Podem os biocombustíveis salvar a Europa, ou o planeta?
por
The Economist
Quando tudo o mais fracassa, concorde quanto aos biocombustíveis. Esta
tem sido a ladainha da política energética da União
Europeia, atormentada por desacordos sobre fragmentação de firmas
super-poderosas, regateios quanto ao comércio do carbono e
preocupações no que se refere à dependência do
gás russo. Mas um relatório a publicar da própria
agência de ambiente da União Europeia argumenta que os amados
biocombustíveis etanol, biodiesel da colza e afins tem
grandes defeitos.
Na semana passada os ministros da Energia da UE endossaram uma proposta da
Comissão Europeia no sentido de que os biocombustíveis deveriam
atingir obrigatoriamente 10% do consumo de combustível da UE em 2020; o
actual objectivo voluntário é de 5,75% em 2012. Os chefes de
governo europeus provavelmente apoiarão este acordo numa cimeira na
Alemanha no próximo mês.
Apesar deste aparente entusiasmo, a maior parte dos membros da UE lutará
para cumprir até mesmo o objectivo existente. Apenas a Suécia e
a Alemanha cumpriram o objectivo antecipado de 2% de combustíveis
renováveis em 2005. O principal problema é que os
biocombustíveis são caros. Segundo KBC Pell Hunt, uma firma de
corretagem em Londres, o gasóleo feito de colza custa aproximadamente
0,3 (US$0,39) mais por litro do que o gasóleo comum, apesar de
beneficiar de vários subsídios agrícolas. As firmas
britânicas de biocombustíveis estão a lutar para vender a
sua produção mesmo com um desconto fiscal de 20p (US$0,39) por
litro. O governo, naturalmente, está relutante em reduzir os seus
lucrativos rendimentos dos impostos sobre combustíveis pelo aumento dos
descontos.
Vários países estão a tentar transferir o custo da
adopção de biocombutíveis para os condutores. A Alemanha,
o país que mais usa biocombustíveis na Europa, substituiu uma
dedução fiscal por uma obrigação legal directa de
os refinadores misturarem uma certa proporção de
biocombustíveis nos seus tanques de armazenagem. A partir do
próximo ano, a Grã-Bretanha fará o mesmo, e multará
as firmas em 15p por litro se elas não cumprirem o nível exigido.
Mas firmas francesas, que já estão sujeitas a uma
política semelhante, muitas vezes consideram que é mais barato
pagar a multa do que incomodar-se com altos princípios vegetais.
Pior ainda: os biocombustíveis podem gerar tanta poluição
quanto os combustíveis fósseis que estão a substituir,
conforme a maneira como são fabricados. Se, digamos, for usada
electricidade do carvão para converter trigo em etanol os
benefícios em termos de emissões de dióxido de carbono
são deprezíveis. Da mesma maneira, se a colza for cultivada
utilizando muito fertilizante fabricado com gás natural, então o
biodiesel resultante traz relativamente pouca redução nas
emissões ou nas importações de combustíveis. Mas
os misturadores e os consumidores não têm meios para distinguir o
biocombustível bom do mau.
Biocombustíveis de países pobres mas ensolarados, onde as
plantações rendem muita energia e os custos são mais
baixos, tendem a ser mais baratos e ambientalmente mais amistosos. Mas os
agricultores proteccionistas europeus não gostam deles. A UE
impõe uma tarifa elevada sobre o etanol brasileiro; suas
especificações para o biodiesel favorecem a dispendiosa colza
local em relação ao barato óleo de palma importado.
De qualquer forma, práticas agrícolas destrutivas nos
países exportadores por vezes causam mais danos ao ambiente do que a
queima de petróleo ou gás. No ano passado um estudo
holandês descobriu que drenar pântanos na Indonésia para abrir
caminho às plantações de óleo de palma resultou em
33 toneladas de emissões de dióxido de carbono por cada tonelada
de óleo de palma produzida, devido à aceleração da
decomposição da turfa do solo. Mas queimar uma tonelada de
óleo de palma ao invés de combustíveis fósseis
poupa apenas três toneladas de emissões. Confrontado com estas
descobertas, o governo holandês pediu desculpas por promover o
óleo de palma, e vários firmas holandesas prometeram cessar de
usá-lo.
Ao invés de tentar transformar colheitas em combustíveis para
transportes, a Europa faria melhor em queimá-las para produzir energia
eléctrica, diz Peder Jense, da Agência Ambiental Europeia. Isto
pouparia a energia utilizada no processo de conversão. Também
geraria mais energia, uma vez que as centrais eléctricas são mais
eficientes do que os motores de carros. Em 26 de Fevereiro a agência
produzirá um relatório em que enfatiza tais argumentos. Mas
não
há garantia de que os líderes europeus irão lê-lo
antes da sua cimeira.
22/Fevereiro/2007
O original encontra-se em
http://www.economist.com/world/europe/displaystory.cfm?story_id=8744686
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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