Putin desafia os maltusianos:
A energia de fusão é uma prioridade nacional para a Rússia

por Matthew Ehret [*]

Num discurso em 9 de Julho na 2ª Cimeira Global de Produção e Industrialização em Yekaterinburg, Rússia, o presidente Putin fez uma brilhante intervenção quanto à falta de visão da ética anti-crescimento (e anti-humana) característica da ordem mundial neoliberal e declarou que a liderança da Rússia na energia de fusão é uma prioridade nacional.

Falando a 2500 representantes dos sectores público e privado, o Presidente Putin expôs o paradoxo da necessidade de desenvolvimento da humanidade, a qual muitas vezes vem a expensas da saúde da biosfera, ao dizer: "Ainda não está claro como combinar o desenvolvimento a longo prazo e o fortalecimento da produção preservando ao mesmo tempo a natureza e altos padrões de vida".

Ao atacar os tecnocratas anti-crescimento que promovem uma travagem do progresso e a diminuição da população mundial, Putin afirmou: "Isto gera apelos pelo abandono do progresso o que possibilitará, na melhor das hipóteses, perpetuar a situação e criar bem-estar local para uns poucos selectos. Mas, ao mesmo tempo, milhões de pessoas teriam de se conformar com o que têm hoje, ou seria mais apropriado dizer com o que não têm hoje: acesso à água potável, alimentação, educação e outros aspectos básicos da civilização".

Afastando-se desta cosmovisão cínica, Putin afirmou que " é impossível e inútil tentar impedir o progresso humano. A questão é em que base pode este progresso ser construído realistamente a fim de alcançar as metas de desenvolvimento do milénio estabelecidas pelas Nações Unidas?" Respondendo a sua própria pergunta, Putin expôs o importante papel do poder da [energia da] fusão como o fundamento para uma harmonização entre o reino da natureza (a biosfera) e o âmago da razão criativa (a tecnosfera): "soluções científicas, de engenharia e de fabricação super-eficientes nos ajudarão a estabelecer um equilíbrio entre a biosfera e a tecnosfera... a energia da fusão a qual, de facto, é semelhante à produção de calor e luz na nossa estrela, o sol, é um exemplo de tais tecnologias naturais".

Putin prosseguiu descrevendo o papel condutor do Instituto Kurchatov, o qual já iniciou um projecto sobre reactores híbridos de cisão-fusão (fission-fusion) e que estarão operacionais em 2020, bem como o seu papel no impulsionar da ciência avançada. Esta será uma força criativa para o programa do International Thermonuclear Experimental Reactor (ITER), em França, que está programado para entrar em serviço, com o seu primeiro plasma, em 2025.

A recuperação de um paradigma esquecido

Outrora, discursos como este de Putin eram comuns no Ocidente, quando o progresso científico/tecnológico era reconhecido como a base de existência para a civilização.

Mas isto foi antes de ter sido criada a "nova moralidade" na esteira da contracultura do sex-drugs-rock and roll de 1968. O "velho paradigma obsoleto da família nuclear" que Woodstock procurou substituir reconheceu a simples verdade de que "uma vez que todos nós um dia estaremos mortos, para que servem nossas vidas se não deixarmos algo melhor para nossos filhos e para aqueles que ainda não nasceram? Este era o fundamento para a fé no progresso científico e tecnológico que animou o combate da humanidade contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial e o lançamento da humanidade para além dos seus limites, explorando o espaço e os segredos do átomo.

O presidente da Comissão de Energia Atómica, Lewis Strauss, exprimiu esta ética brilhantemente em 1958, quando disse: "Espero viver o suficiente para ver a mesma força natural que impulsiona a bomba de hidrogénio domada para fins pacíficos. Um grande avanço pode ocorrer amanhã ou daqui a uma década. Dos nossos laboratórios pode sair uma descoberta tão importante quanto o domínio do fogo de Prometeu".

Por que ainda não alcançámos a fusão?

A questão válida ainda permanece: Se os estadistas e os formuladores das políticas dominantes durante os anos pós Segunda Guerra Mundial acreditaram tão profundamente no poder da fusão, por que não atingimos os grandiosos objectivos, como a fusão, definidos como metas nacionais na década de 1980 ou antes?

