As propostas do governo para a Segurança Social agravam a
situação e a discriminação das mulheres
RESUMO DESTE ESTUDO
Em 2005, a pensão média das mulheres (de todas as que estavam
reformadas) correspondia apenas a 59,8% da dos homens. E esta desigualdade
não está diminuir. A prová-lo está o facto da
pensão média das mulheres que se reformaram em 2005 corresponder
apenas a 57,4% da dos homens que se reformaram nesse mesmo ano. A
redução da pensão em 34% de todas as pensões que
resultaria da aplicação da proposta do governo independentemente
do seu valor, determinaria que as pensões recebidas pelas mulheres que,
de uma forma generalizada, são mais baixas ficariam a reduzidas a
valores socialmente intoleráveis.
Contrariamente ao que o governo e a direita pretendem fazer crer, como
aconteceu no programa Prós e Contra de 2 de Outubro,
não existe para a Segurança Social apenas duas propostas a
do governo e a do PSD/PP referidas naquele programa, mas há
também uma 3ª proposta alternativa àquelas duas assente na
reforma do sistema de financiamento, que infelizmente não foi
apresentada naquele programa, que é tecnicamente consistente, que
garantiria (a nossa versão) um acréscimo de receita que estimamos
em 4.400 milhões de euros por ano, suficiente para assegurar a
sustentabilidade financeira da Segurança Social a médio e a longo
prazo, mas que o governo tem-se recusado a debater até a esta data.
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Como sucede em relação às remunerações, onde
a desigualdade entre homens e mulheres continua a ser muito elevada,
também relativamente aos valores das prestações sociais
verifica-se a mesma situação, sendo até mais grave no caso
especifico das pensões de reforma. Os dados do Ministério do
Trabalho e da Segurança Social, constantes do quadro I, provam isso.
Em Portugal, o ganho médio de uma mulher, que inclui a totalidade do que
recebe, correspondia, em 2005, a 76,8% do ganho médio de um homem. E
como essa desigualdade já não fosse suficiente, a parte desse
ganho declarado à Segurança Social pelas empresas é maior
no homem do que na mulher ( 83% para o homem e 80% para a mulher), o que agrava
ainda mais aquela desigualdade (a remuneração declarada da mulher
corresponde apenas a 74,5% da do homem).
No entanto, a nível das pensões de reforma a desigualdade
é maior. Os valores das pensões em Portugal são muitos
baixos, mas as pensões pagas às mulheres atingem valores que
são socialmente intoleráveis.
Assim, em 2005, de acordo com dados do próprio Ministério do
Trabalhão e da Segurança Social a pensão média
total dos homens (inclui todos os reformados do sexo masculino do Regime
Geral) era de 434,66 euros por mês, enquanto a das mulheres era apenas de
259,76 euros, o que determinava que a pensão média da mulher
correspondesse apenas a 59,8% da do homem. Mas ainda mais grave é que
esta desigualdade não está a diminuir mas até a aumentar.
Como mostram também os dados do quadro, a pensão média das
mulheres que se reformaram em 2005 é apenas de 319,06 euros, enquanto a
do homem é de 547,5 euros, o que determina que a pensão
média das mulheres que se reformaram nesse ano corresponda apenas a
57,4% da pensão média do homem, ou seja, uma percentagem ainda
mais baixa do que a percentagem se se considerar a totalidade dos reformados
que inclui todos aqueles que se reformaram em anos anteriores.
E como vamos mostrar o governo não tem em conta nas suas propostas esta
crescente desigualdade a que a mulher é sujeita o que só
poderá determinar, se tais propostas forem aprovadas, um agravamento
ainda maior da situação da mulher em Portugal, em particular das
mulheres com mais de 65 anos, que assim serão atiradas para uma
miséria silenciosa ainda maior.
A REDUÇÃO DAS PENSÕES NÃO SERIA DETERMINADA APENAS
PELO FACTOR DE SUSTENTABILIDADE MAS TAMBÉM PELA NOVA
FORMULA DE CÁLCULO DA PENSÃO
A redução das pensões que a proposta do governo
determinaria se for aprovada não resultaria apenas da
introdução do chamado factor de sustentabilidade como
alguns, por ignorância ou intencionalmente, pretendem fazer crer.
Efectivamente, a redução máxima não é
apenas de 18% resultante da introdução deste factor.
A grave redução das pensões que a proposta determinaria
resulta do efeito conjugado, combinado, da entrada em vigor de uma acelerada da
nova formula de cálculo da pensão com base em toda a carreira
contributiva e da aplicação do factor de sustentabilidade.
