A pesada herança deixada por Tomás Correia no Montepio

– Destruição demorará muito tempo a recuperar
– Cultura de arbítrio e ostentação persiste
– Só uma administração de unidade ampla poderá gerar confiança entre os associados
– Assembleia-Geral marcada para 30/Dezembro/2019!

por Eugénio Rosa [*]

'.
Dois episódios recentes mostram que a cultura de marginalização e de desprezo pelos direitos dos associados e de utilização abusiva dos seus dinheiros continua a imperar no Montepio apesar do afastamento compulsivo de Tomás Correia da Associação Mutualista pelo facto de o supervisor (ASF) não o ter reconhecido com idoneidade para continuar como presidente da mesma.

O primeiro episódio refere-se à realização da festa de Natal do Montepio no Altice Arena , um espaço caro e, segundo o jornal Observador, "a festa vai ser de arromba e não se poupa despesas". "A refeição será servida pela Casa do Marquês , a cozinha oficial do Protocolo de Estado, e o custo por pessoa será de 235 euros" que foi naturalmente paga pelos associados do Montepio. Embora a maioria dos trabalhadores do grupo Montepio se tenham recusado a participar na dita festança, ela foi ofensiva para com os associados e mais ainda numa altura em que as empresas do grupo Montepio enfrentam sérias dificuldades (acumularam enormes prejuízos, não têm rentabilidade suficiente para transferir excedentes para a AMMG e esta poder distribuir benefícios aos associados nem para recuperar as poupanças que foram delapidadas pela gestão de Tomás Correia). Apesar da reduzida participação, o grupo Montepio despendeu cerca de 400.000 € com a "festança", como informa o jornal.

O segundo episódio, também caraterizador da cultura de desprezo pelos associados, é a marcação da assembleia geral de associados precisamente para 30 de Dezembro de 2019, pelas 21 horas, na Rua Áurea, 219-241, em Lisboa, para debater o "Programa e o Orçamento para 2020", um dia em que os associados do Montepio estão naturalmente a preparar a passagem do ano ou em deslocação para estarem com os seus familiares, portanto um dia não apropriado para a realização de uma assembleia, a não ser que o objetivo deliberado seja dificultar a participação dos associados (certamente foi esse o objetivo). Para os associados que tenham a possibilidade de participar nessa assembleia a convocatória e o Programa e Orçamento estão disponíveis em https://www.montepio.org/institucional/informacao-legal/ .

O AGRAVAMENTO DA SITUAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA MONTEPIO GERAL: a diminuição de associados, a redução da liquidez imediata, uma margem associativa que não garante o reembolso das poupanças dos associados, uma Situação Líquida real negativa

O quadro 1, com os dados mais importantes dos Relatórios e contas individuais e dos Programas de Ação e Orçamento da Associação Mutualista permite tirar algumas conclusões importantes sobre a evolução da situação real da Associação Mutualista no período 2016/2019 e conhecer a sua situação atual, ou seja, a herança deixada pela administração ruinosa de Tomás Correia.

Quadro 1.

A primeira conclusão que se tira dos dados do período 2016/2019 é diminuição dos associados em todos os anos. Em 2016 eram 632.447 e, em 2019, tinham-se reduzido para 604.500.

A segunda conclusão importante que se tira é que existe uma grande diferença entre as previsões fantasiosas da administração de Tomás Correia, constantes do Orçamento que apresenta todos os anos e o que depois é realizado. Para concluir isso basta analisar os dados que estão nas colunas a laranjas, onde constam as diferenças entre o previsto (Orçamento) e o realizado (o constante das Contas finais ou das estimativas feitas no fim de cada ano). Uma dúvida legítima que se coloca é em relação ao Orçamento para 2020. Acontecerá o mesmo?

