Falsus in unum, falsus in omnibus
(Falso numa coisa, falso no todo)
por John Busby
Qual é a principal coisa que uma revisão energética
precisa abordar? É o iminente (ou talvez já ultrapassado) pico
na produção mundial de petróleo, do qual depende o mundo
inteiro para a sua mobilidade e os seus produtos químicos.
A única referência a um pico na produção de
petróleo nas 342 páginas de
"O livro branco sobre energia atendendo o desafio
energético" (
"The White Paper on Energy Meeting the Energy Challenge"
)
encontra-se no prefácio do ministro Alistair Darling, no qual admite
que a produção de petróleo e gás do Mar do Norte
atingiu o seu pico e agora está a decair.
Assim, a "única coisa" que importa o pico da
produção global de petróleo bruto é relegada
à obscuridade.
O Sumário Executivo não encara senão dois aspectos de
princípio a serem revistos:
-
Alcançar uma redução nas emissões de
dióxido de carbono
-
Garantir combustível importado.
São considerados quatro desafios:
-
Como cortar nas emissões de gases de efeito estufa
-
Combater a elevação dos preços dos combustíveis
fósseis
-
Que as reservas remanescentes de petróleo e gás estejam
concentradas no Médio Oriente, África do Norte, Rússia e
Ásia Central
-
Necessidades de investimento na produção de electricidade e na
distribuição de gás.
O Livro Branco
[1]
assume que a procura mundial de energia em 2030 será 50% mais elevada
do que hoje, mas em parte alguma põe em causa a sua disponibilidade
final, dizendo apenas que uma proporção crescente da energia do
Reino Unido virá do exterior. O que ele considera é a
segurança dos abastecimentos energéticos, os quais são
encarados como sujeitos a interferência política, ao invés
de questionar a continuidade da existência de reservas globais adequadas.
O petróleo, o gás e o carvão são assumidos
desempenharem um papel significativo no atendimento das necessidades
energéticas mundiais no futuro previsível e "precisamos
encontrar meios para reduzir as suas emissões". Planear para um
futuro com apenas um pouco de petróleo, gás e carvão
não faz parte da sua jurisdição.
Preocupações acerca da mudança climática e da
dependência da energia importada subjugaram a restrição da
utilização de energia para o fim do amontoado de
considerações e mesmo assim o objectivo é salvar o planeta
do aquecimento, não conservar as reservas ainda existentes.
A "única coisa" que realmente importa, o atingir do pico da
produção global de petróleo bruto, é relegada ao
esquecimento.
POUPAR ENERGIA
Ainda assim o Livro Branco afirma que "o ponto de partida da nossa
política energética é poupar energia". Argumenta ele
que precisamos melhorar a eficiência energética de produtos como
carros e electrodomésticos enquanto pressionamos por padrões
internacionais de forma a restringir o comércio.
Deixa assim de considerar que a melhoria da eficiência energética
de produtos individuais significa simplesmente que poderá ser obtida
mais utilização do mesmo com a mesma quantidade de
combustível. Se forem utilizados mais produtos, as poupanças em
energia serão neutralizadas e, como a utilização pode ser
expandida ainda mais, mais energia será consumida. Sem um limite ou
restrição à utilização ou
modificações na maneira de utilizá-la, as melhorias na
eficiência energética são ineficazes.
Exemplo: para um carro existe uma velocidade óptima para o consumo
mínimo de combustível. Muitos carros modernos têm
computadores que mostram o consumo específico no painel de instrumentos
de modo a que o condutor possa ajustar a velocidade a fim de obter a
máxima economia de combustível. A velocidade óptima
é algo em torno dos 100 km/h. No Reino Unido o limite em pistas duplas
é de 113 km/h (70 m/h), mas este é excedido frequentemente. A
imposição de um limite europeu de velocidade de 100 km/h foi
advogada em 2005 pelo comissário Andris Piebalgs como medida para a
poupança de combustível e redução de acidentes, mas
desde então isto raramente tem sido mencionado. Seria possível
para o computador dentro do carro ajustar a velocidade do carro automaticamente
a fim de obter um consumo óptimo de combustível
[2]
.
Os carros importados da Alemanha têm reguladores electrónicos de
velocidade ajustados a um limite de 250 km/h, mas eles poderiam facilmente ser
ajustados para, digamos, 120 km/h para a sua utilização no Reino
Unidos ou poderiam ser ajustados para um padrão de 100 km/h na Europa
como medida de alívio do aquecimento global.