Contrariamente ao que alguns pensavam e defendiam, o cálculo da
pensão com base em toda a carreira contributiva determina, para a
maioria dos trabalhadores, uma redução importante no valor da
pensão que vão receber. De acordo com dados fornecidos pelo
próprio governo, as pensões com base numa média
ponderada sofreriam uma quebra de -8% e -12% para os novos pensionistas em 2020
e 2030 respectivamente se comparadas com a antiga formula de cálculo que
considerava apenas os melhores 10 anos dos últimos 15 anos da carreira
contributiva (pág. 249 do Relatório sobre a
sustentabilidade da Segurança Social anexo à Proposta de
Orçamento de Estado para 2006). E recorde-se que o cálculo com
base numa média ponderada não utiliza ainda toda a carreira
contributiva pois uma das pensões, com base na qual se determina a
média, é ainda calculada com base nos 10 melhores anos dos
últimos 20 anos de trabalho.
De acordo com estimativas que fizemos a utilização do
cálculo da pensão com base em toda a carreira contributiva
determinará uma redução continua da pensão dos
trabalhadores que se reformarem no futuro atingindo essa
diminuição, em média, cerca de -19,5% em 2050.
Como esta redução já não fosse suficiente o governo
pretende adicionar uma outra a que chama factor de
sustentabilidade, que mais correctamente se deve chamar novo factor
de redução da pensão. E essa redução
calcula-se dividindo a esperança de vida aos 65 anos em 2007 (18 anos)
pela esperança de vida aos 65 anos na data em que cada trabalhador se
reformar. Como o valor da esperança de vida no futuro é maior do
que a esperança de vida em 2007, fazendo essa divisão
obtém-se uma percentagem que é inferior a um, o que multiplicado
pelo valor da pensão obtida com base em toda a carreira contributiva
determinaria uma nova redução na pensão que o trabalhador
que se reformar terá direito a receber.
De acordo com cálculos que fizemos, a redução na
pensão determinada pelo efeito conjugado da nova formula de
cálculo da pensão com base em toda a carreira contributiva mais a
diminuição resultante do factor de sustentabilidade do
governo aumentará continuamente no futuro sendo, por exemplo,: de
-4% em 2010; de 13% em 2020; de -21% em 2030; de 28% em 2040; de
34% em 2050; etc.. Tudo depende da data em que o trabalhador se
reformar.
E esta redução na pensão aplicar-se-ia a todos, sejam
homens ou mulheres, recebam pensões baixas ou elevadas. Como as
pensões recebidas pelas mulheres são de valores mais baixos, como
se mostrou, mesmo esses valores sofrerão uma importante
redução, agravando ainda mais a discriminação e
desigualdade a que estão sujeitas as mulheres.
AS PROPOSTAS DO GOVERNO DETERMINARIAM QUE A TAXA DE SUBSTITUIÇÃO
BAIXE DOS 84% ACTUAIS PARA APENAS 55%, OU SEJA, UMA REDUÇÃO NA
PENSÃO DE 34,6%
Esta redução muito superior à resultante da
aplicação de apenas do chamado factor
sustentabilidade é confirmada por um gráfico constante do
estudo Medidas de Reforma da Segurança Social que o
Ministério do Trabalho e da Segurança Social distribuiu aos
parceiros sociais em Junho de 2006. De acordo com esse estudo, entre 2010 e
2050, a taxa de substituição passará de 71% para apenas
55%.
Como se sabe a taxa de substituição é a percentagem que a
pensão representa em relação ao salário. Por
exemplo, uma taxa de substituição de 71% significa que se o
salário de referência do trabalhador for, por ex., de 1.000 euros
por mês a pensão que receberá será apenas de 710
euros (71% de 1.000 euros).
A gravidade deste gráfico do governo não tem sido também
correctamente interpretada. E isto porque a taxa de substituição
máxima actual não é apenas de 71% como consta do
gráfico, mas sim de cerca de 84%. Para obter os 71% que constam do
gráfico o governo considerou não uma carreira contributiva de 40
anos, mas sim a carreira contributiva média que se verificará em
2010 que deverá rondar os 34 anos (em 2005, de acordo com dados
fornecidos pelo governo, a carreira contributiva média dos trabalhadores
reformados era apenas de 29,5 anos.) Efectivamente, aqueles que se reformaram
em 2006, por ex, com 40 anos de descontos e 65 anos de idade, a taxa de
substituição não é apenas de 71% ou menos mas sim
de 84%. À medida que os anos passam, a carreira contributiva
média está a aumentar e é previsível que, em 2050,
a carreira contributiva média ronde os 40 anos. E segundo o
próprio governo, em 2050, com um carreira contributiva de 40 anos de
descontos, os trabalhadores que se reformarem nesse ano receberão uma
pensão correspondente apenas a 55% do seu salário de
referência. Portanto, a comparação que se tem de fazer
é entre a taxa de substituição actual com 40 anos de
descontos em média 84% - e a taxa de substituição
em 2050 também para uma carreira de 40 anos 55% - se a proposta
do governo for aprovada. Fazendo os cálculos necessários chega-se
a uma redução semelhante à que calculamos anteriormente
(34,6%), já que a taxa de substituição em 2050 representa
apenas 65,4% da taxa de substituição de 2006.
