Petróleo: do mal holandês à transição
energética
por Alejandro Nadal
Não há nada pior do que uma doença grave. Bem, na verdade
pode haver algo pior: um diagnóstico equivocado. Uma receita errada
pode convertê-la numa doença terminal. Esta é a triste
história do petróleo mexicano a partir de 1975.
Há muitos anos existe uma doença económica que aflige os
países que descobrem dotações importantes de recursos
naturais. Chama-se o "mal holandês" e segue um ciclo bem
conhecido. O descobrimento dos recursos leva a uma apreciação da
taxa de câmbio, o que produz um aumento das importações e
uma queda das exportações. O desequilíbrio na
balança comercial leva por fim a uma forte
des-industrialização. O nome dessa doença vem da
experiência dos Países Baixos após o descobrimentos das
jazidas de gás natural no Mar do Norte
[1]
.
Algo semelhante ocorreu na economia mexicana quando foram descobertas as
jazidas na Sonda de Campeche nos fins do mandato de Echeverria[2]. As coisas
complicaram-se porque, além da tensão quanto à paridade
cambial, surgiram fortes pressões para que o país absorvesse
capitais que procuravam operações rentáveis. O governo
mexicano e alguns grupos industriais viram nisto uma grande oportunidade e o
endividamento aumentou vertiginosamente. A desgraça não se fez
esperar.
Os sintomas de recessão mundial em princípios dos anos 80
provocaram uma queda brutal nos preços do petróleo e um
incremento das taxas de juros internacionais. O México teve o duvidoso
privilégio de inaugurar a crise da dívida a nível mundial
ao declarar-se em suspensão de pagamentos. A partir de 1981-1982, o
petróleo mexicano serviu basicamente para enfrentar os encargos
financeiros deste descalabro. Os governos que se sucederam nunca questionaram
isto (ainda que, no seu delírio, o duo Aspe-Salinas tenha pensado ter
resolvido o problema).
As eternas cúpulas no poder (banqueiros, financeiros, grandes
industriais e empresários que prosperaram e privilegiaram-se com as
privatizações, os líderes corruptos e os políticos
profissionais) não só não reverteram este estado de coisas
como o promoveram. Esta corte dos milagres foi acompanhada por um bando de
funcionários internacionais que fizeram todo o possível para que
o México continuasse a pagar dívidas com petróleo.
À crise de 1982 seguiu-se a de 1987, e tudo isso foi superado em muito
pelo desastre de 1995. Os recursos da Pemex sempre acudiram às
exigências, pagando dívida externa e interna, assim como
"resgates" bancários e de estrada.
Hoje o saqueio já produziu o seu triste resultado e as reservas provadas
de petróleo bruto no México chegam para nove anos e quatro meses.
Sejamos claros: o petróleo já terminou. Mas ao anunciar este
número no aniversário da expropriação
petrolífera o senhor Calderón adverte que é
necessário "levar em frente a Pemex". Aferrados ao modelo
neoliberal e aos projectos privatizadores, o senhor Calderón e seu
séquito não podem entender que a natureza do problema é
completamente diferente.
Hoje em dia a energia primária total que utiliza a economia mexicana
é superior a 10.064 petajoules
[3]
e o petróleo bruto é responsável por 72 por cento desse
montante. Se à sua contribuição de 7.228 petajoules
acrescentarmos o dos condensados e do gás natural, verificamos que 90,8
por cento das fontes de energia primária no nosso país
provêm dos hidrocarbonetos. O resto das fontes de energia
primária divide-se (por ordem de importância) entre hidro-energia,
biomassa, carvão, energia nuclear, geoenergia e eólica. Ou seja,
a dependência da economia mexicana em relação aos
hidrocarbonetos é esmagadora.
Se os dados sobre reservas provadas forem fidedignos (e é preciso dizer
que a falta de transparência neste âmbito não é um
assunto menor), então já enfrentamos uma emergência
nacional de primeira magnitude. Estamos a poucos anos de um colapso
energético que arrastará todo o país a uma hecatombe
económica como nunca antes experimentámos.
O que urge é preparar a transição a uma economia
pós-hidrocarbonetos. Não só para fazer frente à
tarefa urgente de reduzir as emissões de gases estufa
[4]
, como para sobreviver. Essa transição requer um processo de
mudança técnica sistémica na indústria (incluindo o
sector energético), nos transportes e no consumo residencial.
A rigidez à mudança técnicas será um
obstáculo maior, mas não é o único. A nível
macroeconómico o problema é extraordinário: 40 por cento
dos rendimentos fiscais provêm do petróleo. Além disso, o
défice crónico, resultado da torpe abertura comercial aplicada no
México desde há 20 anos, aumentará de maneira
insustentável quando começarmos a importar petróleo bruto
e seus derivados.
Apesar deste lúgubre panorama, o discurso que provem de Los Pinos e da
cúpula no poder não está à altura das
circunstâncias. Está completamente equivocado no seu
diagnóstico e nas suas propostas. O problema não é
só "resgatar a Pemex" e sim enfrentar uma emergência
nacional histórica. O mal holandês parecerá uma simples
gripe comparado com a doença terminal da economia mexicana se não
se começar a actuar já.
21/Março/2007
Notas de resistir.info
[1] Refere-se provavelmente às reservas de Gronigen pois as jazidas do
Mar do Norte são detidas sobretudo pela Noruega e Reino Unido.
[2] 1970-1976
[3] 1 petajoule = 1015
joules; 1 tonelada de petróleo = 42,44 gigajoules.
[4] Ver
Aquecimento global: uma impostura científica
, de Marcel Leroux.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2007/03/21/index.php?section=opinion&article=025a1eco
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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