Mas os dados do quadro 1 levantam outras questões que são ainda mais preocupantes. Em primeiro lugar, que as saídas de poupanças da Associação Mutualista tem sido superiores às entradas. Esse facto é revelado pela Margem Associativa negativa (em 2016, -122,4 milhões €; em 2017: - 373,9 milhões €; em 2018 :-191,2 milhões €, o soma que as saídas de dinheiro foram superiores às entradas em 687,5 milhões €) . A pequena Margem associativa positiva de 43,3 milhões € em 2019, que tem ainda de ser confirmada quando forem publicadas as Contas de 2019, não compensa o ritmo de saídas de poupanças verificado neste período, naturalmente devido à falta de confiança que a administração de Tomás Correia inspirava. E a previsão constante do Orçamento para 2020 (+60,6 milhões €) revela por quem fez tal previsão falta de confiança no futuro, até porque existe, como os dados do quadro revelam, uma diferença grande entre o que se prevê e o que se realiza para muito menos. Devido aos maus investimentos que a administração de Tomás Correia fez, investimentos de elevado risco porque concentrado fundamentalmente em duas empresas – Caixa Económica e Lusitânia SA – e devido aos enormes prejuízos acumulados e à falta de rentabilidade destas empresas, a Associação Mutualista só se aguentará enquanto as entradas de dinheiro forem superiores às saídas, à semelhança de uma "pirâmide de PONZI".

Outro aspeto preocupante, que está também associada a referida anteriormente, é a quebra brutal da "Liquidez imediata" (soma dos "Depósitos em bancos" e dos "investimentos financeiros", nomeadamente obrigações que podem ser facilmente resgatadas e transformadas em dinheiro ) da Associação Mutualista para acudir a dificuldades de tesouraria. Foi o que ocorreu em 2018, quando Tomás Coreia desencadeou uma campanha nos media contra Félix Morgado, o que causou forte turbulência no grupo Montepio, e levou muitos associados a levantarem as suas poupanças por sentirem insegurança. E a "Liquidez imediata" diminuiu entre 2016 e 2019, como revelam os dados do quadro 1, de 1.510 milhões € para apenas 541 milhões €, ou seja, reduziu-se para um terço (-64,2%) em apenas 3 anos . Basta qualquer turbulência na Associação Mutualista ou qualquer insegurança que se alastre para Associação Mutualista enfrentar problemas de liquidez, até porque a Caixa Económica está limitada pelo supervisor no apoio que pode dar à Associação Mutualista. E será muito difícil, a não ser que seja a saldo, vender as empresas em que as poupanças dos associados estão aplicadas (BM, Lusitânia SA).

Finalmente, um outro aspeto preocupante é que, em 2019, o ATIVO da Associação Mutualista, ou seja, aquilo que ela possui ou tem a receber, era já inferior ao seu PASSIVO, ou seja, aquilo que ela deve ou tem de pagar. Como mostram os dados do quadro 1, se se deduzir ao valor do ATIVO os chamados "Ativos por impostos diferidos", que não são verdadeiramente ativos, pois com eles não se pode pagar qualquer divida (por ex. não se pode reembolsar as poupanças aos associados), conclui-se que, em 2019, o ATIVO da Associação Mutualista sem "Ativos por impostos diferidos", era inferior ao seu PASSIVO em 73 milhões €. Se fosse uma empresas diríamos que ela estava tecnicamente falida.

É esta a pesada herança deixada pela administração de Tomás Correia que ele tem procurado esconder, com mentiras e realizando "festanças" com dinheiro dos associados, mas que a realidade fria e objetiva dos números divulgados pela Associação Mutualista revelam. E é preciso que se diga com clareza, até para que não existam ilusões: a recuperação da enorme destruição levada a cabo pela gestão de Tomás Correia durante vários anos vai ser difícil e demorada. Só quem ainda acredita em milagres é que pode acreditar o contrário. É por isso que defendo que seja constituída uma lista de unidade alargada de todos aqueles que estão interessados em salvar o Montepio, o que não será possível por uma administração de continuidade.

A CAIXA ECONÓMICA, AGORA BANCO MONTEPIO, CONTINUA A NÃO REVELAR SINAIS DE RECUPERAÇÃO E NA NUMEROSA ADMINISTRAÇÃO NÃO HÁ QUEM POSSA IMPULSIONAR A REDE

O Banco Montepio, é o principal ativo da Associação Mutualista, onde estão investidos mais de 1.800 milhões € de poupanças dos associados, e portanto o principal garante dessas poupanças. E continua a não dar sinais de recuperação, como mostram as contas de Set/2019:

Quadro 2.

