A recessão/depressão da economia causada pelo coronavirus
Impacto será desigual dentro do país
Assimetrias regionais e desigualdades sociais contribuem para isso
Desigualdades agravaram-se após a crise de 2008
por Eugénio Rosa
Com este estudo procuramos mostrar que o país continua profundamente
desigual e os efeitos de uma recessão ou de uma depressão
económica prolongada serão diferentes para as diferentes classes
sociais como consequência das desigualdades existentes.
Mas é com este país real profundamente desigual que temos de
enfrentar a grave crise que mal começou, o que torna tudo mais
difícil.
AS PROFUNDAS ASSIMETRIAS (desigualdades) REGIONAIS QUE CONTINUAM A EXISTIR NO
NOSSO PAÍS DETERMINARÁ QUE OS EFEITOS DA CRISE, EMBORA ENORMES
PARA TODOS, SEJAM DESIGUAIS A NIVEL DE CADA REGIÃO E PARA CADA CLASSE
SOCIAL
Portugal é um país extremamente desigual como mostram os dados do
quadro 1 do Anexo que permite comparar o poder de compra por habitante de cada
município em relação ao poder de compra médio per
capita do país. E a conclusão imediata é a seguinte:
apenas 32 Municípios têm poder de compra por habitante superior ao
poder de médio "per capita "do país, enquanto nos
restantes (276) o poder de comprar médio por habitante é inferior
ou muito inferior à média nacional. Por ex., os dados quadro 1 em
Anexo
(INE referentes a 2017 que são os últimos disponibilizados)
, revelam que o poder de compra de um habitante de Lisboa é superior em
quase quatro vezes (3,98 vezes mais) ao poder de compra médio de quem
vive em Ponta do Sol, um município da R.A. da Madeira. Os exs. podiam-se
multiplicar. O quadro 1 tem dados de todos os municípios portugueses,
por isso o leitor tem possibilidades de saber qual é a
situação do seu município no quadro nacional. As
assimetrias (desigualdades) regionais continuam a ser profundas em Portugal e
não têm diminuído significativamente nos últimos
anos. É evidente que sendo desigual a situação dos
portugueses a viver nos diferentes municípios as consequências da
crise serão desiguais para cada um deles.
Embora o atual governo continue a não divulgar as Estatísticas do
IRS e o Relatório e Contas da Segurança Social Parte II
referentes ao ano de 2018, para esconder as profundas desigualdades que
continuam a existir no nosso país, no entanto os dados do INE do quadro
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(o quadro 1 consta do Anexo)
referentes a 2017 confirmam as profundas desigualdades regionais, agora em
euros.
Quadro 2 Rendimento mediano anual dos municípios
com valor mais elevado e menos elevado
A mediana é o valor de rendimento bruto anual deduzido do IRS central,
ou seja, aquele que reparte a população do município em
dois grupos iguais: um, com rendimentos inferiores à mediana; e outro
com rendimentos superiores à mediana. Tenha-se presente que uma parte
importante dos portugueses não é considerada porque tem um
rendimento inferior 8.500/ano (pensionistas e trabalhadores dependentes),
por isso estão isentos de IRS, e não têm de fazer
declaração de rendimento.
Como mostram os dados do INE o rendimento mediano bruto deduzido do IRS dos
portugueses que declaram e têm de pagar IRS, dos municípios de
Oeiras e Lisboa são mais do dobro do rendimento mediano dos portugueses
dos municípios de Cinfães e de Resende. As desigualdades
são profundas entre portugueses a viverem em diferentes regiões
do país. E dentro do mesmo município também são
muito grandes como refere o INE nestes termos, na mesma
publicação: "Ao nível sub-regional, o valor do
percentil 20 (mais baixo) do rendimento bruto declarado do IRS liquidado por
sujeito passivo variava entre 3 747 no Alto Tâmega e 5 944
na Área Metropolitana de Lisboa. No lado oposto da
distribuição de rendimentos, o valor do percentil 80 (mais alto)
era mais elevado na Área Metropolitana de Lisboa (18 589 ) e mais
baixo na sub-região do Tâmega e Sousa (10 272 ). Como
é evidente as consequências económicas da crise futura
serão diferentes nas diferentes regiões do país, e dentro
de cada região também muito diferentes entre classes sociais
devido às grandes desigualdades existentes.
