A dançar com fadas

por Chris Sanders [*]

Nos últimos meses recebemos um número crescente de pedidos para tratar da questão do pico da produção mundial de petróleo de um ponto de vista político. Ou seja, não seria o pico petrolífero apenas outro esquema para criar uma crise que facilitasse a criação do governo global? Não será apenas um meio de desacreditar o activismo do aquecimento global? Será que os bancos e as companhias de petróleo não têm interesses ocultos na promoção da ideia do Pico Petrolífero a fim de obter altas de preços? Posso estar a omitir algumas das perguntas e comentários nesta breve sinopse, mas basicamente estes três pontos parecem conter muito bem a espécie de reacções que nos tem chegado.

. Em princípio, o melhor argumento a confirmar o pico da produção de petróleo e gás é que há demasiada evidência empírica de que está a acontecer. Um dos casos mais extensamente documentados de pico da produção petrolífera é a América do Norte, uma grande província petrolífera e outrora o maior produtor e exportador do mundo. Desde que atingiu o pico em 1972 (os próprios EUA atingiram-no em 1970) a produção da América do Norte caiu de uma altura de mais de 11 milhões de barris por dia para menos de 6,5 milhões de barris por dia em 2005. E isto apesar de um grande aumento na produção offshore e da abertura de Prudhoe Bay e do North Slope no Alasca.

Esta experiência não só demonstra a realidade do esgotamento do recurso como também um outro ponto importante. Não é apenas o nível de produção que importa mas o nível de procura em relação à produção. A procura norte americana levantou voo ao longo dos últimos trinta e cinco anos decorridos desde o pico da produção. Leva tempo para extrair a produção das novas descobertas e, grande como fosse, a dotação de petróleo do Alasca não podia mesmo começar a cobrir a procura.

Pode ser que a gente de Bilderberg veja o Pico Petrolífero como uma crise que poderia ser utilizável para reunir um consenso popular em torno da ideia do governo mundial. Mas pensamos que eles têm uma visão mais prática da questão: a produção de petróleo da OCDE atingiu o pico e o mundo industrial, isto é, o mundo dos Bilderbergs, enfrenta pela primeira vez a realidade de que o mundo industrial está totalmente dependente do Golfo Pérsico e da Rússia para atender às suas necessidades marginais de energia. Logicamente, parece-nos que se alguém quer tocar o tambor do medo de uma crise a fim de mobilizar a opinião pública, o pico petrolífero não é a questão adequada. Um endosso do Pico Petrolífero da parte do establishment seria uma admissão de fraqueza; não é a espécie de coisa que você faz quando está a tentar obter apoio para um governo mundial. E onde entra a Rússia, a segunda potência nuclear do mundo e o maior produtor de petróleo neste governo mundial?

Tal como os bancos e as companhias de petróleo, eles certamente saudariam preços mais elevados, tudo o mais permanecendo constante. Mas a história do negócio mundial do petróleo e a estória do controle da produção e da distribuição de modo a evitar que a volatilidade do preço e os caprichos da oferta prejudiquem o investimento, como testemunha a Texas Railroad Commission e a OPEP. Este problema é muito diferente. As majors do petróleo ocidental estão a lutar para adquirir suficiente petróleo a fim de manter o seu negócio, pouco se preocupando com preços baixos. Como documentámos, as suas reservas de petróleo estão a cair rapidamente, e apenas truques de prestidigitação impede que a consciência disto seja mais amplamente compreendida fora da notas das suas declarações financeiras. E não há dúvida do Pico Petrolífero porque elas não estão a aumentar os seus orçamentos de exploração mais agressivamente, porque ao invés disso estão a recomprar suas próprias acções e porque estão muito relutantes em comprometer mais dinheiro para reparações e manutenção da infraestrutura existente. Quem quer gastar mais do que o absolutamente necessário num activo em vias de desaparecer?

O poder político no negócio da energia segue o combustível, razão porque Hugo Chávez e a Gazprom estão a lançar-se com força e a Shell está a defender-se de desafios legais quanto às suas reservas contabilísticas. Isto é um problema real para o Ocidente.

O Aquecimento Global também é um problema real [1] , mas é induzido pelo mundo natural, não pelo Clube do Petróleo. Uma carta recente que recebemos comentava que "denunciávamos" o aquecimento global. Não é bem assim. Ele certamente está a acontecer, parece. Apenas não estamos convencidos da ideia de que a sua causa seja totalmente ou mesmo parcialmente antropogénica. Pode ser que sim, pode ser que não. Apenas não pensamos que o caso tenha sido apresentado de modo convincente. E é muito difícil levar a sério a recém inventada causa da "segurança climática" agenciada por think tanks da defesa e outros. Qualquer um que observasse a presença de George Bush pai na primeira Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro em 1992, pode estar a fazer perguntas. Desde quando o espião chefe da América e posteriormente o seu presidente quer dançar com as fadas verdes? Isto é realmente cómico.

Francamente, ninguém desacredita o activismo do aquecimento global mais efectivamente do que alguns dos activistas do aquecimento global. Se o mundo fosse queimar toda a sua dotação de petróleo e gás recuperável ele produziria apenas cerca da metade do nível de emissões de carbono considerado perigoso. Isto deixa o carvão de fora, como mostrou um estudo recente do Energy Watch Group, da Alemanha, o mundo está a caminho do pico mundial da produção de carvão entre 2020 e 2030. O mundo está num caminho insustentável que será corrigido por uma implosão no uso da energia devido a um declínio catastrófico no retorno em energia em relação à energia investida para produzir mais energia. Esta espécie de previsões é altamente indesejável para uma indústria que cresceu a alimentar-se com o clima do medo, a atrair todos os tipos de gente folclórica a fim de obter uma esmola financeira. E tal como para a banca e sectores corporativos, não é a causa do racionamento de combustível devido ao Pico Petrolífero que está a pressionar duramente pela distribuição dos direitos de poluir a atmosfera. Desde o apogeu da construção de caminhos de ferro na América do Norte no fim do século XIX nunca houve um sequestro tão insolente dos bens públicos. Isto está a ser feito em nome do aquecimento global e não nos enganemos a respeito. O mundo corporativo está a apoiar o aquecimento global, não o pico petrolífero.

O Aquecimento Global é formulado na linguagem do planeamento centralizado e das respostas centralmente dirigidas. O Pico Petrolífero, do outro lado, expõe exactamente quão pouco um governo é capaz de fazer pelos seus cidadãos. No Ocidente, e no final das contas também por toda a parte, a capacidade dos governos de subornar a população através do encorajamento do consumo de quantidades sempre crescentes de energia está prestes a ser esgotada. A partir do momento em que bastantes pessoas apanhem a ideia de que o governo não só não as ajudará como de facto não pode ajudá-las, será interessante verificar por quanto tempo o pacto social será mantido. Mesmo regimes autoritários precisam de um nível mínimo de apoio popular.

01/Maio2007

[1] Ver Aquecimento global: uma impostura científica , de Marcel Leroux.

[*] Administrador da consultura britânica Sanders Research Associates, Ltd.

O original encontra-se em
http://sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1216


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