A dependência do petróleo e o risco económico
por Alan Greenspan
Agora que está aposentado, o ex-presidente do banco central dos EUA
ousa dizer, à sua maneira, algumas verdades acerca da dependência
petrolífera e da vulnerabilidade aos riscos que ameaçam o mundo.
O texto abaixo é parte de um testemunho de três horas
prestado em 7 de Junho perante a Comissão de
Relações Externas do Senado americano. Os sublinhados a negro são
de resistir.info.
Declaração de Alan Greenspan
Presidente da Greenspan Associates LLC
Perante o Committee on Foreign Relations United States Senate
7 de Junho de 2006
Sr. Presidente, Senador Biden e membros do Comité:
Esta manhã tentarei pormenorizar como
o equilíbrio da oferta e
procura mundial tornou-se tão precário que mesmo pequenos actos
de sabotagem ou insurreições locais têm um impacto
significativo sobre os preços do petróleo.
Os negócios
americanos, até à data, conseguiram em grande medida
alcançar melhorias de produtividade que contiveram os custos da energia.
As famílias americanas, no entanto, estão a lutar com os
preços crescentes da gasolina.
Mesmo antes dos devastadores furacões do último verão, os
mercados mundiais de petróleo estiveram sujeitos a um grau de
tensão não experimentado durante uma geração.
Os preços do petróleo têm estado persistentemente a subir
desde 2002 quando aumentos no consumo global de petróleo absorveram
progressivamente o amortecedor
(buffer)
de vários milhões de barris por dia de excesso de capacidade que
mediavam a produção e a procura.
Hoje a produção mundial de petróleo sustem-se em cerca de
85 milhões de barris por dia, e subsiste pouco excesso de capacidade.
Quanto de excesso de capacidade, e que qualidade de petróleo, é
um assunto de debate. Mas não importa qual a resposta precisa,
o amortecedor entre a oferta e a procura é demasiado pequeno para
absorver encerramentos temporários ou mesmo uma pequena parte da
produção mundial.
Além disso, ameaças crescentes de violência em campos
petrolíferos, oleodutos, instalações de armazenagem e
refinarias, especialmente no Médio Oriente, aumentaram a procura privada
para manter stocks de petróleo à escala mundial.
Os utilizadores de petróleo consideram que precisam estar preparados
para a possibilidade de que em algum ponto um assalto repentino possa ter
êxito, com um impacto devastador na oferta.
Durante a maior parte da história do petróleo, os seus produtores
e consumidores determinaram o seu preço. Somente aqueles que podiam
armazenar fisicamente grandes quantidades de petróleo tinham a capacidade
para comerciar. Mas avanços importantes nas finanças abriram o
mercado para um número de participantes muito maior. Houve uma grande
irrupção do comércio de venda livre
(over-the-counter),
de petróleo a termo
(futures)
e outras mercadorias derivadas
(commodity derivatives).
Assim, quando no último par de ano ficou aparente que a
indústria mundial de petróleo não estava a investir o
suficiente para expandir a capacidade de produção de
petróleo bruto de forma suficientemente rápida para atender
à procura em ascensão, um número crescente de fundos hedge
e outros investidores institucionais começaram a licitar
(bidding)
petróleo. Eles acumularam substanciais posições longas
líquidas
(net long positions)
nos futuros de petróleo bruto, em grande parte no mercado de venda
livre. Estes contratos de futuros net long, com efeito, constituíram
uma aposta em que os preços do petróleo ascenderiam. Os
vendedores daqueles contratos a investidores, quando todas as
acções compensatórias são consideradas, têm a
necessidade de apresentar possuidores de milhares de milhões de barris
de stocks privados de petróleo mantidos por todo o mundo
nomeadamente, os produtores e consumidores.