A QUEBRA SIGNIFICATIVA DAS REMUNERAÇÕES DOS TRABALHADORES EM
"LAY-OFF" E O PLANO E AS EXIGÊNCIAS OBSCENAS DA CIP
Milhares de trabalhadores com contratos a prazo (706,6 mil), com contratos a
termo incerto, com recibo verde (mais de 124 mil), e na situação
de subemprego a tempo parcial (155,5 mil) estão a ser despedidos e
milhares de microempresários, de 1.244.495 microempresas que era o total
que existia em 2018 segundo o INE, estão a ter uma quebra significativa
nos seus rendimentos. Mas mesmo os trabalhadores que estão em "
lay-off"
(eram já 425.000 em 4/4/2020, segundo o semanário Expresso)
o corte no seu rendimento também é muito grande como revela o
quadro 3, construído com dados das remunerações medias
brutas regulares de 4,2 milhões de trabalhadores de Dezembro de 2019 que
fizeram descontos para a Segurança Social, dados esses divulgados pelo
INE.
Quadro 3- Simulações da quebra de remuneração
mensal dos trabalhadores
em "lay-off" e cálculo da despesa para o Estado e para as
empresas
No quadro 3 são apresentadas três simulações:
uma primeira
, para os 425.000 trabalhadores que já estão em
"lay-off";
uma segunda
, para um milhão de trabalhadores que, segundo o Ministro da Economia,
prevê-se que venham a ser colocados em "lay-off",
e uma terceira
, para dois milhões de trabalhadores a acontecer se o país
estiver parado e em casa durante muitos meses.
A primeira conclusão que se tira, tendo como base a
remuneração ilíquida média regular de 4,2
milhões de trabalhadores que descontaram para a Segurança Social
1.041 em Dez.2019 é que sofrem imediatamente um
corte 347, ficando o seu rendimento bruto reduzido a 694 por
mês. Se comparamos este valor com a remuneração
média bruta total
1.418 sem descontos que inclui todos os subsídios mesmo não
regulares
a redução no rendimento ilíquido
(antes dos descontos para Segurança Social e IRS)
de cada trabalhador colocado em "lay-off" é já de
724.
E se deduzirmos àqueles 694 o IRS e o desconto para
Segurança Social este valor fica reduzido a apenas a 609 no caso
de um casal de trabalhadores com um filho, e a 589 se não tiver
filhos.
Como revela também o quadro 3, o
lay-off,
em que já estão 425.000 trabalhadores, determinará
uma redução no rendimento destes trabalhadores de 147,5
milhões por mês; o custo para o Orçamento do Estado
será de 206,46 milhões
(se deduzirmos o IRS e os descontos para a Segurança Social nos
rendimentos dos trabalhadores a despesa mensal para o Estado reduz-se em 40,5
milhões )
e o custo para empresas é de 88,48 milhões também
por mês. Se fizermos os cálculos para 3 meses, que é o
período de vigência previsto no nº3 do art.º 4º do
Decreto-Lei 10-G/2020, a redução do rendimento ilíquido
dos trabalhadores atinge 442,4 milhões , e o custo estimado para o
Orçamento do Estado sobe para 619,39 milhões
(há que deduzir 121,4 milhões de IRS e descontos para a
Segurança Social)
e para as empresas uma despesa de 265,455 milhões
(é para evitar este custo que os patrões estão mais
interessados em despedir os trabalhadores e mais se puderem fazer sem pagar
indemnizações).
No quadro 3 encontram-se simulações para a
colocação em "lay-off" de um milhão de
trabalhadores e também para dois milhões de trabalhadores por um
mês e durante 3 meses, o que permite estimar a perda de rendimentos para
os trabalhadores, o custo para o O.E. e para as empresas.
