Porque o mercado livre engana os consumidores quanto à
inovação energética sustentável
Comecemos com uma hipótese: a humanidade deve rapidamente substituir a
sua dependência de fontes de energia não renováveis por
alternativas verdadeiramente sustentáveis. A sabedoria convencional
pelo menos aquela promovida pelos media corporativos dominantes
é de que os livre mercados constituem a melhor fonte de
inovação. Agora uma questão: será a
inovação do livre mercado o melhor meio de desenvolver
alternativas energéticas viáveis e sustentáveis?
O livre mercado ignorará soluções que não possam
resultar num lucro. Qualquer firma que deixe de seguir este princípio
simples não permanecerá no negócio por muito tempo. O
corolário deste princípio é que o livre mercado
ignorará qualquer solução que não possa ser
controlada, tanto através dos interesses da propriedade (propriedade
intelectual forçosa, licenças de monopólio, etc) como
através da operação centralizada exigida pelas economias
de escala. Isto significa que a inovação do livre mercado
é estruturalmente incompatível com uma enorme
porção do universo de possíveis soluções
energéticas.
Os livre mercados gostam das fontes de energia não renováveis
porque elas são facilmente controladas. Em países onde os
direitos mineiros são de propriedade privada (só os EUA e o
Canadá), estes recursos podem ser controlados via direitos de
propriedade. No resto do mundo, eles podem igualmente ser controlados
facilmente através de contratos exclusivos com governos. Mas a energia
renovável apresenta um sério desafio de controle para a
necessidade de lucro do mercado livre.
Ao ser confrontado com este desafio, o livre mercado tenta adaptar a sua
ferramenta habitual, a propriedade, ao problema. Tome-se por exemplo o etanol
e outros biocombustíveis. Esta tentativa de solução para
os nossos problemas energéticos pode ser controlada tanto através
da propriedade real (da terra que produz as matérias-primas) como da
propriedade intelectual (processos proprietários de
destilação, micróbios patenteados que convertem
substâncias em açúcares, etc). Não importa que os
biocombustíveis proporcionem um suspeitosamente fraco retorno
energético sobre o investimento, ou que eles criem mais problemas
fundamentais como o crescimento em curso da procura de energia, esgotamento dos
solos férteis, ou competição entre alimentos e energia.
Eles podem fazer dinheiro. Será isto o melhor que a
inovação do livre mercado pode proporcionar?
E acerca do solar? O livre mercado está a investir enormes recursos em
inovação neste campo. Entretanto, virtualmente todo ele
está a ser investido na tecnologia proprietária do fotovoltaico.
Por outras palavras, propriedade, a qual pode ser controlada a fim de produzir
um lucro. Não importa que, apesar de o fotovoltaico ser um bom meio de
produzir electricidade, ele seja uma maneira muito deficiente de produzir
energia (ver minha discussão acerca deste ponto). Por que será
que o livre mercado ignora quase totalmente o potencialmente rico espaço
conceptual do desenho solar passivo? Precisamente porque o valor óbvio
nesta área aquele de refinar e aplicar tecnologias locais
não pode ser efectivamente controlado através dos mecanismos
existentes de propriedade intelectual. Se ela não puder ser controlada
para produzir um lucro, então a inovação do livre mercado
é cega quanto ao seu potencial. Pouco imporá que, na minha
opinião, a concepção do solar passivo seja o único
meio mais promissor de atender às nossas futuras necessidades de energia.
E o que dizer da conservação? Não muito atraente, eu sei,
mas certamente uma caminho efectivo para reduzir nossa procura de energia. O
problema, mais uma vez, é que o livre mercado tem dificuldade em lucrar
com isto. Sim, é certo que o livre mercado pode inovar alguma coisa
para vender-lhe que o ajudará a conservar, mas o acto real da
conservação mata lucros. Não estou a falar acerca da
eficiência acrescida da nossa utilização de energia (a
qual, como nos diz a ciência económica clássica, reduz
custos e liberta o consumidor para gastar o dinheiro poupado em consumos
alhures, elevando portanto o padrão de vida total pelo menos
quando medido em função do consumo). Não, refiro-me
à conservação real simplesmente utilizar menos.
Isto é um anátema para a ciência económica do livre
mercado. A ideia de que poderíamos utilizar menor energia no total, e
então investir as poupanças em bens não económicos
tais como tempo de lazer ou
segurança-através-da-auto-suficiência, é altamente
problemática porque ela causa um decréscimo acumulativo no PIB
(tempo de lazer não conta como um produto!). Imaginem:
Aqui está o meu business plan
Não pretendo vender
nada e, quando tudo for dito e feito, as pessoas nos utilizarão menos.
Vamos ficar ricos! É certo que o livre mercado pode proporcionar
o serviço de ajudar as pessoas a conservar, mas isto é um bocado
como um vírus que mata o seu hospedeiro antes que ele se possa
reproduzir
Assim, se a inovação através do livre mercado fracassa
inteiramente nas soluções baseadas na concepção
local, e não pode nem mesmo contemplar soluções com base
na conservação, será ele realmente o auge de uma
inovação energética sustentável? Existe apenas um
resultado garantido ao confiar no livre mercado para resolver nossos problemas
energéticos num mundo em que a produção fóssil
está a atingir o pico: suas soluções jamais nos
libertarão da dependência energética ou da escassez de
energia. O livre mercado nunca produzirá uma solução para
este problema quando os consumidores não dependem de firmas para os
produtos que compram, porque assim deixariam de produzir um lucro.
Analogamente, o livre mercado nunca terá a motivação
económica para tornar a energia mais barata (a longo prazo)
seria, por definição, comportamento económico irracional
produzir energia de forma tão barata que o valor total do mercado
mundial de energia viesse abaixo.
Se procura depender de algum outro para uma energia que está sempre a
ficar mais cara, então o livre mercado deve ser o seu agente de
inovação preferencial. Mas se preferir energia segura e barata,
sugiro que olhe em outra direcção. A conservação e
as soluções com base numa concepção local
são um bom meio para começar
só não espere
encontrar muito apoio para isto, ou ideias para a conservação e
as soluções com base numa concepção local, nas
publicações corporativas. Elas também têm a motivação do
lucro e, se não puderem vender-lhe a visão de outros desejosos
que adquira um produto orientado para o lucro, então a estória
não tem valor.
[*]
Autor de
A theory of power
(descarregamento gratuito, PDF, 198 kB)
O original encontra-se em
http://www.jeffvail.net/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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