"Programa de Estabilidade 2021-2025" do governo:
nem estabilidade nem crescimento económico
O programa revela incompreensão dos desafios e dificuldades que o
país e a administração pública enfrentam
O governo acabou de apresentar na Assembleia da República o
"Programa de Estabilidade 2021-2025"
e não é por acaso que a palavra
"crescimento"
caiu e já não consta do título. E isto porque a
preocupação fundamental do "programa" não
é assegurar o crescimento e desenvolvimento do país, mas sim
aquilo que designa por "
sustentabilidade das finanças públicas
", ou seja, reduzir rapidamente o défice orçamental e a
divida publica. São estes os objetivos principais do "Programa de
estabilidade". No lugar desta sustentabilidade ser conseguida por meio do
crescimento económico e do desenvolvimento de Portugal, pelo
contrário, este é sacrificado aos objetivos de, até 2025,
o défice orçamental que, em 2020, foi de -5,7%, ser reduzido a
apenas -1,2% em 2025; e a divida publica que, em 2020, atingiu 133,6% do PIB
(ótica de Maastricht)
ser reduzida, também até 2025, a 114,3% do PIB
(-19,3 pontos percentuais em apenas quatro anos).
Parece que não se aprendeu nada com as consequências da
política da "troika" e a destruição que causou,
pois reincide-se.
É evidente que para atingir tais objetivos, num contexto tão
difícil e imprevisível como é aquele que enfrenta o
país, terá de sacrificar o combate às graves fragilidades
que se tornaram extremamente visíveis com a pandemia, nomeadamente a
extrema dependência e vulnerabilidade da nossa economia ao exterior, um
perfil produtivo em que domina produtos e serviços de média-baixa
e baixa tecnologia
(apenas 4% das exportações portuguesas são de alta
tecnologia),
um modelo de crescimento económico baseado em baixos salários,
em trabalho intensivo e de baixa produtividade
(40% dos trabalhadores com emprego tem apenas o ensino básico ou menos),
um SNS frágil e quase 2 milhões de portugueses a viverem no
limiar da pobreza. Mas analisemos alguns aspetos importantes desse
"Programa" para que isso fique claro.
PREVISÕES DE CRESCIMENTO ECONÓMICO PARA TODOS OS GOSTOS E
IRREALISTAS DO GOVERNO
Na pág. 26 do "
Programa
" do governo encontra-se o quadro II.5 com as previsões para a
economia portuguesa de várias instituições para o
período de 2021/2025. E o que surpreende são as enormes
diferenças que existem entre elas o que mostra bem a imprevisibilidade
que se enfrenta e a cautela a ter.
As diferenças nas previsões de crescimento económico (PIB)
para o nosso país chocam.
Para o ano de 2021,
as previsões de crescimento do PIB variam entre 1,7% (OCDE); 3,9% do
Banco de Portugal (BdP); 3,9% (FMI) e 4,1% da Comissão Europeia (CE). A
previsão do governo constante do "Programa" é 4% de
aumento do PIB.
Para o ano de 2022,
as previsões de crescimento do PIB variam entre 1,9% (OCDE), 4,3%
(CE), 4,8% (FMI) e 5,2% (BdP). A previsão do governo constante do
"Programa" é de um aumento do PIB de 4,9% para 2022. E como
refere o próprio Conselho de Finanças Públicas (CFP)
para médio prazo,
(2023/2025) o cenário subjacente ao Programa de Estabilidade do
governo prevê uma convergência gradual nos anos seguintes, mas
sempre superior à previsão das outras entidades, sendo em 2025 o
crescimento do PIB de 2,2% pelo governo superior, neste ano, à
previsão do 1,7% do CFP e de 1,8% do FMI.
Como se vê tem-se previsões de crescimento económico para
todos os gostos, mas a do governo está encostada sempre à
previsão de crescimento mais elevada até 2022 e, a partir deste
ano, é claramente superior às das outras entidades.
O irrealismo das previsões do governo é claro.
E como esta variável macroeconómica fundamental está
correlacionada com muitas outras emprego, procura interna e externa,
investimento, etc. é fácil de concluir a falta de
consistência das outras assim como das previsões de receita e
despesa pública. Por ex., o
investimento
que é uma variável fundamental, o governo prevê para 2023
um aumento de 8,6%, enquanto o BdP e o CFP preveem um crescimento de apenas
3,7%
(menos de metade).