Mesmo pensando que os stocks de petróleo aumentaram significativamente
nos últimos anos, persistentes movimentos de preços em subida
tornaram aparente que o aumento das reivindicações
(claims)
sobre os stocks mundiais de petróleo provavelmente excedeu estes
stocks. A extensão do surto de participação de
instituições financeiras em reivindicações sobre
barris reais de petróleo é reflectida na quase
triplicação do valor teórico
(notional)
de
commodity derivatives
(excluindo metais preciosos) durante os quatro trimestres de 2005 relatados
pelos bancos comerciais americanos. A maior parte daqueles contratos
são de petróleo. A acumulação de
net long positions
em petróleo no New York Mercantile Exchange por negociantes
não-comerciais, o que equivale dizer por investidores, apresentou um
padrão semelhante.
Os novos participantes, investidores e especuladores, no mercado mundial de
petróleo de dois milhões de milhões
(trillion)
de dólares por ano estão a apressar o processo de ajustamento
que se tornou muito urgente com a virtual eliminação do
amortecedor
(buffer)
da oferta mundial. Com a procura da comunidade de investimentos, os
preços do petróleo moveram-se mais cedo do que o teriam feito de
outra forma. Além disso, tem havido um grande aumento nos stocks de
petróleo. Em resposta a preços mais elevados, os produtores
aumentaram a produção dramaticamente e algum consumo foi
desescalado. Apesar de a capacidade produtiva de petróleo bruto ser
ainda inadequada, ela também aumentou significativamente ao longo dos
últimos dois anos em resposta ao preço.
Hipoteticamente,
se ainda tivéssemos os 10 milhões de barris por dia da capacidade
excedentária que existia há duas décadas atrás, nem
cortes na procura nem encerramentos temporários de
produção por violência, furacões ou
manutenções não programadas estariam a ter, se tivessem,
impacto sobre o preço.
Contudo, retornar a tal nível de capacidade excedentária parece
fora do alcance no futuro previsível. Isto não é porque
haja qualquer escassez de petróleo no terreno. O problema é que,
aparte a Saudi-Aramco, poucas, se é que alguma, das companhias nacionais
de petróleo que possuem a maior parte das reservas provadas do mundo
estão a investir bastante do seu fluxo de caixa para converter as
reservas em capacidade produtiva de petróleo bruto. Apenas a
Saudi-Aramco parece suficientemente preocupada, pelo menos publicamente, em que
os altos preços venham a reduzir a procura por petróleo a longo
prazo, o que diminuiria significativamente o valor das reservas de
petróleo da Arábia Saudita ou, na verdade, das de qualquer
país.
Embora os gastos em capacidade produtiva estejam a ascender, a
proporção significativa dos rendimentos do petróleo
mantida como activos financeiros sugere que muitos governos percebem que os
benefícios de investir em capacidade adicional para atender a procura
mundial ascendente de petróleo bruto são limitados. Além
disso, grande parte do rendimento petrolífero foi divergido para atender
as necessidades de alta prioridade de populações em crescimento
rápido. A menos que tais políticas, instituições
políticas e atitudes mudem, é difícil antever uma taxa de
reinvestimento da parte destas economias que seja adequada para atender a
crescente procura mundial de petróleo. Alguns membros da
Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(OPEP) anunciaram recentemente planos de expansão. Mas é
difícil julgar quão firmes são esses planos. Eles e
outros países recusaram ofertas de companhias internacionais de
petróleo para ajudar a explorar
(tap)
suas reservas. Oportunidades para expandir alhures a produção
de petróleo são limitadas a uma poucas regiões,
nomeadamente a antiga União Soviética.
Além dos temidos défices
(shortfalls)
na capacidade de petróleo bruto,
a adequação da capacidade mundial de refinação
tornou-se também inquietante.
Ao longo da última década, a produção de
petróleo bruto ascendeu mais rapidamente do que a capacidade de
refinação. Uma continuação desta tendência
em breve tornaria a falta de capacidade refinadora o constrangimento
forçado para o crescimento da utilização de
petróleo. Isto pode estar já a acontecer em certos graus de
petróleo, dada o
crescente descompasso entre o conteúdo mais pesado e mais ácido
da produção mundial de petróleo bruto e a procura mundial
ascendente por produtos mais leves e mais suaves.
