défice não é tão
elevada como a propaganda governamental pretende fazer crer. E isto porque uma
parte importante do défice tem sido ocultado através da
transferências para outras entidades, nomeadamente empresas
públicas.
Num estudo que divulgamos em 18.1.2009 mostramos, utilizando dados dos
Relatórios e Contas das empresas públicas de transportes, que o
governo tem utilizado estas empresas públicas para reduzir o
défice orçamental, acumulando nelas elevados prejuízos Em
Dezembro de 2007, quatro empresas públicas de transportes REFER,
CP, Carris e Metro de Lisboa - deviam à banca 7.983,2 milhões de
euros, e o seu passivo era superior ao seu activo em 3,272,6 milhões de
euros, ou seja, estavam tecnicamente falidas já nessa data. Por outras
palavras, este governo está a utilizar os mesmos expedientes de
engenharia financeira, que tanto criticou ao governo PSD/CDS, para ocultar o
défice orçamental.
Mas este procedimento do governo não se limita apenas às empresas
publicas de transportes. Também está a acontecer o mesmo em
relação aos hospitais empresa, conhecidos por Hospitais EPE.
Apesar destes hospitais empresa pertencerem ao Serviço Nacional de
Saúde, no entanto, como juridicamente são considerados entidades
autónomas, os seus prejuízos não são considerados
para o cálculo de défice orçamental.
TRANSFERENCIAS DO ORÇAMENTO DO ESTADO PARA S.N.S. AUMENTAM ENTRE
2005-2009 METADE DA SUBIDA DOS PREÇOS
As transferências realizadas por este governo para o Serviço
Nacional de Saúde têm sido insuficientes para cobrir as despesas o
que, embora degradando o SNS, tem contribuído para a
redução do défice orçamental. O quadro seguinte,
construído com dados constantes dos Relatórios que acompanharam
as Propostas de Orçamento do Estado apresentadas pelo actual governo,
mostra a variação das transferências do Orçamento do
Estado para o Serviço Nacional de Saúde no período
2005-2009.
No período 2005-2009, as transferências do Orçamento do
Estado para o Serviço Nacional de Saúde aumentam 6,1%, enquanto
os preços sobem, no mesmo período, 12,5%, ou seja, a subida dos
preços foi do dobro do aumento verificado nas transferências. Isto
significa, que o valor real das transferências de 2009 é inferior
ao de 2005. Por outras palavras, os 8.100 milhões de euros que
vão ser transferidos em 2009 para o SNS correspondem apenas a 7.200
milhões de euros de 2005, ou seja, em termos reais, em 2009, o SNS
receberá do Estado menos 434 milhões de euros do que em 2005,
pois o valor deste ano foi de 7.634 milhões de euros como mostra o
quadro.
É evidente, que estas transferências em termos reais (descontado o
efeito do aumento de preços) cada vez menores teriam de determinar que
prejuízos se acumulassem nas diferentes unidades de saúde. E o
governo, para que esses prejuízos não sejam considerados para o
cálculo do défice orçamental, fá-los aparecer nos
Hospitais EPE. E o mecanismo utilizado é simples: os valores das
transferências do Serviço Nacional de Saúde para os
Hospitais EPE, através da rubrica "Aquisição de
serviços", têm sido sistematicamente inferiores ao que eles
precisam para pagar as suas despesas. Por exemplo, , entre 2007 e 2008, as
transferências do Orçamento do Estado para o Serviço
Nacional de Saúde aumentaram 2,9%, enquanto as transferências do
SNS para os Hospitais EPE cresceram apenas 1,8% pois, segundo o
Ministério da Saúde passaram de 2.027,2 milhões de euros
para 2.064,1 milhões de euros.
PREJUIZOS OPERACIONAIS ACUMULADOS PELOS HOSPITAIS EPE ATINGIRAM NO FIM DE 2008
MAIS DE 1.129 MILHÕES DE EUROS
A politica de transferências insuficientes para os Hospitais EPE, tem
determinado que os prejuízos acumulados nestes hospitais, que pertencem
ao SNS, não têm parado de aumentar desde a sua
constituição, como revela o quadro seguinte, construído
com dados fornecidos pelo Ministério da Saúde à Assembleia
da República.