Uma pesquisa da palavra "velocidade" por todo o Livro Branco revela
que embora seja aceite que na área do transporte "o comportamento
dos indivíduos possa ter um grande impacto", a palavra é
utilizada apenas em referência à aceleração de
procedimentos administrativos.
Há muitas actividades que poderiam ser modificadas a fim de provocar uma
redução na utilização de combustível. As
corridas de Fórmula Um, por exemplo, consomem vastas quantidades de
combustível e borracha, mas o comparecimento de espectadores e
comentadores consome ainda mais. Sua defesa é que isto serve de teste
para motores e componentes, mas outros métodos de desenvolvimento
utilizariam menos combustível. As corridas poderiam ser restringidas
por exemplo aos biocombustíveis a fim de desenvolver melhores motores
alternativos àqueles que utilizam combustíveis com base no
petróleo e que fossem neutros em carbono, mas actualmente elas inspiram
sobretudo "amantes da velocidade" e a utilização de
carros super motorizados nas estradas.
No que se refere à poupança de energia, o Livro Branco tem de
conformar-se ao "business-as-usual" ou pouco mais e não
vê necessidade de estimular a inevitável "fúria da
estrada".
ABASTECIMENTOS DE ENERGIA "LIMPA"
Tendo fracassado em apresentar quaisquer sugestões sobre como o
comportamento humano poderia ser modificado, ou mesmo da necessidade disto, o
Sumário Executivo volta-se para o fornecimento de fontes de energia mais
"limpas".
Incontroversa é a medida relativa à micro-geração,
pela qual os proprietários das casas instalam dispositivos
eólicos, solares e bombas de calor com os incentivos da
redução das suas contas de energia e inclusive de transferir o
seu excedente à rede mediante remuneração.
A utilização da biomassa é considerada como neutra em
carbono, porque este está fixado a partir da atmosfera antes da
combustão. Nesta categoria estão as caldeiras domésticas
a lenha. A utilização de biomassa para a produção
de combustíveis líquidos é controversa, porque o
fornecimento de óleos vegetais é cultivado na terra
necessária à produção de alimentos.
O documento assume que a energia descentralizada desenvolver-se-á
juntamente com o sistema centralizado, mas com este último a ocupar
claramente a cabine de comando na batalha pelo "business-as-usual".
A produção de electricidade em grande escala deverá vir de
renováveis, carvão "limpo" e do nuclear.
O carvão "limpo" com sequestro do carbono pode ser posto de
lado porque teoricamente exige a combustão de 27% a 37% mais
carvão para a mesma produção eléctrica, o que na
prática significaria que teria de ser extraído até mais
50% de carvão. A perda de um terço da produção de
carvão para a tecnologia do carvão "limpo" seria
inaceitável para países como a China e a Ucrânia onde a
mineração subterrânea é custosa em vidas e onde
proporciona a energia do crescimento económico. O governo está a
lançar uma competição para demonstrar a captura e
armazenagem do carbono em escala comercial, mas provavelmente não
haverá vencedores se a massa fundamental e os balanços
térmicos forem levados em conta.
[3]
Isto deixa renováveis como o solar, a eólica e as correntes
marítimas de um lado e a energia nuclear do outro. Os lobbies das
renováveis e do nuclear estão em divergência, receando que
os fundos destinados a um venham a ser negados ao outro. O lobby nuclear ataca
o lobby do vento quanto à sua variabilidade, esquecendo que o nuclear
tem a desvantagem oposta de que à noite, quando o consumo é
baixo, ele não pode ser prontamente desligado. Sistemas de armazenagem
por bombagem e "permutas de potência"
("power-swaps")
em canais cruzados, juntamente com aquecedores domésticos de
armazenagem à noite a uma carga mais baixa foram introduzidos a fim de
melhorar esta desvantagem do nuclear. Virtualmente há sempre algum
vento em toda a parte do Reino Unido, assim a resposta à variabilidade
é a rede e a armazenagem adicional por bombagem pela qual a água
pode ser elevada quando sopra o vento.
[4]
Tanto as renováveis como o nuclear sofrem a necessidade de
subsídios. Suplementos obrigatórios para o aumento de
combustíveis convencionais são impostos no caso desta
última, ao passo que créditos de carbono sem garantia com base em
falsas afirmações de que operam com pouco carbono serão
passados ao nuclear. O surgimento do pico petrolífero, juntamente com a
iminência do pico do gás e do carvão, significa que quando
as reservas de combustíveis fósseis declinam o fardo dos altos
custos dos combustíveis seria lançado sobre os produtores
convencionais e os consumidores industriais. Eles ficariam assim totalmente
incapazes de pagar tributos adicionais sobre as emissões de carbono
necessárias a fim de proporcionar créditos aos seus competidores
alegadamente "limpos".