O mesmo se verifica em 2024 e 2025. No que se refere à
remuneração média por trabalhador,
o governo prevê, em 2021, um aumento de 2,3%, enquanto a OCDE
prevê uma subida de apenas 0,2%, ou seja, 11,5 vezes menos. E em 2022,
governo prevê aumento da 2,6% e OCDE um crescimento de apenas 1,9%. No
aumento da
produtividade aparente do trabalho,
o governo prevê, para o período 2021/2025 taxas de crescimento
entre de 3,8% em 2021 e 2022; 2% em 2023; 1,6% em 2024 e 1,4% em 2025. No
período anterior à crise do "COVID", o aumento da
produtividade aparente do trabalho foi apenas 0,39% em 2015 e 2016, de 0,2% em
2017, de 0,49% em 2018 e 1,7% em 2019 (Eurostat). Em 2020, com a pandemia e
confinamento, verificou-se uma quebra de -5,9%, causando um retrocesso de quase
12 anos.
O INVESTIMENTO PÚBLICO E PRIVADO E O PLANO DE RECUPERAÇÃO
E RESILIÊNCIA
A recuperação da grave crise económica e social, a
criação de emprego, o combate à pobreza, está muito
dependente do investimento e, nomeadamente do investimento público. E
isto porque é necessário criar emprego qualificado, alterar o
perfil produtivo da economia portuguesa, abandonar o modelo baseado em baixos
salários e produtos e serviços de média-baixa e baixa
tecnologia, tornar a economia menos dependente e vulnerável ao exterior.
E o investimento de qualidade é vital para tudo isso. Para se poder ter
uma ideia da dimensão e dos desafios que se colocam ao país neste
domínio, é necessário ter presente que estarão
simultaneamente em execução três grandes programas
financiados por fundos comunitários, a saber: o
Portugal 2020,
que é o Quadro de Financeiro Plurianual 2014/2020, o
Programa de Recuperação e Resiliência
(PRR), e o
Quadro Financeiro Plurianual 2021/2027.
Em dez/2020, dos 25.185 milhões de fundos comunitários do
"Portugal 2020",
que terminava em 2020, apenas tinham sido utilizados 14.670 milhões
(58%). Ao fim de sete anos de execução faltavam utilizar
10.515 milhões . Para poder utilizar a totalidade dos fundos
atribuídos pela UE a Portugal, o governo terá de obter da CE o
prolongamento do prazo fixado inicialmente. Em sobreposição,
Portugal terá de executar até 2026 o
PRR,
sob pena de perder uma parte desses fundos, pois não são
permitidos adiamentos. E o impacto da execução do PRR no fim de
2025 é +3,5% de PIB (pág.3, PE). E o
PRR
são mais 13.944 milhões de fundos comunitários e
2.699 milhões de empréstimos, que poderão aumentar
até 10.800 milhões , num total inicial de 16.645
milhões . Em 2021, iniciou-se também o
Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027
em que, segundo o governo, foram atribuídos a Portugal 29.800
milhões de fundos comunitários.
Portugal terá de utilizar, sob pena de perder uma parcela dos fundos
comunitários, os 10.515 milhões do "
Portugal 2020" até 2023
; os 13.944 milhões do
Programa de Recuperação e Resiliência
mais os 2.699 milhões de empréstimos
até 2026
; e os 29.800 milhões do
QFP 2021-2027 até 2030.
Em 10 anos (2021/2030) Portugal terá de executar/utilizar 54.259
milhões de fundos comunitários a que se somam pelo menos
2.699 milhões de empréstimos. E isto para um país
que em 7 anos do Quadro Financeiro Plurianual 2014/2020 o "Portugal
2020" só conseguiu executar 14.670 milhões .
