O medo que se instalou na sociedade portuguesa causa mais mortes que o Covid-19
Falta de assistência médica ao que não seja
coronavírus
Riqueza não produzida
Perda de remunerações pelos trabalhadores
Encargos do Estado e das empresas
Perda de receita pela Segurança Social e perda fiscal pelo Estado
Neste estudo analiso a dimensão do
layoff,
suas consequências económicas e sociais e também os efeitos
do medo profundo que se instalou na sociedade portuguesa causado por uma
comunicação social pouco objetiva
(incompleta).
Esta, para ganhar audiências, só fala de mortes do COVID 19, e
como considera que as do país não são suficientes junta as
do mundo, num massacre constante e diário desde manhã à
noite repetindo o mesmo até à exaustão. No entanto,
o aumento de mortes causado por falta de assistência médica
(milhares de cancros ficaram por detetar, e 300 mil consultas de
médicos de família , 180 mil consultas hospitalares, 8000
cirurgias, 30 mil mamografias, etc, deixaram de ser realizadas em Março
Expresso de 25/Abril/2020)
são certamente superiores às mortes causadas pelo
coronavírus
. Mas, pelo facto de os media as ignorarem, é como não
existissem. Além disso, há a tentativa de isolar e destruir os
mais velhos com a justificação de os proteger.
1,1 MILHÕES DE TRABALHADORES EM
LAYOFF
E, NUM MÊS, 393,2 MILHÕES DE REMUNERAÇÃO
PERDIDAS, 997,8 MILHÕES DE CUSTOS PARA O ESTADO E 235,9
MILHÕES PARA AS EMPRESAS SEM PRODUZIR RIQUEZA
O quadro 1, construído com os dados do Ministério do Trabalho
sobre a monitorização do COVID 19 em 24/4/2020, permite obter uma
informação sobre a dimensão do
lay-off
e sobre as suas consequências para os trabalhadores
(perda de remunerações),
para o Estado
(aumento de encargos e perda de receitas)
e para as entidades patronais
(encargos).
E tudo isto sem produção de qualquer riqueza.
A remuneração média bruta declarada, que serve para
calcular a remuneração recebida pelo trabalhador em
layoff,
era de 1015/mês segundo o Ministério do Trabalho. Como o
trabalhador em
layoff
recebe apenas 2/3 deste valor, a sua remuneração ilíquida
mensal reduz-se para 677/mês, o que significa que cada trabalhador
perde 338/mês. Se multiplicarmos este valor pelo número de
trabalhadores em
layoff
em 20/4/2020 1.162.158 trabalhadores então
estes 1,1 milhões de trabalhadores perdem 339,1 milhões de
remunerações por mês,
o que é enorme para quem ganha já muito pouco.
Como 70% da importância recebida pelo trabalhador é paga
através da Segurança Social, que é transferido do
Orçamento do Estado, isto significa que
o Estado tem mensal e diretamente uma despesa de 550,47 milhões
com os trabalhadores que estão em
layoff
suportando as
entidades patronais 235,9 milhões por mês
o que corresponde a 30% da remuneração recebida pelos 1,16
milhões de trabalhadores. Para além da despesa de 550,47
milhões por mês,
o Estado ainda perde 115,6 milhões /mês de IRS, devido a
redução das remunerações recebidas pelos 1,162
milhões de trabalhadores e, a Segurança Social, perde
311,6 milhões de receitas por mês
(os trabalhadores descontam 11% do que recebem, mas as empresas estão
isentas do pagamento de qualquer contribuição para a
Segurança Social).
Somando tudo isto, o
layoff
representa um custo para o Estado que estimamos em 977,7 milhões
por mês.
