Portugal: um país de pensões e salários mínimos
promovido pelos governos
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Neste estudo, utilizando dados do Eurostat e do INE, mostro que:
(1) O custo hora da mão-de-obra no período
2000-2015 aumentou em
Portugal
apenas 18,9% (2,1), muito menos que os preços
(os preços subiram em Portugal 41%, o que determinou que, entre 2000-15,
os custos da mão-de-obra tenham diminuído, em termos reais,-15,8%)
, enquanto na UE subiram 49,7% (8,3), promovendo-se em Portugal o modelo
de "
desenvolvimento
" de baixos salários;
(2) O bloqueamento da
contratação coletiva, causado pela caducidade e pela
violação "legal" do principio do tratamento mais
favorável, que favorece o patronato, e que Vieira da Silva se recusa
alterar, está a determinar que o salário mínimo nacional
esteja já muito próximo da mediana dos salários
(salário recebido pela maioria dos trabalhadores),
o que está a transformar Portugal num país onde um
número crescente de trabalhadores só recebe o SMN;
(3) A politica
de rendimentos dos sucessivos governos está a determinar uma
repartição da riqueza criada no país em beneficio do
Capital e em prejuízo dos trabalhadores já que a "parte dos
salários no PIB", entre 2010 e 2015, desceu de 36,8% para apenas a
33,6% do PIB e, em 2016, a situação não se deve ter
alterado (ver gráfico 1);
(4) Esta repartição desigual
tenderá a agravar-se em 2017 como resultado da politica do atual governo
de dar um prémio de 120 milhões
(uma redução de 1,25% na taxa de contribuição das
empresas para a Segurança Social)
aos patrões que paguem remunerações até
700/mês
(inclui horas extraordinárias e trabalho noturno)
pois promoverá ainda mais o trabalho mal pago.
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Quem acompanhe o debate no espaço público, fica certamente com a
ideia que a politica de rendimentos em Portugal se reduz apenas às
pensões baixas
(pensões mínimas)
e ao salário mínimo nacional. Os reformados e os aposentados que
têm pensões mais elevadas continuam a não ter direito
à atualização das suas pensões, apesar de terem
sido eles, com as suas contribuições para a Segurança
Social e para a CGA, os principais financiadores destes sistemas. O mesmo
sucede aos trabalhadores com salários superiores ao SMN. E isto porque a
nível de salários acontece o mesmo, já que o debate no
espaço público, e também na Assembleia da
República, tem-se polarizado fundamentalmente no salário
mínimo nacional, ignorando os restantes trabalhadores, que são a
esmagadora maioria, como não tivessem direito à
atualização dos seus salários.
O governo PSD/CDS, durante os cinco anos que esteve em funções
apenas atualizou o escalão mais baixo das pensões mínimas,
ou seja, as de valor inferior a 260, e o atual governo, em 2016, aumentou
as pensões até 628,8 em 0,4%, o que representou para as
pensões mais baixas um aumento mensal de 80 cêntimos (2,7
cêntimos por dia). E isto apesar de, em 2016, o limiar da pobreza no
nosso país rondar os 5.475
(em 2015, era 5.268 segundo o INE),
o que dá um valor mensal de 456,21
(se a divisão for feita por 14, obtém-se apenas 391).
Em 2017, Vieira da Silva queria aumentar as pensões até
1000 em apenas 0,5%, portanto um aumento de miséria a somar ao
aumento de miséria de 2016. Foi só por pressão dos
restantes partidos de esquerda, nomeadamente do PCP, que o atual governo se viu
obrigado a fazer um aumento extraordinário das pensões em 2017,
mas só a partir de Agosto, em valores que variam entre 6 e
10, a que ainda é deduzido o aumento de 0,5% que terá lugar
em Janeiro de 2017. E isto só para as pensões até
6838,4. Os pensionistas com pensões superiores a 1000 que
não têm aumentos desde 2010 continuarão com as suas
pensões congeladas e sem direito a qualquer atualização.
O salario mínimo nacional foi aumentado, em 2016, de 505 para
530, o que significou uma subida de 4,95%; e, em 2017, será
aumentado de 530 para 557, ou seja, uma subida de 5,09%. Em dois
anos o salario mínimo nacional em Portugal aumentará 10,3%, o que
significará que, no conjunto dos dois anos, o salario mínimo, em
termos reais, aumente 9%. Mas
em 2016, eram necessários 541, e não 530, para o SMN
ter o mesmo poder de compra do de 1974, e 1.329 para incorporar
também o aumento de produtividade registada desde 1974.
Portanto,
para os trabalhadores continua a não reverter qualquer parcela da
produtividade e esta quase triplicou desde 1974. Os restantes trabalhadores,
que são a esmagadora maioria e, consequentemente, os principais
criadores de riqueza neste país continuam esquecidos, e os seus
salários não são devidamente atualizados
(por ex. os trabalhadores da Função Pública têm as
suas carreiras e remunerações congeladas pelo menos desde 2009).
Mas Vieira da Silva recusa-se a eliminar do Código do Trabalho os
dois instrumentos que o patronato tem utilizado para bloquear a
contratação coletiva e impor retrocessos no poder de compra e nos
direitos dos trabalhadores, que são a caducidade dos CCT e a
violação do princípio do tratamento mais favorável
(os CCT e os CIT poderem estabelecer condições inferiores
às constantes da lei o que até não era aceite no fascismo)
. Está, objetivamente, a servir os patrões e a contribuir para o
bloqueamento de toda a contratação coletiva. A suspensão
da caducidade proposta pelo governo não resolve o problema pois a
ameaça continua e o patronato certamente aproveitará mais esta
benesse dada pelo atual governo para bloquear a contratação
coletiva e os salários
ENTRE 2000 E 2015, O CUSTO HORA DA MÃO-DE-OBRA AUMENTOU EM PORTUGAL
18,9% (+2,1), ENQUANTO NOS PAÍSES DA UE SUBIU 49,7% (+8,3)
O quadro 1, mostra a variação dos custos da mão-de-obra em
Portugal e na UE.