Comecemos por analisar a evolução da Margem financeira , que resulta fundamente da atividade "core" de qualquer banco de retalho que é a concessão de crédito. E a conclusão que se tira, é que a Margem Financeira obtida nos primeiros 9 meses de 2019 (180 milhões €) foi inferior à obtida nos primeiros 9 meses de 2018 (189 milhões €), o que revela naturalmente a incapacidade do banco, da sua administração e da rede comercial para aumentar a carteira de crédito, o que é muito grave. A confirmar esta incapacidade está a estagnação das Comissões líquidas (87 milhões € em 2018 e 2019). Infelizmente uma parte importante são ainda as cobradas aos depositantes.

Outro aspeto importante são os Resultados das Operações Financeiras (ROF´s): 47 milhões € nos primeiros 9 meses de 2019 quando se tinha obtido apenas 6 milhões € em igual período de 2018. Se analisarmos este valor – 47 milhões € - conjuntamente com os resultados líquidos obtidos até Set.2019 que foram de apenas 17,7 milhões €, quando em igual período de 2018 tinham sido 22,4 milhões €, é fácil de concluir que o Resultado liquido de 17,7 milhões € em 2019 só foram possíveis com as mais-valias obtidas com a venda de títulos da divida portuguesa. Se não tivesse acontecido isso, o Banco Montepio teria certamente registado prejuízos no 3º Trim.2019. No entanto isto tem o inconveniente de mais-valias não serem necessariamente repetíveis e não fazem parte da atividade "core" do Banco Montepio.

De positivo, revelado pelos dados do quadro 2, interessa referir a diminuição do "Cost-to-income" que, entre 2018 e 2019, diminui de 68% para 58,8% e o elevado rácio de liquidez (LCR): 183,3%.

Um elevado rácio liquidez – 183,3% - portanto um valor muito superior ao exigido pelo Banco de Portugal (exige apenas 100%) tem ao mesmo tempo um lado positivo mas também um lado negativo. O lado positivo é de dar segurança e revelar confiança dos clientes; o lado negativo é liquidez que não é aproveitada devido à fraca concessão crédito. Para além disso, aquela elevada liquidez não gera receitas, e os depósitos geram custos, mesmo que sejam reduzidos.

Os rácios de Capital – CET 1 e Tier 1 registaram uma melhoria embora diminuta. O Rácio de Capital total aumentou 1,8 pontos percentuais. O certo é que apesar destas alterações, os valores dos rácios de capital continuam muito próximos dos mínimos exigidos pelo supervisor e qualquer alteração verificada nos pressupostos traduzir-se-á em necessidades de aumentar o Capital do Banco Montepio. E a Associação Mutualista já não possui capacidade para o fazer. Esta situação é muito provável que aconteça por isso é importante começar a pensar nela.

Analisemos agora o Balanço do Banco Montepio para completar a análise que foi realizada

Quadro 3.

Um aspeto preocupante revelado pelos dados do quadro 3, são as enormes aplicações em títulos: 3.256 milhões €, ou seja, 17,4% do Ativo líquido. Tal facto, para além de não fazer parte da atividade normal de um banco de retalho, tem ainda o inconveniente de incorporar no Banco Montepio o risco de taxa de juro, portanto qualquer alteração nesta poderá ter um impacto dramático na estabilidade da Caixa Económica, embora tenha a vantagem de diminuir os RWA, contribuindo assim para o aumento indireto dos rácios de capital sem ter de aumentar o capital.

O aspeto mais preocupante revelado pelo Balanço é a continuação da queda do crédito bruto e do crédito ilíquido. Em apenas 9 meses, verificou-se uma redução de 500 milhões € no crédito bruto, e de 577 milhões € no crédito líquido, a adicionar à perda de 1.000 milhões € registada durante o ano de 2018. Uma análise mais fina revela que o Banco Montepio nem consegue compensar o crédito que é liquidado mais o crédito que é amortizado.
Se retirarmos aos 500 milhões €, a carteira vendida (268M€) e os writte-offs (108M€ ), ainda sobram 124 milhões €. Esta incapacidade já revelada pela atual administração para inverter a queda continuado do crédito é extremamente preocupante pois o Banco Montepio não tem possibilidades de sobreviver sem aumentar o negócio bancário.

É inaceitável que na constituição da atual administração, que é excessivamente numerosa para um banco com a dimensão que tem o do Montepio, poucos membros tenham experiência de banca de retalho, e mesmo aqueles que têm é reduzida ou longínqua, e nenhum tenha de rede comercial o que está ter consequências graves na recuperação do banco. É evidente que a sua constituição não foram tidos em conta os interesses do Montepio nem dos associados. Mais uma herança deixada por Tomás Correia que a futura administração da Associação Mutualista terá de resolver.