O modo mais simples de dizer isto é que os maltusianos venceram.

A década de 1970 viu o Ocidente sofrer um subtil golpe de Estado com a eliminação de todos os líderes nacionalistas comprometidos na defesa das suas populações contra o ressurgimento de uma oligarquia financeira. Muito recentemente esta oligarquia fracassara em conseguir a dominação mundial sob Hitler e Mussolini. Depois de o último bastião de resistência a este golpe ter sido morto com o assassinato de Bobby Kennedy e Martin Luther King, em 1968, organizações não-governamentais foram rapidamente constituídas para anunciar uma nova ética sob a orientação do 1001 Club, do Clube de Roma e do World Wildlife Fund. Estas organizações estavam cheias de antigos eugenistas e imperialistas como o príncipe Bernhard da Holanda (fundador do 1001 Nature Trust e do Bilderberg Group), o seu amigo príncipe Philip Mountbatten e sir Julian Huxley. Todos os três oligarcas foram co-fundadores do World Wildlife Fund .

Os referidos grupos financiaram uma nova "ciência dos limites" a fim de promover a ideia de que a maior ameaça à humanidade era a própria humanidade, ao invés da escassez, da guerra, da fome ou de qualquer outro subproduto do imperialismo tal como se acreditava anteriormente. O príncipe Philip incorporou esta ética elitista descaradamente quando disse em 1980: "O crescimento da população humana é provavelmente a mais séria ameaça à sobrevivência a longo prazo. Estamos à beira de um grande desastre se não for contido... Não temos opção".

Um dos primeiros maltusianos a ganhar o controle da política dos EUA durante este período foi Henry Kissinger, que afastou os EUA de uma política de apoio ao desejo de progresso industrial das antigas colónias e [defendeu] uma política de controle populacional no seu relatório NSSM 200 de 1974 . Ali se diz: "A economia dos EUA exigirá grandes e crescentes quantidades de minerais do exterior, especialmente de países menos desenvolvidos. Esse facto dá aos EUA o maior interesse na estabilidade política, económica e social dos países fornecedores. Onde quer que a diminuição de pressões populacionais através da redução das taxas de natalidade possa aumentar as perspectivas de tal estabilidade, a política populacional torna-se relevante para o abastecimento de recursos e para os interesses económicos dos Estados Unidos... Embora a pressão populacional obviamente não seja o único factor envolvido, estes tipos de frustrações são muito menos prováveis sob condições de crescimento lento ou nulo da população".

Kissinger foi acompanhado por outro maltusiano chamado George Bush Sr., então um congressista que presidia uma Força Tarefa sobre a Terra, Recursos e População, o qual em 8 de Julho de 1970 disse: "É quase auto-evidente que quanto maior a população humana, maiores as demandas por recursos naturais… A questão primordial refere-se a uma população humana [de dimensão] óptima. Quantas pessoas são demasiadas em relação aos recursos disponíveis? Muitos acreditam que nossos actuais problemas ambientais indicam que o nível óptimo foi ultrapassado".

Assim como Sir Kissinger e Sir Bush (foram condecorados em 1995 e 1993, respectivamente) reposicionaram a América rumo a uma agressiva política externa anti-crescimento para países do terceiro mundo, uma política de desindustrialização estava em andamento também dentro dos próprios Estados Unidos pois o sector produtivo de máquinas-ferramenta e o sistema de pequenas/médias empresas agro-industriais estava a ser desmantelado como preparação para uma era de globalização neoliberal. Para assegurar que fosse mantida a nova ética de "adaptar-se aos limites" ao invés de tentar transcender estes limites com novas descobertas, programas tais como o programa espacial Apolo foram cancelados por "razões orçamentais" seguidos logo após por um deliberado enfraquecimento dos ambiciosos programas de energia da fusão que haviam sido desencadeados durante a década de 1950 e cujo orçamento subiu de US$114 milhões em 1958 para US$140 milhões em 1968. O orçamento continuaria a subir com conquistas recordes lideradas pelo Laboratório de Física de Plasmas de Princeton que rompeu a marca dos 44 milhões de graus para iniciar fusão em 1978 e rompeu recordes internacionais ao alcançar um plasma de 200 milhões de graus em 1986.

