É duvidoso que as águas profundas adiem o pico petrolífero
O
Thunder Horse
parte uma perna
por Carlton Meyer
De quão profundamente no oceano pode a espécie humana extrair
petróleo? Esta é a pergunta que todas as grandes companhias
petrolíferas gostariam de ver respondida quando secam os seus campos de
óleo em águas rasas. As últimas duas
décadas assistiram ao desenvolvimento de campos petrolíferos em
águas profundas, assim considerados quando ultrapassam os 1500
pés [457 m] de profundidade. Nos últimos anos, extrair
petróleo a mais de 7000 pés [2134 m] abaixo da superfície
do oceano tornou-se uma realidade, mas as complexidades e os custos resultantes
destas operações tornam os lucros discutíveis.
No fim da década de 1990 a tecnologia ajudou os geólogos a
localizarem campos de petróleo em águas mais profundas do que os
5000 pés [1524 m] e vários furos com êxito foram efectuados
20000 pés [6096 m] abaixo da superfície do oceano em novos campos
promissores. Isto tem sido saudado como a resposta ao declínio das
reservas de petróleo do mundo, mas o problema de extrair este
óleo e bombeá-lo para terra firme continua em debate aberto.
A este profundidades, a pressão da água é de umas
esmagadoras 20000 libras por polegada quadrada [1379 bar], a água
está quase a congelar, o leito do oceano está coberto com sal
corrosivo e jactos de óleo extremamente quente saem a grande
pressão das cabeças dos furos.
[1]
Uma vez que a construção de plataformas petrolíferas a
mais de 5000 pés [1524 m] da base do oceano é demasiado custosa,
são utilizadas plataformas semi-submersíveis que flutuam no mar.
Linha umbilicais flexíveis que se movem com o oceano substituem
tubagens. Os mergulhadores não podem actuar a esta profundidade, de
modo que a reparação e manutenção é
efectuada por Veículos operados remotamente
(Remote Operated Vehicles,
ROVs).
O potencial para um desastre ambiental é grande, mas os grupos
ecológicos parecem inconscientes do perigo. As grandes companhias de
petróleo estão conscientes dos riscos e do custos, de modo que
hesitam em transformar estes novos furos em águas
profundas em campos produtivos.
Para compensar os custos, as companhias de petróleo conceberam enormes
plataformas para operarem como um concentrador
(hub)
e colectar petróleo e gás de dúzias de furos
possuídos por diferentes companhias de petróleo. Várias
plataformas/hubs de águas profundas entraram recentemente em
operação. O maior projecto é conduzido pela British
Petroleum (BP), o qual quer desenvolver um grande campo localizado a 6500
pés [1981 m] abaixo do nível do mar, onde vários furos
já foram efectuados com êxito. Isto exigiu a
construção da maior plataforma de petróleo do mundo, a
"Thunder Horse" que custou muitos milhares de milhões de
dólares e que foi montada em 2004 a 150 milhas [241 km] a sudeste de
Nova Orleans.
Os executivos da BP esperavam que jorrasse petróleo e lucros, mas este
mamute nunca produziu qualquer petróleo ou gás, e o plano actual
é de que a produção possa começar no fim de 2008.
A plataforma foi açoitada por dois furacões em 2005. Isto adiou
a produção inicial por meses, os quais tornaram-se anos. A
última escusa da BP é:
"O equipamento submarino permaneceu num estado frio, com
protecção catódica, sobre o leito do mar durante algum
tempo a seguir ao declínio da plataforma após a sua
evacuação durante a temporada de furacões em 2005. A
seguir a uma investigação completa, concluímos que estas
circunstâncias inabituais levaram a que o hidrogénio penetrasse e
fragilizasse
(embrittlement)
o equipamento de modo que este não podia desempenhar o serviço
pretendido a alta pressão e alta temperatura. Agora recuperaremos e
substituiremos todos os componentes submarinos que acreditarmos poder
constituir um risco, antes de começar a produção no
segundo semestre de 2008".
[2]
O que acontecerá se outro furacão golpear o Thunder Horse e as
outras plataformas monstro nos próximos anos? Como
será que dúzias de linhas umbilicais que percorrem mais de 30
milhas [48 km] até as cabeças dos postos se comportarão
diante de grandes tempestades, sem mencionar furacões? Grande parte
do dano dos furacões anteriores não se verificou nas plataformas
petrolíferas e sim nos seus pipelines submarinos que eram atirados de um
lado para o outro pelo movimento dos leitos marítimos. Águas
profundas significa offshore distante com centenas de quilómetros de
pipelines estendidos sobre o leito do oceano, tão profundos que apenas
ROVs podem repará-los. A utilização de barcaças
costeiras de petróleo para transferir óleo para terra foi
considerada. Contudo, a maior parte dos furos também produz gás
natural que não pode ser transportado por barco, de modo que as
companhias de petróleo precisariam de permissão governamental
para queimarem em tocha este valioso recurso não renovável.