O desafio é enorme, e é evidente que se o país não
quiser perder uma parcela significativa destes fundos comunitários, que
são vitais para sair do atraso e pobreza em que se encontra, é
necessário e urgente realizar profundas alterações quer na
Administração Pública,
que não está minimamente capacitada,
quer nas
empresas privadas,
que não estão na sua esmagadora maioria minimamente preparadas
e estão descapitalizadas até porque para poderem ser utilizados
aqueles fundos comunitários terão de ser apresentados, a tempo e
horas, projetos credíveis e de qualidade para obter a
aprovação da Comissão Europeia, a maioria dos quais
não existe, e tem de existir na Administração
Pública e nas empresas recursos que não existem. Infelizmente a
análise que fizemos do "Programa de Estabilidade 2021-2025"
mostra que o governo ainda não compreendeu a dimensão e a
dificuldade do desafio, já que o "
Programa"
apresentado não vai nesse sentido de reforçar a
Administração Pública; mas sim no sentido contrário
ao definir como objetivos prioritários para a
Administração Pública e para o país, no
período 2021/2025, a redução do défice e da divida
publica para valores impossíveis de alcançar num prazo muito
curto a não ser que continue a se destruir a Administração
Pública. E como consta da pág. 30 do
Programa de Estabilidade
"
Dos cerca de 16.000 milhões que constituem o PRR português,
perto de 10.000 milhões dizem respeito a investimento
público que estará centrado nos três grandes eixos do
programa: a transição digital, a transição
climática e a resiliência",
portanto a responsabilidade da Administração Pública
é enorme
O ESTRANGULAMENTO E O SUFOCO QUE O MINISTÉRIO DAS FINANÇAS
ESTÁ A IMPOR À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PARA
REDUZIR E O DÉFICE E A DIVIDA PÚBLICA NUM PRAZO CURTO ESTÁ
A DESTRUI-LA
A questão que se coloca é esta:
Como é que a Administração Publica com a falta de
técnicos qualificados que tem, mal remunerada
(a Tabela Única de Remunerações que se aplica a toda a
Função Pública desde 2008 apenas teve um aumento de 0,3%
em 2020, e cerca de 75% dos trabalhadores para subirem de nível
remuneratório só o conseguem ao fim de 10 anos),
e com os obstáculos que o Ministério das Finanças coloca
à contratação de pessoal qualificado poderá
responder não só às necessidades da
prestação de serviços públicos essenciais à
população como também às novas
tarefas/exigências que resultam da execução
simultânea de três grandes programas Portugal 2020, PRR e
QFP 2021/2027 financiados por fundos comunitários?
E quando o governo elege como objetivos prioritários do "Programa
de Estabilidade" a redução significativa do défice e
da divida pública num período curto, precisamente aquele em que
tem de fazer a gestão, o controlo e mesmo a execução de
parte importante dos fundos destes programas.
Para que possa ficar claro e seja compreensível este sufoco da
Administração Pública pelo Ministério da
Finanças, vamos dar exemplos concretos. Para isso utilizaremos a
ADSE,
que é um Instituto Público,
com autonomia administrativa e financeira, que conheço bem, e que nem
é financiado pelo OE, mas sim com as contribuições dos
trabalhadores e aposentados da Função Publica
(em 2020, descontaram 624 milhões ).
Desde 2019 que procura contratar cerca de três dezenas de trabalhadores
(técnicos superiores, informáticos e assistentes técnicos)
indispensáveis para responder às necessidades de 1,2
milhões de beneficiários (a ADSE tem apenas 179 trabalhadores) e
à digitalização dos seus serviços. Até agora
não conseguiu contratar nem um único desses trabalhadores devido
aos obstáculos postos pelas Finanças
(nada pode ser feito sem a sua autorização)
e devido à burocracia que continua a dominar toda a
Administração Pública portuguesa. Para suprir a falta de
trabalhadores a ADSE tem sido obrigada a adquirir "pacotes de milhares de
horas" a empresas de trabalho temporário
(a 7/hora, os trabalhadores recebem 4,5)
mas para o fazer necessita de autorização das Finanças que
leva meses a decidir. Este ano, está-se em maio, e a ADSE ainda
não conseguiu adquirir
"horas".
Isso determinou que o número de documentos para reembolsar aos
beneficiários no Regime Livre que estava abaixo dos 100.000 tenha
duplicado o que vai lesar os beneficiários com atrasos nos pagamentos. A
ADSE tem 6 projetos na Secretaria de Estado de Orçamento parados
há vários meses (de 2 a 4 meses) a aguardar despachos que nunca
mais chegam. Alguns deles de poucos milhares de euros como o da
formação de trabalhadores.
É o sufoco da Administração Pública pelas
Finanças. Se não fosse a intervenção do MMEAP,
(ministra Alexandra Leitão) que tutela também a ADSE, o
funcionamento e gestão desta seria ainda muito mais difícil .
Não é com uma Administração Pública dominada
pelas Finanças, que interfere, que dificulta e desresponsabiliza, que
bloqueia a gestão diária
que será possível por a funcionar e gerir simultaneamente 3
grandes programas comunitários Portugal 2020, PRR e QFP 2021/2027
e cumprir os prazos fixados pela CE. Se não houver
alterações profundas na Administração
Pública as consequências para o país serão
desastrosas. Disso estamos certos e lançamos já o alerta.
26/Abril/2021
[*]
edr2@netcabo.pt
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