O espírito de classe deste governo, mais favorável ao Capital do
que ao Trabalho, é claro no nº1 art.11º do DL 10-G/2020
"
O empregador está isento de pagar contribuições para a
Segurança social
e no nº1 artº 10º do mesmo decreto-lei "
Os empregadores que beneficiem das medidas previstas no presente decreto-lei
têm direito a um incentivo financeiro extraordinário para apoio
à retoma da atividade da empresa, pago de uma só vez e com o
valor de uma RMMG por trabalhador",
o que custará ao Orçamento do Estado, só em
relação aos 425 mil trabalhadores já em lay-off",
269,9 milhões . Mas para os trabalhadores NADA.
A CIP também apresentou o seu plano para enfrentar a crise. E as
principais medidas do plano da CIP que estão divulgadas no seu
"site" são as seguintes:
(1) Conversão de garantias do Estado em incentivos a fundo perdido para
as
pequenas e médias empresas (PME) que mantenham a atividade
económica e garantam a manutenção do emprego, sem
redução da massa salarial, nos próximos quatro anos.
A CIP defende a alocação de 20 mil milhões de euros a esta
medida em que 80% (16.000 milhões ) que seria suportada pelo
Estado a fundo perdido, ou seja subsídios
, ou seja, através do aumento da divida do Estado;
(2) Negociar com o FEI e BEI as Garantias de Carteira para o País e o seu
sistema financeiro que permita alocar já cerca de 10 mil milhões
de euros para garantias de 50 a 80% na economia real. O Estado segundo a CIP
poderia ter um Contrato Programa com o BEI/FEI para estes programas de
garantia, entregando colateral de OT a 10 anos, ou seja endividando-se em mais
10.0000 milhões para garantir linhas de garantia de emergência
à economia;
(3) Mais benefícios fiscais (DTA).
Tudo isto teria de ser depois pago com impostos cobrados aos portugueses. Face
a um Estado que já está profundamente endividado (ver nosso
estudo 11-2020), cujas receitas fiscais caíram significativamente devido
à redução brutal da atividade económica, apresentar
um plano desta natureza, o mínimo que se pode dizer é que ele
é obsceno e ofende milhões de trabalhadores portugueses que
estão já a sofrer, de uma forma dramática, as
consequências da crise. E é de prever que, no futuro, o sofrimento
aumente muito mais.
PORTUGAL, UM PAÍS COM 1,7 MILHÕES DE PORTUGUESES JÁ A
VIVEREM NO LIMIAR DA POBREZA
(com rendimentos até 429,57/mês)
E EM QUE 42% DOS DESEMPREGADOS JÁ ESTÃO NA POBREZA
O quadro 4, com dados divulgados pelo INE, revela a enorme mancha de pobreza
que existia em Portugal mesmo antes da crise causada pelo
"Coronavirus"
10,8% da população empregada, 47,5% dos desempregados, 15,2% dos
reformados e 31% dos outros inativos
(os chamados inativos disponíveis)
já viviam no limiar da pobreza antes desta crise. É evidente que
com crise, e com os despedimentos que se verificarão os portugueses a
viverem no limiar da pobreza aumentarão muito mais.
UMA ENORME SUBUTILIZAÇÃO DO TRABALHO EM PORTUGAL JÁ ANTES
DA CRISE
O quadro 5, com dados do INE, mostra a dimensão da
subutilização do trabalho já antes da crise
O trabalho é a principal fonte de criação de riqueza de
qualquer país. Mesmo antes da crise, 678.000 trabalhadores estavam na
situação de "subutilização de trabalho",
ou seja, não produziam riqueza
(desempregados, inativos disponíveis que não procuravam emprego)
ou produziam muito menos riqueza do que aquela que podiam produzir por
não conseguirem encontrar um emprego a tempo completo
(subemprego a tempo parcial).
Tendo como base o PIB por empregado de 2019 (42.976) aqueles 678.000
portugueses poderiam ter produzido riqueza (PIB) no valor de 21,2 mil
milhões , que contribuiria muito para melhorar as
condições de vida dos portugueses.
É evidente que, com crise e com o aumento desemprego que ela
causará, esta riqueza não produzida aumentará enormemente
para mal dos portugueses que não melhoram as suas
condições de vida e para o Estado que perde enorme volume de
receitas.
05/Abril/2020
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