Um exemplo imaginado tornará mais claro as consequências para os
trabalhadores da redução da taxa de substituição
resultante da proposta do governo. Suponha-se que o salário de
referência de um trabalhador é de 1.000 euros, e que tem 40 anos
de descontos. Se a taxa de substituição for de 84% ele
receberá uma pensão de 840 euros, mas se a taxa for de 55% ele
receberá uma pensão apenas de 550 euros, ou seja, sofrera uma
redução de 34,6% na sua pensão.
É FALSO QUE EXISTA APENAS A PROPOSTA DO PS E DO PSD/CDS. EXISTE OUTRA
PROPOSTA TECNICAMENTE CONSISTENTE QUE O GOVERNO E A DIREITA SE TÊM
RECUSADO A DEBATER
O governo e toda a direita, incluindo o patronato, têm procurado fazer
passar a mensagem que existem apenas duas propostas para a segurança
social. Isso foi bastante claro no programa Prós e Contra de
2 de Outubro de 2006. Neste programa da RTP1 apenas se debateu a proposta do
governo e do PSD/PP ( a do governo seria o mal menor) porque nenhum dos
intervenientes no debate apresentou uma proposta alternativa a estas duas,
apesar dela existir.
A proposta do governo significa para o trabalhador ou a redução
significativa da sua pensão, como já se mostrou, ou então
o aumento da idade de reforma ( o trabalhador para poder receber uma
pensão de valor igual à que antes recebia teria de trabalhar
muitos mais anos para além dos 65 anos). A proposta do PSD/PP
determinaria que até 6 pontos percentuais dos descontos dos
trabalhadores fossem aplicados em fundos de pensões, o que determinaria,
para a Segurança Social, graves dificuldades financeiras (a
Segurança Social perderia uma receita que poderia atingir 1.975
milhões de euros por ano) e, para o trabalhador, uma
redução significativa na pensão que receberia da
Segurança Social e uma indeterminação da pensão a
receber do fundo de pensões pois esta última ficaria dependente
da especulação da bolsa.
Enquanto as duas propostas anteriores actuam do lado da despesa e visam reduzir
o valor da pensão dos trabalhadores, a 3ª proposta, que é
alternativa aquelas duas, actua do lado do sistema de financiamento. De acordo
com cálculos que fizemos, uma politica económica que reduzisse o
desemprego para metade; um combate mais eficaz à evasão e fraude
no pagamento das contribuições; a eliminação das
múltiplas taxas contributivas e a aplicação generalizada
da Taxa Social Única; o pagamento pelas empresas das
contribuições patronais referente aos trabalhadores com
falsos recibos verdes; uma taxa de 2% sobre o VAL (Valor
Acrescentado Liquido) a pagar apenas pelas empresas que contribuem com pouco da
riqueza que criam para a Segurança Social; o pagamento gradual pelo
Estado da divida que têm ao Regime Geral da Segurança Social; e
uma contribuição a ser paga pelos rendimentos isentos de imposto
(ex. , mais valias) daria um acréscimo de receitas para a
Segurança Social de cerca de 4.400 milhões de euros por ano, o
que seria mais que suficiente para garantir a sustentabilidade da
Segurança Social. Infelizmente até aqui o governo tem-se recusado
a debater as propostas alternativas visando a diversificação do
sistema de financiamento, apesar delas serem tecnicamente consistentes.
É FALSO QUE A PROPOSTA DO GOVERNO NÃO VAI AGRAVAR A
SITUAÇÃO DOS TRABALHADORES JÁ REFORMADOS
O governo tem repetido continuamente que a sua proposta não vai agravar
a situação dos trabalhadores que já estão
reformados. Também isto não corresponde à verdade. De
acordo com uma proposta apresentada pelo governo, no futuro, enquanto o
crescimento económico não for igual ou superior a 2%, o aumento
das pensões de valor inferior a 1,5 salário mínimo
nacional liquido, ou seja, a cerca de 530 euros, será igual à
subida de preços verificada no ano anterior, portanto o seu poder de
compra não aumentará. E as pensões de valor superior a 1,5
salário mínimo nacional liquido sofrerão uma
redução no seu poder de comprar que variaria entre -0,5 pontos
percentuais e -0,75 pontos percentuais. E tenha-se presente que o governo
prevê nos seus estudos que o crescimento económico até 2050
será, em média, de apenas 2% ao ano.
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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