É importante ainda referir que no período 2011/Set.2019, o total de crédito abatido ao ATIVO (writte-offs) por se terem considerados totalmente perdidos atingiu 1.812,5 milhões €, o que obrigou a Associação Mutualista a fazer sucessivas recapitalizações da Caixa com as poupanças dos associados. Não se teve de recorrer à ajuda do Estado como aconteceu com os outros bancos gabava-se TC, mas teve-se de utilizar as poupanças dos associados, delapidando-as , o que dá bem uma ideia da dimensão destruição de valor feita pela administração de Tomás Correia.

A nível de recursos de clientes (depósitos), os dados do quadro revelam que o valor de Set.2019 (12.574 milhões €) é praticamente igual ao valor de Dez.2018 (12.675 milhões €), no entanto se adicionarmos aos depósitos as "Responsabilidades representadas por títulos ", que são outra meio de financiamento da banca pelos clientes, então já se verifica uma redução de 151 milhões € entre Dez.2018 e Set.2019.

O Rácio de transformação, que dá a quantidade de euros de crédito que o banco concede por cada 100 euros de depósitos, revela também uma evolução preocupante. Em 2017, último ano da administração de Félix Morgado, por cada 100€ de depósitos a Caixa Económica concedia 103,7€ de crédito, em Set.2019 o Banco Montepio por cada 100€ de depósitos concedia apenas 91,8€ de crédito. Estes dados confirmam a incapacidade da atual administração para inverter a queda continuada do crédito concedido pelo Banco Montepio, sem o qual não pode sobreviver.

Outra situação que deve merecer uma séria reflexão pela sua gravidade é a redução significativa nos Capitais Próprios do Banco Montepio que pode obrigar brevemente a mais uma recapitalização. Como revelam os dados do seu Balanço, entre 2017 e Set.2019, com a atual administração, os Capitais Próprios do Banco Montepio passaram de 1.763 milhões € para apenas 1.523 milhões €, ou seja, sofreram uma redução de 240 milhões €. Tal evolução é explicada pelo enorme aumento verificado nas " Outras reservas e resultados transitados " que, no mesmo período, passaram de -731 milhões € para -959 milhões €, onde são registados os prejuízos, imparidades, diferenças de câmbio, reforço do fundo de pensões, etc. que vão diretamente à conta de Capital não afetando a conta de resultados ( alguns destes valores irão afetar os resultados de anos futuros) . A descapitalização da Caixa Económica continuou embora de uma forma menos visível.

A LUSITÂNIA SA (não vida) ACUMULOU ENORMES PREJUIZOS E OBRIGOU A RECAPITALIZAÇÕES

A falta de rentabilidade do Banco Montepio, que determina a impossibilidade de transferir excedentes para a Associação Mutualista, e esta de obter quaisquer rendimentos pelos mais de 1.800 milhões € que aplicou na Caixa Económica/Banco Montepio está a por em perigo a sustentabilidade da Associação Mutualista. Mas não é só o Banco Montepio, que devido à sua falta de rentabilidade, está a pôr em perigo a Associação Mutualista. O mesmo acontece com a Lusitânia SA (não vida), cujos enormes prejuízos acumulados estão a obrigar a sucessivas recapitalizações (quadro 4).

Quadro 4.

Até 2018, a Lusitânia SA acumulou 112,69 milhões € de prejuízos e obrigou o grupo Montepio a recapitalizar esta empresa com 141,16 milhões € (instrumentos de capital) para que ela pudesse cumprir os rácios de solvência. Foi a consequência da má gestão de Fernando Nogueira, amigo de TC, que felizmente foi afastado pela ASF por falta de idoneidade. Até Outubro de 2019, a Lusitânia SA apresentou prejuízos de 4,5 milhões €, apesar disso foi obrigada a absorver a N Seguros (Expresso Online – 16/12/2019) que acumulou também prejuízos (até Out.2019 já tinha 2,5 milhões €), o que contribuirá para um maior desequilíbrio da Lusitânia SA, e para novas recapitalizações.

27/Dezembro/2019
[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
27/Dez/19