O mito da "bazuca" que vai resolver os problemas do país
Sem investimento não é possível criar emprego
qualificado
nem uma economia desenvolvida
O aproveitamento deficiente dos fundos comunitários do
"Portugal 2020"
O investimento produtivo é um fator chave para criar emprego
qualificado, com elevada produtividade, e também para uma economia
tecnologicamente avançada e altamente competitiva. Sem isso, o
desenvolvimento do país só pode basear-se em setores de baixa
intensidade tecnológica, com baixos salários e baixa
produtividade, de que é exemplo o turismo. Sem investimento a economia
portuguesa será sempre frágil, dependente e vulnerável ao
exterior. E não vale a pena fazer discursos oficiais de que "somos
os melhores do mundo" como se tenta enganar os portugueses e esconder a
realidade.
Quem conheça o que se verificou nos últimos anos, por ex., a
nível do investimento quer publico quer privado, do ensino, do SNS, etc
não terá ficado surpreendido com os efeitos devastadoras da crise
atual
UM PAIS E UM GOVERNO QUE INVESTEM MENOS DO QUE AQUILO QUE É DESTRUIDO
PELO USO E PELA OBSOLESCÊNCIA E EM QUE O STOCK DE CAPITAL POR
TRABALHADOR É DOS MAIS BAIXOS DA UE
O quadro 1, com dados do INE, revela uma realidade dramática que tem
passado despercebida.
Segundo dados do INE, entre 2012 e 2019, o novo investimento em todo o
país
(Formação Bruta de Capital Fixo)
foi inferior àquele que se desgastou/inutilizou pelo uso e
obsolescência
(Consumo de Capital Fixo)
em 13.442 milhões . O país nem conseguiu compensar o que
desapareceu devido à utilização, desgaste e
obsolescência. Como consequência, temos uma economia frágil,
assente em baixos salários e baixa produtividade, vulnerável e
dependente do exterior.
No entanto, a maior parte deste resultado deve-se ao corte brutal do
investimento público como revelam também os dados do INE do
quadro 1. Entre 2012 e 2019, o novo investimento público (FBCF) foi
inferior ao que se inutilizou pelo uso, desgaste e obsolescência
(Consumo de Capital Fixo Público)
em 13.041 milhões . Foi desta forma também que o duo
Mário Centeno/João Leão conseguiu anular o défice
orçamental e o milagre de um saldo positivo em 2019, ou seja, não
modernizando os equipamentos públicos, fragilizando o SNS e a escola
pública, promovendo uma economia assente em baixos salários e em
baixa produtividade vulnerável e dependente do exterior
E a obsessão em cortar o investimento público para conter o
défice é de tal forma elevada que, em plena pandemia, o atual
governo e, em particular o seu ministro das Finanças, João
Leão, dos 6.447 milhões de investimento previsto no
Orçamento Suplementar de 2020 apenas foram realizados 5.002
milhões , ou seja, um corte de 1.444,6 milhões
(-22,4%). E o próprio SNS não conseguiu escapar a esta
fúria do ministro das Finanças. Dos 438,7 milhões
de investimentos previstos no SNS em 2020, apenas se realizaram 262,9
milhões , tendo sofrido um corte de 40%
(-175,8 milhões ).
Portugal é um dos países da União Europeia em que o
investimento público é mais baixo. Segundo o Eurostat, em 2019, o
investimento público nos países da UE correspondeu a 3% do PIB,
enquanto em Portugal representou apenas 1,9% do PIB, ou seja, apenas 63,3% da
média U.E.
Como consequência, o "stock" de capital por trabalhador, ou
seja, o valor dos equipamentos que os trabalhadores portugueses utilizam para
produzir é cada vez menor quando comparado com a UE.
Em 2013, o stock de capital por trabalhador em Portugal correspondia a 65,2% da
média dos países da UE. A partir desse ano tem diminuído
de uma forma continua e a previsão da Comissão Europeia é
que em 2021 represente apenas 55,9%, quase metade. É a
consequência inevitável do baixíssimo investimento
público e privado em Portugal. E consequentemente a produtividade tem de
ser baixa como revela o gráfico 2
(dados do INE)
e a economia é frágil e pouco desenvolvida
Como consequência do reduzido investimento feito em Portugal e,
consequentemente, da aposta em atividade de baixa intensidade
tecnológica, a produtividade aparente do trabalho em Portugal tem
diminuído. Entre 2013 e 2019, a riqueza anual criada em média por
trabalhador
(PIB por trabalhador)
passou de 48.009 para 47.038 (-2%). E em 2020, deve ter sido um
ano ainda pior devido à desorganização que a pandemia
causou à economia e a toda a Administração Pública.
EMBORA INVESTINDO MUITO POUCO, PORTUGAL FOI INCAPAZ DE UTILIZAR ATEMPADAMENTE
OS FUNDOS COMUNITÁRIO DO QUADRO 2014/2020, DESIGNADO POR
"PORTUGAL 2020"
O governo e os seus defensores nos media têm falado muito da
"bazuca", como ela fosse o milagre que irá resolver todos
problemas do país, não só os causados pela pandemia, mas
também o seu atraso crónico. No entanto, é importante por
os pés na realidade e não criar falsas expectativas. Não
considerado as verbas do próximo quadro comunitário que Portugal
irá receber (2021/2017), a "bazuca" reduz a cerca de 30.000
milhões , dos quais 15.000 milhões são
empréstimos. Como o governo já disse que não vai pedir
mais empréstimos para não aumentar ainda mais a já enorme
divida publica
(267.083 milhões em nov.2020, segundo o Banco de Portugal)
ficam cerca de 15.000 milhões , dos quais 12,9 mil milhões
a fundo pedido. Mas ninguém pense que Portugal receberá
este dinheiro e o poderá distribuir como entender. Ele está
associado a severas condições de controlo por parte da
Comissão Europeia e também pelos outros países no Conselho
Europeu. E a nível de utilização e execução
dos fundos comunitários Portugal tem revelado incapacidade de
execução atempada como provam os dados de execução
do "Portugal 2020" (período 2014/2020). Ver quadro 2.