Ao invés de financiar a fusão e encorajar a construção de novas concepções e protótipos tão necessários a esta transformação da sociedade, ocorreu o oposto, como um subfinanciamento sistémico e o colapso de visão que levou à desmoralização de cientistas nucleares que não podiam executar seus experimentos. Ao abandonar seu posto como Director de Fusão do Departamento de Energia dos EUA em protesto contra a sabotagem, Ed Kintner disse que "deixa o programa de fusão sem uma espinha dorsal estratégica – é uma colecção de projectos e actividades individuais sem uma missão definida ou cronograma... O plano para aumentar o envolvimento da indústria no desenvolvimento da fusão é adiado indefinidamente e os benefícios industriais e económicos dos desdobramentos (spin-offs) da alta tecnologia, certamente um subproduto cada vez mais importante de um programa acelerado de tecnologia de fusão, serão perdidos".

Indicativo da filosofia desonesta utilizada para justificar a rejeição americana da investigação da fusão, um dos pais do revivalismo neo-maltusiano, Paul Ehrlich que em 1968 escreveu a Bomba Populacional, disse numa entrevista de 1989 que fornecer energia barata e abundante para a humanidade era " como dar uma metralhadora para uma criança idiota".

Um seu discípulo e co-autor de Ehrlich que se tornou o "czar da ciência" sob Barak Obama foi o biólogo John Holdren, o qual em 1969 escreveu: "A decisão a favor do controle populacional será contrariada por economistas e empresários preocupados com o crescimento, por homens de Estado nacionalistas, por líderes religiosos apaixonados e pelos míopes e bem alimentados de toda espécie. Cabe portanto a todos os que sentem as limitações da tecnologia e a fragilidade do equilíbrio ambiental fazerem-se ouvir acima do coro vazio e optimista – convencer a sociedade e seus líderes de que não há alternativa senão a cessação do nosso crescimento populacional irresponsável, que exige tudo e tudo consome".

A morte imanente do maltusianismo

O presidente Putin afirmou recentemente, em entrevista concedida ao Financial Times em 27 de Junho , que a ordem neoliberal a qual definiu o Ocidente nas últimas décadas é obsoleta. Com seu forte apoio à energia da fusão e um retorno a uma política de crescimento industrial global ao lado da Iniciativa da Estrada da Seda (Belt and Road), o Presidente Putin identificou claramente a visão de mundo neo-maltusiana como entrelaçada no tecido do liberalismo. Assim como o liberalismo nega verdades objectivas de princípio em favor da opinião popular, o neo-maltusianismo só pode prosperar quando um "consenso" de pessimismo cega suas vítimas à verdade da capacidade natural da humanidade de fazer constantes descobertas intencionais e traduzir tais descobertas em novas tecnologias que levem a nossa espécie a sempre maiores estados de potencial (material, moral e cognitivo).

Enquanto o animal maltusiano está comprometido com a crença de que a humanidade só pode se adaptar à escassez sob um sistema fechado de recursos fixados por elites privilegiadas, humanistas como Putin e Xi Jinping reconhecem que a natureza da espécie humana não se encontra na carne, mas nos poderes da mente que nos caracterizam como uma espécie única capaz de fazer descobertas sem fim num universo criativo crescente que pode ser caracterizado da mesma maneira que Beethoven descreveu sua música: tão rigorosa quanto é livre.

Esta declaração simples reflecte uma verdade poderosa que os liberais e maltusianos não suportam: O poder natural de mudança criativa do universo – que pode ser descoberto pelo poder amadurecido da razão criadora permitida pela coexistência da legalidade e da liberdade sob a condição única de harmonizarmos nossas vontades e razão pelo amor à verdade e aos nossos semelhantes.

16/Julho/2019

[*] Jornalista de investigação, autor de The Untold History of Canada , fundador da Canadian Patriot Review e co-fundador da Rising Tide Foundation .

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Jul/19