O apagão da racionalidade
O apagão eléctrico que há poucos dias afectou 60
milhões de pessoas no
Brasil encerra lições, inclusive para Portugal. Apagões
como esse estão a multiplicar-se por toda a parte (basta lembrar, por
exemplo, o que afectou a costa Leste dos Estados Unidos e parte do
Canadá). As suas causas últimas radicam nas desbragadas
políticas neoliberais aplicadas nas últimas décadas
para além das causas imediatas que os desencadearam.
Em Portugal, quando a EDP era nacionalizada, a sua gestão era efectuada
por electrotécnicos sérios e a fiabilidade do abastecimento era
boa. Mas hoje, após a sua privatização selvagem, a EDP
é gerida yuppies que nada sabem de electrotecnia só de
bolsas de valores & jogadas financeiras. Isso não augura nada de bom. Os
4000 milhões de dólares
que o sr. António Mexia agora tenciona investir em parques
eólicos dos Estados Unidos certamente mereciam melhor
aplicação.
Espanta-me como pessoas com bastante discernimento chegam a conclusões
simples como "tal apagão foi devido à queda de raios e tal
outro foi devido à estiagem", pois quedas de raios e estiagens
são causas diretas, mas não as únicas, nem as primeiras ou
as mais importantes.
Toda vez que leio simplificações da realidade deste tipo, o
artigo "Angleterre, crise totale", de abril de 2001, de Ignacio
Ramonet, do
Le Monde Diplomatique
vem à minha mente.
Ele dizia que a epidemia de febre aftosa que se espalhava, naquela
época, pelos campos britânicos, como toda epidemia, era
conseqüência de um momento histórico preciso e não era
por coincidência que estava acontecendo dentro de uma Inglaterra que foi
utilizada, durante mais de vinte anos, como laboratório do
ultraliberalismo. Ramonet dizia também que as decisões que
permitiram, além de febre aftosa, a doença da vaca louca,
inundações, regiões bloqueadas sobre a neve sem
eletricidade, catástrofes ferroviárias etc., foram tomadas
conscientemente e se basearam em dogmas neoliberais precisos, como a
desregulamentação. Segundo ele, nos anos 80, em governos da Sra.
Margaret Thatcher, deu-se as costas ao princípio da
precaução e aniquilou-se a rede nacional de atendimentos
veterinários. Posteriormente, eliminou-se, por algum tempo, até a
vacinação de animais.
Analisando os mais recentes apagões brasileiros com os olhos de Ramonet,
vamos verificar que a causa última explicativa dos mesmos é o
próprio modelo introduzido nos anos 90 e que não foi reformado,
mas só mitigado, nos anos 2000. Casualmente, é também um
modelo neoliberal. Considerando o período em que os militares estiveram
no poder, de 1964 a 1985, verificamos que o modelo e a gerência do setor
elétrico do país nesta época, quando houve grande
expansão da capacidade instalada, não gerou nenhum apagão.
Então, comparar os dois modelos deve ser revelador.
O atual modelo, diferentemente do anterior, permite uma bruta
transferência de dinheiro dos consumidores e do setor público para
o setor privado, basicamente o distribuidor da eletricidade. O setor privado
grande consumidor de eletricidade também está sendo muito
beneficiado pelo atual modelo, mas já o era no anterior. Os consumidores
são penalizados, hoje, com uma das tarifas mais caras do planeta,
além de estarem sendo roubados pelo novo modelo, há alguns anos,
no cálculo das tarifas, como foi descoberto recentemente.
Finalmente, o setor público com o novo modelo está
impossibilitado de gerar grandes receitas como no modelo anterior, que ajudava
sobremaneira a expansão do sistema.
Existia uma acusação freqüente ao modelo antigo, que
consistia das obras terem sempre preços acima daqueles que poderiam ser
considerados como justos. Se o novo modelo procurou corrigir este fato, o fez
da pior forma possível, pois trocaram os agentes econômicos
beneficiados e a sociedade foi muito penalizada, com o alto custo da energia e
a baixa confiabilidade do seu fornecimento. Existiam outras formas de
forçar o barateamento das obras hidroelétricas, bastando
consultar a COPEL.
Se o Estado brasileiro permite estas transferências socialmente
criminosas, ele não está capacitado para exigir dos agentes do
setor confiabilidade no fornecimento. O setor está todo compromissado
com o lucro dos entes privados e a garantia de maior confiabilidade no
suprimento requer investimentos que diminuem o lucro. Para ser entendida a
falta de compromisso atual, os dirigentes do setor na época dos
militares eram técnicos do gabarito de Mario Bhering, John Cotrim e
Camilo Penna, ou seja, os militares não contavam com a sorte para
garantir o suprimento.
Hoje, os dirigentes são políticos do PMDB, muitos estranhos ao
setor, a menos do professor Pinguelli Rosa, que, por um breve período,
esteve no comando da Eletrobrás e foi exonerado por "não ter
voto", segundo dizem que o presidente Lula teria afirmado à
época. Se este fato for verdadeiro, o presidente nunca fez uma
avaliação tão errada, porque o professor realmente
não tem votos da população como muitos políticos
profissionais do PMDB, mas o professor iria continuar impondo uma
administração no setor que ia reduzir drasticamente a
probabilidade de apagão, e este, sim, tira muitos votos.
Assim, o que justificou o apagão de eletricidade não foram raios,
seca etc., todas causas secundárias, mas um apagão de
racionalidade social no modelo introduzido no setor elétrico.
17/Novembro/2009
[*]
Conselheiro da Federação Brasileira de Associações
de Engenheiros.
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3968/9/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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