A dançar com fadas
Nos últimos meses recebemos um número crescente de pedidos para
tratar da questão do pico da produção mundial de
petróleo de um ponto de vista político. Ou seja, não
seria o pico petrolífero apenas outro esquema para criar uma crise que
facilitasse a criação do governo global? Não será
apenas um meio de desacreditar o activismo do aquecimento global? Será
que os bancos e as companhias de petróleo não têm
interesses ocultos na promoção da ideia do Pico
Petrolífero a fim de obter altas de preços? Posso estar a omitir
algumas das perguntas e comentários nesta breve sinopse, mas basicamente
estes três pontos parecem conter muito bem a espécie de
reacções que nos tem chegado.
Em princípio, o melhor argumento a confirmar o pico da
produção de petróleo e gás é que há
demasiada evidência empírica de que está
a acontecer. Um dos casos mais extensamente documentados de pico
da produção petrolífera é a América do
Norte, uma grande província petrolífera e outrora o maior
produtor e exportador do mundo. Desde que atingiu o pico em 1972 (os
próprios EUA atingiram-no em 1970) a produção da
América do Norte caiu de uma altura de mais de 11 milhões de
barris por dia para menos de 6,5 milhões de barris por dia em 2005. E
isto apesar de um grande aumento na produção offshore e da
abertura de Prudhoe Bay e do North Slope no Alasca.
Esta experiência não só demonstra a realidade do
esgotamento do recurso como também um outro ponto importante.
Não é apenas o nível de produção que importa
mas o nível de procura em relação à
produção. A procura norte americana levantou voo ao longo dos
últimos trinta e cinco anos decorridos desde o pico da
produção. Leva tempo para extrair a produção das
novas descobertas e, grande como fosse, a dotação de
petróleo do Alasca não podia mesmo começar a cobrir a
procura.
Pode ser que a gente de Bilderberg veja o Pico Petrolífero como uma
crise que poderia ser utilizável para reunir um consenso popular em
torno da ideia do governo mundial. Mas pensamos que eles têm uma
visão mais prática da questão: a produção
de petróleo da OCDE atingiu o pico e o mundo industrial, isto é,
o mundo dos Bilderbergs, enfrenta pela primeira vez a realidade de que o mundo
industrial está totalmente dependente do Golfo Pérsico e da
Rússia para atender às suas necessidades marginais de energia.
Logicamente, parece-nos que se alguém quer tocar o tambor do medo de uma
crise a fim de mobilizar a opinião pública, o pico
petrolífero não é a questão adequada. Um endosso
do Pico Petrolífero da parte do establishment seria uma admissão
de fraqueza; não é a espécie de coisa que você faz
quando está a tentar obter apoio para um governo mundial. E onde entra
a Rússia, a segunda potência nuclear do mundo e o maior produtor
de petróleo neste governo mundial?
Tal como os bancos e as companhias de petróleo, eles certamente
saudariam preços mais elevados, tudo o mais permanecendo constante. Mas
a história do negócio mundial do petróleo e a
estória do controle da produção e da
distribuição de modo a evitar que a volatilidade do preço
e os caprichos da oferta prejudiquem o investimento, como testemunha a Texas
Railroad Commission e a OPEP. Este problema é muito diferente. As
majors do petróleo ocidental estão a lutar para adquirir
suficiente petróleo a fim de manter o seu negócio, pouco se
preocupando com preços baixos. Como documentámos, as suas
reservas de petróleo estão a cair rapidamente, e apenas truques
de prestidigitação impede que a consciência disto seja mais
amplamente compreendida fora da notas das suas declarações
financeiras. E não há dúvida do Pico Petrolífero
porque elas não estão a aumentar os seus orçamentos de
exploração mais agressivamente, porque ao invés disso
estão a recomprar suas próprias acções e porque
estão muito relutantes em comprometer mais dinheiro para
reparações e manutenção da infraestrutura
existente. Quem quer gastar mais do que o absolutamente necessário num
activo em vias de desaparecer?
O poder político no negócio da energia segue o
combustível, razão porque Hugo Chávez e a Gazprom
estão a lançar-se com força e a Shell está a
defender-se de desafios legais quanto às suas reservas
contabilísticas. Isto é um problema real para o Ocidente.
O Aquecimento Global também é um problema real
[1]
, mas é induzido pelo mundo natural, não pelo Clube do
Petróleo. Uma carta recente que recebemos comentava que
"denunciávamos" o aquecimento global. Não é
bem assim. Ele certamente está a acontecer, parece. Apenas não
estamos convencidos da ideia de que a sua causa seja totalmente ou mesmo
parcialmente antropogénica. Pode ser que sim, pode ser que não.
Apenas não pensamos que o caso tenha sido apresentado de modo
convincente. E é muito difícil levar a sério a
recém inventada causa da "segurança climática"
agenciada por think tanks da defesa e outros. Qualquer um que observasse a
presença de George Bush pai na primeira Cimeira da Terra, no Rio de
Janeiro em 1992, pode estar a fazer perguntas. Desde quando o espião
chefe da América e posteriormente o seu presidente quer dançar
com as fadas verdes? Isto é realmente cómico.
Francamente, ninguém desacredita o activismo do aquecimento global mais
efectivamente do que alguns dos activistas do aquecimento global. Se o mundo
fosse queimar toda a sua dotação de petróleo e gás
recuperável ele produziria apenas cerca da metade do nível de
emissões de carbono considerado perigoso. Isto deixa o carvão de
fora, como mostrou um estudo recente do Energy Watch Group, da Alemanha, o
mundo está a caminho do pico mundial da produção de
carvão entre 2020 e 2030. O mundo está num caminho
insustentável que será corrigido por uma implosão no uso
da energia devido a um declínio catastrófico no retorno em
energia em relação à energia investida para produzir mais
energia. Esta espécie de previsões é altamente
indesejável para uma indústria que cresceu a alimentar-se com o
clima do medo, a atrair todos os tipos de gente folclórica a fim de
obter uma esmola financeira. E tal como para a banca e sectores corporativos,
não é a causa do racionamento de combustível devido ao
Pico Petrolífero que está a pressionar duramente pela
distribuição dos direitos de poluir a atmosfera. Desde o apogeu
da construção de caminhos de ferro na América do Norte no
fim do século XIX nunca houve um sequestro tão insolente dos bens
públicos. Isto está a ser feito em nome do aquecimento global e
não nos enganemos a respeito. O mundo corporativo está a apoiar
o aquecimento global, não o pico petrolífero.
O Aquecimento Global é formulado na linguagem do planeamento
centralizado e das respostas centralmente dirigidas. O Pico
Petrolífero, do outro lado, expõe exactamente quão pouco
um governo é capaz de fazer pelos seus cidadãos. No Ocidente, e
no final das contas também por toda a parte, a capacidade dos governos de
subornar a população através do encorajamento do consumo de
quantidades sempre crescentes de energia está prestes a ser esgotada. A
partir do momento em que bastantes pessoas apanhem a ideia de que o governo
não só não as ajudará como de facto não pode
ajudá-las, será interessante verificar por quanto tempo o pacto
social será mantido. Mesmo regimes autoritários precisam de um
nível mínimo de apoio popular.
01/Maio2007
[1] Ver
Aquecimento global: uma impostura científica
, de Marcel Leroux.
[*]
Administrador da consultura britânica Sanders Research
Associates, Ltd.
O original encontra-se em
http://sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1216
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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