Enquanto isso, as companhias de petróleo continuam o dispendioso
processo de procurar depósitos de óleo. Furar em água
profunda exige um navio e custos em torno dos US$ 100 milhões, e nem
todas as tentativas descobrem petróleo. Quando encontram
petróleo é apregoado um grande êxito e a companhia
ansiosamente acrescenta a descoberta às suas reservas prováveis
de petróleo, sem planos firmes para desenvolver o furo. No ano passado,
a Chevron anunciou que havia extraído algum petróleo de um novo
furo 7000 pés [2134 m] abaixo da superfície do oceano a fim de
provar a sua taxa de fluxo potencial. Isto foi saudado na imprensa como a
maior descoberta americana de petróleo desde Prudhoe Bay. Contudo,
aquilo foi apenas um teste e não uma tentativa séria de produzir
petróleo, algo que permanece numa fase de avaliação.
[3]
Os executivos da indústria petrolífera devem preocupar-se pelo
facto de o Thunder Horse não poder actuar, e devem temer que ele
demonstre ser impossível operar lucrativamente. Isto é
preocupante porque esta plataforma não está em alguma área
remota, mas a menos de 200 milhas [322 km] das mais avançadas companhias
de serviços em campos de petróleo do mundo, que operaram na
área de Houston. Embora haja sempre uma curva de aprendizagem com
projectos ambiciosos, por vezes aprende-se que coisas que são
possíveis nem sempre são práticas. Enquanto isso, eles
devem ter dúvidas acerca de propostas para as enormes plataformas de
água profunda necessárias para o desenvolvimento das suas
apregoadas descobertas, bem como quanto à sabedoria de furar e a seguir
fechar mais de US$ 100 milhões de furos em águas profundas.
Seria prudente para companhias petrolíferas esperarem e verem se o
Thunder Horse demonstra-se viável, o que não será
conhecido senão vários anos após o começo da
operação. Dados os custos ascendentes, também parece
prudente esperar que os preços do petróleo subam acima dos US$100
por barril para assegurar que estes ambiciosos projectos de águas
profundas são lucrativos. No entanto, a Royal Dutch Shell está
desesperada para substituir as suas reservas em esgotamento e anunciou
recentemente um esforço para instalar uma enorme plataforma/hub
semi-submersível 8000 pés [2438 m] acima do leito do oceano.
[4]
Aqueles que acreditam que há abundância de óleo barato
sobre a Terra, ou tecnologias para produzir petróleo sintético
barato, nunca explicam porque as grandes companhias dedicam milhares de
mihões de dólares em arriscados esforços em águas
profundas.
Estas enormes plataformas/hubs de águas profundas podem jamais ser
lucrativas se furacões açoitarem-nas frequentemente e às
suas extensas linhas umbilicais e aos seus pipelines. O furacão Katrina
quase virou o Thunder Horse de cabeça para baixo, um projecto que
inicialmente era chamado "Crazy Horse". Além disso, um
estouro num furo em água profunda vomitará toneladas
petróleo no Golfo do México, e fechar um furo submarino de ultra
alta pressão com depósitos de sal a uns 7000 pés [2134 m]
abaixo das superfície utilizando ROVs pode demonstrar-se difícil,
resultando em milhares de milhões de dólares em custos
ambientais, muitas vezes o custo da fuga do Exxon Valdez. Estas
questões podem conduzir a uma nova questão contabilística:
Podem as companhias de petróleo contar as descobertas em águas
profundas como reservas provadas ou prováveis se não fazem
esforços para desenvolvê-las porque os custos são
proibitivos?
24/Abril/2007
[1] "Drilling Deep in the Gulf of Mexico,"
New York Times
, Nov. 8,
2006. Este artigo curto proporciona uma excelente vista geral das complexidades
das operações em águas profundas. Clique sobre o link do
gráfico pois ele apresenta muito mais informação.
[2] "Thunder Horse - No Ordinary Project",
BP website
, April 12,
2007.
[3] "Jack-2 and the Lower Tertiary of the Deepwater Gulf of Mexico",
The Oil Drum
, Sept. 11, 2006.
[4] "Shell Unveils Plans for Ultra Deepwater Gulf of Mexico Project",
Rigzone
, Oct. 26, 2006.
O original encontra-se em
sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1207&Itemid=105
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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