Como revelam os dados oficiais da monitorização do "Portugal
2020", que é o Quadro Plurianual 2014/2020 financiado pela
União Europeia, dos 25.185 milhões de fundos comunitários
atribuídos a Portugal, no fim de 2020 apenas estava executado um valor
correspondente a 58,2%, estando ainda por executar 10.515 milhões .
Programas operacionais fundamentais financiados pela União Europeia para
promover o investimento e a modernização das empresas e o
desenvolvimento do país como são o
PO Competitividade e internacionalização
que se destina ao investimento e modernização das empresas a sua
taxa de execução no fim de 2020 era apenas 57,7%, estando por
utilizar 1.868 milhões de fundos comunitários;
o POCH Capital Humanos,
fundamental para aumentar a qualificação dos trabalhadores
portugueses
(cerca de 40% dos trabalhadores empregados têm apenas o ensino
básico ou menos)
a taxa de execução no fim de 2020 era apenas 73,2%, estando por
utilizar 831 milhões de fundos comunitários; etc; etc. E
Portugal, para poder utilizar o que resta do "Portugal 2020"
até 2023 terá de obter autorização União
Europeia
A questão que se coloca naturalmente é esta: Como é que
Portugal com esta baixa capacidade de
utilização/realização atempada de fundos
comunitários, como o Portugal 2020 prova mais uma vez, terá
capacidade para executar/aproveitar simultaneamente os 10.515 milhões
que faltam utilizar do "Portugal 2020" (Quadro Plurianual
2014/2020), os fundos da "bazuca" (Mecanismo de
Recuperação e Resiliência Europeu) mais os fundos
comunitários do Quadro Plurianual 2021/2017? E a tudo isto junta-se a
desorganização causada nas empresas, na
Administração Pública, na economia e no próprio
pelo "COVID 19"
E ninguém pense que Portugal receberá o dinheiro da
"bazuca" e o poderá distribuir como entender. Repito, ele
está associado a severas condições de controlo por parte
da Comissão Europeia e também pelos outros países no
Conselho Europeu, nomeadamente os chamados "frugais" que, no fundo,
vivem à custa dos países mais frágeis da UE já que
são os mercados para onde vendem eles vendem os produtos. Portugal
terá de apresentar planos e estes serem aprovados e a sua
execução será certamente muito controlada. Na economia e
nas finanças não há almoços grátis.
Finalmente interessa recordar mais uma vez que os 25.185 milhões
de fundos europeus atribuídos no quadro plurianual 2014/2020 o
chamado "Portugal 2020" não resolveram os graves
problemas de falta de investimento que o país necessitava para se
modernizar como mostramos. O crescimento económico nos últimos
anos baseou-se em pouco investimento mas mais trabalhadores, mas com menos
produtividade e em baixos salários, de setores de baixa tecnologia como
é o turismo. A continuar isto não sairemos do círculo
vicioso de atraso em que o país tem vivido. E não serão
mega projetos como o hidrogénio verde, e o TGV, etc. que agora
estão na moda, à semelhança da febre de autoestradas e
estádios de futebol no passado, que farão sair o país do
estado de atraso em que se encontra.
Mais uma vez é importante lembrar que é necessário
não ter ilusões nem criar falsas expectativas. A
solução dos problemas de Portugal reside fundamentalmente no
investimento, na organização, no trabalho, na
qualificação, no esforço, na criatividade e mesmo no
sacrifício dos portugueses.
NINGUEM RESOLVERÁ OS NOSSOS PROBLEMAS A NÃO SER NÓS.
E é também preciso ter a coragem de dizer, mesmo neste momento
difícil que o país enfrenta em que a comunicação
social só fala de infetados e mortes causadas pelo COVID, que há
muitas mais mortes causadas por outras doenças letais
(oncológicas, cardíacas, etc) devido à falta de
assistência médica pois os escassos recursos do SNS estão
canalizados para o COVID 19, e que o colapso económico e social do pais
pode ser tão ou ainda mais letal que o próprio "
Coronavirus
", pois os seus efeitos dramáticos prolongar-se-ão por
não poucos anos apesar das previsões otimistas oficiais de uma
recuperação fácil e rápida que são
desmentidas continuamente pela realidade e pela vida.
Disso continuaremos a falar mesmo que sejamos incompreendidos pois parece de
mau tom falar neste momento da economia. Mas muitos milhões de
portugueses já estão a passar muito mal
(perda de emprego e de salários, quebra de rendimentos e até
falta de comida para eles e filhos se alimentarem)
devido à economia e não são os escassos subsídios
e apoios que o Estado dá ou pode dar que resolverá esta
dramática situação. Esquecer, ignorar ou silenciar, como
acontece nos media, o drama em que já vivem milhões de
portugueses devido à situação da economia é, a
nosso ver, imperdoável.
13/Fevereiro/2021
[*]
edr2@netcabo.pt
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