Além disso, como a quantidade real de carbono produzido pelas reservas
em declínio também estará a reduzir-se, o carbono
comerciável seria inadequado para sustentar as agências criadas
para tal propósito. As projecções do Hadley Centre e da
"teoria económica" de Stern dependem de um "jamais
esvaziar da papa na caçarola dos combustíveis
fósseis" tal como a concebe o Protocolo de Quioto e todos os demais
equivocados.
A única energia "limpa" real vem do sector das
renováveis, mas o seu fornecimento é provavelmente limitado a
cerca de 20% da actual produção de electricidade. Para
ultrapassar a produção dos combustíveis fósseis
seria preciso um nível impossível de renováveis. A
energia para o transporte vinda das renováveis também será
marginal e deveria ser confinada ao abastecimento sobre carris, o qual
proporciona a sua melhor utilização.
O hidrogénio é produzido principalmente a partir do gás
natural, de modo que a sua produção livre de carbono teria de ser
feita através da electrólise, a qual, juntamente com a energia
necessária para a sua liquefação, é muito
ineficiente. A energia nuclear proporciona apenas 6% da energia
primária mundial, ou uns meros 2,5% da energia eléctrica, de modo
que não tem possibilidade de dar uma contribuição adequada
ao transporte através da produção de hidrogénio.
No entanto, o Livro Branco foi escrito basicamente com o objectivo de
re-introduzir a energia nuclear, numa tentativa de manter o
"business-as-usual". Uma vez que o urânio é 100%
importado e escasso, ele não apresenta segurança adicional quanto
ao abastecimento. Um sector nuclear expandido não pode compensar o
esgotamento das reservas de petróleo pois o fornecimento do seu
combustível está sujeito ao mesmo processo de esgotamento.
Energia nuclear
O Livro Branco assume que a energia nuclear é uma "fonte de carbono
fraca", embora ao longo de várias consultas e exames muitas
tentativas tenham sido feitas para mostrar que quando o conjunto dos elementos
do ciclo total do combustível nuclear tiverem sido levados em conta,
isto está longe de verificar-se. A diminuição dos teores
disponíveis do minério de urânio quando os teores mais
elevados forem exauridos significa que ao longo do tempo há um aumento
progressivo nas emissões de carbono provenientes do ciclo total do
combustível.
Uma paralização
("cuf-off")
económica ocorre bem antes de ser atingido o ponto em que muito
material tem ser movido e processado de modo a que a energia exigida para a
mineração e moagem, juntamente com outros inputs de energia no
ciclo de combustível, exceda o output de energia eléctrica. No
ponto da "encruzilhada", quando os inputs de energia excederem o
output, as emissões de carbono resultantes dos inputs de energia
equivaleriam ou excederiam aqueles de uma central termoeléctrica a
gás, mas a paralisação económica da
mineração prevaleceria antes que esta fosse atingida.
O baixo status de carbono da energia nuclear é um elemento essencial da
estratégia do Livro Branco, porque em teoria pode ganhar os seus
créditos de carbono a expensas dos utilizadores de combustíveis
fósseis, roubando Pedro para dar a Paulo. Na prática a energia
nuclear não ganharia todos os seus desejados créditos se forem
levadas em conta as emissões nos países de origem do
combustível e na sua fabricação.
O programa nuclear britânico, desde o seu início em 1945
até o fim previsto da produção em 2035 e para além
desta data no próximo século com a respectiva
administração dos resíduos, foi e será um desastre
financeiro. Custará aos consumidores e contribuintes uns estarrecedores
£150 mil milhões [223 mil milhões] por electricidade
que vale £50 mil milhões [74 mil milhões]. Um sinal
disto emergiu com a privatização da produção e
distribuição de electricidade, a qual levou à necessidade
da intervenção do governo para recuperar a British Energy da
bancarrota. A indústria nuclear francesa, aparentemente animada,
abarcando produção, centrais e fabricação do
combustível, é predominantemente estatal e nunca teria emergido
sem capital do Estado.
Mas o cerne do assunto é a disponibilidade de urânio. Tal como os
outros minerais energéticos petróleo, gás e
carvão , ele está sujeito à curva de Hubbert em
feitio de sino, com ascensão, pico e declínio. Excepto no
Casaquistão, a produção mineira de urânio
primário está em declínio, ao passo que as fontes
secundárias de antigas armas e stocks estão a diminuir. A
produção primária global, que atende apenas 60% da
procura, caiu 5% em 2006 em relação à de 2005, devido a
uma queda de 15% no Canadá e de 20% na Austrália, os quais em
conjunto fornecem mais da metade do total
[5]
.
