O saldo líquido de energia
por William Stanton
Este artigo chama a atenção para a questão da energia
líquida. Sem dúvida, energias renováveis de toda
espécie serão desesperadamente necessárias e merecem todo
o apoio, mas seria um erro imaginar que elas são substitutas da energia
barata e abundante do petróleo e do gás que impulsionam o mundo
moderno.
A
Apresentação referida no ítem 653
[da
ASPO Newsletter
]
promovendo a energia renovável como uma grande alternativa ao
combustível fóssil e ao nuclear não consegue estabelecer
orçamentos realistas de energia. São feitas várias
afirmações quanto ao "período de
payback
", o qual é o tempo que decorre, habitualmente uns poucos anos,
até que o custo da compra e instalação do gerador de
energia renovável seja excedido pelo valor total da electricidade que
produziu, sugerindo que a electricidade gerada a partir de então
é virtualmente sem custos.
Outros argumentarão que este documento deixa de levar em conta o custo
dos geradores de apoio
(backup)
ou das instalações de armazenagem de energia que devem entrar em
acção para fornecer electricidade quando não há
vento, quando o sol não brilha, o mar está calmo, a maré
está a mudar, ou uma seca esvazia o reservatório de água.
A minha contestação é de que tais períodos de
payback
também são enganadores porque eles são calculados em
termos de custos financeiros correntes, não em disponibilidade de
energia. Suponha-se, por exemplo, que se necessitem 100 toneladas de
aço, hoje, para construir uma turbina eólica. O preço do
aço é baseado no custo acumulado da extracção do
minério de ferro, da sua concentração, do seu transporte
em navios de carga, habitualmente através dos oceanos, na sua
conversão primeiro em ferro e a seguir em aço em
fundições, na fabricação dos componentes da turbina
e no transporte dos mesmos para o local.
Hoje o preço do aço não é proibitivo porque a
energia utilizada em todos estes procedimentos vem dos abundantes e baratos
combustíveis fósseis.
A turbina eólica também precisará de tonelagens mais
pequenas de outros metais para ligas, cabos, revestimentos, acabamentos, etc.
Estes metais são ainda mais dispendiosos em energia, vindos
principalmente de minérios de baixo teor em minas profundas que devem
ser drenadas e ventiladas. Mais uma vez, os custos de hoje são
limitados pelos combustíveis fósseis abundantes e baratos.
Os materiais de isolamento, os plásticos e a fibra de carbono das
lâminas da turbina são produzidos principalmente de um
combustível fóssil: petróleo. O outro grande componente
da turbina é betão. A rocha é escavada, esmagada e
peneirada. A brita é removida e limpa. O cimento é fabricado
escavando pedra calcárea e argila, cozendo-os juntos. Então tudo
isso é transportado para o sítio ou a fábrica, misturado e
moldado. Difíceis acessos por estrada têm de ser
construídos para sítios em terra
(on-shore),
e a turbina tem de ser montada e erguida. As visitas de
manutenção devem
ser pagas, especialmente nos sítios marítimos
(off-shore)
onde o ambiente é corrosivo e violento.
Estas actividades hoje em dia têm preços acessíveis porque
a energia envolvida vem de abundantes e facilmente transportáveis
combustíveis fósseis.
Finalmente, para a energia utilizada nas actividades e processos acima poder
ser acrescentada "a montante", ou os inputs de energia
subsidiários, há que considerar a energia utilizada
proporcionalmente na construção e manutenção
das máquinas que fazem o trabalho, na construção e
manutenção das fábricas e oficinas onde os processos
são executados, e no fornecimento para os operadores humanos da
maquinaria e suas dependências.
Hoje, quando a energia dos combustíveis fósseis ainda é
abundante e barata, o orçamento financeiro para o valor da
produção de energia versus o custo do consumo de energia é
positivo.
Agora, façamos as mesmas contas para o ano 2100, quando a energia de
combustíveis fósseis é muito escassa e cara. Você
tem uma turbina eólica e quer construir uma outra igual a ela utilizando
não mais energia do que aquela que a primeira pode produzir durante toda
a sua vida útil.
A primeira consideração é que a energia renovável
que lhe está disponível vem como electricidade, a qual é
conveniente para utilizar na sua vizinhança imediata, mas viaja
ineficientemente, seja em baterias ou ao longo de quilómetros de cabos.
Se você a converter num substitutivo do petróleo, tal como o
hidrogénio, uns 60% da sua energia intrínseca é perdida
nos processos de electrólise, compressão ou
liquefacção, e na reconversão para mover um veículo
por meio de uma pilha de combustível
(fuel cell).
Walter Youngquist
declara (1999) Um galão (3,78 litros) tem o
mesmo conteúdo energético de uma tonelada da armazenagem
eléctrica convencional em baterias". Assim, ao faltar um
combustível líquido barato e imediatamente transportável,
a alternativa pode ter de ser a electricidade, um pouco de cada vez, desde uma
multidão de geradores renováveis, estrategicamente localizados ao
longo da estrada que vai da mina à siderurgia e ao sítio final.
O transporte através dos oceanos seria um outro problema. Talvez, dada
a escassez de aço, tenha de ser em navios de madeira, impulsionados por
velas ou papagaios, uma pequena tonelagem de cada vez. Tonelada a tonelada,
comparado com um vasto navio graneleiro, a tripulação de um navio
movido a velas seria numericamente grande.
Não posso quantificar em números os
inputs
e
outputs
de energia esboçados acima, ou seus equivalentes financeiros, mas a sua
complexidade e as vastas exigências de energia convencem-me de que o que
é hoje possível, graças aos combustíveis
fósseis, será praticamente impossível quando a
única energia disponível for o miserável fornecimento
produzido, sob a forma de electricidade, por turbinas eólicas e os seus
assemelhados.
Contudo, se os materiais de uma turbina, especialmente os metais, fossem
reciclados ou recondicionados no fim da sua vida útil, o
orçamento seria muito melhorado. Se a população em 2100
for menor do que a de hoje, o aço e outros metais estarão
disponíveis para reciclagem, se eles não tiverem sido vendidos
para o estrangeiro a fim de obter lucros a curto prazo.
A única forma de energia renovável com uma história
comprovada de atender às necessidades energéticas de
populações é a biomassa, especialmente a madeira. Antes
de 1750, por exemplo, a população da Inglaterra, com menos de 6
milhões, mantinha-se aquecida, cozinhava alimentos e executava uns
poucos processos manufactureiros como trabalhos em metais e cerâmica
utilizando madeira. Esta e outras formas de biomassa tais como fibras e
plantas comestíveis sustentaram-nos, e aos seus animais, por milhares de
anos antes da Revolução Industrial.
Nossa herança científica e técnica permitirá
manipular a biomassa mais eficientemente do que o fizeram nossos ancestrais,
mas mesmo assim, dada a baixa eficiência da fotosíntese, a
biomassa renovável poderia suportar com conforto razoável apenas
uma população mais reduzida do que aquela de 1750. Levantei este
problema, sugerindo uma população de 2 milhões para o
Reino Unido, na
ASPO Newsletter
nº 55, Item 573
.
(Ver Youngquist, W., 1999. The Post-Petroleum Paradigm. Population and
Environment, v.20, No. 4).
O original encontra-se em
http://www.peakoil.ie/newsletters/740
, Artigo nº 683, Março/2006.
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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