Há portanto uma necessidade especial de acrescentar capacidade de
craqueamento e dessulfurização para converter o peso
específico e o conteúdo de enxofre médios de grande parte
do petróleo mundial nos petróleos mais leves e mais suaves
necessários aos mercados de produtos, os quais estão cada vez
mais dominados por combustíveis de transportes que devem cumprir
exigências ambientais cada vez mais estritas. Mas a expansão e
modernização das refinarias mundiais está atrasada.
Exemplo: nenhuma nova refinaria foi construída nos Estados Unidos desde
1976. A consequência do atraso na modernização reflecte-se
num significativo aprofundamento do diferencial
(spread)
de preço entre os brutos
light
de preços mais elevados como o Brent, que são mais fáceis
de refinar, e os brutos mais pesados, como o Maya, que não o são.
Sem dúvida a capacidade de refinação continua a
expandir-se, ainda que demasiado gradualmente, e a exploração e
desenvolvimento do petróleo está a continuar, mesmo em
países industriais. A conversão das vastas reservas de areias
petrolíferas de Athabasca, em Alberta, em capacidade produtiva, ainda
que lenta, tornou esta fonte não convencional de petróleo
altamente competitiva com os preços actuais do mercado. Contudo, apesar
da tecnologia melhorada e dos preços elevados,
os acréscimos nas reservas provadas no mundo desenvolvido não
avançaram com a produção, de modo que aquelas reservas
estão a ser esgotadas.
A história do petróleo mundial é a de uma indústria
em crescimento rápido em que os produtores procuraram proporcionar
preços estáveis aos consumidores para encorajar o crescimento da
procura. Na primeira década do século XX, o poder de determinar
o preço estava firmemente nas mãos de americanos. Mesmo
após o rompimento do monopólio da Standard Oil em 1911, o poder
de terminar preços permaneceu com os Estados Unidos primeiro com
companhias de petróleo americanas e depois com a Texas Railroad
Commission, a qual levantou limites à produção a fim de
suprimir aumentos súbitos e cortou produção para impedir
declínios agudos nos preços.
Na verdade, ainda na década de 1950, a produção de
petróleo bruto nos Estados Unidos (mais de 40% da mesma era no Texas)
ainda representava mais da metade do total mundial. Em 1951, o excesso de
bruto do Texas foi despejado no mercado para conter o impacto da
nacionalização do petróleo iraniano sobre os
preços. O excesso americano de petróleo foi mais uma vez
libertado para o mercado para conter as pressões de preço
induzidas pela crise de Suez de 1956 e pela Guerra Árabe-Israelense de
1967.
O papel histórico americano no petróleo terminou em 1971, quando
a procura mundial em ascensão finalmente excedeu a capacidade
excedentária de petróleo bruto dos Estados Unidos. Naquele
ponto, o apreçamento marginal do petróleo transferiu-se
abruptamente primeiro para uns poucos grandes produtores do Médio
Oriente e depois para forças de mercado mais vastas do que eles, ou
alguém, possam conter.
Para capitalizar sobre o seu recém adquirido poder de determinar
preços, no princípio da década de 1970, muitos
países produtores, especialmente no Médio Oriente, nacionalizaram
suas companhias de petróleo. A plena magnitude do poder de determinar
preços das companhias nacionalizadas tornou-se evidente nos resultados
do embargo petrolífero de 1973. Durante aquele período, os
preços anunciados do bruto em Ras Tanura, Arábia Saudita,
elevaram-se para mais de US$ 11,00 por barril, muito acima dos US$ 1,80 por
barril que vigorara desde 1961 a 1970. A nova alta nos preços do
petróleo que acompanhou a Revolução Iraniana em 1979
finalmente conduziu os preços para US$ 39 por barril em Fevereiro de
1981. Isto traduz-se por US$ 76 por barril aos preços de hoje.
Os preços mais elevados da década de 1970 terminaram abruptamente
o extraordinário crescimento do consumo de petróleo nos EUA e no
mundo e a acrescida intensidade do seu uso, o qual fora a marca distintiva das
décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Desde o
aumento de mais de dez vezes nos preços do bruto entre 1972 e 1981, o
consumo mundial de petróleo por dólar real equivalente ao produto
interno bruto (PIB) global declinou em aproximadamente um terço.