Em seis anos, ou seja, entre 2003 e 2008, os Hospitais EPE acumularam
resultados operacionais negativos que já somam -1.129,6 milhões
de euros, e os resultados líquidos negativos, referentes ao mesmo
período, já totalizam -793 milhões de euros. E apesar
destes hospitais empresa pertencerem ao SNS, estes prejuízos não
entraram no cálculo do défice orçamental. Se estes
hospitais continuassem a ser hospitais do Sector Administrativo Público,
como eram no passado, e como ainda são muitos hospitais, os seus
prejuízos teriam de ser considerados no cálculo do défice
orçamental. Portanto, através desta habilidade de engenharia
financeira este governo conseguiu assim excluir do cálculo do
défice orçamental este elevado montante de prejuízos.
DÍVIDAS DOS HOSPITAIS EPE DISPARARAM
Recebendo menos do que necessitam para poder pagar a totalidade das suas
despesas, as dividas dos Hospitais EPE a fornecedores dispararam como revela o
quadro seguinte, construído com dados constantes do Parecer do Tribunal
de Contas referente à Conta Geral do Estado de 2007
Segundo o Tribunal de Contas, no fim de Dezembro de 2007, as dividas do
Serviço Nacional de Saúde somavam 2.247,35 milhões de
euros. Deste total, 59,7%, ou seja, 1.342,4 milhões de euros, eram de
Hospitais EPE. Torna-se assim claro que o governo concentrou nestes hospitais
os prejuízos acumulados resultantes de transferências
insuficientes para o Serviço Nacional de Saúde. E fez isso nestes
hospitais porque os prejuízos dos Hospitais EPE, por serem considerados
entidades juridicamente autónomas, não entram no cálculo
do défice orçamental. O mesmo não sucederia se os
prejuízos fossem nos Hospitais SPA ou nas ARS, em que os
prejuízos destas entidades, por não serem consideradas entidades
autónomas, são já considerados para o cálculo do
défice orçamental.
A CRIAÇÃO DO FUNDO DE APOIO AOS PAGAMENTOS DOS FORNECEDORES DO
SNS É OUTRA HABILIDADE DE ENGENHARIA FINANCEIRA PARA NÃO AUMENTAR
O DÉFICE ORÇAMENTAL
A maior parte das dividas dos Hospitais EPE têm a sua origem nos
prejuízos acumulados, ou seja, resultam daquilo que recebem pela
prestação de serviços à população
não ser suficiente para pagar os custos que têm de suportar para
poderem prestar esses serviços. A provar isso, está o facto de
que o montante de prejuízos acumulados por esses hospitais é
aproximadamente igual às suas dividas, por um lado, e, por outro lado,
que a esmagadora maioria dessas dividas são a laboratórios,
portanto despesas correntes.
Apesar de serem, na sua esmagadora maioria, despesas correntes, o governo
pretende que elas sejam pagas com as dotações para capital que
ainda restam nos Hospitais EPE, e que deviam ser utilizadas em investimento. Se
isso fosse adoptado directamente a Comissão Europeia certamente iria
impor que esses pagamentos de despesas correntes com dotações de
capital fossem considerados no cálculo do défice
orçamental. Para evitar isso, o governo inventou um artificio de
engenharia financeira. Criou um fundo, a que chamou Fundo de Apoio aos
pagamentos de fornecedores do Serviço Nacional de Saúde, para
onde os Hospitais EPE terão de encaminhar a parte que ainda resta das
dotações de capital que lhe foram atribuídas,
através da compra de unidades de participação, e
então os meios financeiros obtidos desta forma pelo Fundo já
poderão ser utilizados pelos diversos hospitais, através de
empréstimos obtidos junto desse Fundo, para pagar despesas correntes. E
embora o governo tenha tomado o compromisso de devolver aos hospitais os meios
que eles foram obrigados a colocar nesse Fundo, o certo é que, enquanto
isso não acontecer, não haverá necessidade do
Orçamento do Estado fazer mais transferências para esses hospitais
para eles poderem pagar aos fornecedores e anularem esses prejuízos,
portanto não haverá necessidade de aumentar o défice
orçamental. Assim, se vê como é que este governo, com
"um passe de mágica", utiliza dotações de
capital para pagar despesas correntes sem aumentar o défice
orçamental.
Em resumo, fica assim claro que este governo utiliza os métodos que
tanto criticou ao governo PSD/CDS, por um lado, e, por outro lado, que o
défice orçamental real é superior ao propagandeado pelo
governo. É urgente calcular o défice oculto que este governo
escondeu nas diversas entidades pois, tarde ou cedo, os portugueses
terão também de o pagar ou à custa de mais impostos ou de
uma maior degradação dos serviços dos hospitais com o
objectivo de criar excedentes para anular os prejuízos acumulados.
31/01/2009
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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