A REMUNERAÇÃO LÍQUIDA DOS TRABALHADORES DE MICROEMPRESAS E
MÉDIAS EM
LAYOFF
É INFERIOR AO SALÁRIO MINIMO NACIONAL
O quadro 2 mostra o número de empresas repartidas pela sua
dimensão em 24/4/2020 com
layoff
Segundo o Ministério do Trabalho, os 1.162.159 trabalhadores que estavam
em "
layoff
" em 24/4/2020 são de 93.993 empresas sendo 80,5% (75.624)
microempresas. As remunerações dos trabalhadores variam muito com
a dimensão das empresas, por isso fazer uma análise mais fina. O
quadro 3, mostra os efeitos nas remunerações dos trabalhadores do
layoff
de acordo com a dimensão das empresas.
Os trabalhadores das 75.624 microempresas
(80,5% do total)
que estão em
layoff
viram as suas remunerações liquidas reduzirem-se para entre
453,6 e 493,1 por mês; os das pequenas empresas
(15,9% do total das empresas em layoff)
ficaram com uma remuneração liquida média entre
550,6/mês e 609,1/mês; os trabalhadores em layoff das
médias empresas viram as suas remunerações liquidas
reduzirem-se apenas para 628,4; e os trabalhadores das grandes empresas
em layoff estão a receber remunerações liquidas entre
652/mês e 661,8/mês. Em 2018, segundo o INE, 1.777.000
portugueses estavam no limiar da pobreza, e isto após as
transferências sociais
(antes das transferências eram 2.223.000)
sendo 318.000 trabalhadores empregados devido aos baixos salários que
recebiam. É evidente que, com estes baixos rendimentos
disponíveis, centenas de milhares de trabalhadores colocados em
layoff
juntar-se-ão aos 318.000 que já estavam na pobreza, aumentando,
de uma forma dramática, a mancha de miséria no nosso país
mesmo entre os empregados ou que tinham trabalho mas que agora estão em
layoff,
pois sofreram um corte nas suas remunerações em 33%.
CERCA DE 13.100 MILHÕES DE RIQUEZA PERDIDA (4% a 5% do PIB por
mês) DEVIDO À PARALIZAÇÃO DA ECONOMIA E O
PAÍS ESTÁ JÁ PRATICAMENTE PARALIZADO HÁ UM
MÊS E MEIO
Para se poder avaliar a perda de riqueza criada no país (PIB) devido a
1.162.158 de trabalhadores estarem em
lay-off,
172.274 estão em apoio à família, e de 74.584 que
perderam o emprego e que pediram subsidio de desemprego no período
16/3/2020 a 24/3/2020
(há muitos mais que perderam o emprego mas que não tem direito
nem a subsidio de desemprego nem a qualquer apoio como, por ex. os de
"recibo verde" que estavam ainda no período de
isenção e que, por isso, não estão contabilizados),
o que significa mais de 1,4 milhões de trabalhadores deixaram de
produzir devido à crise do coronavírus.
Interessa conhecer a previsão inicial do INE para o valor do PIB em 2020
219.384 milhões e a previsão do emprego para
2020 (4.910.000). E isto para se poder estimar a riqueza anual que se previa
que cada trabalhador produziria em média em 2020 que é, fazendo
os cálculos, de 44.681 de riqueza produzida, ou seja, uma
média de 3.723 por mês. Se multiplicarmos este valor
3.723 de riqueza que não é produzida por mês e por
trabalhador devido à paralisação da economia ? pelo
total de trabalhadores em
layoff
1.162.158 obtém-se uma a perda de 4.327
milhões de riqueza (PIB) por cada mês, o que corresponde a 1,97%
do PIB anual perdido por cada mês de paralisação.
Será preciso adicionar a estes os trabalhadores que já perderam o
emprego mas com direito a subsidio de desemprego (74.584), o que não
inclui a totalidade dos despedidos, aqueles com baixa por isolamento (37.084),
os que estão a apoiar à família (172.274) e os
trabalhadores independentes que deixaram de exercer atividade (173.268).
Somados, dão mais 457.210 os quais produziriam, se estivessem a
trabalhar, 1.702,8 milhões de riqueza (PIB) por mês. Isto
corresponde a 0,78% do PIB, que somado à perda anterior 1,97% do
PIB
dá já 2,75% do PIB.