Nos Estados Unidos, entre 1945 e 1973, o consumo de produtos de petróleo
ascendeu à assustadora taxa média anual de 4,5 por cento, bem
acima do crescimento do nosso PIB real. Contudo, entre 1973 e 2006, o consumo
petrolífero americano cresceu, em média, a apenas 0,5 por cento
ao ano, muito abaixo do aumento no PIB real. Em consequência, nos EUA o
rácio entre o consumo de petróleo e o PIB caiu pela metade.
Grande parte da redução no rácio do uso do petróleo
em relação ao PIB real nos Estados Unidos resultou do crescimento
na proporção do PIB composto por serviços, bens de alta
tecnologia e outras indústrias menos intensivas. O restante da
redução deveu-se à melhoria na conservação
da energia: maior isolamento das casas, melhor quilometragem [dos carros] a
gasolina, maquinaria mais eficiente e processos de produção
agilizados. Estas tendências em curso parecem ter-se intensificado
ultimamente com os agudos e recentes aumentos nos preços do
petróleo.
Até à data, é difícil descobrir uma erosão
séria na actividade económica mundial como uma consequência
da acentuada elevação dos preços do petróleo. Na
verdade, acabámos exactamente de experimentar uma das mais fortes
expansões globais desde o fim da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos,
especialmente, até agora foram capazes de absorver o enorme imposto
implícito da ascensão dos preços do petróleo.
Contudo, dados recentes indicam que
podemos finalmente estar a experimentar algum impacto.
Claramente, se o actual quase não existente amortecedor da oferta for
aumentado significativamente através de uma intensificação
na oferta ou de um abrandamento no consumo, os preços do petróleo
cairiam, talvez agudamente. Isto provavelmente ocorreria mesmo se não
houvesse diminuição nas ameaças a
instalações petrolíferas provenientes de ataques ou
furacões. Um amortecedor suficientemente grande poderia absorver tais
contingências com impacto modesto sobre os preços.
Mas, por boas razões, os possuidores de direitos
(claims)
sobre os stocks privados existentes de petróleo aparentemente
não prevêem uma probabilidade de mudança suficiente para
alterar a actual perspectiva. Isto não significa, entretanto, que os
preços do petróleo necessariamente movam-se mais para o alto.
Todas as preocupações acerca de futuras contingências
estão já descontadas nos preços
spot
de hoje. Será preciso uma mudança na perspectiva, de uma forma
ou de outra, para alterar os preços do petróleo bruto. A
história conta-nos o que acontecerá por vezes.
A economia americana foi capaz de absorver o enorme impacto da ascensão
dos preços do petróleo com pouca consequência até
à data porque tornou-se mais flexível ao longo das últimas
três décadas devido à desregulação e à
globalização. O crescimento do proteccionismo minaria esta
flexibilidade e tornaria o nosso país cada vez mais vulnerável
aos caprichos do mercado petrolífero.
Os actuais preços do petróleo ao longo do tempo deveriam rebaixar
em alguma medida nossa inquietante dependência do mesmo. Apesar de tudo,
preços mais elevados do petróleo inevitavelmente moverão
os veículos de transporte para os híbridos
[1]
e, apesar do incómodo, para híbridos de ligar à tomada
(plug-in).
O etanol do milho, embora valioso, pode desempenhar apenas um papel limitado
porque a sua capacidade para deslocar a gasolina é no mínimo
modesta. Mas o etanol celulósico, se cumprisse suas promessas, ajudaria
a desabituar-nos da nossa dependência do petróleo, assim como
poderia ajudar a tecnologia do carvão limpo e a energia nuclear. Com
tais desenvolvimentos, o petróleo nos anos pela frente
permanecerá um elemento importante do nosso futuro energético,
mas não é preciso que continue como o jogador dominante.
[1] Híbridos: Veículos dotados de dois motores, eléctrico
e térmico.
O original encontra-se em
http://foreign.senate.gov/hearings/2006/hrg060607a.html
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Este testemunho encontra-se em
http://resistir.info/
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