Segundo o Eurostat, entre 2000 e 2015, o custo hora da mão-de-obra
aumentou em média na União Europeia 49,7% (+8,3), enquanto
em Portugal subiu apenas 18,9% (+2,1). Como entre 2000 e 2015, os
preços aumentaram em Portugal 41%, portanto, em termos reais, o custo
hora da mão-de-obra diminuiu em Portugal -15,8%. Portanto, não
há qualquer razão para que patrões e governo continuem a
bloquear a contratação coletiva.
O SALÁRIO MEDIANO DA MAIORIA DOS TRABALHADORES PORTUGUESES JÁ
ESTÁ MUITO PRÓXIMO DO SALÁRIO MÍNIMO NACIONAL (SMN)
O quadro 2, com dados do Eurostat, contém, em relação aos
países do euro, e para o ano de 2014, os valores do salario hora mais
baixo, da mediana
(o salário recebido pela maioria dos trabalhadores de cada país)
, e do salário hora mais elevado, que são indicadores importantes
da politica de rendimentos de cada país.
Dos 16 países do quadro 1, é precisamente em Portugal que o
salario hora (mais baixo, a mediana e o mais elevado) é mais reduzido.
Efetivamente, o salario mais baixo em Portugal representa apenas 29,4% da
média dos salários mais baixos dos 16 países; a mediana em
Portugal corresponde apenas a 29,5% da media das medianas dos 16 países;
e o salario mais alto em Portugal representa 44,9% da media dos salários
mais altos dos 16 países. Por outro lado, o salario mais baixo em
Portugal representa já 64,7% da mediana, o que significa que com os
aumentos que se tem verificado no salário mínimo e com o
bloqueamento da contratação coletiva que afeta os restantes
salários, o salário mínimo está cada vez mais
próximo da mediana. Em 2014, o salario mínimo já
representava 64,7% da mediana. Entre 2014 e 2017, o salario mínimo
nacional, aumentará de 485 para 557, ou seja, 14,9% o que
determinará que o salario mais baixo se aproxime ainda mais da mediana,
o que é agravado pelo bloqueamento "legal" da
contratação coletiva que Vieira da Silva se recusa a eliminar.
Finalmente, é precisamente em Portugal que é mais reduzida a
percentagem que o salario mais baixo representa em relação ao
salário mais elevado apenas 22,9% - o que significa que é
no nosso país que se verifica maior desigualdade no seio dos rendimentos
do trabalho.
O PREMIO (incentivo) AOS PATRÕES DADO PELO GOVERNO (aumenta de 34
M para 120M) PARA PROMOVER A ECONOMIA DE BAIXOS SALÁRIOS QUE
DIZ NÃO QUERER
Os patrões que pagavam salários até 530 em Dez.2015
e que, em 2016, pagaram apenas o salário mínimo nacional tiveram
em 2016 um prémio dado pelo atual governo que se traduziu numa
redução de 0,75% na taxa contributiva para a Segurança
Social. Segundo o governo os patrões que empregavam 600.000
trabalhadores foram beneficiados com esse premio, o que se traduziu num premio
global para os patrões de 34 milhões em 2016. Como
consequência deste premio dado aos patrões por pagarem apenas o
salário mínimo, em 2016 foram contratados 277,1 mil trabalhadores
com o salário mínimo, o que representou 37,1% das novas
contratações deste ano. Promoveu-se assim uma economia de baixos
salários. Mas Vieira da Silva achou que ainda era pouco. Por isso,
apresentou este ano na concertação social uma proposta em que se
dispõe a dar aos patrões que paguem o salario mínimo de
557 em 2017, como compensação uma redução de
1,25%
(e não 0,75%)
na taxa de contribuição para a Segurança Social
(diminui de 23,75% para 22,5%).
Esta redução nas contribuições patronais dos
trabalhadores a tempo completo ou parcial cuja remuneração media
mensal se situe entre os 530 e 557
(ou um valor proporcional para os part-time)
nos meses de Out.-Dez.2016, poderá aplicar-se às
remunerações até 700 desde que sejam por trabalho
noturno ou extraordinário. A benesse é muito maior do que em
2016. Com base na estrutura salarial dos trabalhadores por conta de outrem do
INE do 3º Trim.2016, estimamos que cerca de 1,1 milhão de
trabalhadores recebem até 700 o que determina que o prémio
aos patrões poderá atingir 120 milhões a pagar,
segundo o governo, pelos contribuintes.
A BALANÇA CAPITAL-TRABALHO CONTINUA MUITO DESEQUILIBRADA
É evidente que os patrões tudo farão para o obter o
prémio e, por isso, procurarão contratar apenas trabalhadores
pagando o salário mínimo nacional, o que é um incentivo
à economia de baixos salários e agravará ainda mais a
repartição da riqueza entre o TRABALHO e CAPITAL.
Pensar como alguns já o fazem que, em 2016, com a politica do atual
governo já se restabeleceu o equilíbrio entre o Capital e o
Trabalho é um engano, pois em 2016 a situação pouco se
deve ter alterado.
27/Dezembro/2016
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edr2@netcabo.pt
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