Pico petrolífero: A geologia vence a tecnologia

por Charles Hall e Nate Gagnon [*]

O recente artigo de primeira página “Inovações petrolíferas dão nova vida aos velhos poços”, de Jad Mouawad (5 de Março, pág. 1) é perigosamente enganoso. O autor quer-nos fazer acreditar que as inovações tecnológicas vão aumentar a proporção de petróleo recuperável dos campos conhecidos de forma suficiente a compensar a escassez de novas descobertas. Dá a falsa sensação de segurança sobre a nossa difícil situação, baseada numa interpretação dos dados bastante selectiva.

Por exemplo, o gráfico usado para suportar o artigo enfraquece a principal tese do autor. Ele mostra que a injecção de vapor não é nova mas tem sido usada no campo Kern River desde 1965 e também que a produção de petróleo neste campo atingiu o pico em 1984 e tem estado em declínio desde cerca de 1997. De facto, a maioria das “inovações petrolíferas” mencionadas no artigo, incluindo a injecção de vapor e de vários gases, são tecnologias antigas, implementadas pela primeira vez nos anos 20. Inovações sempre têm ocorrido na indústria do petróleo. A questão importante é se essas tecnologias estão a aumentar a produção mais rapidamente do que o esgotamento a está a diminuir.

Considerável informação indica que o esgotamento é uma força mais importante na extracção do petróleo do que o desenvolvimento tecnológico. Os aumentos na produção dos campos do Rio Kern e de Duri mencionados no artigo e mesmo dos muito maiores depósitos de areias em Alberta e Orinoco Tar, são pequenos relativamente ao muito maior declínio da produção de muitos dos mais importantes campos de petróleo, incluindo o Mar do Norte, Cantarell no México (recentemente o segundo maior mundial em termos de produção), os maiores campos dos EUA incluindo Prudhoe Bay, East Texas e Yates, Samotlor na Russia, Yibal em Oman, Rabi-Kounga no Gabão, provavelmente Burgan no Kuwait e por aí adiante. Todos estes campos têm sido objecto do tipo de tecnologias mencionadas no artigo de Mouawad, alguns durante várias décadas, e todos excepto talvez Burgan, estão em profundo declínio ou cessaram virtualmente a produção. A melhor tecnologia do mundo para campos de petróleo não impediu a produção dos EUA de estar em declínio de 50 por cento desde o seu pico em 1970. De forma igualmente clara, picos na produção de petróleo ocorreram em produtores tão importantes como a Argentina, China, Egipto, Indonésia (membro fundador da OPEP), México, Noruega e o Reino Unido, mesmo enquanto os preços aumentavam.

Não é ainda claro se tecnologias modernas como a perfuração horizontal irão aumentar o rendimento total ou simplesmente aumentar as taxas de extracção. Além disso, muitas das tecnologias mencionadas no artigo são extremamente caras. Isto verifica-se não só em dólares mas também em energia. A importância do crescente custo da energia tem sido documentada em relatórios e publicada em jornais científicos, que mostram que o retorno energético do investimento (EROEI) para produção doméstica de petróleo dos EUA caiu de mais de 100 Btu [105506 Joule] de retorno por Btu investido nos anos 30 para cerca de 30 Btu [31652 J] nos anos 70 até talvez 15 Btu [15826 J] em 2000. As nossas pesquisas indicam um declínio semelhante para o petróleo mundial.

Produzir vapor e bombeá-lo para dentro do solo ou mover gases das suas fontes para campos de petróleo dispersos, requer enormes investimentos de energia. Assim, enquanto o aumento dos preços pode ainda tornar economicamente viáveis recursos de baixa qualidade, isto também significa normalmente que mais energia está a ser dispendida relativamente ao retorno da produção.

Poderemos eventualmente atingir o ponto de equilíbrio (break even) energético.

Assim, dificilmente valerá a pena explorar muito do petróleo que é citado como reserva “provável” ou “contingente”, independentemente do preço. Os comentários desdenhosos do artigo sobre o pico do petróleo e os que o advogam demonstram falta de informação e ignoram a importância da mensagem que vem de uma comunidade crescente e sofisticada que inclui muitas centenas de geólogos, outros cientistas, ambientalistas, financeiros e cidadãos que observam a séria situação do petróleo que se nos afigura e, especialmente nos EUA, também do gás natural. Quer o pico do petróleo (ou, como tem sido sugerido “planalto ondulante”) já tenha ocorrido, esteja a actualmente em curso ou não venha a verificar-se nos próximos anos ou possivelmente décadas faz pouca diferença da perspectiva do tempo de vida das nossas crianças. Esconder as cabeças na areia e pôr a nossa fé no desenvolvimento tecnológico que até agora tem sido incapaz de compensar o declínio, parece-nos ser uma muito má ideia.

23/Mar/2007

[*] Professor na Fundação das Ciências do Ambiente e da Floresta, na Universidade do Estado de Nova York. A sua pesquisa foca-se nas questões do retorno energético do investimento e da contribuição da energia para o crescimento económico. O presente texto é uma carta não publicada pelo New York Times, em co-autoria com o estudante de pós-graduação Nate Gagnon.

O original encontra-se em
sandersresearch.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1163&Itemid=105 .
Tradução de ACN.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
08/Mai/07