No entanto, este valor ainda não inclui a totalidade da riqueza perdida
em cada mês, pois existem mais 1.300.000 de trabalhadores que
estão em teletrabalho em que 46% (598.000) reconhecem que têm uma
produtividade inferior ou muito inferior à que tinham anteriormente o
que determina que produzam por mês menos riqueza que a prevista, sendo
esse valor estimado
em +1,25% do PIB.
Somando todas as perdas de PIB calcula-se que, por cada mês de
paralisação da economia na dimensão que está a
suceder,
Portugal perca entre 4% a 5% do PIB anual previsto para 2020,
um valor inferior ao de Mário Centeno
(6,5% do PIB anual por cada mês de paralisação),
mas mesmo assim enorme. E o país está praticamente paralisado
há quase 1,5 meses, o que determina que ele já tenha perdido pelo
menos 6% do seu PIB previsto para 2020
(13.163 milhões de riqueza não produzida e perdida).
Uma perda enorme de riqueza não produzida que o país não
aguenta com esta dimensão por mais tempo. E apesar desta
situação difícil a retoma da economia vai ser sempre muito
difícil, gradual e longa.
UMA ENORME PERDA DE RECEITAS PARA A SEGURANÇA SOCIAL E DE RECEITAS
FISCAIS PARA O ESTADO
Devido à paralisação de uma parte importante de toda a
atividade económica verifica-se uma quebra significativa nas receitas do
Estado, o que o impedirá de cumprir cabalmente a sua
função mesmo em relação à responsabilidade
de investir mais no SNS e de recuperar a economia, e também de
contribuições da Segurança Social o que certamente
gerará défice em 2020, situação que não
acontecia há vários anos.
Em cada mês de paralisação da economia, com a
dimensão que está a suceder, estima-se uma
perda de receita para o Orçamento do Estado,
por mês, de 917 milhões só de IVA e 250
milhões de IRS. Portanto, um valor superior a 1.160 milhões
de receitas perdidas em cada mês de paralisação. Isto
já para não falar de outros impostos onde se verificam
também perdas importantes de receitas devido à
paralisação da economia.
Em relação à Segurança Social
sucede o mesmo, onde se prevê que, por cada mês de
paralisação com a atual dimensão, ela tenha
uma perda de cerca de 570 milhões de receitas de
contribuições por mês.
Em contrapartida, por via dos chamados "estabilizadores
automáticos"
(subsídio de desemprego, RSI, e outros apoios sociais, etc)
a despesa da Segurança Social é inevitável que aumente
significativamente.
Como consequência da conjugação destes dois fatores
é de prever que a Segurança Social apresente em 2020 um
défice importante,
o que vai contribuir para agravar ainda mais a divida publica e o
défice orçamental, já que a redução deste
estava a ser feito fundamentalmente à custa do elevado saldo positivo
apresentado pela Segurança Social todos os anos
(em 2019, um saldo positivo de 2.435,6 milhões e, para 2020,
estava também previsto um saldo positivo de 2.730,5 milhões
segundo o OE para 2020).
AS MORTES DEVIDO À FALTA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA, QUE OS
MEDIA TÊM IGNORADO, CERTAMENTE TEM SIDO MUITO SUPERIORES ÀS
CAUSADAS PELO COVID-19 E A TENTATIVA DE ISOLAR E DESTRUIR OS MAIS VELHOS COM A
JUSTIFICAÇÃO DE OS PROTEGER
Devido à falta de recursos
(equipamentos e profissionais)
que enfrenta o SNS resultante do subfinanciamento crónico e da falta de
investimento que caraterizou a politica dos sucessivos governos, incluindo o
atual, o aparecimento de uma pandemia altamente contagiosa causou o alarme da
opinião pública. Isto foi agravado por uma
comunicação social sem equilíbrio e sem objetividade que
divulgava só mortes de COVID 19
(o massacre com estas mortes,
n
vezes repetidas de manhã à noite e, como se as do país
não fossem suficientes, juntava as dos outros países),
pois estava mais interessada em captar audiências. Isto instalou e
generalizou o medo na sociedade e fez uma enorme pressão sobre o poder
politico, o que levou ao desvio dos escassos meios do SNS apenas para o combate
ao coronavírus. A tudo isto ainda se associava a atuação
do Ministério da Saúde que se caracterizava por ausência de
planeamento eficaz e também por um comportamento por vezes
errático da DGS, transformada numa simples porta-voz da
Organização Mundial de Saúde sem vontade e política
própria.