Se houver um "renascimento" nuclear em que o número de
centrais em operação aumenta, tanto com instalações
novas (promovidas por todo o mundo) como pela extensão das vidas da
frota actual, a actual produção primária de urânio
terá de duplicar na próxima década para satisfazer
à procura acrescida e para substituir fontes secundárias. O
único projecto de alguma dimensão, a expansão da mina
Olympic Dam a céu aberto no Sul da Austrália, capaz de atender
20% da procura mundial em 2014 quando (e se) arrancar dentro do prazo, depende
para a sua viabilidade de co-produtos de cobre, ouro e prata. Se não
houver recessão mundial até então e o preço do
cobre permitir-lhe que ultrapasse o seu estudo de factibilidade em 2009 e
avançar em frente, a sua contribuição para a oferta de
urânio será insuficiente para sustentar as
aspirações de tantos países candidatos.
O Livro Branco aceita as afirmações falaciosas do manual da
indústria, o
"Red book"
publicado pela OCDE/NEA, argumentando
que elevações no seu preço permitirão que as
reservas de urânio se expandam de modo a que os teores mais baixos de
minério se tornem económicos. As reservas de um recurso
energético são inúteis e permanecerão no solo a
menos que a energia exigida para extraí-las e utilizá-las seja
muito menor do que aquela que proporcionará a seguir. As minas
individuais apresentam as suas curvas de Hubbert do pico de
produção e finalmente a agregação de todas as
curvas das minas proporcionará um pico global.
[6]
Isto tem sido mascarado pela estagnação passada e pela
utilização de fontes secundárias, mas um pico do
urânio em breve será evidente. Um histórico das minas
canadianas
[7]
ilustra bem a aplicabilidade das curvas de Hubbert.
Os anos moribundos da energia nuclear serão caracterizados pela retirada
de enfraquecidos reactores velhos e por uma falta de combustível,
enquanto o "renascimento" estagnará.
Falsus in unum, falsus in omnibus
O evento mais significativo na moderna história económica
será a passagem de "todos os picos" na soma da
produção de petróleo convencional e não
convencional. No Reino Unido a passagem do pico petrolífero do Mar do
Norte resultou na dependência dos fornecimentos externos e por enquanto o
seu poder de compra permitirá que a sua economia cresça.
O gás, o carvão e o urânio serão incapazes de
substituir eficientemente a perda da oferta de combustíveis
líquidos, com consequências desastrosas para as indústrias
dos transportes terrestres e da aviação. Uma
redução marginal na oferta restringirá o movimento, mas o
transporte rodoviário e o tráfego aéreo crescem
absolutamente, de modo que encomendas por veículos e aviões
serão canceladas.
Não haverá necessidade
de melhorias em estradas e
de mais pistas de descolagem
[NT]
, de modo que contratos de construção serão cancelados ou
pelo menos adiados.
Há muitas actividades desnecessárias que dependem de produtos
petrolíferos, tais como desportos a motor e viagens aéreas, as
quais serão sacrificadas a fim de que uma vida razoável possa
continuar, mas as consequências da cegueira do governo quanto à
questão real serão catastróficas. O Livro Branco, se bem
que reconhecendo a passagem do pico petrolífero do Reino Unido,
fracassou em considerar as consequências do pico petrolífero
global. Ele preferiu desviar a atenção para o problema
secundário do aquecimento global secundário porque o
esgotamento das reservas de combustíveis fósseis (dentre as quais o
petróleo é a preocupação primária)
reduzirá progressivamente a dinâmica de uma mudança
climática.
Ao ser falso nesta "uma coisa" [o Livro Branco] é falso em
tudo o mais, incluindo a sua promoção da energia nuclear para
cuja re-introdução foi destinado.
21/Junho/2007
[1]
http://www.dti.gov.uk/files/file39387.pdf
[2]
http://www.lowcvp.org.uk/assets/other/lowcvp_challenge_booklet.pdf
, Paper 4, page 28 /PDF 36
[3]
http://web.mit.edu/coal/The_Future_of_Coal.pdf
[4]
http://www.eci.ox.ac.uk/publications/downloads/sinden05-dtiwindreport.pdf
[5]
http://www.world-nuclear.org/info/uprod.html
[6]
http://www.energiekrise.de/uran/docs2006/REO-Uranium_5-12-2006.pdf
[7]
http://uic.com.au/nip03.htm
[NT] Sublinhado do tradutor.
O original encontra-se em
sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1263&Itemid=105
.
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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