Os escassos meios do SNS foram concentrados quase exclusivamente no combate ao
coronavírus, em prejuízo das restantes doenças
(cardiovasculares, oncológicas, etc) que matam mais portugueses de que o
COVID-19. Centenas de milhares de consultas, milhares de exames e cirurgias
foram canceladas e adiadas juntando-se aos enormes atrasos já
existentes, o que associado a uma comunicação social que gerou o
medo entre a população em ir aos hospitais, previsivelmente
causou um crescimento rápido de mortes por outras doenças,
certamente superior ao causado pelo COVID-19
(de 15 Março até 15 de Abril mortes acima do esperado 1255 segundo
ENSP; de COVID 600).
Mas os portugueses não ficaram a saber disso porque a
comunicação social decidiu ignorar. Vários médicos
já vieram alertar a opinião pública para a gravidade da
situação, nomeadamente para mortes causadas por AVC e
doenças oncológicas, mas que mereceu pouco atenção
dos media. Infelizmente na Assembleia da República não houve
ninguém que se lembrasse de defender estes portugueses que necessitam de
cuidados de saúde urgentes e que já esperavam por eles há
muitos meses. Só agora é que a ministra da Saúde veio
dizer que o SNS iria iniciar, embora de forma lenta e gradual, a
recuperação de milhares de consultas e cirurgias que foram
adiadas, pelas quais os portugueses já esperavam há muitos meses
ou anos.
Até lá morrerão muitos mais portugueses do que com
COVID-19.
Assiste-se presentemente a uma campanha promovida pelo poder político e
pela Comissão Europeia de isolamento e mesmo de destruição
dos mais velhos (a presidente da Comissão Europeia, em 12/4/2020 afirmou
que os idosos podem ter de manter o isolamento social até o fim do ano)
a pretexto de os defender da COVID-19. Isto reflete-se na própria lei
"os com mais de 70 anos estão sujeitos a um dever especial de
proteção",
artº 4º nº1 do DL 2-C/2020), o que muitas vezes é
interpretado abusivamente como a obrigação de não poder
sair de casa.
Assim,
não se distingue entre aqueles que estão ativos, até
profissionalmente, e os debilitados. Basta ter 70 anos para ser ostracizado
(será que a Assembleia da República aprovou isso?).
É uma imposição absurda e discriminatória, sendo
por isso inconstitucional: utiliza a idade para atribuir um certificado de
incapacidade a todos com mais de 70 anos, considerados incapazes de pensar e
decidirem por si próprios, sendo uma forma de os levar a uma morte mais
rápida. Será isso o que os jornalistas fundamentalistas
numa praia da linha a TV mostrava em 26/4 alguns portugueses
distanciados e logo o locutor fez o discurso fundamentalista contra eles
e os políticos dominados pelo medo e pela falta de humanidade realmente
pretendem
(libertar-se dos mais velhos para assim reduzir o défice
orçamental)?
Deixo isto para reflexão dos portugueses até porque todos
poderão mais tarde ser assim tratados. A geração que lutou
por Abril não pode nem aceitará ser assim enjaulada. No fascismo
era por ter ideias subversivas agora utiliza-se a idade.
26/Abril/2020
[*]
edr2@netcabo.pt
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